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Lutero, o urubu que se achava o “cisne” da suposta profecia de Huss

Há um fenômeno interessante no meio protestante: eles minimizam a importância da Sagrada Tradição, mas botam a mão no fogo por todo tipo de supostas profecias originadas em seu meio.

Uma das “prufissias” mais caras aos filhos de Lutero e Calvino é a que conta que, diante da estaca em que seria queimado na fogueira, o herege Jan Huss teria dito: “Hoje vocês assarão um ganso (o nome “Huss” significa “ganso”), mas daqui a cem anos Deus enviará um cisne que vocês não conseguirão assar”. E o tal cisne seria Martinho Lutero – um bebum roliço que em nada se assemelhava a tão graciosa criatura, nem no corpo, nem no espírito.

Lutero, na verdade, poderia muito bem ser comparado a outra ave: o urubu. Ele se alimentou da doutrina podre de seus predecessores Wiclyfe e Jan Huss, como um urubu se alimenta da carniça.

Alguns protestantes ficaram pistola com uma postagem nossa fanpage em que afirmamos que essa história não passa de MITO. Na pretensão de nos refutarem, os afoitos vieram com uma suposta “fonte primária”: uma carta de Poggio o Papista, um católico ilustre que teria sido testemunha ocular da morte de Huss.

Só tem um problema com essa “fonte primária” de Poggio: ELA É FALSA. O Dr. Matthew Spinka, historiador respeitável, em um artigo publicado no site de da Universidade de Cambridge, explica:

This delightfull story is unfortunalely a none too clever forgery.”

Tradução: “Essa história deliciosa, infelizmente, é uma falsificação não muito inteligente.”

Outra forte evidência contra a tal “prufissia” do cisne: Peter de Mladoňovice, que tinha Huss como mestre, não cita em nenhum momento esse blá blá blá de cisne. Peter foi testemunha ocular de sua morte, e a descreveu em detalhes.

O nosso leitor Thiago Cruz também descobriu que um PASTOR PRESBITERIANO do século XIX, David Schley Schaff, escreveu um livro explicando os motivos do porquê a carta de Poggius sobre a morte de Huss é uma falsificação. Esta informação está no “appendix II” do livro “John Huss: his life, teachings and death, after five hundred years”. Este livro está disponível gratuitamente na internet (veja aqui).

Para enterrar a questão de vez com uma pá de cal, apresento a seguir uma investigação brilhante e minuciosa do meu amigo Rodrigo Figueiroa (que NÃO é católico).

A “PROFECIA DE HUSS” INVESTIGADA

Por: Rodrigo Figueiroa

A história é que Poggius Bracciolini, secretário do anti-papa João XXIII, teria escrito duas cartas para seu amigo Leonhard Nikolai onde relatava os últimos dias de prisão de Jan Huss, o herege. Poggius teria ido visitar Huss na esperança de que ele se redimisse. Na segunda Carta, Poggius cita a “profecia do cisne”.

Mas acontece que essas cartas não existem no original e só aparecem numa tradução muito tardiamente – em alemão, em 1840. Eu então procurei saber de onde poderia ter surgido essa história de cisne e o que, de fato, Huss disse – se é que disse algo. E, afinal, o que Lutero sabia disso?

Lutero acreditava que a profecia do cisne se referia a ele, mas ele diz:

São John Huss profetizou sobre mim quando ele escreveu de sua prisão em Bohemia, “eles assarão um ganso agora, mas depois de cem anos ouvirão um cisne cantar, e terão que suportá-lo”. (Commentary on the Alleged Imperial Edict, 1531)

Opa… Escreveu da prisão?! Isso significa que a versão que Lutero conhecia da profecia é DIFERENTE da versão contada pelo “testemunho” do papista Poggius o Florentino, que diz que Huss profetizou durante sua execução, e não da prisão.

Isso também difere do “testemunho” de John Foxe citado muitas vezes em 1500s, que fala da profecia na execução, e também menciona um cisne. O depoimento de Foxe de que o brasão de Lutero tinha um cisne é questionável; não existe nenhuma representação contemporânea.

O fato é que Lutero nasceu em Eisleban, onde o brasão mostra um par de asas brancas. Daí a dizer que é um cisne é meio forçado. John Foxe, aliás, não é testemunha nenhuma; ele é um martirologista puritano que reuniu histórias de mártires da Reforma.

O que temos de Huss são cartas de prisão, como Lutero diz. Nas cartas Huss realmente fazia muitas analogias a si mesmo com o trocadilho “ganso”: diz que o ganso estava preso na rede, mas que um dia “outros pássaros, que pela Palavra de Deus e por suas vidas voarão para lugares mais altos, vão despedaçar suas redes” (Carta de Huss de Outubro de 1412). Huss fala de outros futuros reformadores e os compara com pássaros, mas não um cisne especificamente.

