Semana Santa 2018 – Sermão do Encontro – Por Pe. Bruno Dias Graciano – Campanha/MG

Semana Santa 2018 em Campanha – Terça-feira santa é marcada pela tradicional procissão do Encontro de Maria com Jesus a caminho do Calvário.

Proferiu o sermão da noite o pároco da paróquia São Lourenço mártir, em São Lourenço, Pe. Bruno César Dias Graciano.

Confira na integra o sermão por escrito e também nos vídeos abaixo.

Eu não tinha este rosto de hoje,
assim calmo, assim triste, assim magro,
nem estes olhos tão vazios,
nem o lábio amargo.

Eu não tinha estas mãos sem força,
tão paradas e frias e mortas;
eu não tinha este coração
que nem se mostra.

Eu não dei por esta mudança,
tão simples, tão certa, tão fácil:
– Em que espelho ficou perdida
a minha face?

Reverendíssimos sacerdotes,

Religiosas,

Irmãos e irmãs,

O poema de Cecília Meireles que acabamos de ouvir emoldura esta cena que agora os nossos olhos contemplam. A nossa visão parece nos trair. Nós o conhecemos das passagens belas, dos encontros transformadores, das curas, dos milagres, nós o vimos andando pelos trigais, pregando no templo, visitando a casa de amigos, nós o vimos cheio de vigor expulsando os vendedores que profanavam o templo, nós o vimos em constante movimento. Ei-Lo, agora, parado, inerte, frio… Que dizem os seus olhos? Que palavra pronunciam os seus lábios? Que expressão sua face produz?

Nele só vemos dor, sofrimento, silêncio, resignação. Nele vemos solidão… Onde estão os que foram curados por Ele? Não da nem pra contar o número dos que foram beneficiados pelo seu toque… Onde estão os que ouviram suas palavras e tiveram mudadas suas vidas? Onde estão os que foram reanimados? Onde está quem possa dar um testemunho favorável a seu respeito, a fim de libertá-lo desta dura consequência do amor e ternura que manifestou a todos indiscriminadamente? Nem uma palavra a seu favor? Onde estão os seus amigos? Amigos… Será que Jesus teve amigos? Será que eles não eram apenas usurpadores que estavam à sua volta para sugar Dele aquilo que Ele poderia lhes oferecer? Meu Deus, porque ninguém se manifesta? Um grito, um sinal, um sussurro…

Onde estão os amigos? Eles que são bálsamo que alivia as dores, porto seguro para as horas incertas, refúgio para as tribulações… Onde estão aqueles com quem Jesus partilhou os seus mistérios, os seus segredos? Aos amigos estão vedados os protocolos… Eles não precisam de regras, basta estar perto, basta um olhar e a comunicação se faz, basta a presença… Bastaria vê-los de longe… Mas, eles se foram, fugiram, deixaram o Mestre. Houve quem garantisse: mesmo que os outros se dispersem, eu não o deixarei. Palavra dura esta de Pedro, pois Jesus sabia muito bem que ele o negaria três vezes, antes que o galo por duas vezes cantasse… Eu não o conheço! Como não, Pedro? Quantas vezes os teus olhos foram surpreendidos pelo olhar Dele? Os teus ouvidos visitados pela suavidade firme de sua voz? Quantas vezes Ele o abraçou? Já te esqueceste? Tão rápido assim? Bem se vê de que barro és feito… a mesma volubilidade daqueles que acolheram Jesus na entrada de Jerusalém, com ramos e mantos, hosanas e benditos, e, depois gritaram crucifica-o, notam-se em ti. És fraco, inconstante, sem raiz, folha seca ao vento…

É, Jesus, foste traído! Que dor a traição! Quem por ela já passou sabe das suas feridas, conhece a força destrutiva! E o senhor não fora traído por alguém que conheceste ontem… O senhor foi traído por um amigo. Se fosse um inimigo que conspirasse, a dor não seria tão grande, mas um amigo… Já bem disse o salmo 55: “ Se um inimigo me insultasse, eu poderia suportar, se meu adversário se elevasse contra mim, eu me esconderia dele, mas és tu meu amigo, meu confidente, a quem me unia numa doce intimidade na casa de Deus…”

Ah, Judas! Não percebeste o olhar de Jesus durante a ceia? Se pudesses conhecerias o seu sentimento e lerias os seus pensamentos: Nós tínhamos uma doce amizade, meu amigo, meu Judas! Caminhávamos alegres… Acreditavas em mim, deixaste tantas coisas para seguir-me.

Que dor ser traído por quem está perto… Se fosse um outro… Mas és meu companheiro, meu amigo, tu me conheces, eu contei meus segredos para ti, entraste na minha intimidade, no sacrário inviolável onde não tem acesso qualquer pessoa… Uma doce amizade nos unia. Eu não podia esperar um golpe tão duro… Quem me trai, diz Jesus, é aquele que põe comigo a mão no prato, assenta comigo à mesa.

