Arquivo da categoria: Sínodo dos Bispos 2015

Sínodo 2015: Noção de continuidade ajudou a superar tensões, diz perito português

Padre Duarte da Cunha acompanhou trabalhos que ajudaram a reforçar papel da família na Igreja

Cidade do Vaticano, 27 out 2015 (Ecclesia) – O padre Duarte da Cunha, que acompanhou os trabalhos do Sínodo 2015 como perito nomeado pelo Papa, considera que as três semanas de debate sobre a família realçaram a “continuidade” da doutrina católica, superando tensões.

Foto: Ricardo Perna
Foto: Ricardo Perna

Em entrevista à Agência ECCLESIA e ‘Família Cristã’, o secretário do Conselho das Conferências Episcopais Europeias (CCEE) fala em dois anos de “muita reflexão”, desde que o Papa decidiu convocar os bispos de todo o mundo para debater a família, admitindo que “a certa altura houve uma tensão entre o que é novo e é antigo”.

“Todo o processo foi a compreensão desta continuidade, quer desde o Evangelho até agora, do Concílio Vaticano, da Humanae Vitae, da Familiaris Consortio. O que há de aprofundamento e de desenvolvimento, até relativamente aos conceitos e de mudança da realidade sociológica, não está em contradição com aquilo que é a continuidade”, precisa o especialista.

O sacerdote português refere que no ensinamento dos últimos Papas, “com as diferenças necessárias”, houve “uma continuidade, quer do amor à família, quer da verdade da família, de conceitos da teologia moral que são sempre válidos, mas que não podem ser sempre ditos da mesma maneira”.

Nos trabalhos da 14ª assembleia geral ordinária do Sínodo, este responsável encontrou participantes com um conhecimento concreto da doutrina, como no caso do planeamento familiar natural, contrariando a crítica de estarem apegados a conceitos mas longe da realidade.

“Depois há os outros mais aplicados à realidade, mais sensíveis aos problemas e que às vezes aparentemente descuram mais a doutrina. Isto também não é verdade”, prosseguiu.

No final do Sínodo, o relatório entregue ao Papa foi aprovado por unanimidade, símbolo da unidade e do “bom ambiente” com que decorreram os trabalhos.

O sacerdote português observa que a assembleia sinodal que se concluiu no domingo “exige que a pastoral, a moral, não sejam desligadas da reflexão teológica, doutrinal, sociológica do que é a realidade da família”.

“Isso foi algo que ao longo do processo dos dois anos às vezes parecia que estava em tensão, daí a insistência: não são duas coisas distintas, coisas separáveis”, relata.

Para o secretário do CCEE, é necessário compreender que “a moral é sempre consequência do ser” e que, no caso das famílias, as normas se referem à forma como “cada pessoa dentro desta realidade tem relações e dentro dessas relações qual é o comportamento”.

“A moral só se compreende, não porque se olha para a regras que são importantes, mas porque olhando para as relações reais, se percebe qual é o ideal, o que se deve fazer, o que Deus recomenda. Depois também se percebe que há coisas que são objetivamente más, não se podem fazer”, explica.

Dos pontos conclusivos, o padre Duarte da Cunha realça a preocupação com a formação de “comunidades de famílias” que sejam também o lugar onde se prepara para o casamento, “que os noivos sejam preparados para o casamento integrando uma equipa de casais da paróquia ou da associação”.

Outro aspeto que não era “tão evidente” está relacionado com o “dinamismo da família” como sujeito da pastoral do setor.

“Também há uma mudança da perspetiva da família, não só como tema moral mas também como dinâmica de amor, de misericórdia”, conclui.

Fonte Agência Ecclesia 

Adaptação Portal Terra de Santa Cruz

Sínodo dos bispos abre portas para integrar divorciados recasados.

Os 270 “padres sinodais”, entre bispos e cardeais, que representam os bispos de todo o mundo, aprovaram a suspensão de várias proibições.

VATICAN-POPE-AUDIENCE

O Sínodo de Bispos sobre a Família votou com ampla maioria um documento final de 94 parágrafos, que propõe “a integração” na Igreja dos divorciados que voltarem a se casar, após a análise de “caso a caso”. O texto foi entregue ao papa Francisco, que o divulgou ao público imediatamente.

Os 270 “padres sinodais”, entre bispos e cardeais, que representam os bispos de todo o mundo, aprovaram a suspensão de várias proibições aos divorciados que se casarem novamente, entre elas a de serem padrinhos de batismo e de casamento.

Os padres sinodais insistem, contudo, em que é necessário um “discernimento”, um exame “caso a caso”, para autorizar o acesso aos sacramentos, como a comunhão e a confissão.

Com isso, os bispos fizeram algum movimento no sentido de uma Igreja mais acolhedora com os casais que vivem juntos e com os católicos em situação irregular, ecoando o pedido do papa argentino a favor de uma instituição que pare de julgar e de condenar.

Três parágrafos tiveram um consenso menor – sobretudo, os de número 85 e 86, dedicados a temas bastante sensíveis para a Igreja Católica. Superando a maioria mínima necessária de dois terços (177), os parágrafos 85 e 86 estão entre os menos votados, com 178 votos a favor e 80 contra.

Nesses parágrafos, os bispos sinodais propõem que “os batizados que tiverem se divorciado e voltado a se casar civilmente sejam reintegrados à comunidade cristã, na medida do possível, evitando gerar escândalo”. O texto não especifica se poderão realizar a comunhão.

“Os divorciados que voltarem a se casar não devem se sentir excomungados e podem viver e envelhecer como membros vivos da Igreja, sentindo-a como uma mãe que acolhe sempre”, acrescenta o texto.   O porta-voz do Vaticano, padre Federico Lombardi, lembrou que se trata de propostas dirigidas ao papa, que decidirá se será necessário elaborar um documento papal sobre a família.

“Não se pode negar que, em algumas circunstâncias, a responsabilidade (da crise do casal) pode ser menor, ou anulada (…) As consequências de alguns atos não podem recair sobre todos por igual”, defendem os prelados, ao se referirem aos divorciados.

