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Santo Agostinho nos explica para que servem as palavras na oração.

“…não pensemos que são necessárias para informar o Senhor ou forçar a sua vontade”

Na oração, as palavras servem para nos estimular e nos fazer compreender melhor o que pedimos; não pensemos que são necessárias para informar o Senhor ou forçar a sua vontade. Quando dizemos: «Santificado seja o vosso nome», estimulamo-nos a desejar que o nome de Deus, que é sempre santo em Si mesmo, seja também honrado como santo entre os homens, e nunca desprezado; e isto não é para benefício de Deus, mas dos homens.

Quando dizemos: «Venha a nós o vosso reino» – que há-de vir certamente, quer queiramos, quer não –, excitamos a nossa aspiração por aquele reino, para que ele de facto venha a nós e mereçamos reinar nele. Quando dizemos: «Seja feita a vossa vontade, assim na terra como no céu», pedimos ao Senhor que nos dê a virtude para que se cumpra em nós a sua vontade, como os anjos a cumprem no Céu.

Quando dizemos: «Perdoai as nossas ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido», tomamos consciência do que pedimos, e do que devemos fazer para merecermos receber o perdão. Quando dizemos: «Livrai-nos do mal», recordamos que ainda não estamos naquele sumo bem onde já não é possível sofrer qualquer mal. E estas últimas palavras da oração dominical têm um significado tão amplo, que o cristão, seja qual for a tribulação em que se encontre, pode com elas exprimir os seus gemidos ou lamentações, dar início, continuar ou terminar a sua oração.

Tínhamos necessidades destas palavras para gravar na memória todas estas realidades. Quaisquer outras palavras que possamos usar na oração nada mais dizem para além do que se encontra já na oração do Senhor, se de facto oramos como convém.

(Santo Agostinho, Carta 130, a Proba, sobre a oração, 11-12)

Fonte; Aleteia 

Reprodução: Portal Terra de Santa Cruz – A serviço da Evangelização 

“Tarde Te amei!” De Santo Agostinho, uma das mais arrebatadoras orações de todos os tempos

1. Tarde Te amei, ó Beleza tão antiga e tão nova… Tarde Te amei! Trinta anos estive longe de Deus. Mas, durante esse tempo, algo se movia dentro do meu coração… Eu era inquieto, alguém que buscava a felicidade, buscava algo que não achava… Mas Tu Te compadeceste de mim e tudo mudou, porque Tu me deixaste conhecer-Te. Entrei no meu íntimo sob a Tua Guia e consegui, porque Tu Te fizeste meu auxílio.

2. Tu estavas dentro de mim e eu fora… “Os homens saem para fazer passeios, a fim de admirar o alto dos montes, o ruído incessante dos mares, o belo e ininterrupto curso dos rios, os majestosos movimentos dos astros. E, no entanto, passam ao largo de si mesmos. Não se arriscam na aventura de um passeio interior”. Durante os anos de minha juventude, pus meu coração em coisas exteriores que só faziam me afastar cada vez mais d’Aquele a Quem meu coração, sem saber, desejava… Eis que estavas dentro e eu fora! Seguravam-me longe de Ti as coisas que não existiriam senão em Ti. Estavas comigo e não eu Contigo…

3. Mas Tu me chamaste, clamaste por mim e Teu grito rompeu a minha surdez… “Fizeste-me entrar em mim mesmo… Para não olhar para dentro de mim, eu tinha me escondido. Mas Tu me arrancaste do meu esconderijo e me puseste diante de mim mesmo, a fim de que eu enxergasse o indigno que era, o quão deformado, manchado e sujo eu estava”. Em meio à luta, recorri a meu grande amigo Alípio e lhe disse: “Os ignorantes nos arrebatam o céu e nós, com toda a nossa ciência, nos debatemos em nossa carne”. Assim me encontrava, chorando desconsolado, enquanto perguntava a mim mesmo quando deixaria de dizer “Amanhã, amanhã”… Foi então que escutei uma voz que vinha da casa vizinha… Uma voz que dizia: “Pega e lê. Pega e lê!”.

4. Brilhaste, resplandeceste sobre mim e afugentaste a minha cegueira. Então corri à Bíblia, abri-a e li o primeiro capítulo sobre o qual caiu o meu olhar. Pertencia à carta de São Paulo aos Romanos e dizia assim: “Não em orgias e bebedeiras, nem na devassidão e libertinagem, nem nas rixas e ciúmes. Mas revesti-vos do Senhor Jesus Cristo” (Rm 13,13s). Aquelas Palavras ressoaram dentro de mim. Pareciam escritas por uma pessoa que me conhecia, que sabia da minha vida.

5. Exalaste Teu Perfume e respirei. Agora suspiro por Ti, anseio por Ti! Deus… de Quem separar-se é morrer, de Quem aproximar-se é ressuscitar, com Quem habitar é viver. Deus… de Quem fugir é cair, a Quem voltar é levantar-se, em Quem apoiar-se é estar seguro. Deus… a Quem esquecer é perecer, a Quem buscar é renascer, a Quem conhecer é possuir. Foi assim que descobri a Deus e me dei conta de que, no fundo, era a Ele, mesmo sem saber, a Quem buscava ardentemente o meu coração.

6. Provei-Te, e, agora, tenho fome e sede de Ti. Tocaste-me, e agora ardo por Tua Paz. “Deus começa a habitar em ti quando tu começas a amá-Lo”. Vi dentro de mim a Luz Imutável, Forte e Brilhante! Quem conhece a Verdade conhece esta Luz. Ó Eterna Verdade! Verdadeira Caridade! Tu és o meu Deus! Por Ti suspiro dia e noite desde que Te conheci. E mostraste-me então Quem eras. E irradiaste sobre mim a Tua Força dando-me o Teu Amor!

