Arquivo da categoria: Liturgia

Sacrosanctum Concilium: O valor da Assembleia Litúrgica II

No nosso espaço Memória Histórica, 50 anos do Concílio Vaticano II, vamos continuar a tratar na edição de hoje sobre a reforma litúrgica trazida pelo evento conciliar.

Na reforma litúrgica do Concílio Vaticano II, é possível distinguir claramente 10 aspectos de renovação a partir da Constituição Sacrosanctum Concilium. Neste espaço Memória Histórica, vamos abordar um a um destes aspectos. Na edição de hoje, damos continuidade ao tema iniciado no programa passado, “O valor da Assembleia Litúrgica”. Padre Gerson Schmidt:

“No programa anterior falamos do valor da assembleia Litúrgica, como um dos 10 aspectos da renovação da liturgia proposta pela Sacrosanctum Concilium.

Hoje continuamos a aprofundar esse primeiro aspecto do VALOR DA ASSEMBLÉIA LITÚRGICA. Apontamos o número 1140 – do Catecismo da Igreja Católica, onde diz que “É toda a comunidade, o corpo de Cristo unido à sua Cabeça, que celebra.

“As ações litúrgicas não são ações privadas, mas celebrações da Igreja, que é o ‘sacramento da unidade’, isto é, o povo santo, unido e ordenado sob a direção dos Bispos. Por isso, estas celebrações pertencem a todo o corpo da Igreja, influem sobre ele e o manifestam”(CIC, 1140). Não podemos, portanto, privatizar a liturgia, mas olhar a Eucaristia dentro da visão de que a assembleia litúrgica é um corpo orante, onde todos os membros celebram e atuam a seu modo. Tudo parte da visão das imagens da Lumen Gentium de que a Igreja é o Corpo Místico de Cristo ou Povo de Deus que caminha.

Não vamos a missa para simplesmente cumprir individualmente um preceito dominical, mas nos encontrar e celebrar com a comunidade a que pertencemos como membros participativos de uma Igreja (Ecclesia – assembleia dos convocados pela Palavra).

No número 1141, do Catecismo da Igreja Católica continua a expressar a importância da Assembleia Litúrgica, dizendo assim: “A assembleia que celebra é a comunidade dos batizados, os quais, “pela regeneração e unção do Espírito Santo, são consagrados para serem casa espiritual e sacerdócio santo e para poderem oferecer um sacrifício espiritual toda atividade humana do cristão”.

Este “sacerdócio comum” é o de Cristo, único sacerdote, participado por todos os seus membros: A mãe Igreja deseja ardentemente que todos os fiéis sejam levados àquela plena, consciente e ativa participação nas celebrações litúrgicas que a própria natureza da liturgia exige e à qual, por força do batismo, o povo cristão, “geração escolhida, sacerdócio régio, gente santa, povo de conquista” (1 Pd 2,9), tem direito e obrigação”. Dessa participação ativa da assembleia litúrgica, como direito e obrigação, falaremos ainda mais adiante.

As diretrizes mais importantes que a Sacrosanctum Concilium dá para a reforma da liturgia estão em relação com as deficiências mais notáveis existentes na vida litúrgica dos cristãos: a desconexão com a Palavra de Deus e a perda do sentido comunitário. Por culpa destes fatores, a religiosidade de muitos católicos tinha perdido contato com a fonte genuína, que é sempre a Palavra de Deus como expressão de sua vontade e de seu desígnio de salvação, e se havia refugiado num individualismo egocêntrico e de horizontes muito limitados.

A Igreja deseja agora reformar a liturgia nesta dupla direção: abrir com maior abundância os tesouros da Palavra de Deus e destacar com mais intensidade e eficácia o aspecto comunitário das ações litúrgicas, buscando resgatar a todo o custo a participação plena, ativa e fecunda dos fiéis nas celebrações[1].

