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Sínodo 2015: Noção de continuidade ajudou a superar tensões, diz perito português

Padre Duarte da Cunha acompanhou trabalhos que ajudaram a reforçar papel da família na Igreja

Cidade do Vaticano, 27 out 2015 (Ecclesia) – O padre Duarte da Cunha, que acompanhou os trabalhos do Sínodo 2015 como perito nomeado pelo Papa, considera que as três semanas de debate sobre a família realçaram a “continuidade” da doutrina católica, superando tensões.

Foto: Ricardo Perna
Foto: Ricardo Perna

Em entrevista à Agência ECCLESIA e ‘Família Cristã’, o secretário do Conselho das Conferências Episcopais Europeias (CCEE) fala em dois anos de “muita reflexão”, desde que o Papa decidiu convocar os bispos de todo o mundo para debater a família, admitindo que “a certa altura houve uma tensão entre o que é novo e é antigo”.

“Todo o processo foi a compreensão desta continuidade, quer desde o Evangelho até agora, do Concílio Vaticano, da Humanae Vitae, da Familiaris Consortio. O que há de aprofundamento e de desenvolvimento, até relativamente aos conceitos e de mudança da realidade sociológica, não está em contradição com aquilo que é a continuidade”, precisa o especialista.

O sacerdote português refere que no ensinamento dos últimos Papas, “com as diferenças necessárias”, houve “uma continuidade, quer do amor à família, quer da verdade da família, de conceitos da teologia moral que são sempre válidos, mas que não podem ser sempre ditos da mesma maneira”.

Nos trabalhos da 14ª assembleia geral ordinária do Sínodo, este responsável encontrou participantes com um conhecimento concreto da doutrina, como no caso do planeamento familiar natural, contrariando a crítica de estarem apegados a conceitos mas longe da realidade.

“Depois há os outros mais aplicados à realidade, mais sensíveis aos problemas e que às vezes aparentemente descuram mais a doutrina. Isto também não é verdade”, prosseguiu.

No final do Sínodo, o relatório entregue ao Papa foi aprovado por unanimidade, símbolo da unidade e do “bom ambiente” com que decorreram os trabalhos.

O sacerdote português observa que a assembleia sinodal que se concluiu no domingo “exige que a pastoral, a moral, não sejam desligadas da reflexão teológica, doutrinal, sociológica do que é a realidade da família”.

“Isso foi algo que ao longo do processo dos dois anos às vezes parecia que estava em tensão, daí a insistência: não são duas coisas distintas, coisas separáveis”, relata.

Para o secretário do CCEE, é necessário compreender que “a moral é sempre consequência do ser” e que, no caso das famílias, as normas se referem à forma como “cada pessoa dentro desta realidade tem relações e dentro dessas relações qual é o comportamento”.

“A moral só se compreende, não porque se olha para a regras que são importantes, mas porque olhando para as relações reais, se percebe qual é o ideal, o que se deve fazer, o que Deus recomenda. Depois também se percebe que há coisas que são objetivamente más, não se podem fazer”, explica.

Dos pontos conclusivos, o padre Duarte da Cunha realça a preocupação com a formação de “comunidades de famílias” que sejam também o lugar onde se prepara para o casamento, “que os noivos sejam preparados para o casamento integrando uma equipa de casais da paróquia ou da associação”.

Outro aspeto que não era “tão evidente” está relacionado com o “dinamismo da família” como sujeito da pastoral do setor.

“Também há uma mudança da perspetiva da família, não só como tema moral mas também como dinâmica de amor, de misericórdia”, conclui.

Fonte Agência Ecclesia 

Adaptação Portal Terra de Santa Cruz

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Sínodo dos bispos abre portas para integrar divorciados recasados.

Os 270 “padres sinodais”, entre bispos e cardeais, que representam os bispos de todo o mundo, aprovaram a suspensão de várias proibições.

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O Sínodo de Bispos sobre a Família votou com ampla maioria um documento final de 94 parágrafos, que propõe “a integração” na Igreja dos divorciados que voltarem a se casar, após a análise de “caso a caso”. O texto foi entregue ao papa Francisco, que o divulgou ao público imediatamente.