7. E agora, Senhor, só amo a Ti! Só sigo a Ti! Só busco a Ti! Só ardo por Ti!…

8. Tarde te amei! Tarde Te amei, ó Beleza tão antiga e tão nova! Tarde demais eu Te amei! Eis que estavas dentro, e eu, fora – e fora Te buscava, e me lançava, disforme e nada belo, perante a beleza de tudo e de todos que criaste. Estavas comigo, e eu não estava Contigo… Seguravam-me longe de Ti as coisas que não existiriam senão em Ti. Chamaste, clamaste por mim e rompeste a minha surdez. Brilhaste, resplandeceste, e a Tua Luz afugentou minha cegueira. Exalaste o Teu Perfume e, respirando-o, suspirei por Ti, Te desejei. Eu Te provei, Te saboreei e, agora, tenho fome e sede de Ti. Tocaste-me e agora ardo em desejos por Tua Paz!

Santo Agostinho, Confissões 10, 27-29

Portal Terra de Santa Cruz – A serviço da evangeização

Perdoa-nos as nossas ofensas, assim como nós perdoamos

Santo Agostinho (354-430), bispo de Hipona (norte de África), doutor da Igreja  – 1º sermão

Todo o homem é devedor de Deus e tem o seu irmão como seu devedor. Haverá alguém que não deva nada a Deus, senão Aquele em quem não se pode encontrar pecado? E quem é o homem que não tem um irmão como seu devedor, senão aquele a quem ninguém ofendeu? Parece-te possível que haja um único homem a quem não se possa contabilizar qualquer falta para com um irmão?
Portanto, todo o homem é devedor de alguém e tem os seus devedores. Por isso Deus, que é justo, deu-te uma regra para seguires com o teu devedor, e Ele próprio aplicará esta regra para com o seu. Existem, com efeito, duas obras de misericórdia que nos podem libertar; o próprio Senhor as formulou de uma forma breve no seu Evangelho: «Perdoai e ser-vos-á perdoado», «Dai e dar-se-vos-á» (Lc 6,37ss). A primeira tem a ver com o perdão, a segunda com a caridade.
Tu desejas obter o perdão dos teus pecados e também tens pecados a perdoar a alguém. O mesmo se passa com a caridade: o mendigo pede-te esmola e tu és o mendigo de Deus, porque todos somos, quando pedimos, mendigos de Deus. Todos nos prostramos diante da porta do nosso Pai, da sua enorme riqueza. E suplicamos-lhe gemendo, desejosos de receber dele alguma coisa: ora essa coisa é o próprio Deus. Que te pede o mendigo? Pão. E tu, que pedes a Deus? Nada menos que o próprio Cristo, que disse: «Eu sou o pão vivo que desceu do Céu» (Jo 6,51). Quereis ser perdoados? «Perdoai e sereis perdoados.» Quereis receber? «Dai e dar-se-vos-á.»

Artigo|Santo Agostinho – da esbórnia à santidade.

Hoje vamos falar de um Santo muito especial, meus amigos: o primeiro dos quatro doutores do ocidente, a luz filosófica da antiguidade cristã. Ninguém mais, ninguém menos do que Santo Agostinho!

Santo Agostinho 2Juntamente com Santo Ambrósio, São Jerônimo e São Gregório Magno, Santo Agostinho nos direciona para o cristianismo como o conhecemos. Sua influência é enorme no mundo ocidental. Se você não o conhece, não leu pelo menos “As Confissões”, você não tem a menor ideia de onde está. O papel de Santo Agostinho nos primeiros séculos depois de Cristo é comparável com o de São Paulo na Igreja primitiva.

Sua grandeza está principalmente no fato de que ele soube, como nenhum outro, relacionar a filosofia helenista (grega) e romana com os preceitos da fé cristã, caminho que mais tarde seria retomado com brilho pelo grande São Tomás de Aquino. O pensamento agostiniano faz a ponte filosófica necessária do conhecimento platônico-aristotélico para Santo Anselmo, e daí para São Tomás de Aquino.

A quantidade de títulos de Santo Agostinho, por si só, já dariam um post, “Doutor da Caridade”, “Doutor da Graça”, Doutor da Humildade”, “Doutor da Oração” e muitos outros. Viveu na fronteira de dois tempos: sua vida transcorreu no ocaso do Império Romano do Ocidente e também na ascensão do cristianismo e declínio do paganismo.

Foi um dos três homens mais inteligentes que a humanidade já conheceu. Falar de Santo Agostinho é falar de um parelho de Aristóteles e Platão. Metafísico, filósofo, psicólogo, os interesses de Santo Agostinho confundem-se com a meditação sobre o destino do homem.

FAMÍLIA

Nasceu Aurelius Augustinus em 15 de novembro de 354, na cidade de Tagaste, Numídia, uma província romana no Norte da África (atualmente o nome da cidade é Souk-Ahras, e fica na Argélia). Seu pai, chamado Patrício, era um pagão de personalidade violenta.

Sua mãe era Santa Mônica, uma mulher de bom coração, que aos poucos foi domando o caráter agressivo do marido; ao mesmo tempo, educou Agostinho e dirigiu o menino pelo caminho da cristianismo, fazendo dele catecúmeno.  Foi Santa Mônica a principal responsável por Agostinho vir a se tornar um santo.

CURTINDO A VIDA ADOIDADO

Santo Agostinho foi na juventude uma espécie de James Dean (essa referência é somente para os fortes) da sociedade decadente do Império Romano do Ocidente moribundo. Bom aluno, foi mandado para Cartago, o principal centro de estudos e a maior cidade da África, uma espécie de Los Angeles para malucos superdotados e um centro de esbórnia.

