Tempo Comum: o domingo, dia do Senhor e alegria dos cristãos.

Não tenhais medo de dar vosso tempo a Cristo!» Este conselho de São João Paulo II se refere principalmente ao domingo, dia de descanso em família e dia de adorar a Deus. Novo editorial da série sobre o ano litúrgico.

O domingo é um dia especial da semana. Tira-nos da rotina do dia a dia, que, às vezes, faz com que as jornadas se apresentem bem parecidas. Durante o domingo podemos realizar atividades muito diferentes. No entanto, há algo decisivo neste dia. Ele é um dom de Deus para que possamos relacionar-nos com Ele, para celebrar com Ele o acontecimento que nos introduziu numa nova vida: a Sua ressurreição.

São João Paulo II nos convidou a redescobrir o domingo como um tempo especial para Deus: «Não tenhais medo de dar vosso tempo a Cristo! Sim, abramos nosso tempo a Cristo para que Ele possa iluminá-lo e dirigi-lo. É Ele quem conhece o segredo do tempo e o segredo da eternidade, e nos entrega “seu dia” como um dom sempre novo de seu amor.

Com razão, este dia pode ser chamado de «Páscoa da semana. Sua celebração dá relevo aos outros seis dias. O domingo é o fundamento e o núcleo de todo o ano litúrgico.
Por isso, os Romanos Pontífices sempre insistiram na importância de cuidar sua celebração: «todos os domingos vamos à Missa, porque é precisamente o dia da ressurreição do Senhor. Por isso o domingo é tão importante para nós.

Santificado pela Eucaristia

Desde o início do cristianismo, o domingo recebe um significado especial: «A Igreja, por uma tradição apostólica, que tem sua origem no mesmo dia da Ressurreição de Cristo, celebra o mistério pascal a cada oito dias, no dia que é chamado com razão o “dia do Senhor” ou domingo.

É um dia em que o Senhor fala especialmente a seu Povo: «num domingo, fui arrebatado em êxtase, e ouvi, por trás de mim, uma voz forte como de trombeta, diz o vidente do Apocalipse. É um dia em que os cristãos se reúnem «para a fração do pão, segundo recolhe o livro dos Atos dos Apóstolos, referindo-se à comunidade de Trôade. Celebrando juntos a Eucaristia, os fieis se uniam à Paixão salvadora de Cristo e cumpriam aquele mandato de conservar este memorial, que entregariam às sucessivas gerações de cristãos como um precioso tesouro: «Ego enim accepi a Domino, quod et tradidi vobis… Eu recebi do Senhor o que também vos transmiti: na noite em que ia ser entregue, o Senhor Jesus tomou o pão», dizia São Paulo aos de Corinto: «de fato, todas as vezes que comerdes deste pão e beberdes deste cálice, estareis proclamando a morte do Senhor, até que ele venha.

A carta apologética de São Justino mártir ao imperador romano, a meados do século II, nos mostra a perspectiva ampla que o domingo foi adquirindo nas consciências: «reunimo-nos todos no dia do Sol, não só porque foi o primeiro dia em que Deus, transformando as trevas e a matéria, criou o mundo, mas também porque neste mesmo dia Jesus Cristo, nosso Salvador, ressuscitou dos mortos. Estas duas maravilhosas obras divinas formam como um único retábulo em que Cristo ressuscitado ocupa o lugar central, pois Ele é o princípio da renovação de todas as coisas. Por isso, a Igreja pede a Deus na Vigília Pascal que «o mundo todo veja e reconheça que se levanta o que estava caído, que o velho se torna novo e tudo volta à integridade primitiva por aquele que é princípio de todas as coisas, Cristo, nosso Senhor.

A celebração do domingo tem um tom festivo, porque Jesus Cristo venceu o pecado, e quer vencer o pecado em nós, quebrar as correntes que nos afastam Dele, que nos encerram no egoísmo e na solidão. Desta forma, unimo-nos à exclamação jubilosa que a Igreja propõe para este dia na Liturgia das horas: «Hæc est dies, quam fecit Dominus: exsultemus et lætemur in ea Este é o dia que o Senhor fez. Exultemo-nos e alegremo-nos Nele!Experimentamos o júbilo de saber que, pelo batismo, somos membros de Cristo que, na sua glorificação, nos une ao Pai, apresentando-lhe nossas petições e desejos de melhora.

