Como o lucro pode andar junto com a moral cristã? O Vaticano explica

A Igreja Católica condena o lucro, o sistema capitalista? NÃO. A Igreja Católica defende que as atividades financeiras e empresariais devem ser reguladas, até certo ponto, pela autoridade política, para evitar o excesso de concentração de poder econômico e seus abusos? SIM.

De forma super resumida, o parágrafo acima apresenta o centro do conteúdo da Doutrina Social da Igreja (DSI). O conhecimento dessa doutrina é o melhor antídoto para os católicos simpáticos ao socialismo e também para os católicos que defendem que o mercado deve ser absolutamente livre de qualquer controle estatal e regulamentação.

A Doutrina Social da Igreja é sintetizada em um Compêndio. Para facilitar ainda mais a vida da galera, hoje, a Santa Sé divulgou um documento que destaca os principais pontos da DSI, e traz ainda uma análise atualizada sobre os agentes econômicos e financeiros que estão em voga.

Nós apresentamos a seguir um resumo do conteúdo desse documento, que foi publicado sob a liderança do Cardeal Ladaria, Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé.

Oeconomicae et pecuniariae quaestiones

Considerações para um discernimento ético sobre alguns aspectos do atual sistema econômico-financeiro

A primeira parte do documento esclarece que a espiritualidade católica deve se refletir de forma concreta “no amor social, civil e político”. E isso se realiza por meio de “ações que procuram construir um mundo melhor. O amor à sociedade e o compromisso pelo bem comum são uma forma eminente de caridade…”.

A Igreja reconhece que, com o desenvolvimento das atividades capitalistas, o bem-estar econômico global cresceu ao longo da segunda metade do século XX. Entretanto, isso não anula o fato de que “continua a ser ingente o número de pessoas que vivem em condições de extrema pobreza”.

Sendo assim, é urgente que as nações adotem “princípios éticos e para uma nova regulamentação da atividade financeira, neutralizando os aspectos predatórios e especulativos, e valorizando o serviço à economia real”.

Em outras palavras: é preciso distribuir melhor a grande quantidade de riqueza gerada.

TRÊS PRINCÍPIOS ESSENCIAIS

Três princípios cristãos são necessários para que o lucro seja moral e legítimo:

  • promoção integral da pessoa humana;
  • destinação universal dos bens;
  • opção preferencial pelos pobres.

Aplicando estes três princípios, é possível “libertar todas as potencialidades positivas dos mercados”, e “instaura-se um círculo virtuoso entre ganho e solidariedade”.

A IGREJA É A FAVOR DA LIVRE INICIATIVA

Se, por um lado, “Nenhuma atividade econômica pode sustentar-se longamente se não é vivida em um clima de uma sadia liberdade de iniciativa”, por outro lado, quando os donos do dinheiro gozam dessa liberdade de forma irrestrita, tendem quase sempre a prejudicar os mais fracos:

“….hoje é também evidente que a liberdade de que gozam os atores econômicos, se compreendida de modo absoluto e distante da sua intrínseca referência à verdade e ao bem, tende a gerar centros de supremacias e a inclinar na direção de formas de oligarquias que no final prejudicam a eficiência mesma do sistema econômico.”

Ao contrário do que defendem os liberais, a Igreja entende que os mercados não são capazes de regular-se por si mesmos, sem causar prejuízo à coletividade. É preciso que a autoridade política tenha o poder de intervir, de modo a combater e evitar o surgimento de “hegemonias capazes de influenciar unilateralmente não só os mercados, mas também os sistemas políticos e normativos”.

Dizer que o mercado é capaz de se regular sozinho, sem nenhuma intervenção estatal, é pura INGENUIDADE:

“A experiência dos últimos decênios mostrou com evidência, de uma parte, o quanto seja ingênua a confiança em uma presumida autossuficiência da capacidade funcional dos mercados, independente de qualquer ética, e de outra, a imperiosa necessidade de uma adequada regulação dos mesmos.”

O LUCRO NO MERCADO DE AÇÕES

A possibilidade de lucrar por meio do investimento no mercado de ações é algo bom, desde que se evite concentrar o financiamento em negociações “caracterizadas pelo mero intento especulativo”:

“Assim, também o financiamento do mundo empreendedor, consentindo às empresas de ter acesso ao dinheiro mediante o ingresso no mundo da livre contratação da bolsa, é por si mesmo positivo. Este fenômeno, todavia, corre o risco hoje de acentuar também uma ideia ruim de financiamento da economia, fazendo sim que a riqueza virtual, concentrando-se sobretudo em transações caracterizadas pelo mero intento especulativo e em negociações de alta frequência (high frequency trading), atraia a si excessivas quantidade de capitais, subtraindo-os em tal modo dos circuitos virtuosos da economia real.”

A FUNÇÃO SOCIAL DO CRÉDITO

O crédito é um mecanismo positivo, especialmente quando favorece a “mobilização dos capitais com o objetivo de gerar uma circularidade virtuosa de riqueza”.

“Neste âmbito, parece claro que aplicar taxas de juros excessivamente elevadas, não sustentáveis pelos sujeitos que tomaram os créditos, representa uma operação não somente ilegítima eticamente, mas também disfuncional à saúde do sistema econômico.”

O mal não reside no lucro, mas sim no lucro que é criado sobre o prejuízo alheio:

“O fenômeno inaceitável sob o ponto de vista ético não é o simples ganhar, mas o aproveitar-se de uma assimetria para a própria vantagem, criando notáveis ganhos a dano de outros; é lucrar desfrutando da própria posição dominante com injusta desvantagem do outro ou enriquecer-se gerando dano ou perturbando o bem-estar coletivo.”

Por fim, na terceira parte do documento são analisados os atuais instrumentos econômico-financeiros – e isso é uma atualização muito interessante da DSI! O texto oferece “concretas e específicas orientações éticas” para os profissionais que atuam dos mercados financeiros e na gestão empresarial.

Aí vem um monte de termos específicos dessas áreas, que a grande maioria dos católicos não vai entender e vai ficar boiando: compliance, offshore, credit default swap etc. Não esquenta: o essencial para os fiéis em geral está nas partes I e II documento.

Você pode ler o documento completo no site do Vaticanohttp://www.vatican.va/roman_curia/congregations/cfaith/documents/rc_con_cfaith_doc_20180106_oeconomicae-et-pecuniariae_po.html

Artigo retirado do excelente e credenciado site O CATEQUISTA  O Catequista

 

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3 comentários em “Como o lucro pode andar junto com a moral cristã? O Vaticano explica”

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