Como todo jovem sem supervisão (tinha dezessete anos) vivia na boemia. Das suas relações, digamos, “acadêmicas”, nasceu seu único filho, Adeodato. Apesar das suas maluquices juvenis, Santo Agostinho foi um grande pai e nunca abandonou o filho.

Os jovens de hoje, que se acham tão espertos, não sabem, de fato, nada. Santo Agostinho, em 371, já vivia e sentia exatamente as mesma coisas que eles, só que sem smartphone e Ipad. E como eles, Santo Agostinho sentia o vazio de uma existência sem sentido. Graças a Deus, não existia as parafernalhas de hoje, e Agostinho pôde ler sem Kindle o diálogo “Hortêncio” de Cícero, que versa sobre a possibilidade da eterna bem-aventurança. Vejamos um trecho:

“Se tudo acaba com a vida presente, não é já pequena sorte o ter ocupado a existência no estudo de assunto tão importante; se, como tudo parece indicar, nossa vida continua depois da morte, a investigação constante da verdade é o meio mais seguro para preparar-nos para esta outra existência.”

Esse tipo de conhecimento estava além da capacidade de seus mestres pagãos. Agostinho sentia falta do Salvador, do Mestre dos mestres que havia conhecido através de sua mãe. Mas para saciar sua necessidade de Jesus, ele precisava fazer um duplo sacrifício: a submissão da inteligência e a pureza da vida. Definitivamente, o jovem Agostinho ainda não estava preparado para tanto.

APÓSTOLO DO ERRO MANIQUEÍSTA

O paganismo não era um caminho aceitável para Agostinho. Voltou-se para o estudo das Sagradas Escrituras, mas quem lhe daria o entendimento dessa leitura? Como sabemos, somente a Igreja Católica é capaz da fazê-lo, por sua autoridade. Mas esse caminho é deveras difícil, por conta das crenças errôneas que confundiam a razão de Agostinho.

Contrapunha-se à Sã Doutrina a heresia maniqueísta, uma seita em que os mestres desprezavam os dogmas da fé católica e adoravam às artes e letras profanas. Era um tipo de relativismo antigo, onde o juízo pessoal era a medida fé. Sem contar que a dualidade (Deus bom em oposição a Deus mau) era suficiente para jogar a culpa do pecado na influência alheia. Seríamos eternos coitadinhos por essa ótica, sempre podendo imputar a culpa dos nossos mal feitos no Deus mau. Que lindo!

Analisando o mundo a nossa volta, podemos ver claramente que o maniqueísmo não morreu. “Sou um menino malvado, a culpa não é minha, é do Deus mau! Eu acredito no Deus bom! Ai de mim!”. Para os moleques da época isso era muito atraente, pois era a justificativa para qualquer bobagem que viessem a cometer.

Santo Agostinho abraçou o maniqueísmo com toda a vontade e tornou-se um dos seus principais apóstolos, levando para essa heresia muitos dos seus companheiros de cátedra. Chegou até a tentar converter sua mãe, mas com Santa Mônica isso demonstrou ser uma tremenda perda de tempo.

O SONHO DE SANTA MÔNICA

Por aquela época, Santa Mônica teve um sonho profético sobre seu filho rebelde. Um anjo lhe disse:

“Onde tu estás, ele também está.” 

santa_monicaO confessor a quem Santa Mônica confiava suas angústias aconselhou-a a continuar rezando por Agostinho. Graças às preces da mãe, chegaria o dia em que o filho retornaria ao caminho de Nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo.

Agostinho voltou para sua cidade natal e tornou-se professor de retórica. Mas o lugar era pequeno demais para suas ambições e brilhantismo. Retornou a Cartago, onde suas carreira deslanchou a ponto de buscar novos horizontes na capital do Império, Roma.

Ao partir da África, já tinha se desligado dos maniqueístas – perseverar em furada não era mesmo a dele. A princípio, não adotou uma nova fé, decidiu esperar para que a verdade se apresenta-se a ele com plena certeza.

DEUS E PLATÃO

Em Roma, abriu a Cátedra de Retórica nos mesmos moldes que havia feito em Tagaste e em Cartago. Seus primeiros alunos eram os mesmos que o acompanhavam desde Cartago, e a esses juntaram-se novos e tanto uns quantos outros que não pagavam um centavo.

Para se sustentar, Santo Agostinho arrumou um emprego na Cátedra de Milão, onde entrou em contado com a obra de Platão que tinha acabado de ser traduzida por Vitoriano do grego para o latim (observem que JÁ EXISTIA TRADUÇÕES DE PLATÃO EM LATIM NO SÉCULO IV. Quem é que precisava de árabes, bwana!!!????). Foi o velho filósofo que mostrou a Agostinho que a visão maniqueísta de um Deus basicamente materialista nada tinha a ver com a realidade de um Deus criador.

AS ORAÇÕES DE SANTA MÔNICA

Platão foi o primeiro passo da conversão de Santo Agostinho, mas ainda não era suficiente, pois este mostrava o verdadeiro Deus, mas não mostrava o caminho para o convívio dos eleitos. Essa segunda etapa só seria possível ao entregar-se nos braços de Nosso Senhor Jesus Cristo. Foram as orações de sua mãe Santa Mônica que possibilitaram esta graça. Foi a santa juntar-se ao filho amado em Milão.

A primeira coisa com que ela teve que lidar foi com a união ilegítima de Santo Agostinho com a mãe de seu filho Adeodato. A mãe do menino era um mulher de bom coração, e consentiu em separar-se de Adeodato e retornar a Tagaste, onde viveu seus dias em retiro, servindo a Deus. Agostinho ainda não sentia-se pronto para entregar-se a Cristo e ainda era prisioneiro de suas paixões.