As estruturas das novas construções dos templos, a partir do Concilio, já contemplam uma visão mais comunitária, com o estilo das construções em forma mais oval e arredondada, permitindo a todos visualizarem e participarem melhor do Mistério Pascal celebrado. Seria um contrassenso fazer hoje as igrejas-templos como antigamente, de forma mais vertical e clerical. Há uma nova mentalidade, fruto da eclesiologia de comunhão e participação”.

Por Pe. Antonio Élcio de Souza / Pe. José Humberto Motta – Faculdade Católica de Filosofia e Teologia da Arquidiocese de Ribeirão Preto, in: https://arquidioceserp.org.br/cearp/edicoes/1/1440703136.pdf

Por Radio Vaticano

Adaptação: Portal Terra de Santa Cruz

Adicione o nosso perfil no facebook, fale conosco!

Curta nossa página no Facebook e conheça o nosso canal 

Anúncios

O alcance do discurso do Papa sobre a Liturgia pós-conciliar

“As palavras do Papa retumbam em louvor à reforma litúrgica que é lida em estreita conexão com a renovação da Igreja querida, promovida e efetivada na esteira do Concílio Vaticano II. Implica dizer, então, que negar a reforma litúrgica é negar o Concílio”, escreve Márcio Pimentel, presbítero da Arquidiocese de Belo Horizonte, especializado em Liturgia pela PUC-SP e música ritual pela FACCAMP, assessor eclesiástico para a Liturgia na mesma Arquidiocese, membro da Equipe de Trabalho para o Espaço Sagrado para a Catedral Cristo Rei e Mestrando em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Teologia e Filosofia (FAJE), bolsista da CAPES.

Eis o artigo.

A reforma litúrgica que se deu a partir das recomendações vivas dos participantes do Concílio Vaticano II, registradas na Constituição sobre a Sagrada Liturgia vem sendo interpretada no conjunto dos últimos dez anos – no mínimo – como uma tragédia para a Igreja. No marco da publicação do Motu Próprio Summorum Pontificum (exatamente há uma década), reconhece-se hoje em dia uma verdadeira confusão instaurada nas comunidades. A pretensa abertura àqueles que estavam apegados ao rito tridentino, completamente reformado depois do Concílio, oportunizou precedentes para que o fruto mais maduro do Concílio fosse questionado não apenas em sua recepção, que teria dado origem aos famosos “abusos litúrgicos”, mas também e sobretudo na sua legitimidade. “Não era bem isso que os padres conciliares queriam com a reforma”, argumenta-se. Assevera-se que a crise eclesial se instaurou como consequência da reforma litúrgica.

No mínimo, instaurou-se um amplo mal-estar em diversos setores da Igreja. Relativizar e – pior – negar a riqueza e importância da reforma litúrgica, quase que criminalizando-a, tornou-se o ‘apostolado’ de não poucos sites dedicados à Liturgia. Soma-se a esta empreitada, a idealização de um movimento de “marcha-à-ré”, na direção de repropor a liturgia pré-conciliar como remédio para os supostos disparates produzidos pela ‘modernização’ da Liturgia. Há livros publicados que ensinam o passo-a-passo para que se enriqueça o Missal fruto da reforma com as prescrições do Missal Tridentino. Uma operação – em si mesma – completamente sem sentido, já que este último foi, sim, revogado em uso para a Igreja Latina. Embora haja quem negue com veemência, seria suficiente observar as palavras de Paulo VI a respeito da instauração do novo Missal, depois de apresentar com certo detalhe as mudanças substanciais em relação ao Missal Trindentino:

Por fim, queremos dar força de lei a tudo que até aqui expusemos sobre o novo Missal Romano. Nosso predecessor, São Pio V, promulgando a edição-príncipe do Missal Romano, apresentou-o ao povo cristão como fator da unidade litúrgica e sinal da pureza do culto da Igreja. Da mesma forma, nós, no novo Missal, embora deixando lugar para “legítimas variações e adaptações”(15), segundo as normas do Concílio Vaticano II, esperamos que seja recebido pelos fiéis como um meio de testemunhar e afirmar a unidade de todos, pois, entre tamanha diversidade de línguas, uma só e mesma oração, mais fragrante que o incenso, subirá ao Pai celeste por nosso Sumo Sacerdote Jesus Cristo, no Espírito Santo. […]

Tudo o que aqui estabelecemos e ordenamos queremos que seja válido e eficaz, agora e no futuro, não obstante a qualquer coisa em contrário nas Constituições e Ordenações Apostólicas dos nossos predecessores, e outros estatutos, embora dignos de menção e derrogação especiais.