E há uma carta escrita por um companheiro de Huss informando os fiéis sobre a situação de seu líder, que conclui o seguinte:

Escrito em Constance no sábado antes de Martinmas. O Ganso ainda não está cozido, e não tem medo de ser cozido, porque este ano a véspera de St. Martin cai no sábado, quando os gansos não são comidos! (John Cardinalis, 10 de novembro de 1414)

Isso é intrigante, porque mostra que Huss e seus amigos já estavam pensando em termos de “o ganso sendo cozido”, assim como dito mais tarde na profecia. Então essas analogias já existiam em correspondência.

O dito testemunho de fonte primária não é nada primário – a menos que alguém apresente o manuscrito original da carta de Poggius para Leonhard Nikolais em italiano ou latim. Porque a única fonte que temos destas cartas são as traduções para alemão e inglês feitas por uma suposta Beda von Berchem em 1930. Isso significa que durante a época de Lutero, a sua fonte para a profecia NÃO era o testemunho de Poggius.

Beda von Berchem usou duas cartas de Poggius e escreveu o livro “O Julgamento de Huss, por Fra. Poggius, o Papista”. Na suposta carta, Poggius diz que no momento em que a fogueira foi acesa, Huss teria dito:

Então ele cantou em verso, com uma voz exultante, como o salmista no trigésimo primeiro salmo, lendo de um papel em suas mãos:

Em ti, ó Senhor, eu ponho minha confiança,
Inclina o teu ouvido para mim.

Com essas orações cristãs, Hus chegou à fogueira, olhando sem medo. Ele subiu em cima dela, depois que dois ajudantes do carrasco rasgaram suas roupas dele e o vestiram em uma camisa encharcada de piche. (…) Os carrascos agarraram cordas umedecidas, amarraram as mãos e os pés da vítima para trás à estaca, espremeram lã encharcada de óleo entre seus membros e a estaca e esvaziaram tanto óleo sobre sua cabeça que escorreram de sua barba e ouviram sua oração: “Senhor Zebaoth! Tome este pecado deles!”.

Ludewig subiu e rezou com fervor para que Hus renunciasse, para que pudesse ser poupado de uma morte nas chamas. Mas Hus respondeu: “Hoje você vai assar um ganso magro, mas daqui a cem anos você ouvirá um cisne cantar, a quem você deixará livre e nenhuma armadilha ou rede o pegará para você.”

Bem, acontece que sabemos da boca do próprio Lutero que ele conhecia a profecia como dita através das CARTAS DE HUSS NA PRISÃO, e não do testemunho de outras pessoas. Inclusive porque essa passagem profética NÃO ESTÁ nos autos do julgamento, e não é mencionada por uma testemunha ocular da época, cujas cartas – essas sim – eram conhecidas na época de Lutero: Peter de Mladonovic:

Relatório de testemunha ocular do site do evento 
Como foi executado Jan Hus 
Peter de Mladonovic: desenrolar da paixão do mestre Jan Hus

Peter de Mladonovice (falecido em 1451), um escritor de primeira escolta de Hus Sir Jan de Chlum para Constance e lá ele aprendeu todos os detalhes do julgamento e execução de Hus. De suas primeiras notas foi logo criado a intenção de relatar todos os detalhes do amado Mestre, e assim compôs as relações em latim. Jan Hus que por seu alcance, e importância equivalente, pertence dentro da crônica. O próprio autor a chamou de “história”. No total, todo o trabalho tem cinco partes. O mais importante é a terceira e quinta parte, na qual a narração de Peter atinge um alto nível de crônica.

A quinta seção tornou-se de alguma forma independente e foi usada durante o culto nas feriados de Hus como Evangelho (cartas de Hus de Constança, em seguida, substituiu a epístola), primeiro em latim, mas muito em breve em checo. A tradução dessa parte, feita também por Peter (talvez já em 1417-1420) Tornou-se amplamente difundida em cópia e depois na impressão e tornou-se para o utrakvist tcheco uma espécie de contrapartida equivalente à narração bíblica sobre a crucificação de Cristo. A amostra aqui está mostrando a última rota de Huss da catedral do bispo, onde ele foi julgado por heresia, condenado pelo conselho e queimado na fogueira, morrendo heroicamente em 6 de julho de 1415 . Ele está sendo introduzido a partir da tradução do original em latim para o inglês (NY Columbia University Library…):

. . . mas antes disso eles colocaram em sua cabeça uma coroa de papel para a difamação, dizendo-lhe entre outras coisas: “Nós entregamos a sua alma ao diabo!” E ele, unindo as mãos e levantando os olhos para o céu, disse: “E eu entrego ao mais misericordioso Senhor Jesus Cristo por causa de mim, um miserável infeliz, tem uma coroa de espinhos muito mais pesada e dura. Sendo inocente, ele foi considerado merecedor da mais vergonhosa morte.Portanto, eu, um infeliz miserável e pecador, humildemente suportarei esta coroa muito mais leve, ainda que vilificante para o Seu nome e verdade “.