No encerramento do sínodo, o papa Francisco elogiou a liberdade de expressão que reinou ao longo das três semanas de trabalho e criticou abertamente “os métodos não de todo benévolos” empregados pelos setores conservadores contra suas propostas de reforma.

Decepção para alguns.

O espinhoso tema da homossexualidade foi abordado em apenas um parágrafo, no qual se reitera que a Igreja “respeita” os homossexuais, condena qualquer “discriminação injusta” e se opõe ao casamento entre pessoas do mesmo sexo.

O restante desse parágrafo recomenda a Igreja a “acompanhar as famílias com um membro homossexual”.

Para muitos dos presentes, tratar do tema da homossexualidade em uma reunião dedicada à família significou uma anomalia, enquanto para outros prelados, sobretudo africanos, o assunto continua sendo tabu.

“O que parece normal para um bispo de um continente pode ser estranho, quase um escândalo, para outro de outro continente”, reconheceu o sumo pontífice.

Francisco decidiu convocar dois sínodos sucessivos sobre a família – um, em outubro de 2014, e o outro, em outubro de 2015 – para levar a Igreja a se atualizar frente às mudanças na sociedade moderna.

Na sexta-feira, em uma missa, o papa disse querer estimular a Igreja a “avaliar os tempos e a mudar com eles, permanecendo firme no Evangelho”.

Sobre outro ponto importante, no Sínodo, os bispos reiteraram que a instituição aplicará “tolerância zero” em relação à pedofilia, comprometendo-se a colaborar “de forma estreita” com a Justiça.

Fonte: Aleteia

Adaptação: Portal Terra de Santa Cruz

 

Uma criança comove o sínodo: o menino que dividiu a hóstia com seu pai, que é divorciado recasado

Relato feito por um bispo evoca o sofrimento dos católicos em situações irregulares que os impedem de receber sacramentos

Criança rezando
Manoj Damodaran-CC
 O papa Francisco e os 270 padres sinodais ouviram com emoção, na Sala do Sínodo, a história relatada por um bispo que celebrou uma missa de primeira comunhão numa paróquia: um menino foi até o altar para receber na mão a hóstia consagrada e, por iniciativa própria, partiu-a em duas partes, dando a metade ao pai que o acompanhava, mas que, sendo divorciado e tendo se casado pela segunda vez, não podia receber a comunhão. O episódio evoca o sofrimento dos católicos em situações irregulares que os impedem de receber sacramentos e mostra que os “filhos do divórcio”, percentual considerável das crianças de hoje, não aceitam a exclusão dos seus pais desta dimensão central da vida cristã.

De fato, muitas dessas crianças não continuam o seu caminho de fé na Igreja precisamente porque veem como uma injustiça a exclusão do pai ou da mãe divorciado e recasado. Este é um dos desafios que o sínodo sobre a família está enfrentando. Alguns padres sinodais, como destacou o porta-voz do sínodo para o idioma alemão, Bernard Hagenkord, tomaram partido “em defesa da doutrina católica atual, reiterando o ensinamento da Igreja sobre o casamento e argumentando que ninguém tem a autoridade de ‘mudar a Palavra de Deus’. Muitos outros, no entanto, disseram que, ao seguir o caminho de Jesus, a Igreja não pode excluir ninguém permanentemente dos sacramentos. Esta posição contou com representação mais numerosa na sala do sínodo: os seus promotores não dominam a discussão, mas são notáveis”. O porta-voz para a língua alemã definiu o debate em andamento como “construtivo e de alta qualidade”.

Entre as possíveis soluções, foi proposto que a admissão de divorciados recasados ​​aos sacramentos seja decidida “caso a caso”.

“Estou impressionado com a riqueza das propostas práticas em termos de ajuda aos casais e de preparação para o matrimônio”, declarou o diretor da Sala de Imprensa da Santa Sé, padre Federico Lombardi.

Fonte: Aleteia

Adaptação: Portal Terra de Santa Cruz

Entrevista exclusiva a Dom Odilo sobre o Sínodo

Desde o início do Sínodo sobre a família, o Arcebispo de São Paulo, Cardeal Odilo Scherer apresenta, por meio da Rádio Vaticano, os trabalhos que são realizados no âmbito da 14ª Assembleia geral ordinária do Sínodo, sobre o tema: “a vocação e a missão da família na Igreja e na sociedade contemporânea”. A uma semana da conclusão do Sínodo, a emissora do Papa dirigiu a Dom Odilo algumas perguntas sobre algumas questões abordadas durante as Congregações gerais e os Círculos Menores.

RV – Por que realizar um Sínodo para tratar de um tema tão vasto e de difícil convergência como é a família? Não seria mais fácil uma posição do Papa a respeito em uma Carta Apostólica ou uma Encíclica?

Dom Odilo Scherer – A palavra do Papa sobre esse tema virá, a seu tempo. Mas o próprio Papa, antes de se manifestar, quis ouvir novamente a Igreja, convocando o Sínodo dos Bispos a se reunir em duas assembleias gerais, em 2014 e 2015. O Sínodo tem a finalidade de envolver a Igreja inteira na busca das respostas aos questionamentos feitos sobre o casamento e a família na Igreja e na sociedade contemporânea.

RV – A imprensa destaca muito as diferenças existentes dentro do Sínodo no que diz respeito à comunhão aos recasados. Padres sinodais que falam da possibilidade de dar a comunhão e outros que não pensam nisso. Existe realmente esta diferença, e como se poderá contornar as posições?

DO – Existem certamente diferenças na maneira de ver a questão e isso não deve admirar; afinal, os participantes são cerca de 300 e vêm de diferentes ambientes eclesiais, culturais, sociais e religiosos. A diferença no modo de pensar não é necessariamente um problema, mas pode ser uma riqueza; ela ajuda a perceber melhor os vários aspectos da questão. E o Sínodo não deve necessariamente “contornar” as diferentes visões, mas fazer o discernimento sobre a verdade e a vontade de Deus, que se busca através da reflexão de todos os participantes. De todo modo, o Sínodo é consultivo e não decisório.