Esposos traídos… esposas traídas… pais traídos… filhos traídos. Você que foi traído assim, que esperou tudo de alguém, menos o golpe da traição e que tem uma ferida grande em seu coração, o senhor diz que tem um remédio que precisa ser tomado por você, pois não vale a pena consumir-se desta forma. Desejos de vingança, falta de perdão, ressentimentos… São o veneno que bebemos a cada dia e vamos sofrendo as consequências de bebê-lo: vamos morrendo. Quanta gente está morrendo, agonizando, tendo dentro de si verdadeiros cemitérios, em cujas sepulturas estão encerrados maridos que não foram fiéis, esposas que traíram, pais que não agiram corretamente com os filhos, filhos que decepcionaram os seus pais, amigos que desentrelaçaram as mãos… Ter sido traído fez de você uma pessoa ansiosa, insegura, parece que não consegue acreditar em ninguém. Ate adoeceu. Entrega a Deus a sua angustia, a sua ansiedade e ele vai ser o seu apoio.

Precisamos contar mais com Deus. Quanto atraso ao nos determos olhando para o que deu errado. Traiu a minha confiança, tirou-me daquele serviço, aquela pessoa nem liga para mim. É preciso fazer o exercício do perdão… o perdão começa por uma decisão, certa, consciente, firme: eu quero perdoar. Nem sempre eu tenho força, então posso pedir a Jesus que me ensine, Ele que foi capaz de passar por cima da maior de todas as traições.

Nós costumamos excluir as pessoas, quando elas não agem da maneira como gostaríamos. Colocamos na geladeira. Jesus não fez isso. Mesmo diante da possibilidade da traição, Jesus não recuou no amor. Jesus sabia o que ia acontecer, e mesmo assim ele acreditou em Judas até o ultimo momento. Não deixou de acreditar. Ah, se os esposos acreditassem nos seus matrimônios… Muitos daqueles que acabaram não teriam acabado. Jesus foi amigo do seu traidor. Pois queria salvá-lo. Você que ama tanto a pessoa que lhe traiu, que sacrifício você seria capaz de fazer. Jesus olhando para aquele que estava maquinando contra Ele, longe, com o pensamento distante, não xinga, não briga, mas demonstrou afeto: pegou o pão, molhou no vinho e deu-o a Judas. Demonstrou afeto. Quanta mãe faz isso. Mesmo quando o filho está afastado. Jesus queria tirar Judas do mal caminho, mas só tinha como via o amor, o afeto. Excluir não é a solução.

Mas, persistindo a insistência de Judas, Jesus o libera para fazer o que queria. O filho do homem foi entregue. Um preço foi combinado: 30 moedas de prata. Dez vezes menos que o valor do perfume que Madalena havia derramado aos pés do Senhor, e o próprio Judas havia criticado severamente. Quanto vale a vida? Quanto vale a vida do Filho de Deus?

Saindo da ceia, Judas foi atrás dos que estavam ansiosos por calar Jesus. O que os movia? Jesus era uma forte ameaça. Ameaça aos poderosos, por estar ao lado dos fracos. Uma questão religiosa? Política? Não, muito mais que isso, tratava-se do cumprimento das Escrituras.

É claro que aquele momento não foi fácil para Jesus, pois a sua humanidade sofria profundamente, uma dor absurda e atroz. Se possível, livra-me Pai. Entretanto, foi para isso que eu vim. Faça-se a vossa santíssima vontade. Rezando no Jardim das Oliveiras, Jesus chegou a suar sangue, tão grande foi a angustia e o sofrimento interior. Mas o Pai não lhe faltou… Eu o glorifiquei e o glorificarei… Jesus não sofre sozinho. O pai é seu auxiliador. Como também o é para nós. Muitas vezes sentimo-nos sozinhos e chegamos a perguntar: onde está Deus?” as dores não nos deixam vê-lo, ouví-lo, senti-lo… mas Ele está ao nosso lado. Esta conosco, fiel, mesmo diante de nossas infidelidades.

É chegado o momento. O traidor se aproxima. Traz consigo soldados, armados com espadas e paus, buscam um criminoso. Ele não é preso, Ele se oferece para ser levado.

E Jesus se entrega. Ele aceitou o sofrimento e não recuou, não fugiu e não culpou ninguém, pois aquilo tudo que estava para acontecer era o grande sinal do amor, a visualização diante de cada olhar e coração. Judas traiu Jesus, pois sentiu-se traído por Ele. Judas esperava um Rei poderoso, que assumiria o poder à força em Israel, mas Jesus entra na cidade santa montado num jumentinho, animal usado para o serviço. Jesus está disposto a realizar este grande serviço em favor da humanidade: oferecer a sua vida, mesmo que muito se fechem e não queiram experimentar o dom que Ele oferece. Pois quer ser fiel ao Pai até às ultimas consequências.