A coroa de papel era redonda de quase dezoito polegadas de altura, e nela foram mostrados três diabos horríveis prestes a apoderar-se de uma alma e a rasgar entre si com garras. A inscrição na coroa descrevendo sua culpa dizia: “Este é um heresiarca”.

Então o rei disse ao duque Ludwig, o filho do falecido Clem da Baviera, que então estava diante dele em suas vestes, segurando a esfera de ouro com a cruz em suas mãos: “Vá recebê-lo!” E o filho do dito Clem recebeu o Mestre, entregando-o nas mãos dos executores para ser levado à morte.

Quando foi coroado, ele foi então conduzido da referida igreja; eles estavam queimando seus livros naquela hora no cemitério da igreja. Quando, de passagem, ele viu, sorriu a esse ato. A caminho, na verdade, ele exortou os que estavam ao redor ou seguiu-o para não acreditar que ele morreria por causa de erros falsamente atribuídos a ele e deposto pelo falso testemunho de seus principais inimigos. De fato, quase todos os habitantes daquela cidade, carregando armas, o acompanharam até a morte.

E tendo chegado ao local da execução, ele, dobrando o joelho e esticando as mãos e voltando os olhos para o céu, cantou com devoção os salmos e particularmente: “Tem piedade de mim, Deus” e “Em Ti, Senhor, Eu confiei, “repetindo o verso” em Tuas mãos, Senhor “. Seus próprios amigos, que estavam ali, ouviram-no orando alegremente e com um semblante alegre.

O local da execução era entre os jardins de um certo prado, como se fosse de Constança em direção à fortaleza de Gottlieben, entre os portões e os fossos dos subúrbios da dita cidade. Alguns dos leigos que estavam em pé disseram: “Não sabemos o que ou como ele agiu e falou anteriormente, mas agora, na verdade, vemos e ouvimos que ele ora e fala com palavras sagradas”. E outros disseram: “Certamente seria bom que ele tivesse um confessor para ser ouvido”. Mas um certo padre em um terno verde com um forro de seda vermelho, sentado em um cavalo, disse: “Ele não deve ser ouvido, nem um confessor ser dado a ele, pois ele é um herege”.

Mas o padre John, enquanto ainda estava na prisão, confessara a um certo médico, um monge, e fora gentilmente ouvido e absolvido por ele, como ele mesmo declarou em uma das cartas a seus [amigos] da prisão. Quando ele estava orando, a coroa ofensiva já mencionada, pintada com três demônios, caiu de sua cabeça. Quando ele percebeu, ele sorriu. Alguns dos soldados contratados disseram: “Coloque-o novamente para que ele possa ser queimado junto com os demônios, seus senhores, a quem ele serviu na terra”.

E levantando-se à ordem do carrasco do lugar onde ele estava orando, ele disse em voz alta e clara, para que seus [amigos] pudessem claramente ouvi-lo: “Senhor Jesus Cristo, estou disposto a suportar com paciência e humildade esta morte terrível, ignominiosa e cruel para o Teu Evangelho e para a pregação do Mundo Tímido “. Então eles decidiram levá-lo entre os espectadores. Ele insistiu e implorou a eles que não acreditassem que, de qualquer forma, ele pregasse, pregasse ou ensinasse os artigos com os quais ele foi acusado por falsas testemunhas.

Depois de ter sido despojado de sua roupa, ele foi amarrado a uma estaca com cordas, as mãos amarradas às costas. E quando ele foi virado para o leste, alguns dos espectadores disseram: “que ele não fique em sintonia com o leste, porque ele é um herege; mas vire-o para o oeste”. Então isso foi feito.

Quando ele estava amarrado ao pescoço com uma corrente de fuligem, ele olhou para ele e, sorrindo, disse aos carrascos: “O Senhor Jesus Cristo, meu Redentor e Salvador, estava preso por uma corrente mais dura e pesada. E eu, um miserável desgraçado, não me envergonho de suportar ser ligado para o seu nome por este “. A estaca era como um espesso poste de meio pé de espessura, eles afiavam uma ponta dela e a fixavam no chão daquele prado. Eles colocam dois feixes de madeira sob a alimentação do Mestre. Quando amarrado a essa estaca, ele ainda estava com os sapatos e um grilhão nos pés. De fato, os ditos feixes de madeira, intercalados com palha, estavam empilhados ao redor de seu corpo, de modo que alcançassem seu queixo. Pois a madeira equivalia a dois vagões – ou cargas de carga.