RV – A famosa carta dos 13 Cardeais que foi entregue ao Papa. O que tem de verdade nisso, e como ecoou o conteúdo da carta dentro do Sínodo?

DO – Não cheguei a ver a mencionada carta; certamente, se alguns cardeais escreveram ao Papa, eles exerceram um seu direito e não se deve ver nisso algo de estranho. Todos podem escrever ao Papa, se desejarem. De fato, porém, a citada carta não teve especial repercussão no contexto do Sínodo; ali, como previsto, foi facultada a palavra a todos os participantes, que puderam se manifestar livremente.

RV – Certos meios de comunicação descrevem que os debates sinodais são marcados por conflitos e venenos. Como responder a isso?

DO – Sinceramente, não vi conflitos nem venenos nas reflexões. O clima geral foi e continua sendo de fraternidade, respeito e serenidade. As posições diferentes não devem ser interpretadas como conflitos, mas como contribuições diversas na busca do “caminho comum”, que é próprio do Sínodo. Há muito interesse e desejo de contribuir para a reflexão.

RV – O tema dos casais homossexuais já foi tocado no Sínodo? Que reflexão se faz sobre esse tema. Existe uma abertura da Igreja neste sentido? O que devem esperar esses casais do Sínodo?

DO – A reflexão sobre as pessoas do mesmo sexo, que convivem em uniões como se fossem casamentos, apareceu especialmente na 3ª parte do Instrumento de Trabalho e das reflexões do Sínodo. A posição da Igreja sobre essas uniões é clara: não há a possibilidade de equipará-las ao casamento de pessoas de sexos diferentes. O que se busca é a forma mais adequada de acompanhar pastoralmente essas pessoas, para que também elas acolham o Evangelho e alcancem a misericórdia e a salvação de Deus.

RV – Certamente devido à presença de 270 padres sinodais dos 5 continentes há acentos diferentes sobre alguns temas, como também é obvio que a Doutrina não será tocada. Mas o que pode mudar concretamente sobre o tema da família?

DO – Nas reflexões do Sínodo, aparecem diversas perspectivas sobre a família na Igreja e na sociedade contemporânea: penso numa renovada valorização do casamento e da família; num renovado interesse da pastoral da Igreja em relação à família, especialmente em relação aos jovens e nubentes; numa pastoral voltada especialmente para as situações de dor e sofrimento vividas por numerosas famílias; penso numa espécie de “aliança” entre Igreja e família, onde esta participe muito mais na evangelização. Penso também que a família deverá ser mais valorizada como um sujeito social, econômico e político na sociedade. E penso que haverá uma valorização especial dos elementos bons já existentes nas famílias incompletas e irregulares.

RV – Comenta-se a presumível contraposição entre os padres sinodais sobre Verdade e Misericórdia. Como podemos entender isso no âmbito do debate sobre a família.

DO – Não penso que essa contraposição existirá; misericórdia e verdade não podem ser contrapostas. Mas é verdade que há quem fique mais atento à verdade e quem fique mais atento à misericórdia. Essa tensão existirá sempre e será necessário trabalha-la com sabedoria evangélica. A verdade do Evangelho sobre o casamento e a família nunca poderá ser omitida ou desprezada; o Evangelho é um chamado à conversão para todos. Mas nas situações concretas, o Evangelho da misericórdia de Deus precisa ser apresentado às pessoas, inclusive porque todos dependem dela, mais do que das próprias capacidades e virtudes.

RV – Este Sínodo está procurando entender como a primazia da misericórdia possa ser aplicada em todas as formas de vida pastoral em relação à família, principalmente em relação às famílias feridas. De que Misericórdia falamos?

DO – Falamos sempre da misericórdia de Deus, que também deve orientar o nosso agir. Pensemos nas muitas famílias que sofrem por doenças, luto, pobreza, violência, desprezo, preconceitos, ou por algum problema particular ligado à droga, aos vícios, às deficiências humanas… Todas precisam, além da justiça e da solidariedade, também da atenção misericordiosa. E também há nas famílias as situações na vida que precisam ser assumidas como tais, sem haver uma solução satisfatória: nessas situações, mais do que tudo, é preciso confiar na misericórdia de Deus e contar com o coração misericordioso dos outros e da própria Igreja.

RV – O que se espera de concreto com o Documento Final? Ou devemos esperar uma Exortação Pós-Sinodal do Santo Padre?

DO – O trabalho é feito em vista de um “documento sinodal”, a ser votado como de costume. Mas será um documento condizente com a própria natureza do Sínodo, que não é um organismo decisório, mas consultivo. Em outras palavras, o texto final apresentará o resultado do trabalho feito, mas não será a palavra final sobre a questão. Como é normal, espera-se a palavra do Papa sobre o tema, após o Sínodo.

Por Rádio Vaticano 

Adaptação: Portal Terra de Santa Cruz

Família e caminho rumo à sua plenitude – Sínodo da Família 2015, 3ªparte.

 O mistério criatural do matrimônio

 Nesta mesma perspetiva, fazendo nosso o ensinamento do Apóstolo segundo o qual a criação inteira foi pensada em Cristo e para Cristo (cf. Cl 1, 16), o Concílio Vaticano II quis manifestar apreço pelo matrimônio natural e pelos elementos válidos, presentes nas outras religiões (cf. NA, 2) e nas culturas, não obstante os limites e as insuficiências (cf. RM, 55). A presença dos semina Verbi nas culturas (cf. AG, 11) poderia ser aplicada, sob alguns aspectos, também à realidade matrimonial e familiar de tantas culturas e de pessoas não cristãs. Portanto, existem elementos válidos também em determinadas formas fora do matrimônio cristão – contudo, fundado sobre a relação estável e verdadeira entre um homem e uma mulher – que, de qualquer maneira, consideramos para ele orientadas. Com o olhar voltado para a sabedoria humana dos povos e das culturas, a Igreja reconhece também esta família como célula básica necessária e fecunda da convivência humana.