Esta alegria do encontro com o Senhor que nos salva não é individualista: celebramo-la sempre unidos a toda a Igreja. Durante a Missa do domingo reforçamos a unidade com os outros membros da nossa comunidade cristã, e nos tornamos «um só corpo e um só Espírito como uma só é a esperança da vocação a que fostes chamados. Um Senhor, uma fé, um batismo. Um Deus, Pai de todos, que atua acima de todos, por todos e em todos. Por isso, «a assembleia dominical é um lugar privilegiado de unidade, de modo especial para as famílias, que «vivem uma das manifestações mais qualificadas de sua identidade e de seu “ministério” de “igrejas domésticas”, quando os pais participam com seus filhos na única mesa da Palavra e do Pão da Vida. Que maravilhoso quadro contemplamos a cada domingo, quando nas paróquias e diferentes lugares de culto reúnem-se as famílias cristãs – pai, mãe, filhos, inclusive os avós – para adorar juntos ao Senhor e crescer na fé acompanhados!

Ser mais ricos nas palavras de Deus

O caráter festivo da celebração dominical reflete-se em alguns elementos litúrgicos, como a segunda leitura antes do Evangelho, a homilia, a profissão de fé, e – exceto nos domingos de Advento e Quaresma – o Glória. Como é óbvio, nesta Missa se aconselha de modo particular o canto, que reflete o júbilo da Igreja diante da ressurreição de Jesus. A Liturgia da Palavra possui uma grande riqueza. Nela, a proclamação do Evangelho é central. Assim, durante o tempo comum e ao longo de três ciclos anuais, a Igreja nos propõe uma seleção ordenada de passagens evangélicas, na que percorremos a vida do Senhor. Antes, recordamos a história de nossos irmãos mais velhos na fé com a primeira leitura do Antigo Testamento durante o tempo comum, que está relacionada com o Evangelho, «para assim manifestar a unidade dos dois Testamentos. A segunda leitura, também ao longo de três anos, percorre as cartas de São Paulo e de São Tiago e nos faz compreender, como os primeiros cristãos viviam a novidade que Jesus veio nos trazer.

Em conjunto, a Igreja nos oferece como boa Mãe um abundante alimento espiritual da Palavra de Deus, que solicita de cada pessoa uma resposta de oração durante a Missa, e, depois, a acolhida serena na vida. «Penso que todos podemos melhorar um pouco neste aspecto, diz o Papa: converter-nos todos em melhores ouvintes da Palavra de Deus, para ser menos ricos de nossas palavras e mais ricos de Suas Palavras. Para ajudar-nos a assimilar este alimento, cada domingo o sacerdote pronuncia uma homilia em que explica, à luz do mistério pascal, o significado das leituras do dia, especialmente do Evangelho: uma cena da vida de Jesus, seu diálogo com os homens, seus ensinamentos redentores. Deste modo, a homilia leva-nos a participar com intensidade na Liturgia Eucarística, e a compreender que o que celebramos se projeta além do final da Missa, para transformar a nossa vida diária: o trabalho, o estudo, a família…

Mais do que um preceito: uma necessidade cristã

A Santa Missa é uma necessidade para o cristão. Como poderíamos prescindir dela, se, como ensina o Concílio Vaticano II, «todas as vezes que se renova sobre o altar o sacrifício da cruz em que “Cristo nossa Páscoa, foi imolado” (1 Cor 5, 7), efetiva-se a obra da nossa redenção? Quoties sacrificium crucis, quo “Pascha nostrum immolatus est Christus” in altari celebratur, opus nostrae redemptionis exercetur»: a eficácia santificadora da Missa não se limita ao tempo que dura a sua celebração, mas se estende a todos os nossos pensamentos, palavras ou ações, de maneira que é «o centro e raiz da vida espiritual do cristão. São Jose maria também comenta: Talvez nos tenhamos perguntado algumas vezes como podemos corresponder a tanto amor de Deus; talvez nesses momentos tenhamos desejado ver claramente exposto um programa de vida cristã. A solução é fácil e está ao alcance de todos os fiéis: participar amorosamente da Santa Missa, aprender na Missa a ganhar intimidade com Deus, porque neste Sacrifício se encerra tudo o que o Senhor quer de nós.

«Sine Dominico non possumus: não podemos viver sem a ceia do Senhor», diziam os antigos mártires de Abitíni. A Igreja concretizou esta necessidade no preceito de participar da Missa aos domingos e outras festas de preceito. Desta forma, vivemos o mandamento incluído no Decálogo: “Lembra-te do sábado para santificá-lo. Durante seis dias trabalharás e cumprirás todas as tuas tarefas; porém o sétimo é dia de descanso em honra do Senhor, teu Deus. Os cristãos levam esse preceito à plenitude ao celebrar o domingo, dia da ressurreição de Jesus.

O repouso dos domingos

O domingo é um dia para ser santificado em honra a Deus. Dirigimos o olhar a nosso Criador, repousando do trabalho habitual, como nos ensina a Bíblia: «Pois em seis dias o Senhor fez os céus e a terra, o mar e tudo o que neles existe, mas no sétimo dia descansou. Portanto, o Senhor abençoou o sétimo dia e o santificou».