Os 270 “padres sinodais”, entre bispos e cardeais, que representam os bispos de todo o mundo, aprovaram a suspensão de várias proibições aos divorciados que se casarem novamente, entre elas a de serem padrinhos de batismo e de casamento.

Os padres sinodais insistem, contudo, em que é necessário um “discernimento”, um exame “caso a caso”, para autorizar o acesso aos sacramentos, como a comunhão e a confissão.

Com isso, os bispos fizeram algum movimento no sentido de uma Igreja mais acolhedora com os casais que vivem juntos e com os católicos em situação irregular, ecoando o pedido do papa argentino a favor de uma instituição que pare de julgar e de condenar.

Três parágrafos tiveram um consenso menor – sobretudo, os de número 85 e 86, dedicados a temas bastante sensíveis para a Igreja Católica. Superando a maioria mínima necessária de dois terços (177), os parágrafos 85 e 86 estão entre os menos votados, com 178 votos a favor e 80 contra.

Nesses parágrafos, os bispos sinodais propõem que “os batizados que tiverem se divorciado e voltado a se casar civilmente sejam reintegrados à comunidade cristã, na medida do possível, evitando gerar escândalo”. O texto não especifica se poderão realizar a comunhão.

“Os divorciados que voltarem a se casar não devem se sentir excomungados e podem viver e envelhecer como membros vivos da Igreja, sentindo-a como uma mãe que acolhe sempre”, acrescenta o texto.   O porta-voz do Vaticano, padre Federico Lombardi, lembrou que se trata de propostas dirigidas ao papa, que decidirá se será necessário elaborar um documento papal sobre a família.

“Não se pode negar que, em algumas circunstâncias, a responsabilidade (da crise do casal) pode ser menor, ou anulada (…) As consequências de alguns atos não podem recair sobre todos por igual”, defendem os prelados, ao se referirem aos divorciados.

No encerramento do sínodo, o papa Francisco elogiou a liberdade de expressão que reinou ao longo das três semanas de trabalho e criticou abertamente “os métodos não de todo benévolos” empregados pelos setores conservadores contra suas propostas de reforma.

Decepção para alguns.

O espinhoso tema da homossexualidade foi abordado em apenas um parágrafo, no qual se reitera que a Igreja “respeita” os homossexuais, condena qualquer “discriminação injusta” e se opõe ao casamento entre pessoas do mesmo sexo.

O restante desse parágrafo recomenda a Igreja a “acompanhar as famílias com um membro homossexual”.

Para muitos dos presentes, tratar do tema da homossexualidade em uma reunião dedicada à família significou uma anomalia, enquanto para outros prelados, sobretudo africanos, o assunto continua sendo tabu.

“O que parece normal para um bispo de um continente pode ser estranho, quase um escândalo, para outro de outro continente”, reconheceu o sumo pontífice.

Francisco decidiu convocar dois sínodos sucessivos sobre a família – um, em outubro de 2014, e o outro, em outubro de 2015 – para levar a Igreja a se atualizar frente às mudanças na sociedade moderna.

Na sexta-feira, em uma missa, o papa disse querer estimular a Igreja a “avaliar os tempos e a mudar com eles, permanecendo firme no Evangelho”.

Sobre outro ponto importante, no Sínodo, os bispos reiteraram que a instituição aplicará “tolerância zero” em relação à pedofilia, comprometendo-se a colaborar “de forma estreita” com a Justiça.

Fonte: Aleteia

Adaptação: Portal Terra de Santa Cruz

 

Uma criança comove o sínodo: o menino que dividiu a hóstia com seu pai, que é divorciado recasado

Relato feito por um bispo evoca o sofrimento dos católicos em situações irregulares que os impedem de receber sacramentos

Criança rezando
Manoj Damodaran-CC
 O papa Francisco e os 270 padres sinodais ouviram com emoção, na Sala do Sínodo, a história relatada por um bispo que celebrou uma missa de primeira comunhão numa paróquia: um menino foi até o altar para receber na mão a hóstia consagrada e, por iniciativa própria, partiu-a em duas partes, dando a metade ao pai que o acompanhava, mas que, sendo divorciado e tendo se casado pela segunda vez, não podia receber a comunhão. O episódio evoca o sofrimento dos católicos em situações irregulares que os impedem de receber sacramentos e mostra que os “filhos do divórcio”, percentual considerável das crianças de hoje, não aceitam a exclusão dos seus pais desta dimensão central da vida cristã.