A Igreja está consciente do alto perfil do mistério criatural do matrimônio entre um homem e uma mulher. Por conseguinte, deseja valorizar a original graça criatural que abrange a experiência de uma aliança conjugal sinceramente intencionada a corresponder a esta vocação originária e a pôr em prática a sua justiça. A seriedade da adesão a este projeto e a coragem que ela exige deixam-se apreciar de maneira particular precisamente hoje, no momento em que o valor desta inspiração, que se refere a todos os vínculos construídos pela família, é posto em dúvida ou até censurado e removido.

Por isso, até no caso em que o amadurecimento da decisão de chegar ao matrimônio sacramental por parte de conviventes ou de pessoas casadas civilmente ainda esteja numa fase virtual, incipiente, ou de aproximação gradual, pede-se que a Igreja não se subtraia à tarefa de encorajar e de promover este desenvolvimento. Ao mesmo tempo, agirá bem se demonstrar apreço e amizade em relação ao compromisso já assumido, do qual reconhecerá os elementos de coerência com o desígnio criatural de Deus.

No que diz respeito às famílias compostas de uniões conjugais com disparidade de culto, cujo número continua a aumentar não somente nos territórios de missão, mas também nos países de antiga tradição cristã, ressalta-se a importância de desenvolver um adequado cuidado pastoral.

Verdade e beleza da família e misericórdia para com as famílias feridas e frágeis

Com íntima alegria e profunda consolação, a Igreja olha para as famílias que permanecem fiéis aos ensinamentos do Evangelho, agradecendo-lhes e encorajando-as pelo testemunho que oferecem. Com efeito, graças a elas torna-se credível a beleza do matrimônio indissolúvel e fiel para sempre. Na família, «que se poderia chamar Igreja doméstica» (LG, 11), amadurece a primeira experiência eclesial da comunhão entre pessoas, na qual se reflete, mediante a graça, o mistério da Santíssima Trindade. «É aqui que se aprendem a tenacidade e a alegria do trabalho, o amor fraterno, o perdão generoso e sempre renovado e, sobretudo, o culto divino, através da oração e do oferecimento da própria vida» (CIC, 1657). A Sagrada Família de Nazaré é o seu modelo admirável, em cuja escola nós «compreendemos por que motivo devemos ter uma disciplina espiritual, se quisermos seguir a doutrina do Evangelho e tornar-nos discípulos de Cristo» (Paulo VI, Discurso em Nazaré, 5 de janeiro de 1964). O Evangelho da família nutre também as sementes que ainda esperam amadurecer, e deve cuidar das árvores que secaram e não podem ser descuidadas.

O vínculo íntimo entre Igreja e família

 A bênção e a responsabilidade de uma nova família, selada mediante o sacramento eclesial, comporta a disponibilidade a tornar-se fomentador e promotor, no seio da comunidade cristã, da qualidade geral da aliança entre homem e mulher: no âmbito do vínculo social, da geração dos filhos, da salvaguarda dos mais frágeis, da vida comum. Esta disponibilidade exige uma responsabilidade que tem o direito de ser sustentada, reconhecida e apreciada.

Em virtude do sacramento cristão cada família torna-se, para todos os efeitos, um bem para a Igreja, que por sua vez pede que seja considerada um bem para a própria família nascente. Nesta perspectiva, indubitavelmente será um dom inestimável para o hoje da Igreja a disposição humilde a considerar de maneira mais equitativa esta reciprocidade do «bonum Ecclesiae»: a Igreja é um bem para a família, a família constitui um bem para a Igreja. A preservação do dom sacramental do Senhor comporta a responsabilidade, por um lado, do casal cristão e, por outro, da comunidade cristã, cada qual da maneira que lhe compete. Quando surgem dificuldades, inclusive graves, de preservar a união matrimonial, o discernimento das respectivas obrigações e das relativas omissões deverá ser aprofundado lealmente pelo casal, com a ajuda da comunidade, em vista de compreender, avaliar e remediar aquilo que foi omitido ou descuidado por ambas as partes.

A Igreja, enquanto mestra segura e mãe amorosa, não obstante reconheça que para os batizados não há outro vínculo nupcial a não ser o sacramental, e que cada rutura do mesmo é contrária à vontade de Deus, contudo está consciente da fragilidade de muitos dos seus filhos, que encontram dificuldades no caminho da fé. «Portanto, sem diminuir o valor do ideal evangélico, é preciso acompanhar, com misericórdia e paciência, as possíveis etapas de crescimento das pessoas, que se vão construindo dia após dia. […] Um pequeno passo, no meio de grandes limitações humanas, pode ser mais agradável a Deus do que a vida externamente correta de quem transcorre os seus dias sem enfrentar sérias dificuldades. A todos devem chegar a consolação e o estímulo do amor salvífico de Deus, que agem misteriosamente em cada pessoa, para além dos seus defeitos e das suas quedas» (EG, 44).

A família dom e tarefa

 A atitude dos fiéis em relação às pessoas que ainda não chegaram à compreensão da importância do sacramento nupcial deve manifestar-se principalmente através de uma relação de amizade pessoal, aceitando o outro como é, sem o julgar, indo ao encontro das suas necessidades fundamentais e, ao mesmo tempo, dando testemunho do amor e da misericórdia de Deus. É importante ter a consciência de que somos todos frágeis, pecadores como os outros, contudo sem deixar de afirmar os bens e os valores do matrimónio cristão. Além disso, há que adquirir a consciência de que no desígnio de Deus a família não constitui um dever, mas um dom, e que hoje a decisão de aceder ao sacramento não é algo já decidido desde o início, mas um passo que deve amadurecer e uma meta que é preciso atingir.

Ajudar a alcançar a plenitude

Em ordem a uma abordagem pastoral das pessoas que o contraíram matrimônio civil, que são divorciadas e recasadas, ou que simplesmente convivem, compete à Igreja revelar-lhes a pedagogia divina da graça nas suas vidas e ajudá-las a alcançar a plenitude do plano de Deus para elas. Seguindo o olhar de Cristo, cuja luz ilumina cada homem (cf. Jo 1, 9; GS, 22), a Igreja dirige-se com amor para quantos participam na sua vida de modo incompleto, reconhecendo que a graça de Deus age também nas suas vidas, incutindo-lhes a coragem para praticar o bem, para cuidar amorosamente um do outro e para estar ao serviço da comunidade na qual vivem e trabalham.