E é esse mesmo Paulo VI que se tornou o advogado de Francisco em seu discurso aos participantes da Semana Litúrgica Nacional em Roma. Em diversos momentos de sua mensagem, o Papa cita Paulo VI. É importante registrar um fato. Curiosamente, Bento XVI não é lembrado em seu magistério litúrgico no âmbito das contribuições para que a reforma se estabelecesse e fincasse raízes.

Na verdade, é mais do que curioso. A ausência de alguma referência a Bento XVI é muito significativa, uma vez que em seu discurso o Papa cita todos os Pontífices que trataram da questão litúrgica, desde Pio X até João Paulo II. Saltando Bento XVI, refere-se a si mesmo em suas posições por ocasião da Evangelii Gaudium e também n’alguma homilia proferida em seu pontificado.

É bom recordar que Bento XVI tornou-se o patrono e a referência fundamental para aqueles que advogam a “finada” reforma da reforma. Uma expressão reprovada pela própria Santa Sé recentemente, na ocasião em que se propôs inserir elementos do Missal Tridentino – no caso a orientação versus Oriens – em celebrações do Advento passado.

As palavras do Papa retumbam em louvor à reforma litúrgica que é lida em estreita conexão com a renovação da Igreja querida, promovida e efetivada na esteira do Concílio Vaticano II. Implica dizer, então, que negar a reforma litúrgica é negar o Concílio. Aliás, o perfil mais comum dos pequenos grupos aderentes ao teorema da “reforma da reforma”, fortalecido pela legitimidade do que se denominou “forma extraordinária do Rito Romano”, é de pessoas avessas às grandes aquisições de caráter – sobretudo – eclesiológico e ecumênico do Concílio Vaticano II. Quem nega a reforma em geral, nega o Concílio em suas mais significativas posições no processo de aggionarmento da Igreja. Note-se, inclusive, que esses grupos tem certa assistência de gente muito jovem e que não conheceu como as coisas eram antes do Concílio não apenas em matéria litúrgica, mas na complexidade da trama eclesial. Estas pessoas defendem que se retorne ao que chamam de usus antiquor (que não é o mais antigo, assim se sabe ao menos quem conhece a história da liturgia no Ocidente). Mas o Papa foi muitíssimo claro: “a reforma litúrgica é irreversível.” Neste sentido, como muita lucidez o Pontífice afirma que não é momento para que se ponha em questão a reforma litúrgica, revisando suas escolhas, como se estas não tivessem sido acertadas e portanto, devessem ser anuladas. Antes, o Papa recomenda estuda-la e conhece-la com profundidade.

Embora as fontes do Papa em seu pronunciamento seja preponderantemente magisteriais ou diretamente litúrgicas, é possível reconhecer traços de uma teologia da liturgia recente. Sobretudo quando Francisco aborda a Liturgia como uma realidade viva na qual atua Cristo mesmo na diversidade ministerial que compõe o Povo de Deus. Ao reconhecer como fruto da reforma a apropriação do culto da Igreja pela própria Igreja e não apenas pelo clero, a perspectiva do pontífice se identifica com aquela de teólogos como Andrea Grillo, cujas contribuições tem sido muito significativas no que consta da avaliação teológica da reforma e também na crítica ferrenha ao movimento de retorno ao passado, ancorado no Motu Proprio Summorum Pontificum e sobretudo, na instrução Universa Ecclesia. Outro aspecto diz respeito a conceber a liturgia não como um conjunto de rubricas a obedecer ou textos a recitar, mas como ação ritual pela qual o Evangelho se faz carne no corpo da assembleia. Uma “escola de vida cristã” para citar suas palavras.

