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SERMÃO DO ENCONTRO (22/03/2016)- Pe. Edson Pereira de Oliveira-Campanha(MG)

SEMANA SANTA 2016 – SERMÃO DO ENCONTRO (22/03/2016)

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Quem não toma sua cruz, não tem coragem de renunciar a si mesmo, às suas vontades, aos seus desejos e vem atrás de mim enfrentando a vida, a dor, a morte, o que tiver que enfrentar pelo Evangelho, não é digno de mim

“Antes de iniciar esse sermão, eu quero fazer um pedido pra você, eu quero pedir que você reze pelo Padre e reze por você para que o seu coração possa ser como uma terra boa, onde a semente do Evangelho de Jesus caia e este pobre Padre que vos fala que ele não fale palavras suas, que ele não fale palavras do seu coração nem aquelas que queiram vir de dentro, mas que ele procure palavras de Deus, iluminado pelas luzes do Espírito Santo. Então vamos cantar todos juntos esta música invocando as luzes do Divino Espírito Santo: “A nós descei divina luz…”(Oração do Espírito Santo).

Desde o seio materno, o Senhor me chamou, desde o ventre da minha mãe, Ele já sabia o meu nome, fez de minha língua uma espada afiada e Ele disse: “O meu servo és tu, em ti é que eu vou brilhar”, e eu pensava, batalhei por coisa alguma, acabei com minhas forças à toa, a minha defesa, entretanto está com o Senhor e a minha recompensa com o meu Deus, é Ele quem diz, “é bem pouco seres o meu servo só para trazer de volta os fiéis que escaparam. Quero fazer de ti uma luz para as nações, para que a minha salvação chegue até os confins da terra”.

Reverendíssimo Pe. Luzair Coelho de Abreu, DD. Pároco desta Paróquia de Santo Antônio, meus irmãos e minhas irmãs na mesma fé. O que viemos fazer aqui nesta noite? Qual será o motivo que nos fez sair de nossas casas e nos reunirmos neste largo? Por acaso viemos aqui assistir algum espetáculo? Viemos ver uma apresentação folclórica tradicional? Viemos ouvir lindas peças barrocas? Viemos cumprir apenas uma tradição? NÃO! Eu digo que não. Eu tenho certeza que não.  Não viemos aqui por isso, porque viemos aqui hoje para ver o Mistério do aniquilamento de Deus, a maior kenosis que existiu em toda história, um rebaixamento da pessoa de Deus sem precedentes. É o próprio Deus que toma sobre si as nossas dores e carrega as enfermidades da humanidade. É o próprio Deus que suporta no duro peso do lenho da cruz o pecado de toda humanidade.

Me recordo das últimas cenas da vida de Jesus, quando Jesus se aproximou de Jerusalém e avistou a cidade santa… Ele chorou… chorou e disse: “Jerusalém, Jerusalém, tu que matas os profetas e apedrejas os que te foram enviados, quantas vezes eu quis reunir teus filhos, como a galinha reúne os pintainhos debaixo das asas, mas não quiseste. Vede, preste atenção, a tua casa ficará abandonada”.

Nosso divino Mestre sabia que nessa cidade, Ele derramaria o seu sangue e como que aconteceria o mesmo destino com Ele, como aconteceu com os profetas. Aquele mesmo povo que gritava “Hosana nas alturas! Bendito o Rei que vem me nome do Senhor”, seria o mesmo povo que gritaria: “Fora com Ele, Crucifica-o”. Não havia condenação pior para o ser humano do que a de ser crucificado, eis a mais terrível e vergonhosa condenação para a qual Jesus foi condenado; julgamento justo não houve… nenhuma das testemunhas que acusaram Jesus foram capazes de apresentar um motivo convincente; o que saltava aos olhos de Pilatos é que realmente Jesus não era réu de morte e que seus crimes não pertenciam a Ele, mas talvez às próprias pessoas que o acusavam.

A mulher de Pilatos o alertou dizendo que havia tido um sonho e que no sonho havia visto que aquele Homem era justo e que sofreu muito nesse sonho, mas o ódio que movia o coração de seus acusadores fizera Pilatos empurra Jesus para Herodes para que tomasse tamanha e insana decisão.

Herodes, ah! Muito bem! Este homem só queria zombar de Jesus, ver um sinal grandioso, ver um milagre, era isso que ele esperava ver de Jesus, mas não conseguiu nem isso e nem crime e por isso o devolveu a Pilatos. De algo tão pavoroso, alguma coisa boa teve, pelo menos naquele dia, Herodes e Pilatos se tornaram amigos, mesmo que fosse para condenar o Filho de Deus.

Pilatos não queria se responsabilizar pelo sangue de Jesus, ele covardemente lavou as mãos e deixou que fizessem com Ele o que quisessem. O povo que o aclamou preferiu Barrabás e quando Pilatos lavou a sua mão disse que o sangue d’Ele caía sobre nós e caía sobre nossos filhos.

Interessante que essa palavra de Jesus, nos faz lembrar as palavras d’Ele na última ceia; quando Ele ofereceu o cálice aos discípulos Ele disse: “Este é o cálice do meu sangue, o sangue da nova Aliança, que será derramado por muitos para remissão dos pecados”. Realmente a responsabilidade pela morte de Jesus era do seu próprio povo, porém os frutos dessa morte que é a salvação, não pertencem a eles, não lhe serviram de nada, porque para receber os frutos da salvação é preciso acima de tudo crer n’Ele, e eles foram incapazes de crer na sua Palavra.

Depois do julgamento de Jesus, nós vemos o nosso divino Salvador ser flagelado, zombado e receber no rosto escarro e as bofetadas dos carrascos. Na sua cabeça colocaram o suplício de uma coroa de espinhos e sobre os seus ombros um manto vermelho.

Os cruéis soldados ajoelhavam diante de Jesus e diziam: “Salve o Rei dos Judeus”, batiam n’Ele com uma vara, cuspiam n’Ele, zombavam d’Ele. É uma vergonha para o povo judeu, ver os romanos zombarem de seu rei desta forma, assim a zombação era a Jesus e era do seu povo que covardemente o entregarou.

Depois colocaram sobre Ele uma pesada cruz, iniciaram o cortejo para o caminho do Calvário e esta é a cena que está diante dos nossos olhos; todo esse julgamento, toda essa crueldade, toda essa falta de justiça, deu nisso.

Olhe, veja, contemple diante dos seus olhos o que a maldade do coração humano foi capaz de fazer. Eis aí a paga dos teus pecados, eis aonde foi todas as minhas e tuas iniquidades, estão nos ombros de Nosso Senhor.

Olhamos pra Jesus e permaneçamos com os olhos focados n’Ele, não tiremos de Jesus  os nossos olhos; de tal forma, Ele nem parecia gente, tanto havia perdido a aparência humana que muitos se horrorizavam com Ele, era o mais desprezado e abandonado de todos. Homem do sofrimento, experimentado na dor, indivíduo de quem a gente desvia o olhar; D’Ele nem tomamos conhecimento (música).

