Paulo VI, uma figura complexa na história papal moderna

Paulo VI provou ser um bom Papa, senão extraordinário. Mas teve a complicada tarefa de tentar implementar as reformas forjadas pelo Concílio Vaticano II – especialmente aquelas relacionadas à liturgia – sem provocar um cisma dentro da Igreja Católica.”

A opinião é de Richard McBrien, padre e professor da cátedraCrowley-O`Brien de Teologia da Universidade de Notre Dame, nos EUA. O artigo foi publicado no sítio National Catholic Reporter, 23-08-2010. A tradução é de Moisés Sbardelotto e revisada pela IHU On-Line.

Eis o texto.

O Papa Paulo VI é uma figura confusa na história papal moderna. Os católicos conservadores, que normalmente seriam favoráveis a quase todos os Papas por causa do lugar central que o papado ocupa na vida da Igreja, ultrajaram sua memória – comparando-o, de uma forma altamente desfavorável, ao seu Papa mais favorito de todos os tempos, João Paulo II, a quem eles agora se referem como o João Paulo, o Grande.

Comentaristas mais objetivos contrastam os estilos dos dois Papas.João Paulo II, raramente ou nunca, teve qualquer dúvida sobre a validade de suas opiniões, enquanto Paulo VI quase sempre estava em dúvida. E esse estado de dúvida muitas vezes o colocou em apuros.

Na verdade, o Papa João XXIII, que tinha colocado o arcebispo Montini no topo de sua primeira tropa de cardeais, se referiu ao seu posterior sucessor como um “Hamlet”: “ser ou não ser”.

No Concílio Vaticano II, por exemplo, Montini – agora Papa Paulo VI – se recusou a honrar os desejos dos bispos reunidos, incluindo o influente cardeal Suenens, da Bélgica, que lhe incitou a declarar João XXIII santo ali e naquele momento. O Papa resistiu à proposta, porque pensou que isso refletiria muito mal sobre seu próprio mentor, o Papa Pio XII.

Ao invés disso, anunciou o início dos procedimentos, visando a canonização tanto de João XXIII quanto de Pio XII.Sabemos agora como essa ligação foi mal concebida. João XXIII já foi beatificado, mas a causa de Pio XII continua definhando.

Paulo VI também ficou tão preocupado com as demandas da minoria derrotada com relação ao magistério do Concílio sobre  a colegialidade que autorizou que uma “Nota Explicativa” fosse anexada ao terceiro capítulo da Constituição Dogmática sobre a Igreja (também conhecido por seu título em latim, “Lumen gentium”), para tranquilizar os conservadores de que nada no documento diminuía a autoridade suprema do papa.

Os conservadores estavam em êxtase. O cardeal Siri de Gênova falou por muitos deles: “Tudo está bem! O Espírito Santo entrou no Concílio. O Papa resistiu”.

Em contrapartida, a maioria progressista dos padres conciliares voltou para casa depois da terceira sessão completamente desanimados e desmoralizados.

No último dia da sessão, escreveu John O`Malley, SJ, em seu livro “What Happened at Vatican II” [O que aconteceu no Vaticano II], “o rosto de Paulo VI estava sombrio enquanto ele era carregado através da basílica por meio de fileiras e fileiras de bispos, que aplaudiam superficialmente ou, em alguns casos, nem isso. Ninguém duvidava que a semana [conhecida por muitos como “semana negra”] havia danificado seriamente a relação entre o Papa e a assembleia”.

Apenas três anos e meio anos mais tarde, Paulo VI ignoraria as recomendações da sua próprio Comissão Pontifícia para o Controle de Natalidade e reafirmaria a doutrina oficial da Igreja de que o controle da natalidade por meios artificiais sempre foi um pecado mortal.

Muitos acreditam que o Papa havia sido assustado nessa questão por representantes da visão minoritária que o haviam alertado de que, se ele mudasse a doutrina sobre a contracepção, a credibilidade do magistério papal entraria em colapso.

E assim aconteceu, mas não porque ele mudou a doutrina, mas porque ele falhou em mudá-la!

Paulo VI ficou tão perplexo com a reação desfavorável à “Humanae vitae”, sua encíclica sobre o controle de natalidade, que nunca publicou outra encíclica ao longo dos dez anos restantes do seu pontificado.

Infelizmente, suas formas de “Hamlet” continuaram muito bem durante o seu pontificado. Nove anos depois de sua eleição, Paulo VI escreveu: “Talvez o Senhor chamou-me a este serviço não porque eu tenha qualquer aptidão para ele, ou para que eu possa governar e salvar a Igreja em suas dificuldades presentes, mas para que eu possa sofrer algo pela Igreja, para que fique claro que é o Senhor, e não qualquer outra pessoa, que a guia e a salva”.

Porém, Paulo VI também provou ser um bom Papa, senão extraordinário. Ele deu continuidade ao Concílio Vaticano II, iniciado por seu antecessor, João XXIII; levou adiante a revisão do Direito Canônico; e trabalhou incansavelmente pela promoção da paz e da justiça no mundo, assim como pela unidade da Igreja.

Mas ele teve a complicada tarefa de tentar implementar as reformas forjadas pelo Concílio Vaticano II – especialmente aquelas relacionadas à liturgia – sem provocar um cisma dentro da Igreja Católica.

Ele estabeleceu diversas comissões pós-conciliares e autorizou o uso do vernáculo na Missa e nos sacramentos. Ele aprovou um novo Ordinário da Missa em 1969, enfurecendo os conservadores que, erroneamente, pensavam que oMissal Romano de Pio V nunca poderia ser substituído.

Paulo VI teria se aterrorizado com a aprovação de João Paulo II e de Bento XVI de dois ritos litúrgicos separados na Igreja Católica Romana.

Portal Terra de Santa Cruz – a Fé Católica. (†).

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