Foi por meio da mediação de Santa Mônica que Agostinho conheceu Santo Ambrósio, bispo de Milão, de quem se tornou discípulo. Santo Ambrósio que colocou Santo Agostinho na linha de uma vez por todas. Baixando a bola, ele venceu seu orgulho e voltou a ler e estudar as Escrituras, em especial as Epístolas de São Paulo, onde encontrou a cura para suas tentações do mundo (eu mesmo preciso fazer isso sempre e sempre devemos fazê-lo, para salvação de nossas almas).

Outro fato interessante e que teve forte impacto em Santo Agostinho foi a conversão de Vitorino, o filósofo que havia traduzido Platão para o latim.

ENFIM, A CONVERSÃO

Agosto de 386. Agostinho vivia em Milão com sua mãe, seu filho e alguns amigos. Entre esses amigos, havia um certo Alípio, que servia-lhe como confessor de suas angústias espirituais. Receberam um dia a visita de Ponticiano que, vendo espalhadas sobre a mesa as cartas de São Paulo, congratulou Agostinho por se ocupar daquele tipo de leitura.

Mas Ponticiano não era exatamente uma sumidade intelectual; o fato daquele humilde amigo estar mais próximo de Deus do que ele naquele momento, mesmo com toda sua inteligência, deixou Agostinho perturbado. Agostinho parecia dividido entre o chamado de Deus e o chamado do mundo, exatamente como quase todos nós.  Foi ao ler a seguinte passagem das cartas de São Paulo que se fez luz em sua alma:

“Nada de comilança, nem bebedeiras, nada de luxúria, nem de desfreamento, nada de brigas nem invejas; ao contrário, revesti-vos de Jesus Cristo, o Senhor, e não busqueis satisfazer os baixos instintos” (Romanos).

O batismo de Santo Agostinho foi realizado por Santo Ambrósio, em Milão. Eles compuseram juntos na ocasião o cântico “Te Deum laudanus”, que se tornou o hino litúrgico de ação de graças de toda Igreja Católica. Um momento de enorme dor seguiu-se: pouco tempos depois, Adeodato, o filho de Santo Agostinho, morreu.

Convertido, Agostinho retornou à África, tendo junto consigo Santa Mônica. Durante a longa viagem, fizeram uma parada em Óstia, e aí sua mãe veio a adoecer e faleceu, cinco dias depois.

O APOSTOLADO DE SANTO AGOSTINHO

Depois de prantear sua mãe, Santo Agostinho iniciou seu projeto de vida religiosa. O então bispo de Hipona, Valério, conferiu-lhe o sacerdócio em 391. A partir daí, Santo Agostinho instituiu uma ordem religiosa (que subsiste até hoje e segue a mesma regra) que unia o apostolado com os exercícios de claustro. Fundou também um convento, do qual sua irmã mais velha tornou-se a primeira superiora.

Foi após a morte de Valério que Santo Agostinho se tornou Bispo de Hipona. Suas principais atividades como bispo foram: direção de monastérios, instrução dos fiéis e defesa da Igreja a contra as heresias. Foi o mais severo demolidor dos hereges arianos, maniqueístas, pelagianos e donatistas. Por jogar por terra as ideias de todos esses manés, ficou conhecido como “Martelo dos hereges”. Acabou com o cisma dos donatistas, que destruíram o Norte da África. Defenestrou com o pelagianismo, heresia que dizia que a graça de Deus não era necessária para a salvação, o que lhe valeu um outro famoso título “Doutor da Graça”.

Fonte: ocatequista.com.br 

Adaptação: Portal Terra de Santa Cruz 


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Santo do Dia|Santo Agostinho, grande Doutor da Santa Igreja | Vida e Obra

Vida e Obra

SANTO AGOSTINHO

Santo Agostinho nasceu em Tagaste, norte da África, no dia 13 de novembro do ano 354. Filho de Patrício, pagão e voltado para o materialismo da época, e de Mônica, profundamente cristã, que depois se tornaria santa. A influência dos pais foi muito grande, primeiro a de Patrício, depois a de Santa Mônica.

  • Estudante e Professor

Agostinho realiza os primeiros estudos em Tagaste, indo depois a Madaura.

Aos 17 anos vai a Cartago, onde Romaniano, amigo do pai, o ajuda e se torna seu protetor; durante três anos se dedica ao estudo e à leitura de livros, entre os quais destaca-se o “Hortênsio” de Cícero, que o impressiona profundamente.
Aos 20 anos volta a Tagaste como professor, com uma mulher e um filho, Adeodato, retornando pouco depois para Cartago também como professor. Depois torna-se professor em Roma e, a seguir, vai para Milão, onde ganha a cátedra de retórica da casa imperial e desenvolver também a atividade de professor de retórica.
Agostinho sentia, apesar de tudo, seu coração vazio, inquieto. Não era feliz. Procurou a felicidade em muitos lugares, mas não a encontrava. Seu coração inquieto não achava a verdade e a paz que desejava. Sua mãe encontra-o em Milão e anima-o a freqüentar as pregações de Santo Ambrósio.

  • Conversão

Foi uma longa caminhada e luta para transformar seu coração, mas no mês de agosto de 386, meditando no jardim, ouve uma voz de criança que diz “Tolle et lege” (Toma e lê) e tomando as Cartas de São Paulo lê: “Não é nos prazeres da vida, mas em seguir a Cristo que se encontra a felicidade”. As dúvidas se dissipam e é neste momento que culmina todo o processo de sua conversão. Encontrando Deus no seu coração achou a felicidade, a paz e a verdade que procurava. No ano seguinte, na Vigília da Páscoa é batizado.