Ei-Lo, agora, parado, inerte, frio… Que dizem os seus olhos? Que palavra pronunciam os seus lábios? Que expressão sua face produz? Seu silêncio é um grito de amor. Amor que é gratuito e generoso. Não escolhe a quem se dirigir, não quer saber se seus destinatários são merecedores ou não. Seus olhos nos dizem: Amei até o fim. Em sua face contemplamos a serenidade que só pode vir do amor, que leva a perdoar e compreender as razões de cada pessoa, mesmo de quem trai.

Ah, nem as torrentes das grandes águas, conseguirão apagar este amor, pois suas chamas são fogo ardente, mais do que a morte, é forte este amor. A morte nada representa diante do amor.

Após a prisão, o Senhor foi condenado a morrer crucificado… Morte vergonhosa, humilhante… maldito o que sobe no madeiro… E Ele, o Santo dos Santos por amor a nós se submete, como cordeiro que sobe para o sacrifício Ele vai… leva a cruz às costas. Caminho longo, doloroso, mas Ele o aceita. Não será fácil chegar até o Calvário, mas Jesus não recua. Manto de Rei, coroa de espinhos, quanta ironia dos que o odiavam. Cruz às costas. Ninguém podia imaginar com que amor Ele abraçava aquele sofrimento, aquela cruz.

Jesus está cercado pelos malfeitores. Todos os amigos fugiram dele. E Ele foi ao encontro de todos. Será que não há quem o queira ajudar? Será que não aparecerá ninguém para o consolar? Será que Ele não merece que a Samaritana lhe venha dar de beber, Ele que lhe deu a água da vida, preencheu seu coração e nele fez jorrar uma fonte? Será que Ele não merece que a hemorroisa ou a viúva de nain com seu filho reanimado surjam ali naquele caminho para um simples gesto de gratidão? O leproso? O cego? Os paralíticos? Os que estavam endemoninhados? Os que foram alimentados quando Ele multiplicou os pães e os peixes? Onde estão todos? Ah, o medo é maior que a gratidão! Aparecer agora pode ser uma sentença certa: morrer junto…

Mas há alguém que não tem medo de morrer com Ele. Aliás, cada passo de Jesus em direção ao Calvário acentua também o sofrimento desta mulher, a sua Mãe, Maria. No caminho doloroso, quando todos fogem, ela se aproxima. (as imagens se aproximam) Ela não vem como curiosa, não vem como mera expectadora daquele cruel e doloroso espetáculo… Em meio às barbaridades feitas pelos algozes, às palavras de escárnio e deboche, em meio às humilhações, ela rompe o que era determinado, fura a barreira daqueles bárbaros e se aproxima de Jesus. Quer retira dos seus ombros a cruz pesada, quer curar suas feridas…

Ah, Maria, quanta diferença… Lembra quando Ele era pequeno? Tinhas o senhor nos braços, podias aliviar suas dores quando caia em meio a uma brincadeira e outra… Bastava um beijinho de mãe para aliviar e fazer o filho esquecer a dor do machucado. Agora Ele é todo chaga, seu corpo está desfigurado. Como conseguiram fazer isso com Jesus? Maria, queres retirar Dele a cruz, assumir o lugar de Jesus, terminar de levar a cruz até o calvário, ser pregada com Ele, dividir com filho esta dor. Mas isso não será possível. Desejas falar com Ele… Mas isso não será possível. Basta o olhar. E o teu olhar grita para Jesus: Eu estou aqui! A mãe não precisa falar, não precisa fazer, basta estar perto. Que alento, que ânimo para Jesus. Que consolação! Num olhar, a mais bela expressão de amor que já se viu… a mãe sabe a dor do filho, pois é a sua própria dor acentuada e elevada a infinita potencia. Ninguém saberá dizer com tão grande propriedade o que Jesus sofreu, senão Maria, que com Ele padeceu. Espada dolorosa, disse Simeão! A senhora  já esperava por esse momento, mas quando chegou, viu que não se compara em nada ao esperado… a dor dilacera teu coração.

Que belo este encontro! Nosso coração se comove por contemplar esta cena… Mas a fúria de um soldado interrompe a ternura deste momento. Com violência retira Maria… E Jesus precisa continuar. De agora em diante Ele não vai mais sozinho. Ela irá com Ele. Estará com Ele até o fim. E nós que vimos tudo isto acontecer, temos duas opções: voltar para nossas casas, para nossas vidas, nossos afazeres e preocupações de cada dia, ou caminhar com Jesus e Maria até o Calvario. Se optarmos por ir com Eles, saibamos que não iniciaremos um caminho fácil. Iniciamos um caminho de dor e sofrimento, um caminho em que poderemos provar a doçura da cruz, abraçando-a com a força do amor, em que não nos faltará jamais a graça de Jesus encorajando-nos a não desistir e o olhar terno de Maria para nos consolar, a fim de, pelos caminhos do mundo, levarmos com triunfo a nossa cruz de cada.

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