Eram na verdade os nossos sofrimentos que Ele carregava, eram as nossas dores que Ele levava às suas costas e achavam que Ele era um castigado; alguém por Deus ferido e massacrado, mas estava sendo transpassado por causa de nossas rebeldias, estava sendo esmagado por nossos pecados. O castigo que nós teríamos que pagar caiu sobre Ele, com seus ferimentos veio a cura para todos nós.

Meus irmãos e minhas irmãs, olhando para Jesus, nós olhamos também para o rosto de tantos irmãos nossos que caminham para o Calvário, que tem nos ombros uma dura cruz, a dura cruz da exclusão, a dura cruz do sofrimento, a dura cruz da rejeição e a nossa cidade não está longe dessas duras cruzes não; muitas vezes existe a dura cruz da falta de alimento e quanta gente passa necessidade; existe a dura cruz da doença e eu tenho certeza que você recorda de muitas pessoas que carregam essa cruz, mas eu penso que no atual momento, a cruz mais pesada que o nosso povo campanhense tem carregado se chama DEPRESSÃO. Depressão que leva à morte, aos vícios, ao álcool, à droga e não são poucas as pessoas em nossa cidade que estão condenadas à morte como Jesus está condenado à morte, e eles foram condenados por suas próprias mãos e pés quando assumiram na sua vida essa tristeza.

A droga entra aonde faltou amor; a depressão entra muitas vezes aonde falta Deus e esse ano que passou uma coisa muito triste me cortou o coração,  digo nesse ano que estamos vivendo, o número de suicídios em Campanha está elevado. Por que será que tem acontecido isso? O que tem levado nossos jovens a tomar esse rumo? Qual a minha culpa nisso? Qual a tua culpa nisso? Será que as pessoas entram na depressão por falta de um sentimento muito importante, e eu tenho certeza que é… é a falta de amor, amor em casa, amor na família, a falta de cuidado, a falta de zelo, a falta de atenção e paciência… mais do que nunca tem aumentado o número de pessoas que não falam mais, só clicam, só usam o dedinho e muitas vezes, já disse isso em homilias, os nossos relacionamentos tem-se tornado virtuais até mesmo dentro de casa… não é de assustar, filhos e pais conversam pelo WhatsApp, cada um em seu quarto… onde fica o calor dessa família? Onde fica a presença? O cheiro da casa? O individualismo nos aprisiona em nós mesmos e o individualismo nos torna pessoas frias e vazias… o individualismo é a porta da depressão, não só doença, mas depressão que gera na pessoa a necessidade de preencher o seu vazio com realidades que lhe farão mal; é esta a dor que nós experimentamos em Jesus, é esta a cruz que nós vemos hoje nas costas de Nosso Senhor.

Não viemos aqui somente para falar de Jesus, viemos aqui para falar também de uma mãe e eu quero que você olhe pra ela… essa mãe se chama Maria!

Esses dias me assustou uma pessoa que eu vi pelas ruas dizendo que na Bíblia não tem o nome de Maria… meu filho, minha filha, claro que tem, está no Evangelho de Mateus e no Evangelho de Lucas.

Maria, a mãe de Jesus foi uma mulher que entregou a sua vida toda nas mãos de Deus, ela foi toda de Deus e assumiu viver para Deus na pessoa de seu Filho, tendo como algo gerado dentro dela esta criança pelo poder do Espírito Santo.

Maria, a mãe exemplar, a mãe que acompanhou o Filho em todos os momentos de sua vida; eu tenho certeza que Maria naquela noite da despedida estava na ceia, estava com Jesus, estava com os discípulos… e você que é mãe e você que é filho sabe que coração de mãe e coração de filho batem no mesmo compasso e tenho certeza que o coração de Maria naquela noite de tristeza batiam no mesmo momento e Maria sentia em si a angústia que Jesus já sentia e quando ela vê o Filho doando o seu Corpo e o seu Sangue, no Pão e no Vinho e deixando este testamento, Maria sabia que a hora de seu Filho se aproximava.

 

Quando Jesus sai para o Horto das Oliveiras, como toda boa mãe, penso que Maria foi para o leito, foi pra cama, mas a mãe não dorme enquanto o filho não chega, e o coração da mãe sente, e o coração da mãe fica desinquieto e uma boa mãe não repousa enquanto não tem a plena certeza que está tudo bem com seu filho, mas naquela noite não estava… mas naquela noite não havia como estar, pois o seu Filho, enquanto Maria se recostava, estava suando sangue, estava prestes a ser preso.

Naquela noite, Jesus seria injustamente preso e levado à tantas humilhações que nós já refletimos.

Eu sei que é doloroso, mas penso assim: “Como terá Nossa Senhora recebido a notícia na surdina da madrugada da prisão de Jesus? Como teria Nossa Senhora reagido naquele momento? Eu tenho certeza que uma tristeza profunda tomou conta do seu coração porque não há mãe que se alegra com isso, porém, eu tenho mais certeza ainda que Maria nunca deixou de confiar no Pai de Jesus e sabia que o Pai jamais abandonaria o Filho.

Por aquela madrugada afora, Maria com certeza sai desesperada e ela sai à procura do Filho e ela vai procurar Aquele que ela gerou e assim como tantas vezes na sua vida, a mãe procura a criança quando a criança se perde pra acudir a criança, talvez no seu instinto materno, o que Maria quisesse ao ir ao encontro do seu Filho era acudir por aquelas vielas de Jerusalém, Maria caminhava desesperada em busca do amado do seu coração.

É por isso que eu peço aos bons homens que façam Nossa Senhora caminhar. Vamos contemplar esta caminhada silenciosa de Maria, a caminhada que ela fez naquela noite, não precisa dizer uma palavra, basta olhar e basta perceber que Maria caminha e ela procura o seu Filho amado, ela procura o seu filho querido. Ela quer encontrar, mas nem sempre é fácil. Jesus disse “que em pouco tempo vocês me vêem, mas em mais um pouco de tempo e não me vereis mais”.

Os lugares aonde Jesus estava com certeza Nossa Senhora não podia entrar.

Olho no rosto de Maria e vejo as tantas Marias que procuram seus filhos, mães que tem um coração amoroso e que querem cuidar, mas infelizmente os filhos não querem ser cuidados, os filhos escolhem aqueles caminhos que há pouco eu falava e a mãe sofre no seu coração porque ela quer fazer alguma coisa, mas muitas vezes ela está de mãos amarradas porque o filho foge.