  • Vida em Comunidade e Tarefa de Bispo

Agostinho decide voltar a Tagaste, para morar com seus amigos, e entregar-se inteiramente ao serviço de Deus por meio da oração e o estudo. Mas no ano 391, de visita na cidade de Hipona, é proclamado sacerdote pelo povo e ordenado padre pelo bispo Valério. Quatro anos depois é consagrado Bispo da cidade, daí o nome de Agostinho de Hipona.

Ele vive em comunidade, tentando seguir o ideal das primeiras comunidades cristãs, na pobreza e na partilha. A comunidade eclesial de Hipona estava formada em sua grande maioria por pobres. Agostinho se fazia a voz destes pobres, falando por eles na Igreja, indo até as autoridades para interceder por eles e ajudando-os naquilo que podia. Entre as funções que o bispo tinha estava a de administrar os bens da Igreja e repartir o seu benefício entre os pobres, também a de acolher os peregrinos, ser protetor dos órfãos e viúvas… Agostinho realiza todas elas como um serviço aos pobres e à Igreja. Também tinha o bispo que exercer a função de juiz, tarefa que desagradava em extremo a Agostinho, mas que também exerceu com objetividade, justiça e caridade.

  • Escritos

Santo Agostinho 3Agradava muito mais a Agostinho a prática da oração, o estudo e escrever. Agostinho escreveu um enorme número de obras: um total de 113, sem contar as cartas -das quais se conservam mais de 200- e os Sermões. A maior parte das obras de Santo Agostinho surgiram por causa dos problemas ou das preocupações que atormentavam a Igreja do seu tempo; é por isso que em suas obras estão presentes as polêmicas em que ele mesmo esteve envolvido, principalmente contra os maniqueos (seita da qual ele mesmo fez parte antes da conversão e que defendia um confuso dualismo cósmico – o bem contra o mal sempre em conflito um com o outro- e desvalorizavam de forma perversa tudo o criado), os donatistas (que atribuíam a eficácia dos sacramentos unicamente ao ministro, negando sua ação, como sinal eficaz da graça e ainda se consideravam a “Igreja dos santos”) e os pelagianos (que defendiam que o homem se salva por suas próprias forças, sem precisar da graça de Deus). Além destas obras destinadas a combater os adversários e inimigos da Igreja, Agostinho escreveu outras de diverso conteúdo: no campo exegético (principalmente os Comentários ao Gênesis, São João e os Salmos), no dogmático (“Sobre a Trindade”), no Pastoral (“Sobre a Catequese dos simples”). Mas, dentre todas as obras, destacam dois pela genialidade: “A Cidade de Deus”, que representa a primeira tentativa de fazer uma interpretação cristã da história, e “As Confissões”, onde Agostinho manifesta sua fraqueza, que gera o mal, e a Deus, fonte de todo bem e Verdade absoluta; as “Confissões” são um louvor à Graça de Deus. A obra e o pensamento de Agostinho ultrapassam os limites de sua época e exercem uma grande influência na Idade Média e também na nossa época. A influência de Agostinho acontece nos diversos campos do pensamento, da cultura e da vida religiosa. Agostinho morreu no dia 28 de agosto do ano 430 e seus restos, depois de longa peregrinação descansam na cidade de Pavia, no norte da Itália.

Abaixo segue tabela com as obras com as quais Agostinho presentou a humanidade.

DATAS TÍTULO ORIGINAL (EM LATIN) ASSUNTO DA OBRA
386 Contra academicos Contra os céticos
386 De beata vita A vida feliz
386 De ordine A ordem
386/387 Soliloquia Solilóquios
386/387 De immortalitate animae A imortalidade da alma
387/391 De immortalitate animae A imortalidade da alma
387/391 De musica A musica
387/389 De moribus ecclesiae catholicae et de moribus Manichaeorum Costumes da Igreja católica e dos maniqueus
387/388 De quantitate animae A grandeza da alma
388-395 De libero arbitrio O livre arbítrio
389 De magistro O mestre (O professor)
389/391 De vera religione A verdadeira religião
391 De utilitate credendi Utilidade de crer
392/393 De duabus animabus contra Manichaeos Sobre as duas almas (contra os maniqueus)
393 De fide et symbolo A fé e o símbolo
393/394 De sermone Domini in monte O sermão da montanha
395 De continentia Sobre a continência
395 De mendacio Sobre a mentira
396 De agone christiano A luta (esforço, empenho) do cristão
396-426 De doctrina christiana A doutrina cristã
396-420 Enarrationes in Psalmos Comentários sobre os salmos
397-401 Confessiones Confissões
397-398 Contra Faustum Manichaeum Contra Fausto, o maniqueu
399 De natura boni Sobre a natureza do bem
399 Contra Secundinum Manichaeum Contra Secundino, o maniqueu
99-419 De trinitate A Trindade
400 De fide rerum quae non videntur A fé nas coisas invisíveis
400 De consensu evangelistarum O consenso dos Evangelistas
400 De opere monachorum O trabalho dos monges
400 De catechizandis rudibus Instrução dos catecúmenos
400/401 De baptismo contra partem Donati Sobre o Batismo, contra os donatistas
400 De opere monachorum O trabalho dos monges
401 De bono coniugale O bem do casamento
401 De sancta virginate A santa virgindade
401-415 De Genesi ad litteram Sobre a interpretação literal do Gênesis
406-430 In evangelium Ioannis tractatus Tratado do evangelho de João
410 De urbis Romae excidio A destruição da cidade de Roma
412 De peccatorum meritis et remissione et de baptismo parvulorum O merecimento e perdão dos pecadores e o batismo das crianças
412/413 De fide et operibus A fé e as obras
412 De spiritu et littera O espírito e a letra
413-427 De civitate Dei A cidade de Deus
414/415 De natura et gratia A natureza e a graça
415/416 De perfectione iustitiae A perfeição da justicia
417 De gestis Pelagii Os procedimentos de Pelagio
418 De gratia Christi et de peccato originali A graça de Cristo e o pecado original
418 De patientia A paciência
419-421 De anima et eius origine A alma e suas origens
420 Contra mendacium Contra a mentira
420-422 De cura pro mortuis gerenda Os cuidados para com os mortos
421 Contra Iulianum Contra Juliano
426/427 Retractationes Retratações
428 Contra Maximinum Contra Maximino
428/429 De praedestinatione sanctorum A predestinação dos santos
428/429 De dono perseverantiae O dom da perseverança
386-429 Epistulae Cartas (270 cartas)
393-430 Sermones Sermões (390 sermões)