Particularmente, penso que estas palavras de Francisco são um bálsamo para muitos de nós, padres e estudiosos da liturgia, que temos assistido a um desmonte progressivo por parte de grupetos sem formação consistente e com forte apelo ideológico. É muito triste verificar que a forma ritual da fé se vê enfraquecida por iniciativas, algumas inclusive de aparência inofensivas: altar abarrotado de velas, identificação da ars celebrandi com o cumprimento das rubricas, vestimentas ‘retrô’, desencorajamento da comunhão na mão e no pão e vinho, uso de véus por parte das mulheres, desconfiança e repúdio de elementos genuinamente culturais como a dança seja consideradas nas celebrações, promoção do latim, apreciação da Missa Tridentina como um ritual excêntrico ao qual se convida os amigos para frequentar etc. Na verdade, essa maneira de atuar, revela um desconforto com os modelos de Igreja oriundos do Concílio, disfarçado de piedade e devoção. Uma aventura na qual os desavisados embarcam com grande prejuízo para a vida de fé em seus desafios e urgências na contemporaneidade.

POR INSTITUTO HUMANITAS 

Adaptação: Portal Terra de Santa Cruz

Papa: superar leituras infundadas e superficiais da reforma litúrgica, que é irreversível

“Não basta reformar os livros litúrgicos para renovar a mentalidade (…), a educação litúrgica de Pastores e fiéis é um desafio a ser enfrentado sempre de novo”.” Depois deste magistério e  depois deste longo caminho, podemos afirmar com segurança e com autoridade magisterial que a reforma litúrgica é irreversível”.

Ao encontrar na manhã desta quinta-feira na Sala Paulo VI os participantes da Semana Litúrgica Nacional italiana, o Papa Francisco falou sobre a irreversibilidade da reforma litúrgica, recordando – ao começar seu pronunciamento – os acontecimentos “substanciais e não superficiais” ocorridos no arco dos últimos 70 anos na história Igreja e em particular, “na história da liturgia”.

O Concílio Vaticano II e a reforma litúrgica – disse o Papa – são dois eventos diretamente ligados, “que não floresceram repentinamente, mas foram longamente preparados”, como testemunha o movimento litúrgico “e as respostas dadas pelos Sumos Pontífices às dificuldades percebidas na oração eclesial”. “Quando se percebe uma necessidade – observou – mesmo se não imediata a solução, existe a necessidade” de começar a fazer algo.

Francisco começa por citar, neste sentido, São Pio X, que dispôs uma reordenação da música sacra e a restauração celebrativa do domingo, além de instituir “uma comissão para a reforma geral da liturgia, consciente de que isto comportaria” um grande e longo trabalho, mas que daria “um novo esplendor” à dignidade e harmonia do “edifício litúrgico”.

Um projeto reformador que foi retomado mais tarde por Pio XII com a Enciclica Mediator Dei e a instituição de uma comissão de estudo, sem falar em decisões como “a atenuação do jejum eucarístico, o uso da língua viva no Ritual, a importante reforma da Vigília Pascal e da Semana Santa”.

O Concílio Vaticano II fez amadurecer mais tarde – recordou o Papa –  “como bom fruto da árvore da Igreja, a Constituição sobre a Sagrada Liturgia Sacrosanctum Concilium”, cujas linhas da reforma geral respondiam às necessidades reais e à concreta esperança de uma renovação, “para que os fiéis não assistam como estranhos e mudos espectadores a este mistério de fé, mas compreendendo-o por meio dos  ritos e das orações, participem da ação sagrada conscientemente, piamente e ativamente (SC, 48)”.

O Papa recorda que “a direção traçada pelo Concílio encontrou forma, segundo o princípio do respeito da sã tradição e do legítimo progresso nos livros litúrgicos promulgados pelo Beato Paulo VI”, já há quase 50 anos “universalmente em uso no Ritual Romano.

