A Origem do Homem segundo a antropologia filosófica

O que você responderia à pergunta “O que é o homem?” Ou seja, “O que somos, eu, você, todos nós? Para começar adianto que estas são questões fundamentais da Filosofia e da Antropologia Filosófica. Mas por onde começar a respondê-las? Iniciemos o nosso caminho na tentativa de formularmos, em conjunto, uma resposta adequada ao nosso tempo à questão principal da Antropologia Filosófica, criando um conceito mais próximo daquilo que o mundo que nos rodeia nos propicia.
Podemos dizer que de todas as questões o problema que se encontra por trás de todos os outros é o da determinação do que seria o homem, qual é o lugar ocupado por ele na natureza, qual a sua relação com o cosmo, sua função no mundo e seu destino. Daí as perguntas: de onde viemos? Para onde vamos? Que poder temos sobre a natureza? Que poder a natureza tem sobre nós? Qual é o sentido da nossa existência? Essas são perguntas que ao longo da vida nos fazemos, mas que não são fáceis de serem respondidas porque não são próprias ao mundo da técnica, da produtividade, da mídia e do consumismo que nos cerca. Essas questões se referem à filosofia, ao exercício do pensamento, a um tipo de conhecimento importante, porém muito pouco relevante para a maioria das pessoas.
O problema do homem foi abordado, direta ou indiretamente por todos os filósofos comprometidos com o pensamento.
Nesse sentido, Nicola Abbagnano afirma:
Pode especular-se sobre o Mundo, sobre o Ser, sobre a Verdade ou sobre a Justiça, podem fazer-se análises minuciosas dos procedimentos cognitivos e das ciências de que o homem dispõe, pode tentar-se determinar o que é o Bem absoluto ou o Mal absoluto, construir teorias monumentais e audaciosas visando a responder a todos os problemas do mundo, mas em todos os casos o único destinatário de todas essas especulações é o homem, que nelas procura algumas luzes que o passam a orientar na sua vida. ( Nomes e temas da filosofia contemporânea. p.9-11)
Toda filosofia autêntica tem no homem o destinatário último de suas questões e entende ser ele um de seus principais objetos de estudo. Pois, é de nós, seres humanos, que emana a transformação do mundo à nossa volta. Nós recebemos as conseqüências positivas e negativas da nossa atuação no mundo, isto é, todas as benesses e mazelas de nossos próprios atos.
Levando em conta nossa forma de estar e atuar sobre o mundo, nossas necessidades e criações, em Antropologia Filosófica nos interessa a busca da compreensão dos seguintes elementos: o universo simbólico humano, o mito, a espiritualidade e a religiosidade como formas específicas do homem se localizar no mundo; as produções técnicas, estéticas e artísticas como maneira de expressão e realização interna e externa da vida humana; a vida cultural e todo o universo das ideologias que constrói as culturas de massa e nos envolve num mundo de consumismo exacerbado e de indiferença ao que verdadeiramente importa em termos culturais; interessa-nos também as produções científicas e as questões éticas, morais e valorativas que envolve essas produções, sobretudo na área das ciência biológicas; a política e os problemas sociais que enfrentamos atualmente como a violência, as guerras e as drogas; a liberdade humana, as leis e as normas com todas as determinações e necessidades que as cercam; os aspectos positivos e negativos da revolução tecnológica contemporânea, no que diz respeito ao meio ambiente e à saúde desse meio, em que se inclui o próprio homem; enfim, interessa-nos o mundo do trabalho, a exigência de qualificação e os retornos econômicos e pessoais que temos em nossas profissões.
Todas essas questões envolvem as diversas dimensões de que se constitui o homem em sua racionalidade, passionalidade, condição metafísica, psicológica, técnico-produtiva e espiritual. Não podemos nos esquecer do fato do “homem não ser racional no mesmo sentido em que o quadrado tem quatro lados e o triângulo, três”; de que ele é livre para pensar e agir à sua maneira e que “esta liberdade é a capacidade que ele possui de escolher o seu caminho e de projetar de um ou de outro modo a sua vida […]”. (Nicola Abagnanno, p. 11) Seu aspecto livre pode, por conseguinte, apontar tanto para liberdade como para diversas formas de escravidão. Contemporaneamente, a Antropologia Filosófica atenta para o fato de que é necessário compreender melhor o homem “não tanto o homem em geral, na sua natureza e na sua essência imutável semelhante à de uma entidade matemática, mas o homem concreto, esse que cada um de nós sente viver em si próprio e descobre nos outros”. (Ibidem)
Reafirmando Sócrates conhecer-se a si mesmo é o primeiro tema que envolve o homem na história da filosofia e também o tema de toda a antropologia filosófica. A reflexão sobre si, exige uma análise sempre renovada dos aspectos da nossa vida cotidiana e do conhecimento em termos científicos. Por isso não basta identificarmos os problemas no nível do senso comum, é preciso aprofundá-los no nível científico da pesquisa e do pensamento, bem como na forma especificamente curiosa e questionadora que a filosofia nos possibilita. É preciso, portanto, ultrapassar o simples nível da experiência pessoal e procurar o sentido das coisas em conceitos mais elaborados a fim de alcançar uma visão de conjunto da vida humana e dar-lhe a unidade e a profundidade necessária em meio à infinita multiplicidade das coisas. É preciso que nos esforcemos para que consigamos agrupar os acontecimentos de maneira a ter uma visão crítica sobre a realidade, para além do tecnicismo que engessa as nossas mentes. É preciso que tenhamos a coragem de criar nós mesmos os nossos próprios conceitos, na condição de seres autônomos e reflexivos.