Fonte: www.agostinianos.org.br  Adaptação: Portal Terra de Santa Cruz


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A filosofia de Santo Agostinho!

A filosofia de Santo Agostinho

Uma das maiores personalidades da história universal, Santo Agostinho foi um grande retórico, um grande filósofo e um grande santo da Igreja. Sua obra, ao mesmo tempo vasta e profunda, exerceu e exerce muita influência em toda a cultura ocidental.

A sua vida, muito conhecida, torna-o inteligível também para muitos não-cristãos. Retórico, homem do mundo, carnal, fez um longo esforço para encontrar a chave da inquietação que o devorava. Primeiro maniqueu, depois platônico, finalmente convertido, num célebre momento que ele mesmo contou com um gênio inimitável.

Santo AgostinhoDepois da conversão, e sem pretendê-lo, é ordenado sacerdote. Chega ao episcopado da mesma maneira. E desde esse momento, no meio de muitas vicissitudes críticas, carrega sobre si grande parte da responsabilidade da Igreja; assim, por exemplo, no auge da heresia de Pelágio ouem face do cisma dos donatistas. No momento da sua morte, é todo um símbolo. Morre em Hipona quando os vândalos sitiavam a cidade. Com ele, morre a cultura antiga e nasce outra nova. Porque Santo Agostinho foi um homem do seu tempo. Versado em todas as artes clássicas, foi sempre um retórico de grande habilidade, jogando com as palavras num malabarismo que conseguia sempre escapar à superficialidade. Diríamos que o seu pensamento é tão profundo que supera as habilidades do retórico.

Inicialmente, escreve filosofia, porém mais tarde dedica as suas forças à pregação, sem descuidar uma enorme correspondência. Escreve também muitos tratados teológicos, de exegese bíblica, etc.

Não citaremos aqui as obras teológicas; limitar-nos-emos às de caráter filosófico: Contra Acadêmicos, crítica do ceticismo; De beata vita, sobre a felicidade; De ordine, sobre a origem do mal: os Coliloquia, um apaixonado diálogo consigo mesmo sobre a imortalidade da alma; De immortalitate animae; De quantitate animae, sobre a mesma questão; De magistro, sobre a educação com um enfoque psicológico.

Santo Agostinho não construiu um sistema filosófico completo, ainda que as idéias básicas se mantenham constantes e acusem um claro predomínio platônico. Ele mesmo nos conta que começou a ler uma obra de Aristóteles e não pôde prosseguir. Talvez o tenha afastado o estilo entrecortado, desencarnado, a falta dessa alma que Santo Agostinho buscava em tudo. Santo Agostinho não parece feito para encerrar a realidade em categorias. A sua reflexão parte sempre da vida: das coisas que se passam ao seu redor, das idéias dominantes, dos ataques contra a fé, da interioridade da sua alma.

A BUSCA DA VERDADE

A filosofia agostiniana é uma constante busca da verdade, que culmina na Verdade, em Cristo. É um movimento incessante, uma paixão, e, precisamente, a paixão principal: o amor. “Amor meus, pondus meum”, o amor é o peso que dá sentido à minha vida. Verdade e Amor.“Fizeste-nos, Senhor, para Ti e o nosso coração estará inquieto enquanto não descansar em Ti”, diz nas Confissões.

Essa “passionalidade” da filosofia agostiniana não é em nenhum momento irracionalismo ou voluntarismo. Se incita a ter fé para entender, também anima a entender para crer melhor. Nada nos pode fazer duvidar da possibilidade de chegar à verdade. Nada valem os argumentos céticos. Si fallor, sum: se me engano, é uma prova de que sou, diz, antecipando-se, num contexto muito diferente, a Descartes. E com mais clareza: “Sabes que pensas? Sei. Ergo verum est cogitare te, logo é verdade que pensas”.

A verdade está no interior do homem. “Não queiras sair para fora; é no interior do homem que habita a verdade”. E há verdades constantes, inalteráveis, para sempre. Dois mais dois serão sempre quatro. Santo Agostinho tenta esclarecer de onde pode vir essa verdade. Não das sensações, diz, porque essas são e não são, são mutáveis, efêmeras. Tampouco do espírito humano, que, por profundo que seja, é limitado. Essas verdades eternas só podem ter por autor Aquele que é eterno: Deus. São reflexos da verdade eterna, que nos ilumina e nos permite ver. Nisso consiste o que depois ficou conhecido como “doutrina da iluminação”; porém, desde já é preciso dizer que Santo Agostinho não a apresenta nunca como uma “teoria”, mas como uma comprovação. Já no final da sua vida, diz nas Retractationes que o homem tem em si, enquanto é capaz, “a luz da razão eterna, na qual vê as verdades imutáveis”.