Antes de ser aceso, o marechal imperial, Hoppe de Poppenheim, aproximou-se dele junto com o filho do falecido Clem, como foi dito, exortando-o a salvar sua vida por renunciar e retratar sua antiga pregação e ensino. Mas ele, olhando para o céu, respondeu em voz alta: “Deus é minha testemunha”, exclamou ele, “que as coisas que são falsamente atribuídas a mim e das quais as falsas testemunhas me acusaram, eu nunca ensinei ou preguei. Mas que a intenção principal da minha pregação e de todos os meus outros atos ou escritos era unicamente que eu poderia afastar os homens do pecado. ”E nessa verdade do Evangelho que eu escrevi, ensinei e preguei está de acordo com as declarações e exposições do doutores santos, estou disposto a morrer de bom grado hoje “.

E ouvindo isso, o dito marechal com o filho de Clem imediatamente bateu palmas e recuou.

Quando os carrascos acenderam imediatamente [o fogo], o Mestre imediatamente começou a cantar em voz alta, a princípio “Cristo, Filho do Deus, tem misericórdia de nós”, e em segundo lugar, Cristo, Tu filho do Deus, tem misericórdia de mim “, e em terceiro lugar,” Tu que és nascido de Maria, a Virgem “. E quando ele começou a cantar pela terceira vez, o vento soprou a chama em seu rosto. E assim orando dentro de si e movendo seu lábios e a cabeça, ele expirou no Senhor. Enquanto ele estava em silêncio, ele parecia se mover antes de realmente morrer por mais ou menos tempo que alguém pode rapidamente recitar “Pai Nosso” dois ou no máximo três vezes.

Quando a madeira desses feixes e cordas foi consumada, mas os restos do corpo ainda estavam nas correntes, penduradas pelo pescoço, os carrascos puxaram o corpo carbonizado junto com a estaca até o chão e os queimaram ainda mais, adicionando madeira de o terceiro vagão para o fogo. E andando por aí, eles quebraram os ossos com bastões para que eles fossem incinerados mais rapidamente.

E encontrando a cabeça, eles a partiram em pedaços com os porretes e novamente a jogaram no fogo. E quando eles encontraram seu coração entre os intestinos, eles afiaram um porrete como um espeto, e, empalando-o em sua extremidade, eles tomaram um cuidado especial para assá-lo e consumi-lo, perfurando-o com lanças até que finalmente toda a massa se transformou em cinzas.

E, por ordem do dito Clem e seu marechal, os carrascos jogaram a roupa no fogo junto com os sapatos, dizendo “Para que os tchecos não a considerassem como relíquias; nós lhe pagaremos por isso”. O que eles fizeram. Então eles carregaram todas as cinzas em uma carroça e jogaram no rio Reno fluindo nas proximidades.”

– Peter de Mladonovic, Paixão de Mestre Jan Huss, 1415 (Poslany sboru kostnickemu proti upaleni mistra Jana Husa)

Peter de Mladonovic, um fiel seguidor de Huss, descreve em detalhes a execução de seu mestre, e no mesmo momento citado por Poggius, quando o príncipe Ludowig se aproxima da fogueira e pede que Huss se arrependa. O discípulo anota as palavras do mestre, mas veja: NÃO CITA NENHUMA PROFECIA.

Por que os autos do julgamento e um seguidor empenhado em posterizar as últimas palavras de seu mestre não citam a profecia, e um funcionário católico de Roma cita quase um panegírico cheio de elogios em relação a um herege?

Por que ninguem usa a carta de Poggius como testemunho antes de sua tardia publicação em ingles e alemão?

Por que Lutero não sabe nada da profecia na execução, e sim a cita tendo origem em cartas de prisão?

Tudo indica forja e interpolação tardia. Do contrário, Peter de Mladonovic teria citado a profecia, a parte mais importante da execução, um fechamento épico! Mas não cita. Apenas essa tal Beda Von Berchem, que traduziu as cartas em 1930 para on inglês, cita tal coisa. E procurando sobre ela, vi que seus únicos trabalhos são papéis em 1936 sobre “A Reabilitação do Exército Sérvio em 1916”.

Não é por causa de Poggius que Lutero acreditou na profecia, nem por causa dele que vemos Lutero associado com cisnes. Foi o Historiador John Foxe, o mesmo que fez a associação do Brasão de Lutero com um cisne, que também relatou que Huss teria profetizado um cisne:

Quando as lápides foram empilhadas até o pescoço, o duque da Baviera foi tão discreto a ponto de desejar que ele fosse abjurado. “Não, (disse Huss;) eu nunca preguei nenhuma doutrina de tendência maligna; e o que ensinei com os meus lábios agora selo com o meu sangue. Ele então disse ao carrasco:“ Agora você vai queimar um ganso, (Huss significando ganso na língua boêmia 🙂 mas em um século você terá um Cisne que você não pode assar nem ferver.”