De fato, muitas dessas crianças não continuam o seu caminho de fé na Igreja precisamente porque veem como uma injustiça a exclusão do pai ou da mãe divorciado e recasado. Este é um dos desafios que o sínodo sobre a família está enfrentando. Alguns padres sinodais, como destacou o porta-voz do sínodo para o idioma alemão, Bernard Hagenkord, tomaram partido “em defesa da doutrina católica atual, reiterando o ensinamento da Igreja sobre o casamento e argumentando que ninguém tem a autoridade de ‘mudar a Palavra de Deus’. Muitos outros, no entanto, disseram que, ao seguir o caminho de Jesus, a Igreja não pode excluir ninguém permanentemente dos sacramentos. Esta posição contou com representação mais numerosa na sala do sínodo: os seus promotores não dominam a discussão, mas são notáveis”. O porta-voz para a língua alemã definiu o debate em andamento como “construtivo e de alta qualidade”.

Entre as possíveis soluções, foi proposto que a admissão de divorciados recasados ​​aos sacramentos seja decidida “caso a caso”.

“Estou impressionado com a riqueza das propostas práticas em termos de ajuda aos casais e de preparação para o matrimônio”, declarou o diretor da Sala de Imprensa da Santa Sé, padre Federico Lombardi.

Fonte: Aleteia

Adaptação: Portal Terra de Santa Cruz

Entrevista exclusiva a Dom Odilo sobre o Sínodo

Desde o início do Sínodo sobre a família, o Arcebispo de São Paulo, Cardeal Odilo Scherer apresenta, por meio da Rádio Vaticano, os trabalhos que são realizados no âmbito da 14ª Assembleia geral ordinária do Sínodo, sobre o tema: “a vocação e a missão da família na Igreja e na sociedade contemporânea”. A uma semana da conclusão do Sínodo, a emissora do Papa dirigiu a Dom Odilo algumas perguntas sobre algumas questões abordadas durante as Congregações gerais e os Círculos Menores.

RV – Por que realizar um Sínodo para tratar de um tema tão vasto e de difícil convergência como é a família? Não seria mais fácil uma posição do Papa a respeito em uma Carta Apostólica ou uma Encíclica?

Dom Odilo Scherer – A palavra do Papa sobre esse tema virá, a seu tempo. Mas o próprio Papa, antes de se manifestar, quis ouvir novamente a Igreja, convocando o Sínodo dos Bispos a se reunir em duas assembleias gerais, em 2014 e 2015. O Sínodo tem a finalidade de envolver a Igreja inteira na busca das respostas aos questionamentos feitos sobre o casamento e a família na Igreja e na sociedade contemporânea.

RV – A imprensa destaca muito as diferenças existentes dentro do Sínodo no que diz respeito à comunhão aos recasados. Padres sinodais que falam da possibilidade de dar a comunhão e outros que não pensam nisso. Existe realmente esta diferença, e como se poderá contornar as posições?

DO – Existem certamente diferenças na maneira de ver a questão e isso não deve admirar; afinal, os participantes são cerca de 300 e vêm de diferentes ambientes eclesiais, culturais, sociais e religiosos. A diferença no modo de pensar não é necessariamente um problema, mas pode ser uma riqueza; ela ajuda a perceber melhor os vários aspectos da questão. E o Sínodo não deve necessariamente “contornar” as diferentes visões, mas fazer o discernimento sobre a verdade e a vontade de Deus, que se busca através da reflexão de todos os participantes. De todo modo, o Sínodo é consultivo e não decisório.

RV – A famosa carta dos 13 Cardeais que foi entregue ao Papa. O que tem de verdade nisso, e como ecoou o conteúdo da carta dentro do Sínodo?

DO – Não cheguei a ver a mencionada carta; certamente, se alguns cardeais escreveram ao Papa, eles exerceram um seu direito e não se deve ver nisso algo de estranho. Todos podem escrever ao Papa, se desejarem. De fato, porém, a citada carta não teve especial repercussão no contexto do Sínodo; ali, como previsto, foi facultada a palavra a todos os participantes, que puderam se manifestar livremente.