Ainda que, o fato de se ter um dia livre na semana possa ser justificado por razões meramente humanas, como um bem para a pessoa, a família e toda a sociedade, não podemos esquecer que o mandamento divino chega mais longe: «O repouso divino do sétimo dia não alude a um Deus inativo, mas sublinha a plenitude do que fora realizado, como que a exprimir a paragem de Deus diante da obra «muito boa» (Gen 1,31) saída das suas mãos, para lançar sobre ela um olhar repleto de jubilosa complacência.

A própria revelação no Antigo Testamente acrescenta outro motivo da santificação do sétimo dia: «Lembra-te de que foste escravo no Egito e que o Senhor, o teu Deus, te tirou de lá com mão poderosa e com braço forte. Por isso o Senhor, o teu Deus, te ordenou que guardes o dia de sábado.

A ressurreição gloriosa de Cristo é o cumprimento perfeito das promessas do Antigo Testamento. Com ela, a história da salvação, iniciada com os começos do gênero humano, chegou ao seu ponto culminante. Os primeiros cristãos passaram a celebrar o dia da semana em que Jesus Cristo ressuscitou como o dia de festa semanal santificado em honra do Senhor.

A libertação prodigiosa dos israelitas é uma figura do que Jesus Cristo faz com sua Igreja por meio do mistério pascal: livra-nos do pecado, ajuda-nos a vencer nossas más inclinações. Por isso, podemos dizer que o domingo é um dia especial para viver a liberdade dos filhos de Deus: uma liberdade que nos leva a adorar o Pai e a viver a fraternidade cristã começando por aqueles que estão mais próximos de nós.

«Graças ao descanso dominical, as preocupações e afazeres quotidianos podem reencontrar a sua justa dimensão: as coisas materiais, pelas quais nos afadigamos, dão lugar aos valores do espírito; as pessoas com quem vivemos, recuperam, no encontro e diálogo mais tranquilo, a sua verdadeira fisionomia.Não se trata de não fazer nada ou somente atividades sem utilidade, ao contrário: «A instituição do Dia do Senhor contribui para que todos gozem do tempo de descanso e lazer suficiente, que lhes permita cultivar a vida familiar, cultural, social e religiosa. É um dia para dedicar especialmente à família o tempo e a atenção que talvez não consigamos prestar-lhes suficientemente nos outros dias da semana.

Em síntese, o domingo não é um dia reservado para si mesmo, para concentrar-se nos próprios gostos e interesses. «Da Missa dominical parte uma onda de caridade destinada a estender-se a toda a vida dos fiéis, começando por animar o próprio modo de viver o resto do domingo. Se este é dia de alegria, é preciso que o cristão mostre, com as suas atitudes concretas, que não se pode ser feliz “sozinho”. Ele olha ao seu redor, para individuar as pessoas que possam ter necessidade da sua solidariedade».A Missa dos domingos é uma força que nos move a sair de nós mesmos, porque a Eucaristia é o sacramento da caridade, do amor de Deus e do próximo por Deus. Entende-se assim como no primeiro dia da semana São Josemaria experimentava uma particular vibração trinitária: “No domingo – dizia – é bom louvar a Trindade: glória ao Pai, glória ao Filho, glória ao Espírito Santo. Eu costumo acrescentar: e glória a Santa Maria. E… é uma coisa infantil, mas não me importa nada: também a São José».

Carlos Ayxelà

São João Paulo II, Carta Apostólica Dies Domini, 31-V-1998, n. 7.

São João Paulo II, Carta Apostólica Novo millenio ineunte, 6-I-2001, n. 35.

Concílio Vaticano II, Constituição Sacrosanctum Concilium, n. 106.

Francisco, Audiência, 5 de fevereiro de 2014.

Sacrosanctum Concilium, n. 106.

Apoc. 1, 10.

At. 20,7

1 Cor 11,23.27.

 Apologia I, 67,7.

Missal Romano, Vigília Pascal, oração depois da 7a leitura.

Salmo 117 (118), 24.

Ef 4, 4-6

Dies Domini, 36.

 Ibidem.

 Introdução ao Lecionário da Missa, n. 106.

Francisco, Discurso, 4-X-2013.

Concílio Vaticano II, Constituição dogmática, Lumen gentium n. 3.

São Josemaria, É Cristo que passa, n. 87.

É Cristo que passa, n. 88.

Cfr. Dies Domini, 46.

Cfr. Código de Direito Canônico, can. 1247.

 Ex 20, 8-10.

Ex 20, 11.

Dies Domini, 11.

Deut. 5,15.

Dies Domini, n.67

Catecismo da Igreja Católica, 2184

Dies Domini, n.72.

São Josemaria, Anotações de uma reunião familiar, 29-V-1974.

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