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A escuta dos desafios sobre a Família – 1ª Parte Sínodo da Família 2015

A família e o contexto antropológico-cultural

O contexto sociocultural

Fiéis ao ensinamento de Cristo, olhamos para a realidade da família de hoje em toda a sua complexidade, nas suas luzes e nas suas sombras. Pensamos nos pais, nos avós, nos irmãos e nas irmãs, nos parentes próximos e distantes, bem como no vínculo entre duas famílias que cada matrimónio tece. A mudança antropológico-cultural influencia hoje todos os aspectos da vida e exige uma abordagem analítica e diversificada. Há que sublinhar, antes de tudo, os aspectos positivos: a maior liberdade de expressão e o melhor reconhecimento dos direitos da mulher e das crianças, pelo menos em determinadas regiões. No entanto, por outro lado, é igualmente necessário ter em consideração o perigo crescente representado por um individualismo exasperado que desnatura os vínculos familiares e acaba por considerar cada componente da família como uma ilha, levando a prevalecer, em certos casos, a ideia de um protagonista que se constrói em conformidade com os seus próprios desejos, assumidos como um absoluto. A isto acrescenta-se também a crise da fé, que atingiu numerosos católicos e que muitas vezes está na origem das crises do matrimônio e da família.

A mudança antropológica

Na sociedade actual observam-se disposições diferentes. Só uma minoria vive, apoia e propõe o ensinamento da Igreja católica acerca do matrimónio e da família, reconhecendo nele a bondade do projecto criador de Deus. Os matrimónios, religiosos e não, diminuem e o número de separações e de divórcios aumenta.

Propagam-se o reconhecimento da dignidade de cada pessoa, homem, mulher e criança, e a tomada de consciência da importância das diferentes etnias e das minorias; estes últimos aspectos – já difundidos em muitas sociedades, não só ocidentais – estão a consolidar-se em vários outros países.

Constata-se, nos mais diversos contextos culturais, o receio dos jovens de assumir compromissos definitivos, como o de constituir uma família. Mais em geral, observa-se a difusão de um individualismo extremo que põe no centro a satisfação de desejos que não levam à plena realização da pessoa.

O desenvolvimento da sociedade consumista separou sexualidade e procriação. Também esta é uma das causas da crescente diminuição da natalidade. Nalguns contextos ela está ligada à pobreza ou à impossibilidade de cuidar da prole; noutros, à dificuldade de querer assumir responsabilidades e à percepção de que os filhos poderiam limitar a livre expansão de si.

As contradições culturais

 Não são poucas as contradições culturais que incidem sobre a família. Ela continua a ser imaginada como o porto seguro dos afectos mais íntimos e gratificantes, mas as tensões induzidas por uma exasperada cultura individualistada posse e do gozo geram no seu interior dinâmicas de intolerância e de agressividade às vezes ingovernáveis. Pode-se mencionar também uma certa visão do feminismo, que considera a maternidade um pretexto para a exploração da mulher e um obstáculo para a sua plena realização. Depois, há a tendência crescente a considerar a geração de um filho como um instrumento para a afirmação de si, que deve ser obtida com qualquer meio. Podem-se recordar por fim as teorias segundo as quais a identidade pessoal e a intimidade afectiva devem afirmar-se numa dimensão radicalmente desvinculada da diversidade biológica entre homem e mulher.

Mas, ao mesmo tempo, deseja-se reconhecer à estabilidade de um casal instituído independentemente da diferença sexual, o mesmo título da relação matrimonial intrinsecamente ligada às funções paterna e materna, definidas a partir da biologia da geração. A confusão não ajuda a definir a especificidade social de tais uniões, enquanto confia à opção individualista o vínculo especial entre diferença, geração, identidade humana. É certamente necessário um melhor aprofundamento humano e cultural, não só biológico, da diferença sexual, ciente de que «a remoção da diferença é o problema, não a solução» (Francisco, Audiência geral, 15 de Abril de 2015).

As contradições sociais

Eventos traumáticos como os conflitos bélicos, o esgotamento dos recursos, os processos migratórios, incidem de maneira crescente sobre a qualidade afectiva e espiritual da vida familiar e põem em risco as relações no âmbito da família. As suas energias materiais e espirituais são, com muita frequência, levadas ao limiar da dissolução.

Deve-se falar também, em geral, das graves contradições geradas pelo peso de políticas económicas imprudentes, assim como pela insensibilidade de políticas sociais, também nas chamadas sociedades do bem-estar. Em particular, o aumento das despesas para manter os filhos, assim como o enorme agravamento das tarefas subsidiárias do cuidado social dos doentes e dos idosos, de facto delegadas às famílias, constituem um verdadeiro peso que sobrecarrega a vida familiar.

Se se juntarem os efeitos de uma conjuntura económica desfavorável, de natureza bastante ambígua, e o crescente fenómeno do acúmulo de riquezas nas mãos de poucos e do desvio de recursos que deveriam ser destinados ao projecto familiar, o quadro de empobrecimento da família perfila-se ainda mais problemático. A dependência do álcool, das drogas ou do jogo de azar é por vezes expressão destas contradições sociais e do mal-estar a que elas dão origem na vida das famílias.

Fragilidade e força da família

A família, comunidade humana fundamental, nunca mostrou como hoje, precisamente através da sua crise cultural e social, quantos sofrimentos causam a sua debilitação e a sua fragilidade. E quanta força ela pode encontrar, em si mesma, para fazer face à insuficiência e à inacção das instituições em relação à formação da pessoa, à qualidade do vínculo social, ao cuidado das pessoas mais vulneráveis. Portanto, é particularmente necessário apreciar de modo adequado a força da família, a fim de poder apoiar as suas fragilidades.

Extraído do SÍNODO DOS BISPOS NA XIV ASSEMBLEIA GERAL ORDINÁRIA – A VOCAÇÃO E A MISSÃO DA FAMÍLIA
NA IGREJA E NO MUNDO CONTEMPORÂNEO  “
INSTRUMENTUM LABORIS” / Vaticano 2015

Adaptação e Foto : Portal Terra de Santa  Cruz

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Presbítero, uma vocação a ser vivida à altura do evangelho.

Presbítero, uma vocação a ser vivida à altura do evangelho

A Palavra de Deus, a cruz de Cristo, a eucaristia, a comunhão com Cristo e com o Reino, a alegria, a atenção aos sinais dos tempos dão consistência à identidade, fundamentam a espiritualidade e indicam o caminho da missão do presbítero na Igreja no Brasil. Viver a vocação presbiteral à altura do evangelho de Cristo significa viver esse ministério tendo diante dos olhos o ser e o agir de Jesus, e não modas culturais efêmeras.

Dou graças ao meu Deus, cada vez que me lembro de vós nas minhas orações por cada um de vós. É com alegria que faço minha oração, por causa da vossa comunhão no anúncio do evangelho, desde o primeiro dia até agora. Eis a minha convicção: aquele que começou em vós tão boa obra há de levá-la a bom termo, até o dia do Cristo Jesus. É justo que eu pense isto a respeito de todos vós, pois vos trago no coração […] e isto eu peço a Deus: que o vosso amor cresça ainda, e cada vez mais, em conhecimento e em toda percepção, para discernirdes o que é melhor (Fl 1,3-11).