Foxe NÃO FOI testemunha do evento. O que temos aqui é que alguém, tardiamente, transformou Poggius em uma testemunha A PARTIR da descrição de Foxe; outra testemunha do evento, muito mais interessada e revelada anteriormente, não menciona profecia nenhuma!

Sem as cartas originais de Poggius, é bem possível supor que ele tenha sido mesmo testemunha dos eventos, mas as evidências de uma interpolação são muito grandes, não apenas por ser uma tradução tardia como destoa dos testemunhos anteriores, e se harmoniza com os de um historiador lutherano que não presenciou os eventos.

O que temos de fato sobre Huss e “profecias de pássaros”, são suas cartas da prisão, mas ele não cita nenhum pássaro em específico, tanto que a profecia citada por Lutero aparece sob outras formas, com outros tipos de ave.

O que fez Lutero se associar com Huss e suas profecias foi, na realidade, um sonho na noite anterior a 31 de outubro de 1517: o eleitor Frederico da Saxônia teve um sonho que foi registrado por seu irmão, o duque João. O sonho, em suma, é sobre um monge que escreveu na porta da igreja de Wittenberg com uma pena tão grande que chegava a Roma. Quanto mais as autoridades tentavam quebrar a pena, mais forte ela se tornava. Quando perguntado sobre como a pena ficava tão forte, o monge respondeu: “A pena pertencia a um velho ganso da Boêmia, com cem anos de idade.” Na mesma manhã, ele compartilhou seu sonho, e Martin Luther estava postando suas teses.

Lutero já se considerava um “seguidor” de Huss, e por isso nada de extraordinário que as pessoas tenham sonhado esta associação, prevendo que naquele dia o monge faria suas teses públicas. Mas a parte do “cisne” vem totalmente do próprio Lutero, que se coloca entre as muitas aves citadas nas cartas de Huss.

Por que Lutero se via como um cisne? Minha opinião é que isso tenha a ver sim com o famoso “sonho de Sócrates” e o cisne de Platão, um tema poético e bem conhecido. Mas fora minha opinião, vemos que Foxe já fazia a associação com as asas brancas no brasão de Lutero, apesar das asas não serem especificamente de um cisne, e foi Foxe quem colocou um cisne na boca de Huss.

Por incentivo do próprio Lutero, que se dizia o cisne profetizado de Huss, muitas imagens de Lutero ao lado de um cisne começaram a ser feitas.

Então eu mantenho: NÃO TEMOS TESTEMUNHOS PRIMÁRIOS QUE AFIRMEM QUE HUSS PROFETIZOU UM CISNE. O que temos é uma publicação tardia que DIZ ser um testemunho contemporâneo. Aqui temos todas as cartas de Jan Huss na prisão, e apesar dele fazer analogias com gansos e futuras aves não especificadas como mencionei acima, ele não cita nenhum cisne. Este site tcheco (veja aqui) mostra as cartas. Deve-se notar que nenhuma das cartas de Hus sobreviveu no original; são apenas descrições ou descrições de cópias que datam do século XVI.

Outra fonte que foi misturada às cartas de Huss e deram corpo à “profecia” de Foxe foi que numa carta datada de 5 de março de 1415, que Huss escreveu a John de Chlum, ele quer interpretar esse sonho:

Eu pensei que eles queriam destruir todas as pinturas de Cristo em Belém e de fato as destruíram. Eu me levantei no dia seguinte e vi muitos pintores, que faziam as fotos mais bonitas e maiores, e eu olhei para eles com alegria e os pintores disseram ao povo abundante: “Que os bispos e sacerdotes venham e os destruam!” Quando aconteceu, muitas pessoas se alegraram em Belém e eu com elas, e acordei imaginando que estava sorrindo.

Na carta seguinte a Peter de Mladoňovice, Huss menciona a interpretação do sonho acima mencionado, que ele recebeu de seus amigos quando ele escreve:

… a vida de Cristo, que eu atraí em Belém por sua palavra no coração dos homens, e que destruiriam em Belém, , para que não apareça nas capelas e Belém (proibição do Papa Alexandre de 20 de dezembro de 1409 ) , então que Belém deve ser comparada com a terra (decreto sobre a destruição da capela de 1412) que a vida de Cristo retratará melhor muitos pregadores melhores do que eu , para a alegria de um povo que ama a vida de Cristo – e eu me regozijarei nela … quando crescer, isto é, quando ressuscitar dos mortos ” . (Uma Mensagem do Mestre Jan Hus em Constança por Petra de Mladoňovice, publicado pela Charles University em 1965)

Ou seja, não tem nenhuma profecia. O tempo todo nas cartas ele fica falando que novos pregadores melhores que ele viriam.