Tenho certeza que você conhece mães assim, que você percebe mães aqui em nossa cidade que sofrem muito por causa de seus filhos, sofrem por causa da rebeldia, sofrem por saber que os filhos estão trilhando caminhos sem volta, sofrem por ver seus filhos vivendo uma vida que não está de acordo com a proposta de Deus, sofrem por ver seus filhos distanciando-se de Deus e afundando no caminho do mundo, sofrem porque amam e nós muitas vezes temos lágrimas para chorar por Maria, mas muitas vezes não temos lágrimas para chorar pelas Marias. Vemos o problema perto da gente, vemos a dificuldade até mesmo dentro de casa e somos até um espinho a cutucar, a fazer com que a ferida doa mais e até muitas vezes temos a coragem de dizer “bem feito”, “está ganhando o que mereceu”.

Não é fácil… mas está mais perto de nós do que podemos imaginar. Entre nós estás, Ó Maria! E nós não te conhecemos. Entre nós estás, Ó Jesus! E nós te desprezamos.

É claro que quem procura acha, quem busca vai encontrar, e o que a mãe procura, ela precisa encontrar. Maria encontra seu Filho no caminho do Calvário. Maria encontra seu Filho com a dura e pesada cruz. “Mulher, eis aí o teu Filho! Filho, eis aí a tua Mãe!” Eis aí o que a humanidade foi capaz de fazer com aquele que geraste com tanto amor; eis o fruto da maldade do coração humano; eis o que os nossos pecados fizeram com o plano de amor de Deus.

Era preciso que Ele carregasse as nossas dores, mas podia ter sido diferente, mas para reconciliar a humanidade era preciso que Ele doasse a si por inteiro e não faltasse uma gota e todo sofrimento que Ele deveria passar.

Mãe eu contemplo a tua dor, eu contemplo o teu sofrimento, eu contemplo a tua angústia diante do teu Filho. Eu contemplo com o coração partido ao ver que as mães que procuram também seus filhos neste estado e que muitas vezes enganadas por histórias, às vezes não acreditam, mas quando deparam com a realidade elas vêem que estão carregando a cruz para a morte como a Senhora vê Jesus carregando a cruz para a morte.

E é por isso que eu peço que vocês fiquem em silêncio e olhem para esse encontro. Maria não pode falar nem sequer uma palavra pra Jesus, foi apenas uma troca de olhar, mas um olhar carregado de sentimento, um olhar carregado de amor, um olhar carregado de cuidado.

Se nós vemos Jesus caído pelo chão, como quem não aguenta mais e que está difícil chegar ao alto do Calvário para que fosse cumprido o que faltava, nós vemos o olhar de Maria encorajando seu Filho a não desistir, encorajando o seu Filho a ir até o fim, doa o quanto doer, sofra o quanto tiver que sofrer, mas sem a cruz não haverá luz. Contemplemos, silenciemos, deixemos essa cena falar por si mesma. (música)

O duro caminho para o Calvário não terminou, agora Jesus não vai mais sozinho, a sua mãe vai logo atrás, Jesus segue para cumprir o que precisava ser cumprido. E nós agora também seremos convidados a fazer a mesma coisa. Neste caminho do Calvário, ainda haverá encontros, haverá encontros forçados, mas que ajudam.

Cirineu aquele que estende a mão. Haverá gestos espontâneos, mas de conforto… De uma mulher que sai do meio do povo e que enxuga o rosto de Jesus com o seu véu, mas acima de tudo há um encontro com Jesus com mulheres piedosas, piedosas porque o amavam, piedosas porque como muitas e talvez muitos, porque homens também choram, estejam com lágrimas nos olhos e que agora eu repito a vocês as palavras que Jesus disse: “Filhas da Campanha, Filhos da Campanha, não choreis por mim, mas chorais por vós mesmos e por vossos filhos porque virão dias em que se dirá, felizes os ventres que nunca deram a luz e os seios que nunca amamentaram, porque se fazem assim com a árvore verde, o que não farão com a árvore seca? Dias virão em que os tempos não serão fáceis em que a vida se torna mais difícil”.

E é preciso entender que o sofrimento é parte da vida e que se você não assume com coragem o sofrimento e vem atrás de Jesus você não é digno de Jesus. É ele próprio quem diz: “Quem não toma sua cruz, não tem coragem de renunciar a si mesmo, às suas vontades, aos seus desejos e vem atrás de mim enfrentando a vida, a dor, a morte, o que tiver que enfrentar pelo Evangelho, não é digno de mim”.

Acima de tudo está o Evangelho de Jesus, a Palavra de Jesus, o sonho de Deus para a humanidade e que deve ser também o nosso sonho, aonde as pessoas saibam o verdadeiro sentido da palavra AMOR, aonde as pessoas saibam o verdadeiro sentido da palavra PERDÃO, aonde as pessoas saibam que a palavra MISERICÓRDIA, que está tanto em moda esse ano graças a esse gesto tão maravilhoso do Santo Padre o Papa Francisco, saiba o peso que tem a palavra MISERICÓRDIA.

Ai de mim se não tenho misericórdia. Ai de você se não tem misericórdia, porque se eu recebo tanta misericórdia do Pai do Céu, que é capaz de perdoar as minhas fraquezas, as minhas misérias que são tantas, porque eu não sou perfeito e você também não é, e olha nos ombros de Jesus o fruto do meu e do seu pecado.

Se eu não sou capaz de ter misericórdia do outro, como eu posso experimentar e querer que Deus tenha misericórdia de mim? E é por isso que eu termino essa reflexão cantando… “Perdoai-nos ó Pai, as nossas ofensas, como nós perdoamos a quem nos ofendeu. Se eu não perdoar o meu irmão, o Senhor não me dá o seu perdão. Eu não o julgo para não ser julgado, perdoando é que se é perdoado!”

Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo. Para sempre seja louvado!”.

Por Pe. Edson Pereira de Oliveira, Vigário Paroquial da Paróquia Santo Antônio da Campanha/Reitor do Seminário Propedêutico São Pio X / Especialista em Música Litúrgica e Liturgia/Coordenado do SAV (Serviço de Animação Vocacional) da Diocese da Campanha-MG 

  Transcrito por Priscila Magalhães/ Gravado por Bruno Henrique Santos /Gestor do Portal Terra de Santa Cruz / Adaptação: Portal Terra de Santa Cruz. 

 

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Especial Semana Santa: Sermão da Soledade de Maria, proferido pelo Pe. José Roberto de Souza em São Lourenço-MG

A Paróquia São Lourenço Mártir – São Lourenço(MG), recebeu o Padre José Roberto de Souza, pároco da Paróquia São Sebastião (Paróquia do Mártir) Varginha-MG, para proferir o Sermão da Soledade de Maria, meditação das Dores da Virgem Santíssima. O Sermão aconteceu na Igreja Matriz de São Lourenço após a Celebração Eucarística em seguida todos caminharam em procissão com a Imagem da Virgem Dolorosa.