 Faço minhas essas sábias palavras de são Paulo, para dedicá-las aos meus caríssimos irmãos, presbíteros do Brasil. Chamado por Deus para apascentar o seu rebanho, todo presbítero deve dizer em primeiríssima pessoa ao povo de Deus que lhe foi confiado: “Trago-vos no meu coração”. Essa deve ser a sua consolação e a razão do seu ser e do seu viver. Cuidar do rebanho de Cristo, dando a este tudo o que tece a existência: amor, afeto, ternura, consolação, perdão, encorajamento nos momentos difíceis. A própria vida deverá ser a verdadeira alegria de um coração consagrado.

Evidenciar a grandeza da vocação presbiteral e a necessidade imperiosa da conformidade desta com o evangelho de Cristo é o intento deste artigo.

  1. Presbítero, homem da Palavra

Ao presbítero, homem da Palavra, por conta da especificidade da sua vida, vocação e missão, muito se atribui, dele muito se pede, se exige e se espera. Uma coisa, no entanto, é-lhe pedida solenemente: “Viver à altura do evangelho de Jesus Cristo” (Fl 1,27a). Quando isso acontece, ele atinge o estado de homem perfeito, à estatura da maturidade de Cristo (cf. Ef 4,13). E pode dizer como são Paulo: “Para mim, o viver é Cristo e o morrer é lucro” (Fl 1,21).

A Bíblia acompanha e marca, sacramentalmente, as várias etapas da vocação, da formação, da vida e da missão de um presbítero. Quando ainda candidato, o seminarista, ao ser-lhe conferido o ministério de leitor, recebe o livro da Sagrada Escritura com as seguintes palavras: “Recebe este livro da Sagrada Escritura e transmite com fidelidade a Palavra de Deus, para que ela possa frutificar cada vez mais no coração das pessoas” (Pontifical Romano, Paulus, 2008, n. 250). No rito da ordenação diaconal, é entregue novamente ao candidato o livro dos evangelhos, com estas palavras: “Recebe o evangelho de Cristo, do qual foste constituído mensageiro: transforma em fé viva o que leres, ensina aquilo que creres e procura realizar aquilo que ensinas” (idem, n. 174). Na ordenação presbiteral, o candidato é interrogado se quer, “com dignidade e sabedoria, desempenhar o ministério da Palavra, proclamando o evangelho e ensinando a fé católica” (idem, n. 126). E, por fim, na ordenação episcopal, sob a cabeça do bispo, é colocado o evangelho com as palavras seguintes: “Recebe o evangelho e anuncia a Palavra de Deus com toda a constância e desejo de ensinar” (idem, n. 94).

O cuidado com a Palavra é a marca do ministro ordenado. Certamente é do conhecimento de todos que, na mensagem final do Sínodo dos Bispos sobre a Palavra de Deus, os padres sinodais apresentaram os horizontes da Palavra de Deus a partir dos quatros pontos cardeais: “a Palavra tem uma voz: a revelação; um rosto: Jesus Cristo; uma casa: a Igreja; e um caminho: a missão” (cf. Mensagem final do Sínodo dos Bispos sobre a Palavra).

O presbítero é considerado, na Igreja, o homem da Palavra: da vivência, do anúncio e da missão da Palavra. A Palavra de Deus e a palavra da Igreja são tudo na sua vida e na sua missão. Ele deve estar atento e obedecer à Palavra do Mestre, como Pedro: “Duc in altum” (Lc 5,4). Da atenção à Palavra nasce a missão de “Duc in docendo”: “prega a Palavra, insiste oportuna e inoportunamente, repreende, censura e exorta com bondade e doutrina” (2Tm 4,2). Quando cuidamos bem da Palavra, ela também cuidará bem de nós, como dizia são Jerônimo. Por isso, precisamos nos perguntar diuturnamente: “O que tem a ver o que estou fazendo com o evangelho?” (MARTINI, O bispo, Paulus, 2014, p. 25). O presbítero deve também obedecer à palavra da Igreja que, ao mesmo tempo, é verdadeira, “empenhativa” e eficaz. Verdadeira porque não contém mentira; “empenhativa” porque compromete; eficaz porque aquilo que diz acontece.

Segundo o papa Francisco, “nota-se hoje nos agentes de pastorais, mesmo pessoas consagradas, uma preocupação exacerbada pelos espaços pessoais de autonomia e relaxamento, que leva a viver os próprios deveres como mero apêndice da vida, como se não fizessem parte da própria identidade” (Evangelii Gaudium, n. 78). E ele nos conclama para que “não deixemos que nos roubem o evangelho” (idem, n. 97). Quem está roubando o evangelho de nós? Quem está deixando roubá-lo? Como é que se rouba ou se deixa roubar o evangelho? Encontramos nas palavras de Francisco três respostas:

1) O mundanismo espiritual, que se esconde por detrás de aparências de religiosidade e até mesmo de amor à Igreja e significa buscar, em vez da glória do Senhor, a glória humana e o bem-estar pessoal (idem, n. 93). Ele se alimenta, sobretudo, de duas maneiras profundamente relacionadas: o fascínio do gnosticismo, da fé fechada no subjetivismo, em que apenas interessa determinada experiência ou uma série de raciocínios e conhecimentos que supostamente confortam e iluminam, mas, em última instância, a pessoa fica enclausurada na imanência da sua própria razão ou dos seus sentimentos; e o neopelagianismo autorreferencial e prometeico de quem, no fundo, só confia nas próprias forças e se sente superior aos outros, por cumprir determinadas normas ou por ser irredutivelmente fiel a certo estilo católico próprio do passado (idem, n. 94).

2) A vanglória, de quem se contenta com ter algum poder e prefere ser general de exércitos derrotados, em vez de simples soldado de um batalhão que continua a lutar. Quantas vezes sonhamos planos apostólicos expansionistas, meticulosos e bem traçados, típicos de generais derrotados! Assim negamos a nossa história de Igreja, que é gloriosa por ser história de sacrifícios, de esperança, de luta diária, de vida gasta no serviço, de constância no trabalho fadigoso. Em vez disso, entretemo-nos vaidosos a falar sobre “o que se deveria fazer” como mestres espirituais e peritos de pastoral que dão instruções ficando de fora (idem, n. 96).

3) A rejeição da profecia: quem cai no mundanismo olha de cima e de longe, rejeita a profecia dos irmãos, desqualifica quem o questiona, faz ressaltar constantemente os erros alheios e vive obcecado pela aparência. Circunscreveu os pontos de referência do coração ao horizonte fechado da sua imanência e dos seus interesses e, consequentemente, não aprende com os seus pecados nem está verdadeiramente aberto ao perdão. É tremenda corrupção, com aparências de bem. Devemos evitá-lo, pondo a Igreja em movimento de saída de si mesma, de missão centrada em Jesus Cristo, de entrega aos pobres. Deus nos livre de uma Igreja mundana, sob vestes espirituais ou pastorais! Esse mundanismo asfixiante cura-se saboreando o ar puro do Espírito Santo, que nos liberta de ficarmos centrados em nós mesmos, escondidos numa aparência religiosa vazia de Deus (idem, n. 97).