E de onde Foxe tirou o cisne que quis tanto associar com Lutero, para dar suporte ao próprio Lutero se associando com o cisne de Huss? Jan Agricola, o precursor dos restauradores do mestre John Hus, foi em 1525 leu o manuscrito em latim sobre a execução de Huss por Peter de Mladoňovice que já vimos, na biblioteca do médico Paul Rockenbach. Ele então escreveu nos versos da tragédia Jan Hus. Um verso, em seguida, lê:

Você inocentemente cometeu uma peça traiçoeira, 
quando você assou os pobres gansos. 
Seu grito era repugnante para você. 
Eu te digo outros dias: 
De dia e de dia, 
Digo-te a voz dos profetas. 
O cisne branco será novamente ouvido 
uma música que o mundo todo ouvirá.

Lutero se achava um cisne e se colocou entre as muitas “aves” que Huss cita em suas cartas na prisão, que são a única fonte da qual Lutero conhece qualquer “profecia” de Huss. Variadas aves eram imaginadas – Ogden Kraut em “95 teses” (Genola, UT: Pioneer Publishers, 1975) menciona uma ÁGUIA. Foxe pegou a “profecia poema” de Jan Agrícola e colocou na boca de Huss, porque citava o Cisne de Lutero. Séculos depois, alguém publicando as cartas de Poggius o Florentino coloca a mesma profecia de Foxe na boca de um testemunho de um inimigo de Huss. O problema é que o mais leal seguidor de Huss, que registrou fielmente seus dizeres, não menciona nada a respeito. Porém esse testemunho, que é o mais importante e revelado mais antecipadamente, é ignorado. Isso mais do que prova que não teve profecia nenhuma.

E mais: um documento postado no site de Cambridge, da American Society Church History, diz que as Cartas de Poggius sobre a morte de Huss, traduzidas por Beda von Berchem, são falsas:

Uma forja não muito esperta. Consiste de duas cartas, supostamente escritas pelo humanista Poggio Bracciolini, um dos secretários da Cúria Romana no Concílio de Constancia, a um amigo. Elas realmente são um romanceamento histórico, uma diabrete contra o Papado. A verdadeira intenção de enganar está no titulo: o livro afirma ser a primeira tradução em ingles do original alemão publicado em 1523 e duas vezes reimpresso. A autenticidade desta obra é questionável desde que a primeira edição em Alemã é de fato de 1840.

Poggius Bracciolini, um prolífico escritor de cartas e colecionador de livros, tem muitas cartas sobreviventes no original, mas – adivinha! -, essa não se pode encontrar em lugar nenhum.

A dita profecia é uma montagem em cima de “disse que disse” não corroborado pela testemunha mais legítima, o hussita Peter de Mladoňovice; e o dito “testemunho de Poggius” é altamente suspeito, sem validade, em um texto que o autor começa a mentir já no título!

Artigo retirado do excelente e credenciado site O CATEQUISTA  O Catequista

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Cruzadas: Deus queria e muitos santos também!

Como os católicos de hoje avaliam o fenômeno das Cruzadas? Em geral, há dois grupos extremados: o dos que renegam e condenam o seu espírito e os que louvam as Cruzadas fervorosamente, sem enxergar nenhuma mácula nesse passado.

As Cruzadas foram acontecimentos complexos, muito difíceis de julgar com a mentalidade que temos hoje. Se por um lado os fãs do espírito cruzado muitas vezes romantizam demais as Cruzadas, por outro lado, aqueles que as desprezam se distanciam da opinião de alguns dos maiores santos da Igreja.

Olha só o nível da lista de alguns dos santos e beatos apoiadores das Cruzadas:

  • Santa Joana D’Arc ameaçou os hereges hussitas de promover uma Cruzada contra eles;
  • Santa Catarina de Sena vivia clamando pela convocação de uma Cruzada pela libertação de Jerusalém (isso foi citado até mesmo por São João Paulo II, na Carta Apostólica Amantíssima Providentia, de 29/04/1980);
  • Beato Urbano II convocou a Primeira Cruzada;
  • São Bernardo de Claraval foi um fervoroso pregador da Segunda Cruzada;
  • São Luís IX foi um Rei Cruzado que liderou a Sétima e a Oitava Cruzada;
  • Santa Teresinha de Lisieux vivia dizendo eu adoraria ter combatido os hereges com a espada.