CONFIRA NA ÍNTEGRA O SERMÃO COM EXCLUSIVIDADE DO PORTAL TERRA DE SANTA CRUZ

Prezados irmãos e prezadas irmãs,

Seguindo a tradição dos nossos antepassados e vivendo a tão importante piedade popular, celebramos o Setenário das Dores, meditando as dores pelas quais Maria Santíssima passou, assumindo toda a sua missão maternal, associando a sua vida à de seu filho, Nosso Senhor.

Hoje, em nossa meditação, desejo responder a uma pergunta: como foi que Maria Santíssima viveu as experiências dolorosas em sua vida? Mesmo sabendo que o seu sofrimento seria atroz, seguiu firme seu caminho. Penso que muitos de nós não seríamos capazes de continuar dando firmes passos, se nos fosse antecipadamente anunciado que dores e sofrimentos nos acompanhariam. Creio que facilmente voltaríamos atrás nos propósitos feitos e compromissos assumidos. Mas sabemos que Maria, a mãe de Jesus, não abandonou sua missão, ao contrário, entregou-se cada dia melhor a ela, cumprindo o que devia cumprir. Onde buscou força para suportar e atravessar tamanhas dores?

Irmãos na fé, antes de buscarmos as respostas a essa questão – “Onde Maria Santíssima buscou força para suportar e atravessar tamanhas dores?” –, recordemos que a mais terrível dor de Maria foi experimentar a ausência de Jesus. Quando sepultaram o corpo de Jesus, o coração da Virgem Mãe foi envolvido de uma dor profunda. Foi a espada da solidão que se cravou a sua alma. Na primeira dor, ela tinha Jesus recém-nascido em seus braços diante de Simeão e Ana; na segunda dor, ela o levava consigo, talvez a pé ou num pequeno animal, até o Egito, e de lá voltara; na terceira dor, o reencontrara no Templo; na quarta dor, pode vê-lo, falar com ele, trocar olhares; na quinta dor ouviu suas palavras de misericórdia em favor dos pecadores e as preces ao Pai. Seus olhares de mãe podiam ter o reflexo da solidariedade que amenizava a dor da paixão do Filho de Deus; na sexta dor, contemplava o corpo de seu filho e o lavava com as suas lágrimas e o acariciava com amor. E agora? Agora, na sétima dor, estava ausente de si o seu filho Jesus, não o via, nem sequer seu corpo morto. Ele não estava mais com ela. “Feliz o mármore que em breve abrigará teu corpo: e em meu lugar, no piedoso seio acolherá teus membros. Ao entrares na vida, foi em minhas entranhas que doce repousaste; ao sair dela, só uma pedra é que terás por leito.” (São José de Ancheita, Poema da Virgem)

Creio que semelhante sofrimento experimentam muitas outras mães; mães que vivem a dor de não terem mais seus filhos. Num dia triste, depositaram-nos no sepulcro e voltaram sós para suas casas. Os dias passam, os meses passam, os anos findam e nunca mais podem encontrá-los. Maria experimentou esta dor nos dias que se seguiram à morte de Jesus, antes da ressurreição. “Só! E ao redor de ti, Senhora, olhaste: gemia a solidão de extremo a extremo. E o infinito silêncio interrogaste com a clemência de teu olhar supremo.” ( Setenário das Dores, Alphonsos Guimarães).

A soledade de Maria foi uma aguda dor. É por isso que me ponho diante da pergunta: “Onde Maria Santíssima buscou força para suportar e atravessar tamanhas dores?” Era necessário buscar algo que a revestisse de fortaleza. Humanamente seria impossível suportar. Era necessário que sua vida fosse envolvida por outra experiência que lhe desse uma razão superior a seu sofrimento. E é isso que agora desejo compreender. Peço a Nosso Senhor e à Nossa Senhora que me deem as graças necessárias para que minhas reflexões sejam capazes de ajudar aquelas mães – e também os pais – que não têm mais consigo seus entes queridos. Que minhas reflexões possam ajudar-nos também nas superações de tantas dores que nos vêm quando estamos a cumprir nossa missão.

Foi na Fé, na Esperança e na Caridade que Maria buscou sua paz interior e sua força. Outras coisas não poderiam lhe dar força e a paz interior para atravessar suas dores. Maria encontrou a força necessária na fé, vivida na oração silenciosa; encontrou sua força na caridade, vivida no serviço aos irmãos; Maria encontrou sua força na Esperança, vivida na confiança ao Pai.

Irmãos, não sejamos medíocres na compreensão deste mistério, pois quando lemos os Sagrados Livros do Evangelho de Jesus nos deparamos com muitas passagens a nos contar que Maria Santíssima vivera intensamente sua fé na oração e no silêncio. Os Sagrados Textos nos mostram a Mãe de Jesus atenta à caridade. Desde pequena, Maria foi educada na tradição religiosa de seus pais, Joaquim e Ana, fortalecendo na alma a certeza de um Deus misericordioso que nunca abandona o seu povo. Prezados irmãos, seriamos medíocres se pensássemos que automaticamente, de uma hora para a outra, faríamos uma experiência verdadeira de Deus. Para desenvolvermos em nós a Fé, a Caridade e a Esperança devemos inserir-nos profundamente na comunidade, como vivera Maria, certos e convictos de que é a Igreja o  lugar onde estas experiências se tornam reais.

Retornemos ao fato que se segue ao Sepultamento de Jesus. Penso que todos vocês se recordam de que, no alto da Cruz, Jesus entregou sua Mãe ao Discípulo e o Discípulo à sua Mãe. Disse ao seu Apóstolo: “Eis aí a sua Mãe”; e à Mãe: “Eis aí o seu filho”. Estas palavras de Jesus foram uma verdadeira instituição da Maternidade de Maria para a Igreja. Todos os seus irmãos, gerados pelo Sacramento que jorrou do seu lado aberto, são agora entregues como filhos à sua Mãe. Ainda nos diz o Evangelho que Maria, após a Morte de Nosso Senhor, foi acolhida pelo Discípulo Amado em sua casa. Pois bem irmãos, qual é a casa do seguidor de Jesus? Qual é o lugar primeiro onde devem viver aqueles que receberão a graça de Deus? Estou certo de que muito além de uma casa construída de pedra ou de tijolos, o discípulo acompanhou Maria, agora sua mãe, para a comunidade. Maria Santíssima não teria descido o Calvário para se entregar a um tedioso ambiente onde a crença não é vivida. Ela foi para a comunidade. Vejam, prezados irmãos, que agora se desperta ao nosso entendimento um olhar novo e se acende em nossa espiritualidade uma luz na compreensão deste mistério, pois se a Mãe de Jesus e nossa vai para a comunidade após o sepultamento de seu filho é para viver o que sempre vivera. Ela não se desesperou. Manteve-se firme na Esperança, confiando no Deus de Amor e Compaixão. Ela não se prostrou sob suas dores, entregando-se à sua solidão, lamentando a morte de Jesus. Ela se pôs a fazer o que sempre fizera enquanto acompanhava Nosso Senhor: a Caridade. E entregue à oração, refletindo sobre tudo o que tinha acontecido, num silêncio reverente, alimentava a sua fé.