Como em Platão, conhecer verdadeiramente é estar em contato com o mundo inteligível. Porém, Santo Agostinho nunca dirá que vemos as verdades em Deus, mas que participamos da luz da razão eterna. Não se deve ignorar, por outro lado, que essa solução para o tema do conhecimento corre o risco de não distinguir de forma adequada o conhecimento natural do conhecimento sobrenatural. Mas essa é uma questão que só será levantada mais tarde, na Idade Média.

A BUSCA DE DEUS

Em Santo Agostinho, não existem provas formais para demonstrar a existência de Deus. Ainda que toda a sua obra seja uma espécie de itinerário em direção a Deus. Tudo fala de Deus; basta abrir os olhos. Ele é intimior intimo meo, mais íntimo ao homem que a própria intimidade humana. As coisas falam-nos todo o tempo de Deus. Perguntamos-lhes: “Sois Deus?” E respondem: “Não, fomos feitas. Continua a buscar”. De forma retórica – retórica de grande qualidade –, encontramos aí a prova da existência de Deus pela contingência das realidades humanas. A mutabilidáde exige o imutável; os graus de perfeição exigem o Ser perfeito. Em Santo Agostinho, como em outros filósofos de inspiração platônica, está claramente formulado o que será a quarta via de São Tomás de Aquino.

Qual é o melhor nome para Deus? O que se lê no Êxodo: “Aquele que é”. “Non aliquo modo est, sed est est” (Confissões). Santo Agostinho dará com freqüência a Deus o nome de Bem, de Amor, porém não desconhece que antes de tudo Ele é; e porque é o que é, é Amor, Bem, Infinito. São Tomás de Aquino não precisará modificar nada de substancial nesta metafísica agostiniana. Como exemplo das dezenas de textos agostinianos, temos este, das Confissões: “Eis que o céu e a terra são; e dizem-nos em altos brados que foram feitos, pois modificam-se e variam. Porque, naquilo que é sem ter sido feito, não há coisa alguma agora que antes não houvesse: que isso é modificar-se e variar. O céu e a terra clamam também que não se fizeram a si mesmos: somos porque fomos feitos; não éramos antes que fôssemos, de modo a termos podido ser por nós mesmos. Basta olhar para as coisas para ouvi-las dizer isso. Tu, Senhor, fizeste essas coisas. Porque és belo, elas são belas; porque és bom, são boas; porque tu és, elas são.”

Esta última afirmação (quia est: sunt enim) significava a definitiva superação por parte de Santo Agostinho do essencialismo platônico. Deus é causa do ser das coisas, porque é o Ser por essência. Se a fórmula de Santo Agostinho não é essa, a idéia é.

O MUNDO, CRIAÇÃO DE DEUS

Santo Agostinho 3Outro texto das Confissões situa de forma inequívoca a metafísica da criação: “Que eu ouça e entenda como no princípio fizeste o céu e a terra. Moisés escreveu isso; escreveu-o e ausentou-se. Daqui, onde estava contigo, passou a estar contigo, e por isso não o podem ver meus olhos. Se estivesse aqui presente, eu o agarraria, lhe rogaria e, por Ti, lhe suplicaria que me explicasse essas coisas […]. Porém, como saberia que estava a dizer-me a verdade? A própria verdade, que está no interior da minha alma, e que não é grega, nem latina, nem bárbara, nem necessita dos órgãos da boca ou da língua, nem do ruído de sílabas, me diria: Moisés diz a verdade, e eu, no mesmo instante, com toda a segurança lhe diria: Verdade é o que me dizes”.

Voltemos à questão anterior. Deus é Aquele que é; as coisas são criadas. Deus é quem lhes deu o ser. Por quê? Por pura bondade. “Porque Deus é bom, somos.” A razão da criação é a bondade de Deus. Deus não pode ter, no seu querer, outro fim que não o seu próprio ser. Só em relação a si mesmo pode querer mais. A criação é gratuita. Não há nada preexistente. Santo Agostinho acaba com as dúvidas de Orígenes e com o universo grego, eterno.

Deus cria todas as coisas do nada. E todo o criado é composto de matéria. Santo Agostinho, que durante tanto tempo não conseguiu conceber uma substância espiritual, não deixa de atribuir uma certa materialidade mesmo às criaturas espirituais, aos anjos. A absoluta imaterialidade só cabe a Deus. Em Deus estão as idéias exemplares de todas as coisas, que são as formas. Ao criar, essas idéias ficam limitadas pela matéria, mas, ao mesmo tempo, nessa matéria já estão os germes de tudo o que será: as rationes seminales.

Santo Agostinho retoma aqui uma doutrina de origem estóica e, ao mesmo tempo, faz uma concessão ao “materialismo” que professou durante anos, embora talvez seja melhor empregar o termo de “corporeismo”.

O ENIGMA DO HOMEM

“O homem que se espanta é ele mesmo grande maravilha”. “E dirigi-me a mim mesmo e disse: Tu quem és? E respondi-me: Homem. E eis que tenho à mão o corpo e a alma, um exterior e o outro interior. Porém, melhor é o interior”. “O homem é um ser intermediário entre os animais e os anjos”. “Nada encontramos no homem além de corpo e alma; isso é todo o homem: espírito e carne”. Essas são apenas algumas das numerosas referências que poderíamos dar sobre esta questão crucial. São os dois grandes temas agostinianos: “Deus e o homem”. “Que te conheça a ti e que me conheça a mim mesmo”. É o famoso princípio dos Soliloquia: “Quero conhecer Deus e a alma. Nada mais? Absolutamente nada mais”.