Sim, ela mesma! Aquela santa fofinha, que em suas imagens é sempre retratada carregando flores delicadas, tão delicadas quanto os traços de seu belo rosto. Santa Teresinha dizia:

Sinto em mim a vocação de guerreiro, de sacerdote, de apóstolo, de Doutor, de mártir, em suma, eu sinto a necessidade, o desejo de realizar por Vós, Jesus, todas as obras as mais heroicas. Eu sinto em minha alma a coragem de um cruzado, de um zuavo pontifício: eu quereria morrer num campo de batalha para defender a Igreja…

No dia 4 de agosto de 1897, no leito de morte, ela murmurou para a Superiora:

Oh, não, eu não teria medo de ir à guerra. Por exemplo, na época das Cruzadas, com quanta alegria eu teria partido para combater os hereges.”

– História de uma Alma

Não podemos, entretanto, de fazer essa observação: se Santa Teresinha e os católicos que veneram a ação dos cruzados soubessem o que eles precisaram fazer em meio à guerra, se tivessem noção do que realmente aconteceu nas batalhas e cercos, talvez muitos não mais se identificariam com a imagem de cruzado.

As ações militares nas cruzadas não se limitavam simplesmente de pegar a espada e combater infiéis. Muitas vezes, havia cercos que levavam populações inteiras, inclusive crianças de colo, a morrerem de fome. Esse foi o caso do cerco à cidade de Damieta, no Egito.

Inclusive um dos companheiros de São Francisco de Assis tentou cuidar de algumas dessas crianças, que foram encontradas famélicas junto aos cadáveres de seus pais, quando Damieta finalmente invadida, depois de muitos meses de cerco. Mas morreram quase todas. Não era uma crueldade especial dos cruzados. Quase toda guerra nos tempos antigos tinha cerco.

A gente imagina a guerra como um monte de macho se enfrentando em campo de batalha, com as crianças e mulheres devidamente protegidas atrás dos muros. Mas a guerra em campo aberto é apenas uma parcela do que acontece. No fim das contas, quase todos têm que responder diante de Deus por um monte de mulheres estupradas e por crianças mortas.

A despeito disso, as Cruzadas tiveram grandes momentos de testemunho de santidade, e por meio delas muitos deixaram para trás a vida de pecados, tomaram para si o caminho da penitência e, certamente, encontraram o Céu.

Reprodução: Portal Terra de Santa Cruz 

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Artigo retirado do excelente e credenciado site O CATEQUISTA  

O Catequista

Cristão ou marxista? 9 citações mostram que um é incompatível com o outro

Não, não é possível ser cristão e marxista ao mesmo tempo

Folha de Londrina publicou um texto do colunista Paulo Briguet composto apenas de citações. O conjunto delas deixa bem claro que um cristão não pode ser marxista, já que marxismo e cristianismo (ou qualquer outra religião) são mutuamente excludentes. Confira:

A religião é o ópio do povo. A abolição da religião como felicidade ilusória é o que falta para sua verdadeira felicidade.” (Karl Marx, 1844)

Socialismo religioso, socialismo católico são termos contraditórios: ninguém pode ser ao mesmo tempo bom católico e verdadeiro socialista.” (Pio XI, encíclica “Quadragesimo Anno”)

A religião é o ópio do povo. Esta máxima de Marx constitui a pedra angular de toda a concepção marxista na questão religiosa. O marxismo considera sempre que todas as religiões e igrejas modernas, todas e cada uma das organizações religiosas, são órgãos da reação burguesa chamados a defender a exploração e embrutecer a classe operária.” (Vladimir Lênin, 1909)

Os principais autores desta intriga tão abominável não se propõem outra coisa senão impelir os povos, agitados já por toda classe de ventos de perversidade, ao transtorno absoluto de toda a ordem humana das coisas, e entregá-los aos criminosos sistemas do novo socialismo e comunismo.” (Pio IX, encíclica “Noscitis et Nobiscum”)

Devemos lutar contra a religião. Isto é o abc de todo materialismo e, portanto, do marxismo.” (Vladimir Lênin, 1909)

O erro fundamental do socialismo é de caráter antropológico. De fato, ele considera cada homem simplesmente como um elemento e uma molécula do organismo social, de tal modo que o bem do indivíduo aparece totalmente subordinado ao funcionamento do mecanismo econômico-social, enquanto, por outro lado, defende que esse mesmo bem se pode realizar prescindindo da livre opção, da sua única e exclusiva decisão responsável em face do bem e do mal.” (João Paulo II, encíclica “Centesimus Annus”)

A multiplicação dos pães, na verdade, é o Fome Zero de Jesus.” (Frei Betto, 2018)

O cristianismo não tinha trazido uma mensagem sócio-revolucionária semelhante à de Espártaco que tinha fracassado após lutas cruentas. Jesus não era Espártaco, não era um guerreiro em luta por uma libertação política, como Barrabás ou Bar-Kochba. Aquilo que Jesus — Ele mesmo morto na cruz — tinha trazido era algo de totalmente distinto: o encontro com o Senhor de todos os senhores, o encontro com o Deus vivo e, deste modo, o encontro com uma esperança que era mais forte do que os sofrimentos da escravatura e, por isso mesmo, transformava a partir de dentro a vida e o mundo.” (Bento XVI, encíclica “Spe Salvi”)