Entristeço-me quando ouço as pessoas dizerem que foram buscar a solução para a sua dor na ilusão do Espiritismo. O Espiritismo não traz nada de bom às pessoas, pois as ideias de psicografia não são verdadeiras. Espírito humano nenhum se comunica com a gente. Não existe psicografia. Mergulhar nesta ilusão é abandonar o verdadeiro Deus. Entristeço-me também quando vejo alguém que repete sem cessar que perdeu um familiar e se entrega num pranto eterno, a um choro inconsolável. E não menos corta minha alma de sacerdote quando ouço que pessoas se tornaram descrentes porque Deus não fez aquilo que elas queriam, como se Deus tivesse a obrigação de nos atender os pedidos insensatos que lhe dirigimos.

Irmãos, não estou a negar a dor que transpassa a alma de nossos irmãos que perderam entes muito queridos. Não nego que a vida destes nossos irmãos enlutados estejam uma soledade tão aguda quanto aquela vivida por Maria. Os que choram a morte de um familiar ou de um amigo devem de fato chorar. Os que sentem a tremenda dor da saudade devem de fato senti-la. Mas desejo que transponham o luto na experiência da Fé; que transponham o luto na doação de si mesmos na vivência da Caridade; que transponham o luto na certeza da presença do Deus Misericordioso, no qual podemos verdadeiramente colocar a nossa Esperança.

Por isso, exorto-os a seguirem fielmente o exemplo da Virgem Santíssima. É preciso que façamos nossa a experiência de Maria. Ela soube compreender os designíos Divinos, mantendo firme coerência mesmo na dor, no sofrimento, sendo discípula e missionária fiel.

Eu tenho certeza, prezados fiéis, que, se buscarmos em Deus nossa força, pelos caminhos traçados pela Virgem Mãe, não nos decepcionaremos, mas nos será possível fazer a mesma experiência de paz interior que fez Maria. Isso nos é tão concreto, pois temos milhares de testemunhos dos santos e santas que seguiram pelos mesmos passos de Maria. E nossa certeza se funda também na consciência de que somos acompanhados pelo Espírito Santo que nos foi entregue pelo Pai e o Filho. E na comunhão Trinitária não nos faltarão os auxílios necessários.

Quando a dor chegar a sua vida, lembre-se da Fé, da Caridade e da Esperança. Quando a dor chegar a sua vida, lembre-se da comunidade. Quando a dor chegar a sua vida, reze, seja um dom para o irmão no serviço caridoso e demore, mas demore mesmo no silêncio orante, de modo que possa ser levado à mais firme confiança em Deus.

Que Nossa Senhora da Soledade interceda por nós!

Por Padre José Roberto de Souza – Semana Santa 2016 

Foto: Mateus Costa / Paróquia São Lourenço Mártir

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Especial Semana Santa: Reflexão da Prisão do Senhor – Campanha-MG – (Sermão do Depósito)

 

 

Apresentamos o Sermão proferido pelo Seminarista Vinícius Thiago Amaral na noite desta segunda-feira santa, 22/03 na Catedral Diocesana da Campanha(MG).  Vinícius está na Paróquia Santo Antônio este ano de 2016 fazendo seu estágio pastoral, natural de Ilícinia (MG) filho da Diocese da Campanha-MG.

Com exclusividade e direitos ao Portal Terra de Santa Cruz

Evangelho De Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus

Então Jesus lhes disse: “Ainda esta noite todos vocês me abandonarão. Pois está escrito: ‘Ferirei o pastor, e as ovelhas do rebanho serão dispersas’.

Mas, depois de ressuscitar, irei adiante de vocês para a Galiléia”.
Pedro respondeu: “Ainda que todos te abandonem, eu nunca te abandonarei! “
Respondeu Jesus: “Asseguro-lhe que ainda esta noite, antes que o galo cante, três vezes você me negará”.
Mas Pedro declarou: “Mesmo que seja preciso que eu morra contigo, nunca te negarei”. E todos os outros discípulos disseram o mesmo.
Então Jesus foi com seus discípulos para um lugar chamado Getsêmani e disse-lhes: “Sentem-se aqui enquanto vou ali orar”.
Levando consigo Pedro e os dois filhos de Zebedeu, começou a entristecer-se e a angustiar-se.
Disse-lhes então: “A minha alma está profundamente triste, numa tristeza mortal. Fiquem aqui e vigiem comigo”.
Indo um pouco mais adiante, prostrou-se com o rosto em terra e orou: “Meu Pai, se for possível, afasta de mim este cálice; contudo, não seja como eu quero, mas sim como tu queres”.
Então, voltou aos seus discípulos e os encontrou dormindo. “Vocês não puderam vigiar comigo nem por uma hora? “, perguntou ele a Pedro.
“Vigiem e orem para que não caiam em tentação. O espírito está pronto, mas a carne é fraca”.
E retirou-se outra vez para orar: “Meu Pai, se não for possível afastar de mim este cálice sem que eu o beba, faça-se a tua vontade”.
Quando voltou, de novo os encontrou dormindo, porque seus olhos estavam pesados.
Então os deixou novamente e orou pela terceira vez, dizendo as mesmas palavras.
Depois voltou aos discípulos e lhes disse: “Vocês ainda dormem e descansam? Chegou a hora! Eis que o Filho do homem está sendo entregue nas mãos de pecadores.
Levantem-se e vamos! Aí vem aquele que me trai! “
Enquanto ele ainda falava, chegou Judas, um dos Doze. Com ele estava uma grande multidão armada de espadas e varas, enviada pelos chefes dos sacerdotes e líderes religiosos do povo.
O traidor havia combinado um sinal com eles, dizendo-lhes: “Aquele a quem eu saudar com um beijo, é ele; prendam-no”.
Dirigindo-se imediatamente a Jesus, Judas disse: “Salve, Mestre! “, e o beijou.
Jesus perguntou: “Amigo, que é que o traz? ” Então os homens se aproximaram, agarraram Jesus e o prenderam.

Deus escolheu o que o mundo considera como fraco, para assim confundir o que é forte; Deus escolheu o que para o mundo é sem importância e desprezado, o que não tem nenhuma serventia, para assim mostrar a inutilidade do que é considerado importante,  para que ninguém possa gloriar-se diante dele. É graças a ele que vós estais em Jesus Cristo, o qual se tornou para nós, da parte de Deus: sabedoria, justiça, santificação e libertação. (I Cor. 27b-30)

Transcorreram-se 33 anos da gruta de Belém até o momento que estamos contemplando nesta noite. Uma História contada e que não fala ao passado, mas fala a cada um de nós. Quis Deus, O Uno/Bem, A verdade, O amor e A misericórdia se manifestar aos homens através do seu primogênito, Jesus Cristo. Na condição de filho, tornou-se um de nós, se igualando à pessoa Humana e tratando-a como nunca, ninguém jamais havia visto amor tão grande. O Senhor Jesus transcendeu a história e o tempo, e olhou não para o conceito particular de pessoa, de pessoa humana e não para o conceito geral de “humanidade”, olhou para a pessoa humana carregada de pecados, de depressões, de desvios, de fragilidade, mas também de amor, de sede da verdade e de liberdade. Ele assim potencializou essa sede, ofereceu todos os caminhos para chegar a fonte da felicidade, que é a sua Palavra. Entretanto, não nos aprouve acolher a Palavra Encarnada vinda ao mundo. A vaidade humana traiu mais uma vez a Deus.