  1. Presbítero, homem atento aos sinais dos tempos complexos

Após 50 anos da abertura do Concílio Vaticano II, hoje temos um panorama dos presbíteros da Igreja no Brasil mudado e diversificado: 22.119 presbíteros, mais brasileiros, mais do clero diocesano e mais novos; 276 dioceses e em torno de 486 bispos; 10.760 paróquias e mais de 100 mil comunidades eclesiais católicas, espalhadas pelo território brasileiro. Por esses dados estatísticos, trata-se de uma Igreja viva, rica de carismas, serviços e ministérios.

No entanto, ela já se ressente da drástica diminuição das vocações ao ministério ordenado e à vida consagrada. Ainda não estamos à beira do limite do tolerável, como em outras partes do mundo, mas já se sente na pele essa crise vocacional. Não é mais possível simplesmente ignorá-la ou relativizá-la.

Ao presbítero, na Igreja católica, é reservada, destinada e confiada uma missão especial e crucial de renovação e edificação da Igreja. Por isso, faz-se necessária a apreciação e compreensão da sua identidade, espiritualidade e missão e dos meios para tornar o seu ministério mais eficazmente possível. O presbítero participa da missão de Jesus. Não se devem esquecer nunca estas palavras de Jesus: “Sem mim, nada podeis fazer” (Jo 15,5). Só com Jesus podemos realizar o nosso ministério, deixando-lhe a total e soberana iniciativa. Não temos nada nosso para oferecer às pessoas; não somos nada sem o Senhor; nada podemos fazer sem obedecer ao Senhor e comungar com ele.

A exemplo de Cristo, o presbítero deve falar ao coração das pessoas e anunciar-lhes as alegrias do Reino; apontar para as realidades do céu. Ver o que há de positivo em cada ser humano e encontrar ali um caminho para comunicar-lhe a ternura do coração de Deus. Não deve andar à procura das fraquezas das pessoas, para explorá-las pastoralmente. É melhor deter-se no que existe de grande, de nobre, de belo e de sublime na vida e despertar o gosto pela beleza das coisas de Deus. Todos queremos ser felizes, mas somente Deus, revelado no rosto de Jesus de Nazaré, pode preencher a grandeza, a altura, a profundidade e a largura do nosso coração. “Só Deus basta”, dizia santa Teresa. Santo Agostinho resume a experiência de sua vida com estas palavras: “Criaste-nos para ti, e inquieto está o nosso coração até que repouse em ti” (AGOSTINHO, Confissões I, 1).

O serviço presbiteral, mesmo com todas as cruzes que naturalmente essa missão comporta, é circundado pela luz transfigurante da ressurreição de Cristo. Tenhamos a coragem de dizer ao mundo que a vida daqueles que acreditam na força da ressurreição já está escondida com Cristo em Deus (cf. Cl 3,3). Ele é a nossa força, o nosso canto e a razão do nosso viver. O amor de Deus será sempre capaz de transformar as tempestades da vida em brisa leve e suave. Como dizia são Jerônimo: “Ninguém deve desesperar-se nesta vida. Tens Cristo e estás com medo? Será ele a nossa força, ele o nosso pão, ele o nosso guia” (SÃO JERÔNIMO, Breviarium in Psalmos, PL 26, 1224).

Não temos, portanto, nenhum motivo para anunciar somente e sempre mensagens de derrota e pessimismo, tocar marcha fúnebre e entoar cânticos de lamento. Não temos o direito de sermos profetas do mau agouro. Devemos proclamar a mensagem da ressurreição, da alegria e da esperança. Sejamos presbíteros destemidos e corajosos, capazes de contagiar o mundo com a boa-nova do evangelho de Cristo ressuscitado. Olhemos para o futuro com confiança e otimismo, mesmo em meio a todas as dificuldades, não obstante as trevas que nos rodeiam. Cristo já venceu o mundo e com ele seremos mais que vencedores (Rm 8,37; 1Jo 5,4).

Como Jesus, sejamos presbíteros dispostos a dar sempre o primeiro passo: indo ao encontro dos excluídos e marginalizados, oferecendo e pedindo perdão. A Igreja é hóspede das casas alheias. Quando uma paróquia faz muito sucesso, tenhamos o cuidado para não cometer o erro de pensar que o Reino de Deus chegou e confundir o pároco com o Messias. O presbítero deve viver em sua própria pele as contradições, as fragilidades, as expectativas e as esperanças do seu tempo, com todas as suas complexidades. O importante é não fazer um pacto com a mediocridade, mas viver na medida alta do evangelho. É necessário então que sejamos presbíteros enamorados do nosso sacerdócio, conquistados pelo ideal de serviço, a exemplo de Cristo Pastor, bom e servo por amor. O tempo e a vida não nos pertencem: são de Deus e dos irmãos. Viver a espiritualidade presbiteral desse modo implica sermos presbíteros 24 horas por dia. Grave erro em nossa vida cometemos quando separamos os momentos ministeriais litúrgicos do resto de nossa vida: presbítero no altar, homem no mundo. O povo de Deus nos quer ver como presbíteros em qualquer lugar; quer sempre encontrar em nós homens cheios da vida de Deus e entusiasmados pela opção de vida que fizemos.

  1. Presbítero, pai espiritual, por amor e no amor

O amor é o sentimento mais difundido no mundo. O amor é o mandamento mais conhecido em todo o mundo. O amor é a ação mais praticada no mundo, mais do que o ódio, a vingança, a violência e outros mais. O amor é o nome do Deus cristão (1Jo 4,8). Os românticos tem o amor em suas canções como palavra preferida. As mães e os pais vivem para amar. Os sábios têm o amor como a palavra-chave. Os mártires morrem por amor. O amor é a seiva de uma vida autêntica e verdadeira. Só o amor constrói e liberta para a vida plena. Só o amor conduz à vida feliz junto de Deus. O amor é a única virtude que permanecerá para sempre.

O presbítero vive por amor ao evangelho de Jesus Cristo. O amor é a síntese de tudo na sua vida e na sua missão. A tradição cristã convencionou chamar o presbítero de “padre”. Padre é uma tradução literal da palavra pai. O presbítero é, de fato, pai espiritual da comunidade eclesial. Chamar o presbítero de pai é uma das expressões de amor, de carinho e de reconhecimento de seus filhos. Além da paternidade biológica, existe a paternidade existencial e espiritual. “O padre é o amor do coração de Jesus” (são João Maria Vianney). É pai porque ama e ama porque é pai. E o amor que nasce do coração do presbítero é um amor generativo e regenerativo. Ainda que não se case, o padre não é estéril. O padre gera filhos para Deus. Os filhos de Deus são gerados nas entranhas do amor do padre. São Paulo expressou essa sua paternidade, chamando os irmãos de “meus filhos queridos”, pois, segundo ele, os gerou em Cristo, pelo anúncio do evangelho (cf. 1Cor 4,15). Por incrível que possa parecer, o presbítero (há quem pense o contrário!) tem seus amores: a Jesus, à Sagrada Escritura, à Igreja, à Virgem Maria e ao povo de Deus. O padre Ibiapina, o santo do sertão nordestino, tinha três amores declarados: à eucaristia, a Maria e aos pobres retirantes.