E a aplicação prática, guiada pelas Conferências Episcopais para os respectivos países, está ainda em andamento, pois não basta reformar os livros litúrgicos para renovar a mentalidade”:

“Os livros reformados por norma dos decretos do Vaticano II, introduziram um processo que requer tempo, recepção dos fiéis, obediência prática, sábia atuação celebrativa por parte, antes, dos ministros ordenados, mas também dos outros ministros, dos cantores e de todos aqueles que participam da liturgia. Na verdade, o sabemos, a educação litúrgica de Pastores e fiéis é um desafio a ser enfrentado sempre de novo”.

“O próprio Paulo VI, um ano antes de sua morte – recordou o Papa – dizia aos Cardeais reunidos em Consistório: “Chegou o momento, agora, de deixar cair definitivamente os fermentos desagregadores, igualmente perniciosos em um sentido e em outro, e de aplicar integralmente nos seus justos critérios inspiradores, a reforma por nós aprovada em aplicação aos votos do Concílio”. E completou:

“E hoje ainda há trabalho a ser feito nesta direção, em particular redescobrindo os motivos das discussões realizadas com a reforma litúrgica, superando leituras infundadas e superficiais, recepções parciais e práticas que a desfiguram. Não se trata de repensar a reforma revendo as suas escolhas, mas de conhecer melhor as razões subjacentes, também por meio da documentação histórica, como de interiorizar os princípios inspiradores e de observar a disciplina que a regula. Depois deste magistério e  depois deste longo caminho, podemos afirmar com segurança e com autoridade magisterial que a reforma litúrgica é irreversível”.

Após “repassar com a memória este caminho”, o Papa falou sobre alguns aspectos do tema que guiou a reflexão nestes dias do encontro do Centro de Ação Litúrgica: “Uma liturgia viva para uma Igreja viva”:

“A liturgia é “viva”, afirmou Francisco, e “sem a presença real do mistério de Cristo, não existe nenhuma vitalidade litúrgica. Como sem o batimento cardíaco não existe vida humana, da mesma forma, sem o coração pulsante de Cristo não existe ação litúrgica”. “E entre os sinais visíveis do invisível Mistério está o altar, sinal de Cristo pedra viva, descartada pelos homens mas que se tornou a pedra angular do edifício espiritual em que é oferecido a Deus vivo o culto em espírito e verdade”.

A liturgia – disse depois o Papa – “é vida para todo o povo da igreja. Por sua natureza, a liturgia é de fato “popular” e não clerical, sendo – como ensina a etimologia – uma ação para o povo, mas também do povo”:

“A Igreja em oração acolhe todos aqueles que têm o coração na escuta do Evangelho, sem descartar ninguém: são convocados pequenos e grandes, ricos e pobres, crianças e idosos, saudáveis e doentes, justos e pecadores. À imagem da “multidão imensa” que celebra a liturgia no santário do céu, a assembleia litúrgica supera, em Cristo, todo limite de idade, raça, língua e nação”.

 “A dimensão “popular” da liturgia nos recorda que ela é inclusiva e não exclusiva, criadora de comunhão com todos, sem todavia homologar, porque chama cada um com a sua vocação e originalidade, a contribuir no edificar o corpo de Cristo”.

Não devemos esquecer – alertou o Papa – que a liturgia expressa a piedade de todo o povo de Deus e nela cada um contribui a edificar o corpo de Cristo.

A liturgia – disse o Papa analisando um terceiro ponto – é vida e não uma ideia a ser entendida. “Leva de fato a viver uma experiência iniciática. Ou seja, transformadora do modo de pensar e de comportar-se e não para enriquecer a própria bagagem de ideias sobre Deus”:

 “A Igreja é realmente viva se, formando um só ser vivo com Cristo, é portadora de vida, é materna, é missionária, sai ao encontro do próximo, solícita de servir sem buscar poderes mundanos que a tornam estéril. Por isto, celebrando os santos mistérios, recorda Maria, a Virgem do Magnificat”.

Por fim, o Papa recorda que “não podemos esquecer que a riqueza da Igreja em oração enquanto “católica” vai além do Rito Romano que, mesmo sendo o mais difundido, não é o único’:

“A harmonia das tradições rituais, do Oriente e do Ocidente, pelo sopro do mesmo Espírito dá voz à única Igreja orante por Cristo, com Cristo e em Cristo, a glória do Pai e para a salvação do mundo”.