 A comunidade cristã demonstre-se hospitaleira em relação aos casais que se encontram em dificuldade, também através da proximidade de famílias que vivem o matrimônio cristão. A Igreja põe-se ao lado dos cristãos que correm o risco da separação, a fim de que voltem a descobrir a beleza e a força da sua vida conjugal. Caso se verifique um doloroso termo da sua relação, a Igreja sente o dever de acompanhar este momento de sofrimento, de tal modo que não se acentuem desastrosas contraposições entre os cônjuges, e sobretudo para que os filhos venham a sofrer o menos possível.

É desejável que nas Dioceses se promovam percursos de participação progressiva para as pessoas conviventes ou unidas civilmente. Começando a partir do matrimônio civil, que em seguida elas cheguem ao matrimônio cristão, depois de um período de discernimento que no final as leve a uma escolha verdadeiramente consciente.

A Igreja olha com apreensão para a desconfiança de tantos jovens em relação ao compromisso conjugal e sofre pela precipitação com que tantos jovens decidem pôr fim ao vínculo assumido, instaurando outro. Tais fiéis, que fazem parte da Igreja, têm necessidade de uma atenção pastoral misericordiosa e animadora, distinguindo adequadamente as situações. Os jovens batizados devem ser encorajados a não hesitar diante da riqueza que o sacramento do matrimônio suscita nos seus planos de amor, fortalecidos pelo apoio que recebem da graça de Cristo e da possibilidade de participar plenamente na vida da Igreja.

Os jovens e o medo de casar

Muitos jovens têm medo de falhar diante da perspectiva matrimonial, também por causa de numerosos casos de fracasso matrimonial. Por isso, é necessário discernir mais atentamente as profundas motivações da renúncia e do desânimo. Com efeito, pode-se pensar que em muitos casos aquelas motivações têm a ver precisamente com a consciência de uma finalidade que – não obstante seja apreciada e até desejada – parece desproporcionada diante de um cálculo razoável das próprias forças, ou com a dúvida insuperável a propósito da constância dos próprios sentimentos. Mais do que a intolerância à fidelidade e à estabilidade do amor, que permanecem o objecto do desejo, muitas vezes é o anseio – ou até a angústia – de não as poder garantir que induz à remoção. A dificuldade, por si só superável, é chamada em causa como prova da impossibilidade radical. Além disso, às vezes aspectos de conveniência social e problemas econômicos ligados à celebração das núpcias influem sobre a decisão de não casar.

Neste sentido, uma nova dimensão da pastoral familiar hodierna consiste em prestar atenção à realidade dos matrimônios civis entre um homem e uma mulher, aos matrimônios tradicionais e, tendo em conta as devidas diferenças, também às convivências. Quando a união alcança uma estabilidade notável através de um vínculo público, é conotada por um afeto profundo, pela responsabilidade em relação à prole e pela capacidade de superar as provações, pode ser vista como uma ocasião que deve ser acompanhada no desenvolvimento para o sacramento do matrimônio. Ao contrário, muitas vezes a convivência estabelece-se não em vista de um possível matrimônio futuro, mas sem qualquer intenção de estabelecer uma relação institucional.

Em conformidade com o olhar misericordioso de Jesus, a Igreja deve acompanhar com atenção e cuidado os seus filhos mais frágeis, marcados pelo amor ferido e confuso, restituindo-lhes confiança e esperança como a luz do farol de um porto ou de uma tocha levada ao povo para iluminar quantos perderam a rota ou se encontram no meio da tempestade. Conscientes de que a maior misericórdia é dizer a verdade com amor, vamos além da compaixão. O amor misericordioso, do mesmo modo que atrai e une, também transforma e eleva. Convida à conversão. Do mesmo modo entendemos a atitude do Senhor, que não condena a mulher adúltera, mas pede-lhe que não volte a pecar (cf. Jo 8, 1-11).

A misericórdia é verdade revelada

Para a Igreja, trata-se de iniciar a partir das situações concretas das famílias de hoje, todas necessitadas de misericórdia, a começar por aquelas que mais sofrem. Com efeito, na misericórdia resplandece a soberania de Deus, com a qual Ele é fiel sempre de novo ao seu ser, que é amor (cf. 1 Jo 4, 8), e ao seu pacto. A misericórdia é a revelação da fidelidade e da identidade de Deus consigo mesmo e assim, ao mesmo tempo, demonstração da identidade cristã. Por isso, a misericórdia em nada diminui a verdade. Ela mesma é verdade revelada, profundamente vinculada às verdades fundamentais da fé – a encarnação, a morte e a ressurreição do Senhor – e sem elas decairia no nada. A misericórdia é «o centro da revelação de Jesus Cristo» (MV, 25).


 

XIV ASSEMBLEIA GERAL ORDINÁRIA A VOCAÇÃO E A MISSÃO DA FAMÍLIA  NA IGREJA E NO MUNDO CONTEMPORÂNEO  INSTRUMENTUM LABORIS

Cidade do Vaticano 2015

Adaptação: Portal Terra de Santa Cruz

Família e vida na Igreja – Sínodo da Família 2015 2ªparte

A família nos documentos da Igreja

Com o decorrer dos séculos, a Igreja não deixou faltar o seu constante e crescente ensinamento sobre o matrimônio e a família. Uma das expressões mais altas deste Magistério foi proposta pelo Concílio Ecumênico Vaticano II, na Constituição pastoral Gaudium et Spes, que dedica um capítulo inteiro à promoção da dignidade do matrimônio e da família (cf. GS, 47-52). Ele definiu o matrimônio como comunidade de vida e de amor (cf. GS, 48), colocando o amor no centro da família e mostrando, ao mesmo tempo, a verdade deste amor face às diversas formas de reducionismo presentes na cultura contemporânea. O “verdadeiro amor entre marido e esposa” (GS, 49) implica a doação recíproca de si, inclui e integra a dimensão sexual e a afetividade, correspondendo ao desígnio divino (cf. GS, 48-49). Além disso, a Gaudium et Spes, no número 48, frisa a radicação dos esposos em Cristo: Cristo Senhor “vem ao encontro dos cônjuges cristãos no sacramento do matrimônio”, e com eles permanece. Na encarnação, Ele assume o amor humano, purifica-o, leva-o à plenitude e doa aos esposos, com o seu Espírito, a capacidade de o viver, permeando toda a sua vida de fé, esperança e caridade. Deste modo, os esposos são como que consagrados e, mediante uma graça própria, edificam o Corpo de Cristo e constituem como que uma Igreja doméstica (cf. LG, 11), de modo que a Igreja, para compreender plenamente o seu mistério, olha para a família cristã, que o manifesta de modo genuíno