O presbítero então forma filhos para Deus, para a Igreja e para a sociedade por amor. O papa Francisco nos pede que “não deixemos que nos roubem o ideal do amor fraterno” (Evangelii Gaudium, n. 98-101). Quanta guerra entre nós! Às vezes, tem-se a impressão de que reproduzimos na Igreja o que a sociedade tem de pior: desunião, contenda, rixa, fofoca, murmuração e competição. Ele tem um livrinho, escrito ainda quando era cardeal em Buenos Aires, que aborda, com maestria, o que veementemente tem combatido na Igreja como papa: a fofoca, a murmuração e a crítica. Ele chama o murmurador de “homem sem remédio”.[3] Toda vez que perdemos de vista a grandeza do mistério da comunhão da Igreja, para ficarmos presos à mesquinhez de uma pessoa, à fragilidade de determinado grupo, ao erro de determinado período histórico, perdemos a capacidade de contemplar o mistério de Deus agindo em nós.

  1. Presbítero, Cireneu das alegrias do mundo

O segredo da vocação presbiteral está no encantamento por Jesus, sua Igreja e seu povo. Ninguém segue fielmente, por muito tempo, alguém por quem não tenha admiração e encanto. A perseverança do presbítero na missão depende da contínua adesão ao estilo de vida missionária de Jesus. O vigor da espiritualidade presbiteral se expressa na capacidade de se reencantar cada dia por seu Mestre e partir, sem olhar para trás (cf. Lc 9,62). O segredo da fidelidade presbiteral está no fascínio por Jesus, por sua pessoa, por seu evangelho e projeto de vida. Em quem vive desse modo a chama da vocação se mantém acesa, a vida não perde o sentido nem se torna fadigosa e rotineira.

E um dos sinais mais evidentes desse encantamento é a alegria. Conhecemos a cena segundo a qual, “enquanto levavam Jesus, tomaram certo Simão de Cirene, que vinha do campo, e impuseram-lhe a cruz, para levá-la atrás de Jesus” (Lc 23,26; Mc 15,21; Mt 27,32-33). Esse texto sempre inspirou místicos e ascetas a se tornar, como o Cireneu, socorredores dos sofrimentos do mundo. Por que também não inspirar o presbítero a carregar, além das dores, as alegrias do mundo? Somos chamados a carregar as cruzes do mundo, que, ao mesmo tempo, são sinais de dor e sofrimento, mas também de esperança e alegria, pois, afinal, a cruz de Cristo é sempre pascal. A “sequela Christi” exige isto: somos portadores de algo maior do que simplesmente a dor. “Somos Cireneus das alegrias do mundo.”[4] Muitos querem um cristianismo sem cruz. Querer um cristianismo sem dor, sem cruz e sem morte é uma das maiores tentações do nosso tempo. Mas não existe um cristianismo sem cruz. E, se existe, é insuficiente (cf. Gabino URIBARRI, Três cristianismos insuficientes, disponível na internet). Não queiramos um Cristo sem cruz nem uma cruz sem Cristo. Queiramos, ao contrário, a nossa cruz na cruz de Cristo e Cristo na nossa cruz.

O Documento de Aparecida fala 30 vezes de alegria. Entre elas: “Conhecer Jesus é o melhor presente que qualquer pessoa pode receber; tê-lo encontrado foi o melhor que ocorreu em nossa vida, e fazê-lo conhecido com nossa palavra e obras é nossa alegria” (DAp 29). O papa Francisco diz que “há muitos cristãos que parecem ter escolhido uma Quaresma sem Páscoa” (Evangelii Gaudium, n. 6). E ainda: “um evangelizador não deveria ter constantemente uma cara de funeral” (idem, n. 10). Diante das ações proféticas simbólicas que manifestam a chegada do Reino, a começar pelo próprio Jesus, a primeira reação é a alegria. A alegria de Jesus (Lc 10,20-24) diante da realidade do Reino é algo que ainda não foi suficientemente valorizado pelos exegetas, teólogos e pastoralistas. A alegria é verdadeira ação profética, reação lógica diante da chegada do Reino. Jesus é o primeiro a ser transformado por essa alegria, porque vive plenamente o mistério do Reino. A alegria manifesta a sua compreensão fascinante no momento em que o Reino se avizinha. Porém a causa central da alegria e da felicidade de Jesus é o convencimento do amor de Deus para com o mundo. Portanto, a alegria não é um sentimento emocional, momentâneo e descomprometido. É, ao contrário, o sinal da presença do Reino.

  1. Presbítero, homem unido a Jesus como o ramo à videira

Em seu discurso, ocorrido no cenáculo, na última ceia, Jesus conta a parábola da videira para comparar a sua relação com o Pai e com os discípulos, pela eucaristia, à que existe entre a videira, os ramos e o agricultor (cf. Jo 15,1-11). A videira, no Antigo Testamento, indica o povo de Israel: a videira que Deus plantou com muito carinho nas encostas das montanhas da Palestina (cf. Is 5,1-7; Sl 80). A videira também é considerada a árvore da vida para os gregos e para os romanos. No entanto, essa videira não correspondeu ao que Deus esperava. Em vez de uvas boas, deu uvas azedas, que não prestam para nada. Agora, com Jesus, há uma mudança: o Pai continua sendo o agricultor, Jesus é a videira verdadeira e nós, os ramos dessa videira verdadeira. Quem permanece unido a Jesus produz frutos de evangelização e de missão.

A parábola da videira é uma parábola da existência humana e, por que não dizer, da vida, da identidade e da missão presbiterais. Dessa parábola, como parábola da existência presbiteral, destacaremos três elementos:

Primeiro, a unidade. Videira sem ramos não existe. Nem ramos sem tronco. Para que um ramo possa produzir frutos, deve estar unido à videira. Só assim consegue receber a seiva. “Sem mim vocês não podem fazer nada” (Jo 15,5b). O presbítero, pelo sacramento da ordem, se une e se incorpora a Cristo como o ramo no tronco da videira. O sacramento da ordem incorpora o presbítero aos atos de autodoação de Jesus[5] e o transforma em servidor do Reino e fiel gerador de vida, de amor, de fidelidade e de serviço. Enquanto estiver ligado a Jesus, o Tronco, recebe dele a seiva que vem do Pai e produz frutos de vida, paz e justiça. Ao se desligar e se distanciar de Jesus, o Amor do Pai, sua vida perde sentido e encantamento, seca e morre. Ao contrário, unido a ele, glorifica ao Pai com suas ações pelo Reino. E é essa unidade que constitui a identidade, fundamenta a espiritualidade e indica a missão do presbítero.

Segundo, a poda. Todo ramo que em Jesus não produz fruto, o Pai o corta. Ramo que não produz fruto é cortado, seca e é recolhido para ser queimado. Não serve para mais nada, nem para lenha. Assim como o agricultor limpa e purifica a videira pela poda, Deus nos purifica pela Palavra de Jesus Cristo. O que acontece com uma videira acontece também na vida do presbítero, que também deve passar por boas podas para produzir frutos. A poda é dolorosa, mas necessária. Ela purifica o presbítero, para que cresça e produza mais frutos. Para que o presbítero permaneça na Igreja unido a Cristo e produza fruto, é preciso um trabalho manual e artesanal de poda de um agricultor zeloso e dedicado. “A vocação é como um ‘diamante bruto’ a ser lapidado, para que brilhe em meio ao povo de Deus. […] A formação é uma obra artesanal, e não policial. O objetivo é formar religiosos que tenham um coração tenro, e não azedo como o vinagre”.[6] E esse trabalho artesanal de poda e de lapidação deve ter as ferramentas e as marcas do sacrifício, da humildade, da simplicidade e da obediência. Caso contrário, não produz frutos. É preciso investir mais nesse tipo de poda para produzirmos frutos de unidade, reconciliação e curarmos as feridas das insatisfações, das rejeições, dos ressentimentos, dos sentimentos contraditórios e dos dinamismos opostos. O celibato, vivido com amor, é também uma forma de poda na vida de um presbítero.