A noite que nos encobre testemunha um acontecimento: Um Homem está preso, sofrendo em sua alma silenciosa e fiel, recompensando a perigosa e violenta vida dos vícios humanos. Esta cena, trata-se do prelúdio do sofrimento salvífico, da constituição de um novo gênesis, onde a Justiça e a Moral fidedigna, se entrega como flagicídio e transgressão. É o  subdesenvolvimento, a fome, a  inópia, a míngua, penúria, necessidade, pobreza,indigência, mazelas, , mendicâncias, privações , carências,escassezes,o desamparo,apego,infelicidade, adversidade, desgraça, sofrimento, é o preconceito humano que se reflete neta prisão.

Compete trazer aqui a imagem da alegoria platônica, que nos conta a cerca de três prisioneiros que passaram toda sua vida no interior de uma caverna contemplando as sombras que passavam em sua frente, um dia um destes prisioneiros conseguiu fugir. Ao sair da caverna foi ofuscado com a luz do dia, pois nunca a tinha visto nem sentido, mas aos poucos fora retomando sua visão e percebendo que aquelas imagens formadas na parede da caverna eram pessoas que carregavam imagens e objetos, que refletidos por uma fogueira, enviava para as paredes da caverna as sombras que os prisioneiros contemplavam. Este que conseguira fugir contemplou também o mundo, e feliz por sua descoberta, voltou para a caverna contando as maravilhas que havia visto e sentido, mas aqueles que estavam acomodados com as sombras refletidas na caverna, não entendiam sua mensagem e o taxaram como alucinado, louco, imbecil. E não tardaram em mata-lo, eliminando o que para eles eram uma ameaça, alucinação.

Meus queridos irmãos e minhas queridas irmãs, nós não estamos diferentes dessa realidade, assim como não estiveram os contemporâneos de Jesus. Vivemos numa grande caverna, aprisionados por nossas vontades, por nossos desejos, pelos prazeres que em sua maioria não nascem de nós, mas são frutos da mídia e do mercado capitalista e massacrador, que possuem como marketing a promessa de liberdade e felicidade, de prazer total e prosperidade. Que criam sempre mais necessidades para adaptá-las aos seus produtos e esses a nós, que forma nossas opiniões segundo um ponto de vista interesseiro, artificial e capitalista. Pessoas se matam pelo orgulho, pensando que suas verdades e ideologias são a lei, pessoas se matam em busca de falsas felicidades, de pequenos momentos de prazer que se transformam em vícios, pessoas se matam trabalhando demasiadamente em vista de vida melhor.

A diferença entre classes é sempre mais pontuada, porque ainda é imposto que ser pobre é sinônimo de vagabundagem e escolha, quando ser rico é sinônimo de trabalho e dignidade. Confirmamos e regredimos a uma antiga moral onde ser pobre e ser rico é mais que uma condição ou estado de ser, mas é uma justificativa natural. O pobre é pobre e não está pobre por alguma razão, “é menos inteligente”, “nasceu para servir”,” para ser governado”,” não pensa”, “recebe ordens”, acorda cedo e cumpre sua obrigação de servir aos grandes, direta ou indiretamente, para ganhar a gratificação de suas horas trabalhadas, não de sua força ou de sua vida perdida no trabalho. De fato, a máxima que diz: “o trabalho dignifica o homem” deveria assim ser praticada, para a dignificação e não para a servidão, prisão ou morte.

É triste perceber ainda, que nesta imensa prisão, existem vidas que são matáveis, que não fazem diferença, porque nunca acrescentaram. Neste momento inúmeras pessoas estão sendo presas com o Senhor, perseguidas e massacradas porque seus gritos não são ouvidos, são vozes mínimas, são pequenas demais diante do enorme sistema capitalista. A vida delas é óleo para que a engrenagem do sistema gire mais forte e se torne inabalável, a vida delas é matável, afinal, estão longe de nós, que razão teríamos tomarmos consciência dos milhares que morrem, por exemplo, no Iraque, na República democrática do Congo, na Síria, no Egito, na Líbia, nos Conflitos causados pelo Boko Haram na Nigéria, no Iêmen? Se fossemos estudar, pesquisas revelam que de 162 países, somente onze não estão em guerra.

E eu vos pergunto, diante disso, o que nos deixa deprimidos ou depressivos hoje? O que nos deixa desorientados e perdidos? O que nos traz indignação ou depressão é o sapato ou a roupa de marca que não conseguimos comprar, é uma palavra mal colocada de alguém, é a nossa vontade de beleza, é a nossa falta de dinheiro para futilidades, é uma bronca que não conseguimos aceitar por nossa vaidade. Onde se encontra a nossa tristeza e depressão diante disso? Essa imagem serve para nos mostrar os quão acomodados e presos estamos dentro dessa carverna. Sim, a vida matável não nos incomoda, o sofrimento do mais pobre não nos incomoda, as desgraças dos menos favorecidos terminam quando se encerra o jornal, porque estamos confortados em nosso sofá e prontos a assistimos mais um capítulo da novela. Exemplo disso é uma multidão de almas simples sendo chacinada diariamente, é a vida de crianças ceifadas pelo tráfico de órgãos, isso não se mostra ou se defende, enquanto quatro burgueses são mortos, e escrevemos em nossas redes sociais, escrevemos muitas matérias em jornais, com o título: “Je suis ….” “Nós somos eles”, se mostra, se ostenta estas mortes, mas porquê? Porque as vidas deles merecem mais atenção do que a dos outros nossos irmãos?

 O que mais dizer da caverna que vivemos? São tantos políticos que passam atrás de nós, com imagens falsas, com promessas obsoletas de melhorias e deixam seu povo morrer de fome, de sede, de progresso, engolindo para si a saúde coletiva, engolindo para si o dinheiro de cofres públicos, engolindo para si o desenvolvimento social e cultural, engolindo para si milhares de hospitais públicos que funcionam pela misericórdia do povo. Políticos que assassinam a educação de inúmeras crianças, assassinam o desempenho político através do discurso e da democracia justa e não justificado por partido A ou B, assassinam a consciência crítica de nosso povo, porque dentro de si emana um desejo ideal de riqueza insaciável, de enganar-nos a qualquer custo para nos vender e filiar-nos em tempos de pseudo-eleições à suas pseudo-bondades, pseudo-compaixões, à suas máscaras de santos quanto erguem dentro de si um castelo de demônio. Enquanto isso, 100 milhoes de brasileiro vivem sem saneamento básico, sem tratamento de esgoto, sem coleta de lixo. O que é progresso? E nós queremos sim, gritar, protestar por direito, pela execução da lei, pela verdade, pois é a nossa casa comum, casa que Deus preparou para cada um de nós. Senhores eleitos por nós, pelo povo de Campanha, de Minas e do Brasil, é o seu povo, esse não é o desenvolvimento que queremos!