A dimensão missionária da família

 À luz do ensinamento conciliar e magisterial sucessivo, sugere-se que se aprofunde a dimensão missionária da família como Igreja doméstica, que se arraiga no sacramento do Batismo e se realiza cumprindo a própria ministerialidade no seio da comunidade cristã. A família é por sua natureza missionária e incrementa a sua fé no gesto de a doar aos outros. Para empreender percursos de valorização do papel missionário que lhe foi confiado, é urgente que as famílias cristãs voltem a descobrir a chamada a testemunhar o Evangelho com a vida, sem esconder aquilo em que crer. O próprio facto de viver a comunhão familiar é uma forma de anúncio missionário. Sob este ponto de vista, é necessário promover a família como protagonista da obra pastoral mediante alguns modelos de testemunho, entre os quais: a solidariedade para com os pobres, a abertura à diversidade das pessoas, a preservação da criação, o compromisso pela promoção do bem comum a partir do território no qual ela vive.

A família caminho da Igreja

Em continuidade com o Concílio Vaticano II, o Magistério pontifício aprofundou a doutrina sobre o matrimônio e sobre a família. Em particular Paulo VI, com a Encíclica Humanae Vitae, evidenciou o vínculo íntimo entre amor conjugal e geração da vida. São João Paulo II dedicou à família uma atenção especial através das suas catequeses sobre o amor humano, da Carta às famílias (Gratissimam Sane) e sobretudo com a Exortação Apostólica Familiaris Consortio. Nestes documentos, o Pontífice definiu a família “caminho da Igreja”; ofereceu uma visão de conjunto sobre a vocação do homem e da mulher para o amor; propôs as linhas fundamentais para a pastoral da família e para a presença da família na sociedade. Em particular, ao tratar a caridade conjugal (cf. FC, 13), descreveu o modo como os cônjuges, no seu amor recíproco, recebem o dom do Espírito de Cristo e vivem a sua chamada à santidade (IL, 5).

A medida divina do amor

Bento XVI, na Encíclica Deus Caritas Est retomou o tema da verdade do amor entre homem e mulher, que só se ilumina plenamente à luz do amor de Cristo crucificado (cf. DCE, 2). Ele reafirma: “O matrimônio baseado num amor exclusivo e definitivo torna-se o ícone do relacionamento de Deus com o seu povo e, vice-versa, o modo de Deus amar torna-se a medida do amor humano” (DCE, 11). Além disso, na Encíclica Caritas in Veritate, ele evidencia a importância do amor como princípio de vida na sociedade (cf. CiV, 44), lugar no qual se aprende a experiência do bem comum (IL, 6).

A família em oração

O ensinamento dos Pontífices convida a aprofundar a dimensão espiritual da vida familiar a partir da redescoberta da oração em família e da escuta em comum da Palavra de Deus, da qual brota o compromisso de caridade. Para a vida da família é de importância fundamental a redescoberta do dia do Senhor, como sinal do seu profundo radicar-se na comunidade eclesial. Além disso, proponha-se um acompanhamento pastoral adequado para fazer crescer uma espiritualidade familiar encarnada, em resposta às exigências que surgem na vivência diária. Considera-se útil que a espiritualidade da família seja alimentada por fortes experiências de fé e em particular pela participação fiel na Eucaristia, «fonte e ápice de toda a vida cristã (LG, 11).

Família e fé

O Papa Francisco, na Encíclica Lumen Fidei, ao tratar o vínculo entre a família e a fé, escreve: “O encontro com Cristo, o deixar-se conquistar e guiar pelo seu amor alarga o horizonte da existência, dá-lhe uma esperança firme que não desilude. A fé não é um refúgio para gente sem coragem, mas a dilatação da vida: faz descobrir uma grande chamada – a vocação ao amor – e assegura que este amor é fiável, que vale a pena entregar-se a ele, porque o seu fundamento se encontra na fidelidade de Deus, que é mais forte do que toda a nossa fragilidade” (LF,53) (IL, 7).

Catequese e família

Muitos consideram necessária uma renovação dos percursos catequéticos para a família. A este respeito, tenha-se o cuidado de valorizar os casais como protagonistas concretos da catequese, sobretudo em relação aos próprios filhos, em colaboração com sacerdotes, diáconos e pessoas consagradas. Esta colaboração ajuda a considerar avocação para o matrimônio como uma realidade importante, para a qual é preciso preparar-se adequadamente por um período de tempo conveniente. A integração de famílias cristãs sólidas e de ministros confiáveis torna credível o testemunho de uma comunidade que se dirige aos jovens a caminho rumo às grandes opções da vida.

A comunidade cristã renuncie a ser uma agência de serviços para se tornar, ao contrário, um lugar no qual as famílias nascem, se encontram e se confrontam juntas, caminhando na fé e partilhando percursos de crescimento e de intercâmbio recíproco.

A indissolubilidade do matrimônio e a alegria de viver juntos

O dom recíproco constitutivo do matrimônio sacramental está arraigado na graça do batismo, que estabelece a aliança fundamental de cada pessoa com Cristo na Igreja. No acolhimento recíproco e com a graça de Cristo, os nubentes prometem um ao outro o dom total de si, a fidelidade e a abertura à vida, e reconhecem como elementos constitutivos do matrimônio os dons que Deus lhes oferece, levando a sério o seu compromisso mútuo, em seu nome e perante a Igreja. Pois bem, na fé é possível assumir os bens do matrimônio como compromissos que melhor se cumprem mediante a ajuda da graça do sacramento. Deus consagra o amor dos esposos e confirma a sua indissolubilidade, oferecendo-lhes a ajuda para viver a fidelidade, a integração recíproca e a abertura à vida. Por conseguinte, o olhar da Igreja dirige-se aos esposos como ao coração da família inteira que, também ela, fixa o próprio olhar em Jesus.