Terceiro, os frutos. Outro aspecto muito importante da parábola da videira para a vida de um presbítero é dar frutos. O resultado natural quando um ramo permanece ligado à videira é dar frutos. Dar frutos significa que a salvação não deve ser nem ficar limitada somente a nós. Quando a videira dá frutos, eles servem para alimentar e, consequentemente, são úteis para as pessoas. Assim é o presbítero que dá frutos. Sua vida, quando ligada à videira verdadeira, que é Jesus, será fonte inesgotável do amor, pronta para ajudar a todos os que necessitem de uma palavra de ânimo.

Como então produzir bons frutos, para não nos tornarmos videiras improdutivas? Primeiro, a alegria de sentir-se “servo inútil”, isto é, servidor não de um projeto pessoal, subjetivo, mas de um projeto objetivo, de Deus. Segundo, a alegria de servir a Igreja em comunhão com o papa, o bispo, os outros presbíteros e o povo de Deus. Terceiro, a liberdade de sentir-se livre, desapegado, independentemente de qualquer reação das pessoas. Em geral ainda não somos nem alegres nem livres por causa da nossa suscetibilidade: ou somos preguiçosos, ou levamos adiante um projeto e nos ligamos a ele como se fosse nosso, e não de Deus. Enfim, produz bons frutos para o Reino aquele que é colaborador e servidor de um projeto não pessoal, mas de Jesus e da sua Igreja, em comunhão e união com ele. E, produzindo frutos, temos certeza de que o Pai cuidará ainda mais, limpará e fará de tudo para continuarmos cada vez mais produzindo bons frutos.

Por fim, faço minhas as palavras do padre Adroaldo: “Esta videira albergará milhares de nomes: chama-seesperança para aqueles que sonham outro mundo possível; chama-se amada paz para aqueles que vivem em meio à barbárie dos conflitos; chama-se liberdade para aqueles que foram privados dos seus direitos fundamentais; chama-se justiça para aqueles que vivem continuamente sendo espoliados e explorados; chama-se beleza, porque tudo o que foi criado é bom e precioso; chama-se humanidade, porque é neste ‘húmus-chão’ que a presença do Ruah transforma a existência” (Adroaldo PALAORO, Somos terras do Espírito,disponível na internet). Desse modo, nosso caos (desordem, feiura, sujeira) existencial se transformará emcosmos (harmonia e beleza) eclesial.

  1. Presbítero, homem “consumido” como eucaristia

“Se o grão de trigo que cai na terra não morre, fica só. Mas, se morre, produz muito fruto” (Jo 12,24). Escolhemos dois símbolos eucarísticos para finalizarmos esta breve dissertação sobre a identidade, a espiritualidade e a missão do presbítero da Igreja no Brasil: a “videira-vinho” e o “trigo-pão”. Além de serem símbolos eucarísticos, são símbolos da vida e da missão de um presbítero. Porque, como disse o padre Chevrier, “o padre é um homem consumido”.

Para entender a eucaristia, é preciso, antes de tudo, entender sete elementos essenciais (cinco pães e dois peixes) sem os quais a sua compreensão fica prejudicada, imprecisa e incompleta:

1) Quem é Jesus Cristo. A eucaristia é Jesus, sua pessoa, sua vida, seu corpo e seu sangue, entregues por nós. Na eucaristia estão contidas toda a vida e toda a missão de Jesus. A eucaristia é cristofania: é Cristo e fala de Cristo (“Eu sou o pão da vida”, Jo 6,35). O lugar da eucaristia é a cristologia.

2) O significado do mistério pascal: a autodoação, memorial da autoentrega, total e irrestrita, do seu corpo e do seu sangue. A eucaristia é a pró-existência de Jesus: “Isto é o meu corpo doado e meu sangue derramado por vós” (Lc 22,19).

3) O significado do pão e do vinho, frutos da terra e do trabalho humano. A eucaristia é o pão e o vinho transubstanciados no corpo e no sangue de Jesus, memorial da morte e da ressurreição de Jesus: o trigo caído por terra e a videira podada. O pão corresponde ao sentimento de fome e o vinho ao de sede. A eucaristia é pão da vida eterna para matar a fome do mundo: “O pão que eu vos dou é a minha própria carne para a salvação do mundo” (Jo 6,51).

4) O que é a Igreja. A eucaristia é o grande presente que Cristo, o esposo, deixa de herança à Igreja, sua esposa, no dia da sua despedida (SC 47). A Igreja sempre foi concebida como o corpo de Cristo. Jesus, por meio da eucaristia, funda a Igreja como comunidade da nova aliança. A Igreja vive da eucaristia. Ela sempre foi considerada o “sacramento da Igreja”: a eucaristia faz a Igreja e a Igreja faz a eucaristia. Não se edifica nenhuma comunidade se não tiver a sua raiz e o seu centro na eucaristia (PO 6). Comer o pão eucarístico é construir comunhão com a comunidade, participar, servir e viver o compromisso de fraternidade comunitariamente.

5) O que é liturgia (SC 5 e 7). A Igreja celebra o memorial litúrgico do mistério pascal de Jesus na eucaristia como um grande hino de ação de graças (eucaristia = ação de graças) ao Pai. A eucaristia é o memorial litúrgico da aliança de Deus com seu povo, por meio da vida, morte e ressurreição de Jesus (SC 10). Foi ele mesmo quem disse: “Fazei isto em minha memória”. Na força do Espírito Santo (SC 6; GS 38), a Igreja celebra a eucaristia como uma fonte que brota e jorra graças e provoca em nós ação de graças.

6) O sacerdócio. Cristo se oferece na eucaristia como sacerdote e mediante o ministério do sacerdote. O sacerdócio de Jesus não é cultual, mas existencial, ou seja, a doação de sua vida. Quem dá a sua vida como Jesus é sacerdote e vive plenamente um estilo de vida sacerdotal-eucarístico. A eucaristia está no centro da vida, do ministério e da espiritualidade do presbítero. A ele se dirige o convite: “Vive o mistério que é colocado em tuas mãos” (Pastores Dabo Vobis, n. 24 e 26). O celibato é uma forma de o sacerdote se consumir pelos irmãos.

7) Amor social. A eucaristia é o gesto mais sublime da solicitude, da estimulação e da imperiosa caridade de Jesus por nós: Tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim…” (Jo 13,1ss).

O Concílio Vaticano II fala da eucaristia como o tesouro da Igreja e como a fonte e o cume de toda a evangelização (Presbyterorum Ordinis, n. 5). É impossível compreender o ministério presbiteral sem o mistério da eucaristia. Em um só ato, Jesus instituiu a eucaristia e o sacerdócio. A unidade entre eucaristia e sacerdócio é intrínseca e indissolúvel. Sem sacerdócio não há eucaristia, e sem eucaristia o sacerdote não pode realizar plenamente a sua missão.