Que possamos sair sim às ruas e lutar para ver o “direito brotar como fonte e correr a justiça qual riacho que não seca” (Am, 5,24). Gritar e fazer valer a democracia instituída, não podemos ser mais prisioneiros das vontades dos grandes,  não podemos mais aceitar o descaso com a nossa saúde, com a educação de nossas crianças e jovens. Como nos lembra Papa Francisco Não há esforço de pacificação duradouro com uma sociedade que abandona parte de si mesma.”Aos senhores Servidores Públicos eleitos pelo povo de Campanha e do Estado, queremos lembrar-vos de vossos compromissos com a vida social digna, que volteis o vosso olhar para a terra que nasceram , sutentaram e elegeram, para seus irmãos que estão morrendo físico e moralmente, frutos de ganâncias.  Pois Aquele que é justo, justiça fará por cada um de nós.

O que dizer da caverna que vivemos, em que tantos falsos profetas passam atrás do nosso povo, fazendo-os acreditar numa fé insólita,  numa fé que traz prosperidade, carros, mansões, fazendas, empresas, roupas de marca? O que dizer desses falsos profetas que vomitam em nosso povo a vontade do Ter e os prende à ambição de poder, que fazem nosso povo pagarem e justificarem seus dízimos altíssimos para o seu deus estranho a nossos olhos na perspectiva espiritual, mas na verdade, estão construindo um verdadeiro império para si, um feudo que cria sempre mais vassalos submissos. Se tornam coronéis de hoje e o povo simples se transforma mais uma vez inconscientemente, em escravos, trabalhando, vivendo e desgastando-se para seus pastores-coroneis.

O que dizer também de líderes religiosos tão inteligentes e probos, eruditos e instruídos, que se envolvem em escândalos e esquecem de sua responsabilidade de pastor, de seu ministério “segundo o coração de Cristo”, enviados a curar, perdoar, e amar, quando cometem crimes contra à vida plena que o Senhor nos deseja. Seja a pedofilia, a relativização das leis de Deus, ou tratando o povo de Deus simples, com grosserias e brutalidades, com menosprezo e ridicularização, depositando no povo sua vontade reprimida. Ninguém, mas absolutamente ninguém deve descontar no outro o que necessita enfrentar em si e consigo mesmo. Ninguém, mas absolutamente ninguém é culpado por seus pecados a não ser você mesmo, indivíduo particular, pois o Senhor olha em ti, pessoa, e não o condena, mas como fez com Maria Madalena, chama à vida mais perto d’Ele, para o arrependimento, conversão, vida plena, mas clama: Não peques mais

É o Senhor Jesus quem nos lembra a cerca dos falsos pastores:  3Por isso, vocês devem fazer e observar tudo o que eles dizem. Mas não imitem suas ações, pois eles falam e não praticam. 4 Amarram pesados fardos e os colocam no ombro dos outros, mas eles mesmos não estão dispostos a movê-los, nem sequer com um dedo. 5 Fazem todas as suas ações só para serem vistos pelos outros. Contudo, meus queridos irmãos, Jesus ainda nos lembra, e nos mostra também nesta noite, olhando para sua imagem aprisionada, que: “o Meu fardo é leve”.

E não podemos esquecer de inúmeros pastores e sacerdotes, religiosos e religiosas que como o Senhor se encurvam diante de nossas necessidades, procuram curar nossas feridas, faz-nos mais santos, permitem-nos beber da fonte que também bebem, que é água pura, água de sabedoria e de amor, água de misericórdia, que é o Senhor Jesus. Tantos “homens e mulheres de Deus” que deixaram se aprisionar e se consumir por este projeto amor, tantos mártires, tantos santos que ainda vivem e dão testemunho com suas próprias vidas que o Senhor é conosco!

Somos também tentados a prender o Senhor em nossas doutrinas. Prende-lo em conceitos, na história, nos livros, na ciência. Prendê-lo ora ourificando-o, limitando-o à pompa, ao ouro, aos grandes e belíssimos templos, ora fechando as portas das Igrejas, deixando-o de lado, à margem, e colocando nossos interesses no centro, ou a verdade de teologias que não são sinceras à veracidade da pessoa de Deus. Defende-se o uso de Muito ouro, glória, fausto, ostentação, ritos e rubricas ao pé da letra, ou ainda, muitos absurdos, prendendo-o no pecado, na pobreza moral, na intolerância. Mas se esquece que as ações de julgamento, são contrárias ao reino de Deus. De fato, se pode afirmar, que o senhor não é conhecido por faustas vestes nem por chapéus de palha, mas pelo seu justo equilíbrio, por sua sensatez, por seu amor. Não o mandamos manifestar em ninguém, o espirito santo não é exclusividade nossa, a oração simples e a erudita possuem o mesmo valor. Somente veremos Deus nestes elementos, se vivermos como ele viveu, se amarmos como ele amou.

Sentados, nessa imensa caverna, acomodados pela realidade que nos cerca, aquele que conseguiu escapar sem experimentar do pecado, que veio a nos contar sobre uma felicidade alcançada através da verdade, da simplicidade, do amor austero e oblativo, está aqui, está preso novamente, nós o prendemos, é a realidade dos nossos dias. Nós não admitimos o diferente, exemplo disso são as inúmeras pessoas que morrem nas fronteiras tentando uma vida melhor, os inúmeros migrantes que migram de suas terras para tentarem uma vida mais digna, e se deparam com nações descendentes de Hitler, com pessoas com sangue nazista, essa realidade não está muito distante de nós. Pensamos que nossa “raça” é a pura, que nossa cidade não tem vez para estrangeiros, que nossa família é melhor do que as outras, que a cor de nossa pele ostenta nosso carácter e dignidade, quando aquele que estamos seguindo nos mostra que existe uma única raça que é a humana, uma única família, que é a de Deus. O diferente nos incomoda, ronda-nos uma falsa liberdade religiosa, quantos mártires de hoje, estão sendo mortos no estado islâmico, quantas barbáries realizadas em nome de deus? Meus irmãos esse deus nós não o conhecemos, ele não existe, esse deus que quer a conversão a custo de morte, que admite a barbárie, o assassinato de opiniões, que não acolhe a prece de outras crenças não existe, esse deus está morto! O Deus verdadeiro, se mostra em Jesus, e está vivo, nos concede a graça da liberdade, da opção, nos faz perceber o outro independente de sua religião, de sua raça, condição financeira ou sexual.