 A alegria do homem é expressão da plena realização da própria pessoa. Para propor a unicidade da alegria que deriva da união dos cônjuges e da constituição de um novo núcleo familiar, é oportuno apresentar a família como um lugar de relacionamentos pessoais e gratuitos, do modo como não se verifica noutros grupos sociais. O dom recíproco e gratuito, a vida que nasce e a salvaguarda de todos os seus membros, desde os mais pequeninos até aos idosos, são apenas alguns dos aspectos que tornam a família única na sua beleza. É importante fazer amadurecer a ideia de que o matrimónio constitui uma escolha para a vida inteira, que não limita a nossa existência mas torna-a mais rica e completa, inclusive no meio das dificuldades.

Através desta opção de vida, a família edifica a sociedade não como soma de habitantes de um território, nem como conjunto de cidadãos de um Estado, mas como autêntica experiência de povo, e de Povo de Deus.

SÍNODO DOS BISPOS – XIV ASSEMBLEIA GERAL ORDINÁRIA

A VOCAÇÃO E A MISSÃO DA FAMÍLIA NA IGREJA E NO MUNDO CONTEMPORÂNEO “INSTRUMENTUM LABORIS”

Cidade do Vaticano 2015  


 

Adaptação: Portal Terra de Santa Cruz 

 

Arcebispo de Manaus traz a família amazônica para o Sínodo

Cidade do Vaticano (RV) – São quase 37 anos de missão na Amazônia, 17 como bispo. Dom Sérgio Eduardo Castriani, o arcebispo de Manaus, é único bispo brasileiro convidado pessoalmente pelo Papa para participar do Sínodo sobre a Família: Dom Sérgio é a voz da Amazônia na Assembleia, que para o Francisco, não podia faltar.

O arcebispo, membro de um ‘Círculo menor’ de fala ibérica, revela que levará para a região uma bagagem de experiência muito importante e única. Para ele, trazer a família amazônica ao Sínodo é realmente um privilégio e uma grande responsabilidade:

“Estou trazendo para o Sínodo a família real. Acho que, em primeiro lugar, trago um grande desejo de ‘viver família’. Nós todos queremos viver em família, é um desejo humano. Todas as culturas, todos os povos, indígenas, ribeirinhos, queremos ‘ser família’. Se você perguntar a um jovem qual é o seu desejo ele responde: casar, estudar e trabalhar. A família é o lugar aonde vivemos os vínculos definitivos. É na família que aprendemos a nos relacionar, a ter amor incondicional, a fidelidade. A família é a base de tudo, a família real, a família sofrida, pois as famílias sofrem com a situação econômica, em primeiro lugar, que divide as famílias. Na Amazônia, há também o fenômeno da migração interna. Manaus cresceu demais porque existe este fenômeno. Pais que deixam filhos, jovens deixam suas casas e ir para a cidade grande. Há famílias que sofrem por causa do tráfico de drogas, é uma coisa impressionante…, o crime organizado ou não, que judia muito das famílias. Há um grande número de dependentes químicos. Há famílias que sofrem com o ataque da mídia: valores que não são nossos, uma cultura que não é do Evangelho; famílias que enfrentam a pressão da tecnologia, da Internet, famílias divididas por questões religiosas. Com a invasão de tantas propostas religiosas na Amazônia, cada um vai na sua Igreja. Então, estas famílias precisam ser acolhidas”.

“Trouxe também a questão do abuso sexual de crianças e adolescentes, a questão do tráfico humano, uma realidade do Brasil todo mas da Amazônia em particular. Então a Igreja, que olha para estas situações, tem a Pastoral Familiar: nossos padres, nossos agentes de pastoral, têm muito carinho com estas famílias. Nós estamos tentando acolhê-las e curá-las. A Igreja na Amazônia sempre é muito presente na vida do povo. Os missionários, que visitavam as comunidades, pelos rios, sempre estiveram muito presentes. Também na grande cidade, Manaus, há grandes comunidades que são grandes famílias. É esta a família que eu trago: a família real e que tem sonhos, que quer viver o Evangelho, quer ser feliz e realizar o desígnio de Deus também no dia a dia”.
“Uma coisa importante também que me tocou muito é que a família é a encarnação do Evangelho. É na família que se vive de fato o Evangelho, senão o Evangelho vira ideologia, vira palavreado; falamos muito mas vivemos pouco. É na vida familiar que temos o espaço de encarnação do Evangelho. Bonito isso, né? Lembrei-me de tantas famílias na Amazônia que vivem o Evangelho, com muita simplicidade. Com honradez. Esta palavra foi dita, em espanhol soa até mais bonita. Com honra, com honestidade, no trabalho diário.. é esta a família que trago no coração e na mente para o Sínodo”.

Dom Sérgio destaca ainda a proximidade com o Papa na Sala dos trabalhos.