Também nesta questão Santo Agostinho trai a influência do platonismo. O homem é uma alma que usa um corpo; ou, uma alma racional, que se serve de um corpo terrestre e mortal; ou, “uma alma racional que tem um corpo”. Tudo indica que, para Santo Agostinho, o homem é a alma. E, contudo, há textos que parecem fugir ao platonismo: “Porque o homem não é só corpo ou apenas alma, mas o que é constituído de alma e de corpo. Esta é a verdade: a alma não é todo o homem, mas é a melhor parte do homem; nem todo o homem é o corpo, mas a porção inferior do homem; quando as duas estão juntas, temos o homem” (A Cidade de Deus). A questão ainda está sujeita a discussão, mas exagerou-se demais o platonismo de Santo Agostinho neste particular. De qualquer forma, Santo Agostinho supera a desvalorização do corporal, tão essencial no platonismo e no neoplatonismo. O corpo é matéria, criação de Deus, e por isso, bom. Não é o cárcere nem o túmulo da alma: “Não é o corpo o teu cárcere, mas a corrupção do teu corpo. O teu corpo, Deus o fez bom, porque Ele é bom”. Também aqui poderíamos multiplicar os textos: “Todo aquele que quer eliminar o corpo da natureza humana desvaira”. E de forma inequívoca, numa obra tardia, o Sermão 267: “Perversa e humana filosofia é a dos que negam a ressurreição do corpo. Alardeiam serem grandes depreciadores do corpo, porque crêem que nele estão encarceradas as suas almas, por delitos cometidos em outro lugar. Porém, o nosso Deus fez o corpo e o espírito; de ambos é o criador; de ambos o recriador”.

Examinemos uma dificuldade classicamente agostiniana. Deus é o criador da alma, mas como a criou? Com os nascimentos surgem constantemente homens, isto é, corpo e alma. Será que as almas estão nas “razões seminais”, na matéria, e são transmitidas pelos pais, na geração? Santo Agostinho assim o pensou por certo tempo, mas depois recusou que algo espiritual pudesse surgir da matéria. Pensou na criação imediata por Deus de cada alma, mas esse início no tempo de algo espiritual não combinava com o que ainda restava de platonismo nele. Acabou confessando que não sabia o que dizer. Era mais um elemento desse enigma que é o homem.

Fica claro que a alma é imortal, porque conhece as verdades imortais e eternas. Que conheçamos o que seja a verdade e que nunca deixará de sê-lo é, para Santo Agostinho, evidente. Como pode morrer ou desaparecer o que é a sede do indestrutível?

A alma será sempre um mistério. Muitas outras realidades sobre as quais pensamos também o são. O tempo. É famoso o dito agostiniano: “Se ninguém mo pergunta, sei; mas se quero explicá-lo a quem mo pergunta, não o sei”. Depois de uma análise do passado, do presente e do futuro – até hoje não superada –, Santo Agostinho concluí: “Não se diz com propriedade «três são os tempos: passado, presente e futuro»; talvez fosse mais apropriado dizer: «presente das coisas futuras, presente das coisas passadas, presente das coisas presentes». Porque essas três presenças têm algum ser na minha alma, e é somente nela que as vejo. O presente das coisas passadas é a memória; o presente das coisas presentes é a contemplação; o presente das coisas futuras é a expectação” (Confissões). O tempo é, assim, distensio animi, “uma espécie de extensão da nossa alma”. É preciso ler ao menos esse livro XI das Confissões para captar o tom da filosofia agostiniana: incerta às vezes, nada dogmática, em diálogo constante com Deus.

A COMPLEXIDADE DA HISTÓRIA

A Cidade de Deus é mais uma das grandes obras universais que Santo Agostinho legou à humanidade. Mas poucos escritos têm sido tão mal lidos, tão mal interpretados. A oposição entre Cidade de Deus e Cidade terrena foi vista como oposição entre Igreja e Estado. Nada mais falso. O texto célebre não deixa lugar a dúvidas. Dois amores criaram duas cidades: o amor próprio, que leva ao desprezo de Deus, a terrena; o amor de Deus, que leva ao desprezo de si mesmo, a celestial. Ou: “Dividi a Humanidade em dois grandes grupos. Um é o daqueles que vivem segundo o homem; o outro, o dos que vivem segundo Deus. Damos misticamente a esses dois grupos o nome de cidades, que quer dizer sociedades de homens”.

A prova fundamental de que essa divisão não é equivalente à divisão Igreja-Estado é a afirmação taxativa de que na Igreja podem existir homens que, na realidade, pertencem à cidade terrena; e, inversamente, entre as pessoas que ainda estão fora da Igreja podem-se encontrar predestinados à cidade celestial. Por outro lado, essas duas “cidades” acham-se misturadas, imbricadas. A “peneira” será feita só no final de cada história pessoal e no final da história de todo o gênero humano. Enquanto transcorre o tempo, com as suas variações, “porque não em vão são tempos”, a história é complexa. Não existe uma “lei da história”, não conhecemos o futuro. Só Deus conhece o final; o homem move-se às apalpadelas no campo da história. A história forma como que um belo poema, no qual intervêm Deus e o homem. O final só será conhecido quando soar a última nota.

Em uma palavra: a concepção de história é, em Santo Agostinho, uma concepção aberta. O seu “providencialismo” não é uma afirmação de “teocracia”. Não se pode extrair da filosofia-teologia da história de Santo Agostinho argumentos para o césaro-papismo ou para qualquer outra confusão do religioso com o político. A importância desta filosofia-teologia da história ressalta mais quando se tem em conta que em toda a história da filosofia será preciso esperar Hegel para encontrar outra concepção igualmente global e completa (embora em Hegel ela tenha um sentido panteísta).

Fonte: “História básica da filosofia”, Editora Nerman, São Paulo, 1988, págs. 70-74. 

Tradução: Peter Pelbart

Texto: Rafael Gómez Perez  –   Adaptação: Portal Terra de Santa Cruz e equipe.


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