E quantos jovens são discriminados por nós, cristãos católicos, “raça pura”, que vamos à missa e participam de novenas e procissões, que fazem barulho para pedir “impeachment”, mudança, as vezes sem até mesmo saber a causa do protesto, mas não fazemos barulho para tantas mortes de jovens gays, para tantas mortes de jovens drogados, para tantas mortes de jovens envolvidos na prostituição, mas pelo contrário, nós ajudamos a matar, e sabem como? Com nossa língua, nossos comentários assassinos! A mudança sempre começa de cada um de nós, afinal, não somos totalmente santos, e se fossemos, não conheço santo que fora canonizado por julgar o outro, ser do outro juiz. Já está na hora de mudarmos essa realidade, de sermos filhos completos de Deus, porque ninguém da testemunho da ressureição e do amor de Deus se é escravo de sua própria língua e de seu preconceito.

Eu gostaria de sugerir nesse momento que você apertasse a mão do seu irmão, ou desse nele um abraço caloroso, como sinal de nossa irmandade e desejo de mudança. Nossa cidade precisa disso, nosso mundo precisa disso, de olhar para o outro, de perceber o outro, e acolhe-lo como irmão, e igual a mim.

Jovens, vejam o nosso Deus, aqui, em Jesus aprisionado, suas mãos estão atadas, mas em seu coração permanece o desejo fidedigno de nossa felicidade, de nosso encontro com Ele, esse desejo não morre, porque ninguém se encontra com Ele e permanece a mesma pessoa, ninguém olha nos olhos do Senhor e não é tocado por essa bondade e esse amor. Jovens, Jesus não olha sua condição, não o julga por isso, não o julga por seus questionamentos ou falta de fé. Seguir Jesus não é um mico, não é motivo de vergonha ir à missa, participar de uma pastoral ou ministério, confessar-se, mas pelo contrário, trata-se de ser para nós, uma honra, estar próximos de Jesus, caminhar com Ele, seguir com ele aonde quer que ele vá, e leva-lo aonde quer que nós o vamos.

Mas pode ser que agora, nesta noite, percebendo que estamos dentro de uma caverna, aprisionados pelo medo, pela tristeza, pelas ideologias, pela politicagem e falsidade, contemplando o Senhor preso, sem poder nada fazer por sua própria vontade,   contemplando um homem, humilhado, traído por quem amava, um homem confundido como criminoso que vai à cela e a julgamento. “Onde está o sábio? Onde está o homem culto? Onde está o argumentador deste mundo? “ (I Cor. 20) Ele está aqui, aprisionado. “Acaso Deus não tornou louca a sabedoria deste mundo? (I Cor. Cor. 20b) Podemos questionar em nosso íntimo: esse não parece ser o nosso Deus! Ele é um mais um enganador… Porque não se solta e mostra para os que o odeiam que de fato é o Enviado de Deus? Contudo, a linguagem da prisão e da cruz é loucura oara aqueles que se perdem. Mas para aqueles que se salvam, para nós, é poder e glória, é poder de Deus (1 Cor. 18). A verdade é que ele tomava sobre si nossas enfermidades e sofria, ele mesmo, nossas dores. Ele foi ferido, entregue, por causa de nossos crimes, a punição a ele imposta era o preço da nossa paz e suas feridas, o preço da nossa cura.

Charles Brown cantou:

“Fico sem saber pra onde vou
Quando vejo a situação do mundo em que estou
Destilar meu ódio ou só falar de amor
Sabe-se lá a diferença entre os olhos que enxergam
E os que não querem enxergar
Mas se eu berrar no microfone
Que onde não existe a paz, não existe o amor
A subida é longa e a selva é de pedra
Onde os valores apodrecem na miseria
Um mundo que se move nem sempre a seu favor
Você precisa ter coragem pra provar o seu valor
E a vida é o que é e só ha um caminho,
Quem não poi fé em si e em Deus esta sozinho.
A gente tem que provar todos os dias quem a gente é.”

Irmãos, e de fato, este que vemos aprisionado provou-nos quem ele é, está se entregando por cada um de nós, por uma vida digna, sem ódio, sem guerra, sem inveja. Olhai para este homem e percebei vossas fraquezas, vossas misérias, percebei o mundo,  caverna em que estamos, e diferente dele, nossa escolha deve ser nos soltar, quebrar as correntes que nos prendem ao ódio do outro, à falta de perdão, aos vícios, à riqueza, é um bem que faremos a nós e aos outros, à nossa Casa Comum. Quebrar as algemas que nos prendem, é por fé no mundo, é lutar ativamente em favor de políticas públicas que melhorem nossa qualidade de vida, é provar para nós mesmos, que nosso Deus deixou ser entregue e lutou para melhorar a nossa vida, para nos dar decência.

O senhor nos pede, não deixeis para depois. Somos protagonistas da realidade que existe aos nossos olhos, somos libertos para constituirmos a verdade ou apoiarmo-mos na mentira. Somos libertos pela prisão deste homem, somos curados, ele é a honestidade, o amor e a verdade materializada.

Que ao voltarmos para nossas casas não esqueçamos de relembrar este momento, esta reflexão. Que os Pais, abracem  os filhos, e digam a eles que os ama, isso quebrará qualquer corrente, e que vocês filhos abraçem os vossos pais, e provem a eles o amor de vocês pelo respeito. Pois nenhum pai quer ver o filho preso nos vícios, ou morto por eles, e nenhum filho quer ver os pais como inimigos, presos nos vícios, na falta de diálogo, de carinho e afeto.

O Senhor se entrega mais uma vez, vai a prisão para nos mostrar que é possível e necessário sairmos da caverna,  que é hora de não termos medo dos  grandes, de questionar, de debater e lutar, é hora de abraçarmos uns aos outros e sermos sensíveis aos dramas do outro, é hora de lutar contra o mal da depressão, contra o mal do acúmulo e do desperdício.É hora de mostrarmos que nós não o abandonaremos mais uma vez, que queremos cumprir seu projeto de amor. É hora de defendermos a nossa igreja, nossa religião, mas também sermos sensível e percebermos as coisas boas que existem também nas outras.   Saíamos da caverna que nos prende às ideologias, a partidos políticos, a leis estranhas a nossa qualidade de vida. Saímos da prisão de ideologias e pontos de vista e de doutrinas que nos fazem preconceituosos, racistas, homofóbicos, nativistas e tantos outros, que nos acorrenta cada vez mais. Saíamos das nossas verdades, das nossas belezas, dos nossos perfumes, procuremos ouvir o outro, ver o outro, aceitar o outro.

Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo! Para sempre seja louvado!

Por 

Campanha, março de 2016 – Ano da Misericórdia

Adaptação: Portal Terra de Santa Cruz