Ao agradecer a visita o Papa encoraja os responsáveis do Centro de Ação Litúrgica a prosseguir e a ajudar “os ministros ordenados, assim como os outros ministros, os cantores, os artistas, os músicos, a cooperarem para que a liturgia seja “fonte e ápice da vitalidade da Igreja””.

O pronunciamento do Papa Francisco pode ser conferido na íntegra – no momento apenas em italiano – no link: https://goo.gl/BqSQb9

Por Rádio Vaticano 

Portal Terra de Santa Cruz 

Usemos a espada do discernimento para eliminar o mal

Temos de ter a prudência do Espírito e usar a espada para não permitirmos que a força do mal predomine naquilo que nós estamos fazendo

“Não penseis que vim trazer a paz à terra; não vim trazer a paz, mas sim a espada” (Mateus 10, 34).

As palavras do Mestre Jesus, ao cair em nosso coração, num primeiro momento, podem até causar certa estranheza, pois Ele é o príncipe da paz. Mas quando Ele diz que não veio trazer a paz, não se refere à paz que nós conhecemos, fruto do Espírito Santo, que é tão necessária para a nossa alma.

Há uma certa ilusão, um certo engano em relação à paz. Algumas pessoas acham que ter paz é estar tudo OK, estar tudo muito bem, não se preocupar com nada, deixar a vida andar do jeito que está. Essas pessoas não entram em conflito com ninguém nem deixam as coisas acontecerem.

Pense, chega alguém para fazer algo errado na sua casa e você diz: “Não entrarei em conflito com ele”. É óbvio que você vai se levantar para proteger sua casa, sua família, pois está entrando coisas erradas na sua casa. Você não pode ficar de braços cruzados dizendo: “Eu sou da paz”, isso não é ser da paz, pelo contrário, isso é entregar-se a um espírito muito errado e perverso do conformismo com as coisas erradas.

O Senhor diz que Ele não veio trazer essa paz, esse lema de “paz e amor” que usam por aí: “Eu quero viver a paz e o amor com todo mundo”. Temos que viver a paz uns com os outros, temos de amar uns aos outros, mas isso não significa aceitar tudo que é errado, não quer dizer que eu vá abraçar tudo o que vem do outro, só para ficar tudo bem. Mesmo na casa em que nós vivemos, se você vive numa casa onde o irmão, o filho, o pai, a mãe trazem algo que não vai edificar, que não será para o bem daquela casa, é preciso usar a espada do Espírito.

Usar a espada do Espírito não é criar guerra, conflito, brigar uns com os outros. Não é essa espada! A espada do Espírito é a espada do discernimento.

Você pega uma manga, mas um pedaço dela está estragado, você pega a espada e corta, joga aquela parte estragada fora, porque se não ela vai estragar toda a manga, isso vale para outros frutos. Precisamos logo cortar, porque, se demorarmos, o mal cresce e estraga tudo.

Muitas coisas estragaram em nossa casa, na nossa família, na nossa sociedade, na igreja em que estamos, porque não usamos a espada do discernimento, da sabedoria, da prudência para eliminar aquilo que não convém, que não vai edificar, aquilo que não é do Espírito que traz a verdadeira paz.

No mundo, há muitas coisas que são ervas daninhas, que crescem e depois fazem mal; temos de cortá-las, senão estragam toda a plantação. Por isso o Senhor está nos dizendo que não podemos ficar na passividade, aquela que aceita tudo e está em conforme com tudo.

Temos de ter a prudência do Espírito e usarmos a espada para não permitirmos que a força do mal predomine naquilo que nós estamos fazendo. É essa graça, essa divisão, essa separação que Jesus veio fazer no meio de nós. Ele quer que façamos essa divisão, para que, assim, possamos viver a paz e o amor no meio de nós.

Deus abençoe você!

Por Padre Roger Araújo – Sacerdote da Comunidade Canção Nova

Foto/Reprodução: Portal Terra de Santa Cruz