Na eucaristia, somos convidados, cada dia, a seguir o Senhor com doação total, a reconhecê-lo na palavra e na fração do pão, a acolhê-lo no mistério da fé. Toda eucaristia é renovado convite ao discipulado, ou seja, a estar na escola de Cristo, para viver como ele e testemunhar a sua real presença entre nós. Viver a nossa vida como discípulos significa aceitar o escândalo da cruz. Também a eucaristia, máxima celebração da glória da cruz, é “escândalo” para ser vivido. O nosso radicar-se na eucaristia nos liberta da lógica da eficiência: pondo-nos em comunhão pessoal com o corpo e o sangue de Cristo, aprendemos a viver a lógica da cruz e amadurecemos para a ressurreição. Participando cotidianamente do sacrifício eucarístico de Cristo, o presbítero se faz realmente seguidor de Cristo e se liberta do risco do intimismo e do formalismo exterior. Desse modo, sua vida se torna, como a vida de Cristo, submissão ao Pai e acolhimento do seu juízo e do seu projeto para a nossa vida. Esse seguimento se realiza na escuta atenta da Palavra de Deus, na oração, no sacrifício cotidiano, na atenção aos sinais dos tempos, nos quais Deus se manifesta ao mundo e a nós. Essa espiritualidade eucarística se torna, realmente, uma encarnação nas vicissitudes do tempo, único meio possível de realizar o caminho da santidade.

A espiritualidade presbiteral é intrinsecamente eucarística. A semente dessa espiritualidade encontra-se já nas palavras que o bispo pronuncia na liturgia da ordenação: “Recebe a oferenda do povo santo para apresentares a Deus. Toma consciência do que virás a fazer; imita o que virás a realizar, e conforma a tua vida com o mistério da cruz do Senhor”. Desse modo, vemos que o presbítero é chamado a ser continuamente um autêntico perscrutador de Deus, embora, ao mesmo tempo, permaneça solidário com as preocupações humanas. Uma vida eucarística mais intensa permitirá ao presbítero entrar mais profundamente em comunhão com o Senhor e o ajudará a deixar-se possuir pelo amor de Deus, tornando-se sua testemunha em todas as circunstâncias da vida, mesmo nas difíceis e obscuras.

Comungar do corpo e sangue de Cristo implica um compromisso sério de comunhão com Deus e com a vida dos irmãos. Caso contrário, a eucaristia permanece um sacramento incompleto. Se esta não entra, de verdade, na vida, permanece um episódio acontecido; um mistério de uma resposta rejeitada, de um convite não acolhido, como revela a parábola do banquete nupcial.

As realidades celebradas no altar da eucaristia devem também ser celebradas diariamente no altar da vida. A eucaristia que celebramos não nos traz para o interior da Igreja simplesmente para nos congregarmos por alguns instantes, mas nos remete à missão, ao mundo que deve ser transformado. A atitude e as disposições requeridas por parte dos que participam ativamente da celebração eucarística decorrem do conteúdo e significado mesmos do mistério celebrado. Trata-se da celebração do mistério pascal, ou seja, da morte e ressurreição do Senhor, fonte de nossa salvação. Trata-se da celebração da encarnação de um Deus que entra na nossa história e em nossa vida cotidiana. Trata-se de cantar a vitória desse Deus sobre a morte, que se abateu sobre ele por força de seu amor pela humanidade. Trata-se, também, e não menos, de celebrar sua entrega à morte, que será o selo da vida por ele vivida, em pró-existência amorosa, e resgatada do poder das trevas pelo Pai, que o proclama vivo para sempre na força do Espírito Santo. É o momento mais densamente sagrado da vida cristã e requer atitudes condizentes por parte dos que dele se aproximam.

Portanto, a presença real de Jesus Cristo se estende a todas as formas da autêntica vida cristã, com a qual os batizados fazem a salvação acontecer na história. Não somos cristãos para ir à missa, mas vamos à missa para ir à vida e a suas periferias. Celebrar a eucaristia é participar do sacrifício da Páscoa e da aliança nova, vivenciá-lo e dele viver, para ser, de verdade, discípulos de Jesus. No final de cada missa, começa a missão cristã: isto é, o envio para a vida, para a prática do amor e da partilha, para o testemunho da solidariedade e da esperança entre as pessoas, começando por aquelas que estão mais próximas a nós, familiares e amigos, até atingir a todos, sobretudo os mais distantes e afastados. “Façam isto em minha memória” significa fazer o que Jesus fez, para que a sua presença permaneça atual. Significa fazer de nossa vida alimento para que outros tenham vida e a tenham em abundância (cf. Jo 10,10).

O presbítero é, por excelência, o homem da eucaristia. Por meio dele, o Espírito Santo realiza o grande milagre do Infinito que se faz migalha de pão para a vida do mundo. O Espírito Santo é a fonte da espiritualidade eucarística e o grande impulsionador da construção do corpo de Cristo.

Concluindo

Palavra, cruz, alegria, videira e trigo dão consistência à identidade, fundamentam a espiritualidade e indicam o caminho da missão do presbítero na Igreja no Brasil. Viver a vocação presbiteral à altura do evangelho de Cristo significa viver esse ministério tendo diante dos olhos o ser e o agir de Jesus. É essa espiritualidade que consiste em viver em íntima comunhão com Deus e, ao mesmo tempo, leva o presbítero a comprometer a sua vida em favor dos irmãos. Esta deve estabelecer um justo equilíbrio entre o ser e fazer sacerdotal. A ação do presbítero deve ser expressão de sua vida interior ou, em outras palavras, da experiência pessoal de Deus que ele faz no dia a dia de sua vida.[8] A esse propósito, são iluminadoras as palavras de são João Maria Vianney: “Quanto é infeliz um sacerdote que não tem vida interior […] mas para isso temos a tranquilidade, o silêncio, o retiro […] Aquilo que impede a nós, padres, de sermos santos é a falta de reflexão. Não entramos em nós mesmos, não sabemos o que fazemos. É da reflexão, da oração, da união com Deus que precisamos” (Bernard NODET, Il pensiero e l’anima del Curato d’Ars, Turim: Gribauldi, 1967, p. 130-131).

Estamos realizando uma pesquisa para termos os dados atualizados sobre os presbíteros no Brasil.

“É preciso ser sacerdotes que falem de Deus ao mundo e que apresentem o mundo a Deus; homens não sujeitos a modas culturais efêmeras, mas capazes de viver autenticamente aquela liberdade que somente a certeza da pertença a Deus é capaz de dar […]. A vida profética com a qual serviremos Deus e o mundo, anunciando o evangelho e celebrando os sacramentos, favorecerá o advento do Reino de Deus já presente e o crescimento do povo de Deus na fé. […] Os fiéis leigos encontrarão em tantas outras pessoas aquilo de que humanamente precisam, mas somente no sacerdote poderão encontrar aquela Palavra de Deus que deve estar sempre em seus lábios: a misericórdia do Pai, que se prodiga de maneira abundante e gratuita no sacramento da reconciliação; o pão de vida nova, ‘verdadeiro alimento dado aos homens’” (PAPA BENTO XVI, Alocuçãodirigida aos participantes do Congresso Teológico sobre o Sacerdócio, Roma, 12 mar. 2010. Disponível em: <www.zenit.org>).

