O dia que me disseram que Senhor dos Anéis era do capeta

Eram os velhos tempos de Orkut. Não lembro se a comunidade era sobre Tolkien, Senhor dos Anéis, cristianismo ou literatura.

Na época, eu com meus doze anos, li em uma discussão algo mais ou menos assim: “Mas Senhor dos Anéis e Crônicas de Nárnia são coisas ocultistas! TEM MAGIA! Bruxaria!”

Foi o suficiente para deixar o coração do menino, que ia à missa todo domingo, bastante aflito. “Caramba, eu gosto de coisa do capeta?”

E lá fui eu pesquisar no Google. Que foi outra burrice. A internet é um perigo.

Devo ter jogado algo como “Senhor dos anéis é do diabo?”, e lá pelas tantas estava lendo um texto que dava as definições dos seres da Terra-Média, do tipo: “anão: ser da mitologia nórdica que vive embaixo da terra, demônio”; “elfo: ser da mitologia celta que vivem bosques e pratica travessuras com os transeuntes, demônio da floresta”.

Provavelmente era um site ligado à Universal, mas menino de doze anos confere as fontes?

Pessoal, não vamos cair nesse erro. Tem que ser muito tapado para ver qualquer coisa anticristã nessas obras.

As Crônicas de Nárnia são profundamente alegóricas: Aslam é Jesus em forma de leão (morre para salvar um traidor e ressuscita). Ele literalmente DIZ ISSO, quando fala para as crianças: “no seu mundo tenho outro nome”. A coisa era tão na cara que Tolkien, autor de Senhor dos Anéis, brigou com C.S. Lewis, autor de Nárnia, alegando que ele forçava muito a barra.

É a obra de um dos maiores apologetas cristãos do século XX. Lewis escreveu mais defesa da fé cristã do que ficção (leiam Cristianismo Puro e Simples, Os Quatro Amores, A Abolição do Homem…). Só bobeou por ser anglicano (mas eu creio que hoje é católico, no Céu).

E o autor do Senhor dos Anéis não é para menos. Tolkien, de fato, não era um apologeta do cristianismo. Não ficava escrevendo sobre a defesa da fé cristã. Mas o homem viveu seu catolicismo. Foi a amizade dele que trouxe C.S. Lewis para o cristianismo, para início de conversa.

Tolkien foi criado por um sacerdote oratoriano, Padre Francis Morgan, pois perdeu os pais cedo. Teve quatro filhos, um deles sacerdote. Catolicíssimo, suas cartas valem a leitura para qualquer cristão, e se não foi beatificado, sua vida é no mínimo muito exemplar.

O Senhor dos Anéis não se propõe a ser alegórico. Tolkien só quis contar uma história. Mas, assim como já vimos com Flannery O’Connor, tudo o que saía da sua mente era reflexo de uma vida católica e a partir de uma perspectiva católica.

Por isso vemos, em Aragorn, a figura de um rei aguardado, que retorna para restaurar um reino (e que cura pelas mãos; e que é desprezado no início; e cuja vinda era aguardada… tá bom, a coisa beirava o alegórico). Vemos em Frodo uma figura que está disposta a dar a vida pela salvação de muitos. Vemos até mesmo, na data que Tolkien escolheu para a derrota de Sauron, um forte sinal – 25 de março, quando lembramos a Encarnação do Verbo no seio de Maria.

Então, não vamos cair em puritanismo (que aliás, é heresia). Há magia em histórias fantásticas. Mas antes de jogar na fogueira (esse hábito de países puritanos, alheio ao catolicismo) se pergunte o que é a magia ali? Onde está o bem? Onde está o mal?

O próprio Tolkien reconhece que a fantasia pode ser usada para o mal, em seu ensaio “Sobre Histórias de Fadas”:

“É claro que a Fantasia pode ser levada ao excesso. Pode ser malfeita. Pode ser empregada para maus usos. Pode até mesmo iludir as mentes das quais surgiu. Mas de que coisa humana neste mundo decaído isso não é verdade?”

Pode ser usado para propagar ocultismo? Claro que pode. Mas isso até as novelas podem (e o espiritismo cresceu muito no Brasil graças a elas).

Mas, como disse Chesterton, que muito influenciou Tolkien: “o bebê conhece intimamente o dragão desde que começa a imaginar. O que o conto lhe dá é um São Jorge para matá-lo”. Magia, fantasia, e mesmo a ficção mais trevosa e hardcore podem ser usados para nos levar ao heroísmo, à virtude, e a conhecer um pouco de Deus, o maior dos autores.

Longe de nós, puritanismo! Examinai tudo e ficai com o que é bom (e voltai aqui para mais dicas e recomendações).

Artigo retirado do excelente e credenciado site O CATEQUISTA  O Catequista

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