Não sou Cristo, nem filantropo, velha, sou totalmente o oposto de um Cristo. Luto pelas coisas em que acredito, com todas as armas de que disponho, e tento deixar o outro homem morto de modo que eu não seja pregado numa cruz ou em algum outro lugar.” (Che Guevara, em carta à sua mãe, 1956)

Paulo Briguet, em Folha de Londrina, 6 de fevereiro de 2018

Portal Terra de Santa Cruz

História dos Hebreus, Persas e Fenícios

A história dos hebreus, História dos Persas e História dos Fenícios, Religião hebraica (judaísmo), religião e cultura dos persas e fenícios, Zoroastrismo, economia e política.

História do povo hebreu 

A Bíblia é a referência para entendermos a história deste povo. De acordo com as escrituras sagradas, por volta de 1800 a.C., Abraão recebeu uma sinal de Deus para abandonar o politeísmo e para viver em Canaã (atual Palestina). Isaque, filho de Abraão, tem um filho chamado Jacó. Este luta, num certo dia, com um anjo de Deus e tem seu nome mudado para Israel.

Davi sendo consagrado pelo profeta Samuel
Davi sendo consagrado pelo profeta Samuel

Os doze filhos de Jacó dão origem as doze tribos que formavam o povo hebreu. Por volta de 1700 a.C., o povo hebreu migra para o Egito, porém são escravizados pelos faraós por aproximadamente 400 anos. A libertação do povo hebreu ocorreu por volta de 1300 a.C.. A fuga do Egito foi comandada por Moisés, que recebeu as tábuas dos Dez Mandamentos no monte Sinai. Durante 40 anos ficaram peregrinando pelo deserto, até receberem um sinal de Deus para voltarem para a terra prometida, Canaã.

Moisés recebendo as tábuas dos Dez Mandamentos 

Jerusalém é transformada num centro religioso pelo rei Davi. Após o reinado de Salomão, filho de Davi, as tribos dividem-se em dois reinos: Reino de Israel e Reino de Judá. Neste momento de separação, aparece a crença da vinda de um messias que iria juntar o povo de Israel e restaurar o poder de Deus sobre o mundo.

Em 721, começa a diáspora judaica com a invasão babilônica. O imperador da Babilônia, após invadir o reino de Israel, destrói o templo de Jerusalém e deporta grande parte da população judaica.

No século I, os romanos invadem a Palestina e destroem o templo de Jerusalém. No século seguinte, destroem a cidade de Jerusalém, provocando a segunda diáspora judaica. Após estes episódios, os hebreus espalham-se pelo mundo, mantendo a cultura e a religião. Em 1948, o povo hebreu retoma o caráter de unidade após a criação do estado de Israel.

História dos Persas

Os persas, importante povo da antiguidade oriental, ocuparam a região da Pérsia (atual Irã). Este povo dedicou-se muito ao comércio, fazendo desta atividade sua principal fonte econômica. A política era toda dominada e feita pelo imperador, soberano absoluto que mandava em tudo e em todos. O rei era considerado um deus, desta forma, o poder era de direito divino.

Ciro, o grande, foi o mais importante imperador dos medos e persas. Durante seu governo (560 a.C. – 529 a.C.), os persas conquistaram vários territórios, quase sempre através de guerras. Em 539 a.C., conquistou a Babilônia, levando o império de Helesponto até as fronteiras da Índia.

Ciro, o grande: imperador Persa

A religião persa era dualista e tinha o nome de Zoroastrismo ou Masdeísmo, criada em homenagem a Zoroastro ou Zaratustra, o profeta e líder espiritual criador da religião.

História dos Fenícios

A civilização fenícia desenvolveu-se na Fenícia, território do atual Líbano. No aspecto econômico, este povo dedicou-se e obteve muito sucesso no comércio marítimo. Mantinha contatos comerciais com vários povos da região do Oriente. As cidades fenícias que mais de desenvolveram na antiguidade foram Biblos, Tiro e Sidon.

Relevo de um barco fenício

A religião fenícia era politeísta e antropomórfica, sendo que cada cidade possuía seu deus (baal = senhor). Acreditavam que através do sacrifício de animais e de seres humanos podiam diminuir a ira dos deuses. Por isso, praticavam esses rituais com certa frequência, principalmente antes de momentos importantes.

Bibliografia Indicada – História dos Hebreus – Autor: Josefo, Flávio – Editora: CPAD-SP

Adaptação: Portal Terra de Santa Cruz

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