[3] “Santo Agostinho chama o murmurador de ‘homem sem remédio’: os homens sem remédio são aqueles que deixam de cuidar de seus próprios pecados para reparar os dos outros. Não buscam o que se há de corrigir, e sim o que podem criticar. E, ao não poder escusar a si mesmos, estão sempre dispostos a acusar os outros” (Jorge M. BERGOGLIO, Sobre a acusação de si mesmo, Ave Maria, 2013, n. 8).

Essa frase é retirada de um livro que descreve a peregrinação a Lourdes de alguns padres idosos e doentes, guiados espiritualmente por dom Tonino Bello, então bispo de Molfetta. Tonino Bello é, para a Itália, o que muitos bispos são para o Brasil: poeta, profeta e pastor dos pobres. Nessa peregrinação, como se anunciasse um presságio, dizia: “Eu estou doente também!” Aparentemente não estava. Mas, depois de dois anos dessa peregrinação, morreu de câncer no pulmão. Hoje seu túmulo é lugar de romaria.

Para o tratamento mais detalhado dessa questão, cf. Pedro BRITO, Os sacramentos como atos eclesiais e proféticos – um contributo ao conceito dogmático de sacramento, à luz da exegese contemporânea, Tesi Gregoriana, 46, Roma: Pontificia Università Gregoriana, 1998, 19ss).

PAPA FRANCISCO, em duas ocasiões: primeiro, aos participantes da 82ª Assembleia Geral da União dos Superiores Gerais, em Roma, 29/11/2013; segundo, na Reunião Plenária da Congregação para o Clero, também em Roma, no dia 3/11/2014.

“Então, o que devemos fazer com a nossa vida? ‘Eucaristizar’. Transformar tudo em eucaristia, para podermos ter o homem eucarístico, a Igreja eucarística, e assim toda a vida será eucaristia. O mundo eucarístico da Igreja que crê, que espera, que guia, que está destinada à Restauração, que proclama a Trindade, que sempre renova o mundo, a sociedade” (J. F. VAN THUAN, “O dom da eucaristia”, RevistaSacerdos, maio-jun. 2003).

É interessante ressaltar aqui o que afirma o Diretório para o Ministério e Vida dos Presbíteros no n. 44: “[…] quando nos presbíteros se rompe a unidade interior, não existe mais caridade pastoral, se provoca uma espécie de curto-circuito entre o ser e o agir do sacerdote. É grande o risco de cair no funcionalismo”.

Por Dom Pedro Brito Guimarães

Arcebispo metropolitano de Palmas, presidente da Comissão Pastoral para os Ministérios Ordenados e a Vida Consagrada; doutor em Teologia Dogmática pela Pontifícia Universidade Gregoriana, de Roma, compositor de várias canções religiosas.


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A encíclica de Francisco diz claramente NÃO à ideologia de gênero.

A encíclica de Francisco diz claramente NÃO à ideologia de gênero.

Em continuidade com o magistério precedente, o texto destaca a necessidade de uma ecologia humana que respeite as diferenças sexuais.

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Que o papa Francisco está bem atento às questões relacionadas com as raízes biológicas e antropológicas do homem, já era claro faz tempo. Em várias ocasiões durante as últimas semanas, o papa recordou a necessidade de salvaguardar a complementaridade entre homem e mulher, chamando-a de “vértice da criação de Deus”.

Esta sensibilidade do papa se refletiu também na encíclica “Laudato sì”. Numa passagem crucial do texto, ele destaca que “não se pode propor uma relação com o ambiente que prescinda da relação com as outras pessoas e com Deus”. Tal atitude, avisa Francisco, evitando qualquer equívoco ambientalista, não passaria de “individualismo romântico disfarçado de beleza ecológica e um sufocante fechar-se na imanência”. Em suma, o respeito pelo homem precede e antecipa o respeito pelo meio ambiente.

Já na catequese de 5 de junho de 2013, Dia Mundial do Meio Ambiente, o Santo Padre salientou que “cultivar e salvaguardar” são conceitos que não compreendem apenas “a relação entre nós e o meio ambiente, entre o homem e a criação”, mas envolvem “também as relações humanas”. Daí a necessidade, sentida por Francisco, de redescobrir uma “ecologia humana”, termo usado pela primeira vez por São João Paulo II na “Centesimus Annus”. O papa polonês observou que, “para além da destruição irracional do ambiente natural, deve-se lembrar a destruição ainda mais grave do ambiente humano, que está longe de receber a atenção necessária”.

A ligação entre aquele aviso da “Centesimus Annus” e as solicitações do papa Francisco está no discurso que Bento XVI pronunciou no Bundestag, o parlamento federal alemão, em setembro de 2011. “O homem também tem uma natureza que ele deve respeitar e que não pode manipular à vontade. O homem não é apenas uma liberdade que ele cria para si mesmo. O homem não cria a si mesmo. Ele é espírito e vontade, mas é também natureza, e a sua vontade é justa quando ele respeita a natureza, a escuta e aceita a si mesmo como aquilo que é e que não foi ele quem criou”.

Quando o homem pretende governar a natureza para esvaziá-la de significado e substituir a Deus, a sua vontade assume contornos que não são justos, mas soberbos, evocando o mito de Prometeu, que rouba de Zeus o fogo e decreta assim a própria condenação. É nesta perspectiva que se coloca a redefinição do sexo com bases meramente culturais: o homem que se arvora como Deus se arroga a ilusão de controlar até a própria identidade sexual, de torná-la um elemento líquido em que as diferenças se confundem e se dissolvem.

Nasce assim a ideologia de gênero, que, na audiência geral de 15 de abril, o papa Francisco perguntou se “não é uma expressão de frustração e resignação, que visa apagar a diferença sexual porque não sabe mais lidar com ela”. O papa observou ainda que a remoção da diferença é “o problema, não a solução”.

O assunto foi retomado dois meses depois, em 8 de junho. Recebendo os bispos de Porto Rico em visita ad limina ao Vaticano, o papa explicou que “as diferenças entre homens e mulheres não são para contraposição ou subordinação, mas para comunhão e geração, sempre à imagem e semelhança de Deus”. Daí o apelo do papa aos bispos da Estônia e da Letônia, dois dias depois, a “promoverem a família como dom de Deus para a realização do homem e da mulher criados à sua imagem e como célula fundamental da sociedade”.

No domingo seguinte, abrindo o Congresso Eclesial da Diocese de Roma, Francisco se dirigiu às famílias incentivando-as a enfrentar a batalha contra a “colonização ideológica” sub-repticiamente introduzida nas escolas italianas e “que envenena a alma e a família”.

Esse veneno, que mina as bases biológicas e antropológicas do homem, é mais prejudicial que o veneno que se dissolve nos oceanos ou que penetra nas raízes de árvores seculares: ele pode corroer até demolir a humanidade, porque mata a propensão ao encontro entre homem e mulher como ocasião e condição essencial para a reprodução da espécie humana.

No terceiro capítulo, “Ecologia da vida cotidiana”, nº 155, a encíclica “Laudato sì” aborda com muita clareza a ideologia de gênero, mesmo sem nunca mencioná-la explicitamente. “A aceitação do próprio corpo como dom de Deus é necessária para acolher e aceitar o mundo inteiro como um dom do Pai e como casa comum; já uma lógica de domínio sobre o próprio corpo se torna uma lógica às vezes sutil de domínio sobre a criação”.