“Aqui em Roma desta vez é uma coisa diferente, a gente chega e ele já está lá, esperando… vem a pé, da casa dele, andando, está ali, quem quer pode cumprimentar, dizer uma palavra, de onde é… é uma convivência que espanta porque a gente não imagina estar tão próximo ao Papa, de uma forma tão familiar. Isto demonstra o que é o Sínodo. É um colégio episcopal reunido, que não existe sem o Papa. Junto com ele, os bispos são responsáveis por toda a Igreja. É uma experiência única, com muita familiaridade, muita simplicidade. Ele está ali conosco.. não podemos abusar… mas chegamos, cumprimentamos, de repente ele está ali no cafezinho… saindo ou chegando. Então, é uma experiência única, muito bonita, interessante. Vai me marcar por toda a minha vida”. (CM)

Fonte Radio Vaticana

Adaptação:Portal Terra de Santa Cruz

A escuta dos desafios sobre a Família – 1ª Parte Sínodo da Família 2015

A família e o contexto antropológico-cultural

O contexto sociocultural

Fiéis ao ensinamento de Cristo, olhamos para a realidade da família de hoje em toda a sua complexidade, nas suas luzes e nas suas sombras. Pensamos nos pais, nos avós, nos irmãos e nas irmãs, nos parentes próximos e distantes, bem como no vínculo entre duas famílias que cada matrimónio tece. A mudança antropológico-cultural influencia hoje todos os aspectos da vida e exige uma abordagem analítica e diversificada. Há que sublinhar, antes de tudo, os aspectos positivos: a maior liberdade de expressão e o melhor reconhecimento dos direitos da mulher e das crianças, pelo menos em determinadas regiões. No entanto, por outro lado, é igualmente necessário ter em consideração o perigo crescente representado por um individualismo exasperado que desnatura os vínculos familiares e acaba por considerar cada componente da família como uma ilha, levando a prevalecer, em certos casos, a ideia de um protagonista que se constrói em conformidade com os seus próprios desejos, assumidos como um absoluto. A isto acrescenta-se também a crise da fé, que atingiu numerosos católicos e que muitas vezes está na origem das crises do matrimônio e da família.

A mudança antropológica

Na sociedade actual observam-se disposições diferentes. Só uma minoria vive, apoia e propõe o ensinamento da Igreja católica acerca do matrimónio e da família, reconhecendo nele a bondade do projecto criador de Deus. Os matrimónios, religiosos e não, diminuem e o número de separações e de divórcios aumenta.

Propagam-se o reconhecimento da dignidade de cada pessoa, homem, mulher e criança, e a tomada de consciência da importância das diferentes etnias e das minorias; estes últimos aspectos – já difundidos em muitas sociedades, não só ocidentais – estão a consolidar-se em vários outros países.

Constata-se, nos mais diversos contextos culturais, o receio dos jovens de assumir compromissos definitivos, como o de constituir uma família. Mais em geral, observa-se a difusão de um individualismo extremo que põe no centro a satisfação de desejos que não levam à plena realização da pessoa.

O desenvolvimento da sociedade consumista separou sexualidade e procriação. Também esta é uma das causas da crescente diminuição da natalidade. Nalguns contextos ela está ligada à pobreza ou à impossibilidade de cuidar da prole; noutros, à dificuldade de querer assumir responsabilidades e à percepção de que os filhos poderiam limitar a livre expansão de si.

As contradições culturais

 Não são poucas as contradições culturais que incidem sobre a família. Ela continua a ser imaginada como o porto seguro dos afectos mais íntimos e gratificantes, mas as tensões induzidas por uma exasperada cultura individualistada posse e do gozo geram no seu interior dinâmicas de intolerância e de agressividade às vezes ingovernáveis. Pode-se mencionar também uma certa visão do feminismo, que considera a maternidade um pretexto para a exploração da mulher e um obstáculo para a sua plena realização. Depois, há a tendência crescente a considerar a geração de um filho como um instrumento para a afirmação de si, que deve ser obtida com qualquer meio. Podem-se recordar por fim as teorias segundo as quais a identidade pessoal e a intimidade afectiva devem afirmar-se numa dimensão radicalmente desvinculada da diversidade biológica entre homem e mulher.

Mas, ao mesmo tempo, deseja-se reconhecer à estabilidade de um casal instituído independentemente da diferença sexual, o mesmo título da relação matrimonial intrinsecamente ligada às funções paterna e materna, definidas a partir da biologia da geração. A confusão não ajuda a definir a especificidade social de tais uniões, enquanto confia à opção individualista o vínculo especial entre diferença, geração, identidade humana. É certamente necessário um melhor aprofundamento humano e cultural, não só biológico, da diferença sexual, ciente de que «a remoção da diferença é o problema, não a solução» (Francisco, Audiência geral, 15 de Abril de 2015).

As contradições sociais

Eventos traumáticos como os conflitos bélicos, o esgotamento dos recursos, os processos migratórios, incidem de maneira crescente sobre a qualidade afectiva e espiritual da vida familiar e põem em risco as relações no âmbito da família. As suas energias materiais e espirituais são, com muita frequência, levadas ao limiar da dissolução.

Deve-se falar também, em geral, das graves contradições geradas pelo peso de políticas económicas imprudentes, assim como pela insensibilidade de políticas sociais, também nas chamadas sociedades do bem-estar. Em particular, o aumento das despesas para manter os filhos, assim como o enorme agravamento das tarefas subsidiárias do cuidado social dos doentes e dos idosos, de facto delegadas às famílias, constituem um verdadeiro peso que sobrecarrega a vida familiar.

Se se juntarem os efeitos de uma conjuntura económica desfavorável, de natureza bastante ambígua, e o crescente fenómeno do acúmulo de riquezas nas mãos de poucos e do desvio de recursos que deveriam ser destinados ao projecto familiar, o quadro de empobrecimento da família perfila-se ainda mais problemático. A dependência do álcool, das drogas ou do jogo de azar é por vezes expressão destas contradições sociais e do mal-estar a que elas dão origem na vida das famílias.

Fragilidade e força da família

A família, comunidade humana fundamental, nunca mostrou como hoje, precisamente através da sua crise cultural e social, quantos sofrimentos causam a sua debilitação e a sua fragilidade. E quanta força ela pode encontrar, em si mesma, para fazer face à insuficiência e à inacção das instituições em relação à formação da pessoa, à qualidade do vínculo social, ao cuidado das pessoas mais vulneráveis. Portanto, é particularmente necessário apreciar de modo adequado a força da família, a fim de poder apoiar as suas fragilidades.

Extraído do SÍNODO DOS BISPOS NA XIV ASSEMBLEIA GERAL ORDINÁRIA – A VOCAÇÃO E A MISSÃO DA FAMÍLIA
NA IGREJA E NO MUNDO CONTEMPORÂNEO  “
INSTRUMENTUM LABORIS” / Vaticano 2015

Adaptação e Foto : Portal Terra de Santa  Cruz