RV – Certos meios de comunicação descrevem que os debates sinodais são marcados por conflitos e venenos. Como responder a isso?

DO – Sinceramente, não vi conflitos nem venenos nas reflexões. O clima geral foi e continua sendo de fraternidade, respeito e serenidade. As posições diferentes não devem ser interpretadas como conflitos, mas como contribuições diversas na busca do “caminho comum”, que é próprio do Sínodo. Há muito interesse e desejo de contribuir para a reflexão.

RV – O tema dos casais homossexuais já foi tocado no Sínodo? Que reflexão se faz sobre esse tema. Existe uma abertura da Igreja neste sentido? O que devem esperar esses casais do Sínodo?

DO – A reflexão sobre as pessoas do mesmo sexo, que convivem em uniões como se fossem casamentos, apareceu especialmente na 3ª parte do Instrumento de Trabalho e das reflexões do Sínodo. A posição da Igreja sobre essas uniões é clara: não há a possibilidade de equipará-las ao casamento de pessoas de sexos diferentes. O que se busca é a forma mais adequada de acompanhar pastoralmente essas pessoas, para que também elas acolham o Evangelho e alcancem a misericórdia e a salvação de Deus.

RV – Certamente devido à presença de 270 padres sinodais dos 5 continentes há acentos diferentes sobre alguns temas, como também é obvio que a Doutrina não será tocada. Mas o que pode mudar concretamente sobre o tema da família?

DO – Nas reflexões do Sínodo, aparecem diversas perspectivas sobre a família na Igreja e na sociedade contemporânea: penso numa renovada valorização do casamento e da família; num renovado interesse da pastoral da Igreja em relação à família, especialmente em relação aos jovens e nubentes; numa pastoral voltada especialmente para as situações de dor e sofrimento vividas por numerosas famílias; penso numa espécie de “aliança” entre Igreja e família, onde esta participe muito mais na evangelização. Penso também que a família deverá ser mais valorizada como um sujeito social, econômico e político na sociedade. E penso que haverá uma valorização especial dos elementos bons já existentes nas famílias incompletas e irregulares.

RV – Comenta-se a presumível contraposição entre os padres sinodais sobre Verdade e Misericórdia. Como podemos entender isso no âmbito do debate sobre a família.

DO – Não penso que essa contraposição existirá; misericórdia e verdade não podem ser contrapostas. Mas é verdade que há quem fique mais atento à verdade e quem fique mais atento à misericórdia. Essa tensão existirá sempre e será necessário trabalha-la com sabedoria evangélica. A verdade do Evangelho sobre o casamento e a família nunca poderá ser omitida ou desprezada; o Evangelho é um chamado à conversão para todos. Mas nas situações concretas, o Evangelho da misericórdia de Deus precisa ser apresentado às pessoas, inclusive porque todos dependem dela, mais do que das próprias capacidades e virtudes.

RV – Este Sínodo está procurando entender como a primazia da misericórdia possa ser aplicada em todas as formas de vida pastoral em relação à família, principalmente em relação às famílias feridas. De que Misericórdia falamos?

DO – Falamos sempre da misericórdia de Deus, que também deve orientar o nosso agir. Pensemos nas muitas famílias que sofrem por doenças, luto, pobreza, violência, desprezo, preconceitos, ou por algum problema particular ligado à droga, aos vícios, às deficiências humanas… Todas precisam, além da justiça e da solidariedade, também da atenção misericordiosa. E também há nas famílias as situações na vida que precisam ser assumidas como tais, sem haver uma solução satisfatória: nessas situações, mais do que tudo, é preciso confiar na misericórdia de Deus e contar com o coração misericordioso dos outros e da própria Igreja.

RV – O que se espera de concreto com o Documento Final? Ou devemos esperar uma Exortação Pós-Sinodal do Santo Padre?

DO – O trabalho é feito em vista de um “documento sinodal”, a ser votado como de costume. Mas será um documento condizente com a própria natureza do Sínodo, que não é um organismo decisório, mas consultivo. Em outras palavras, o texto final apresentará o resultado do trabalho feito, mas não será a palavra final sobre a questão. Como é normal, espera-se a palavra do Papa sobre o tema, após o Sínodo.

Por Rádio Vaticano 

Adaptação: Portal Terra de Santa Cruz