Para a Antropologia Filosófica de que vamos tratar interessa muito mais do que simplesmente uma filosofia da vida, conversas ou observações ocasionais. Isso não significa, no entanto, que tenhamos que nos restringir à meras conceituações teóricas, o mais importante é o questionamento, a pesquisa, a capacidade de criar e expressar conceitos, o posicionamento crítico aprofundado e defensável, o rompimentocom as ideologias massificantes do dia-a-dia; a compreensão dos aspectos individuais e coletivos que determinam aquilo que somos e a nossa forma de estar no mundo.
Tomar o homem dialeticamente, isso é o que exige a Antropologia Filosófica. Nesse intento, é primordial não tanto um método, mas as questões colocadas; não tanto as respostas, mas a maneira de respondê-las. Veremos que as respostas nem sempre são as mesmas e que podem ser conduzidas em diferentes direções, visto que existem múltiplas tendências e disposições do homem em seu “ser plural”: personalidade, sociedade, cultura, psiquismo, espiritualidade etc. Essa multiplicidade prova a complexidade da condição humana, que não se revela em uma única dimensão e que se mostra um terreno de aprofundamento árido e ao mesmo tempo instigante.
Em termos de História da Filosofia, o estudo do homem pelo homem, isto é, o conhecimento de si mesmo pode ser considerado a mais alta meta da investigação filosófica. Mesmo os mais céticos, não podem negar a importância e a necessidade da busca do autoconhecimento.
Faz parte da condição humana a interrogação sobre o seu passado, presente e futuro em diversas dimensões. A antropologia adquire um caráter filosófico quando busca compreender as diversas faces que compõem aquilo que é humano: o ser biológico do homem (sua estrutura física); as condições internas, subjetivas, a organização da personalidade e o inconsciente (o psíquico); a produção cultural nas diversas sociedades (a cultura); a construção e a formação do espaço político (a política); as relações sociais e os valores (a sociedade); a realidade transcendente, metafísica ou religiosa (a espiritualidade); etc. Por esses caminhos a antropologia filosófica reforça o seu objeto de estudo – o homem – em sua condição de um ser plural.
No desenrolar histórico, o estudo do homem passou de uma visão cosmocêntrica na antigüidade, para uma visão teocêntrica no mundo medieval, até chegar à perspectiva antropocêntrica nos mundos moderno e contemporâneo.
Na Filosofia Grega Antiga o homem, sua vida no Estado e seus valores surgem como problemas principais. Sócrates defende a tese do “conhece-te a ti mesmo”. Para Platão “o corpo é o cárcere da alma”; já Aristóteles concebe o homem como “um animal político por natureza. O homem é enfim, visto como um ser dual, constituído de corpo e alma. A alma é a instância superior, pela qual pode elevar a sua condição à de um ser racional e criar elementos para uma verdadeira felicidade. O conhecimento puro e do intelecto representa a saída da ignorância.
Na Filosofia Cristã-Medieval a reflexão sobre o homem ganha um caráter teocêntrico, em que Deus é considerado o ser de onde e para onde tudo converge. Destaca-se uma forte dicotomia entre corpo e alma, a redução da superioridade humana à alma e a submissão do poder da razão à fé.
Nas épocas Moderna e Contemporânea, junto com uma nova cosmologia, surge um novo espírito científico na busca pela questão do homem. Com base no sistema copernicano institui-se um novo lugar para o homem cosmo: ele agora se encontra num espaço infinito e no centro do universo. Doravante todo conhecimento se dará pela razão e tudo que não venha por meio dela está sujeito à dúvida. O homem descobre a capacidade infinita de sua razão e do seu intelecto, mas essa infinitude não representa a negação nem limitação do conhecimento, ao contrário, demonstra a incomensurável e inesgotável capacidade humana de conhecer.
A partir do século XIX surgem novos conceitos matemáticos e emerge o pensamento biológico. Coma teoria da evolução Darwin rompe com as ilusões das causa finais, mostrando que não há espécies separadas e sim uma contínua e ininterrupta corrente de vida. A vida humana passa, então, a ser vista com um olhar diferente. Não há mais um único centro de foco. Tudo isso provoca a queda da autoridade anteriormente estabelecida, fazendo surgir vários campos de estudos sobre o homem que descrevem sua imensa complexidade. Marx, por exemplo, dá prioridade ao Homem Econômico (as relações sociais e econômicas); Freud destaca o Homem Instintivo e impulsivo (os instintos sexuais) e Kierkegard alerta para o Homem Angustiado, isto é, para a angústia da nossa existência.
Esse percurso histórico mostra que o homem não pode ser visto por um único ângulo. Não podemos assumi-lo apenas como um mero produto da matéria ou como um ser totalmente compreensível pela ciência. Por outro lado, não podemos aceitar a dimensão metafísico-transcendente como a única capaz de explicá-lo. O homem é um ser de diversas dimensões e quando mais faz história mais demonstra sua complexidade. Ao examinarmos com olhar contemporâneo talvez pudéssemos dar razão à Martin Heidegger esteja quando diz:
Nenhuma época teve noções tão variadas e numerosas sobre o homem como a atual. Nenhuma época conseguiu, como a nossa, apresentar o seu conhecimento acerca do homem de um modo tão eficaz e fascinante, nem comunicá-lo de um modo tão fácil e rápido. Mas também é verdade que nenhuma época soube menos que a nossa o que é o homem. Nunca o homem assumiu um aspecto tão problemático como atualmente.

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