Portanto, “aprender a acolher o próprio corpo, cuidar dele e respeitar os seus significados é essencial para uma verdadeira ecologia humana”. E “também apreciar o próprio corpo na sua feminilidade ou masculinidade é necessário para se reconhecer no encontro com o outro diferente. Desta forma, é possível aceitar com alegria o dom específico do outro ou da outra, obra de Deus Criador, e enriquecer uns aos outros”. Assim, conclui com palavras inequívocas, “não é sadia uma atitude que pretenda ‘apagar a diferença sexual por não saber mais lidar com ela’”.

Esta passagem da encíclica traça uma clara linha de continuidade entre os três últimos papas no tocante à “ecologia do homem”.

Fonte: ZENIT


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Sacerdotes que pregam a Teologia da Libertação são excomungados pelo Papa e estes ainda tem a arrogância de afrontar sua Santidade!

A Teologia da Libertação diz quer justiça social, preferência aos pobres, felicidade somente aqui na terra e botam em segundo plano a salvação das almas!

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Sacerdotes que pregam a Teologia da Libertação são excomungados pelo Papa e estes ainda tem a arrogância de afrontar sua Santidade!

“Tudo é permitido, mas nem tudo é oportuno. Tudo é permitido, mas nem tudo edifica. Ninguém busque o seu interesse, mas o do próximo”. (I Cor. 10,23-24)   Ou seja quando não evangelizamos não buscamos o interesse do próximo, quanto mais o de Deus que mais importa! Querem alguns antes impor suas próprias idéias e filosofias aos leigos mais destraidos, que inocentes não percebam o dano a sua salvação.

“Mas temo que, como a serpente enganou Eva com a sua astúcia, assim se corompam os vossos pensamentos e se apartem da sinceridade para com Cristo. Porque quando aparece alguém pregando-vos outro Jesus, diferente daquele que temos pregado, ou se trata de aparecer outro espírito, diferente do que haveis recebido, ou outro evangelho, diverso do que haveis abraçado, de boa mente o aceitais”. (II Cor 11,3-4)

Este falso zelo da Teologia da Libetação pela Igreja e pelo Evangelho de que estamos ajudando o povo a viver bem melhor neste mundo por parte de alguns, acham e ensinam que á esperança de um mundo melhor que não virá.

Quando na verdade deveríamos estar ensinando a cumprir e a viver os mandamentos, que muitos não estão seguindo, como no caso do dizimo por exemplo.

Dai se vê um povo paganizado com uma Evangelização deficiente sem saber que o que se prega muitas vezes no pulpito se trata de Teologia da Libertação. E que esta filosofia herética e pagã em todo seu conteúdo não se enquadra nos ensinamentos de nosso Senhor Jesus Cristo.

E muitos incautos estão caindo nessa armadilha! (Efe. 4,17-24)

“Ai daqueles que o mal chamam bem, e ao bem, mal, que mudam as trevas em luz e a luz em trevas, que tornam doce o que é amargo, e amargo o que é doce!”. (Isaías 5.20)

Já podem ter recebido sua recompença nesta vida!

O que Jesus de fato disse foi: “Ide por todo o mundo, pregai o evangelho a toda criatura.” (Marcos 16:15)

“Estai de sobreaviso, para que ninguém vos engane com filosofias e vãos sofismas baseados nas tradições humanas, nos rudimentos do mundo, em vez de se apoiar em Cristo”. (Col. 2,8)

Nota: Infelizmente ainda tem gente que prega isto em nossa região e até indica livros.

Povo de Deus conheça o pensamento do Papa Bento XVI sobre a Teologia da Libertação

É importante conhecer o pensamento do nosso Papa em alguns assuntos que são fundamentais para a fé e a moral cristã, pois o Papa é o Pastor universal das almas.

Esses ensinamentos foram dados quando ele era ainda o Cardeal Ratzinger.

Encontramo-nos, em resumidas contas, em uma situação singular: a teologia da libertação tentou dar ao cristianismo, cansado dos dogmas, uma nova praxe mediante a qual finalmente teria lugar a redenção. Mas essa praxe deixou, para trás de si, ruínas em lugar de liberdade. Fica o relativismo e a tentativa de nos conformar com ele. Mas o que assim nos oferece é tão vazio que as teorias relativistas procuram ajuda na teologia da libertação, para, a partir dela, poder ser levadas a prática». (Conferência em Guadalajara (México). Novembro de 1996.) Não se pode tampouco localizar o mal principal e unicamente nas ‘estruturas’ econômicas, sociais ou políticas más, como se todos os outros males se derivassem, como de sua causa, destas estruturas, de sorte que a criação de um ‘homem novo’ dependesse da instauração de estrutura econômicas e sócias-políticas diferentes. Certamente há estruturas iníquas e geradoras de iniqüidades, que é preciso ter a valentia de mudar. Frutos da ação do homem, as estruturas, boas ou más são conseqüências antes de ser causas. A raiz do mal reside, pois, nas pessoas livres e responsáveis, que devem ser convertidas pela graça de Jesus Cristo, para viver e atuar como criaturas novas, no amor ao próximo, a busca eficaz da justiça, do domínio de sim e do exercício das virtudes». Quando fica como primeiro imperativo a revolução radical das relações sociais e se questiona, a partir daqui, a busca da perfeição pessoal, entra-se no caminho da negação do sentido da pessoa e de sua transcendência, e se arruína a ética e seu fundamento que é o caráter absoluto da distinção entre o bem e o mal. Por outra parte, sendo a caridade o princípio da autêntica perfeição, esta última não pode conceber-se sem abertura aos outros e sem espírito de serviço. Recordemos que o ateísmo e a negação da pessoa humana, de sua liberdade e de seus direitos, estão no centro da concepção marxista. Esta contém pois enganos que ameaçam diretamente as verdades da fé sobre o destino eterno das pessoas. Ainda mais, querer integrar na teologia uma ‘análise’ cujos critérios de interpretação dependem desta concepção atéia é encerrar-se em ruinosas contradições. O desconhecimento da natureza espiritual da pessoa conduz a subordiná-la totalmente à coletividade e, portanto, a negar os princípios de uma vida social e política de acordo com a dignidade humana. Esta concepção totalizante impõe sua lógica e arrasta as ‘teologias da libertação’ a aceitar um conjunto de posições incompatíveis com a visão cristã do homem. Em efeito, o núcleo ideológico, tirado do marxismo, ao qual faz referência, exerce a função de um princípio determinante. Esta função lhe deu em virtude da qualificação de científico, quer dizer, de necessariamente verdadeiro, que lhe atribuiu. As teologias da libertação», que têm o mérito de ter valorizado os grandes textos dos Profetas e do Evangelho sobre a defesa dos pobres, conduzem a um amalgama ruinosa entre o pobre da Escritura e o proletariado de Marx. Por isso o sentido cristão do pobre se perverte e o combate pelos direitos dos pobres se transforma em combate de classe na perspectiva ideológica da luta de classes. A Igreja dos pobres significa assim uma Igreja de classe, que tomou consciência das necessidades da luta revolucionária como etapa para a libertação e que celebra esta libertação em sua liturgia.

(Instrução sobre alguns aspectos da Teologia da Libertação LIBERTATIS NUNTIUS. Agosto de 1984)

Por Papa Emérito Bento VXI


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