VOCAÇÃO: Como discernir a nossa?

A imposição ou o equívoco no discernimento da vocação tende a gerar pessoas frustradas. Mas como acertar e buscar aquela vida feliz, cheia de sentido, de quando se realiza a vocação?

Quando uma pessoa realiza sua vocação, ela realiza o sentido da vida.

O discernimento da vocação exige o confronto pessoal e a percepção mais profunda de si. Quem se sente confuso, deve buscar ajuda em pessoas sólidas, que tenham boa formação. Isso para realizar um trabalho de organização interna, pelo qual se criam as condições de enxergar mais profundamente dentro de si. Para o cristão, o discernimento implica ainda a oração, a relação de intimidade com Deus. Cada pessoa é chamada (vocação vem do latim ‘vocare’ – chamar) por Deus a ter uma vida realizada e plena.

A seguir, transcrição da conversa com Iamara Porcelli, psicóloga clínica e hospitalar, especialista em logoterapia, membro consagrado da Comunidade Senhor da Vida (Brasil).

A definição mais simples de vocação é: chamado. Trata-se de um chamado a um estado de vida. Mas, primeiramente, é o chamado de Deus despertando para a própria vida.

Tomar consciência de que a vocação é um chamado de Deus à vida deve levar à percepção de como se vive este chamado, esta vida que lhe foi dada não só como dádiva, mas também como incumbência; não só como dom, mas como tarefa. Ou seja, como você vai desenvolver esta vocação, este chamado que recebeu na sua concepção.

Vocação é algo diferente de aptidão. As aptidões definem, por exemplo, a profissão de uma pessoa. Já a vocação define um estado de vida. Isso significa que o chamado da vocação ocorre num nível mais profundo dentro de nós: o existencial. Não é só o psicológico. Ou seja, ele é mais abrangente, porque compreende um todo: a pessoa em sua realidade física, psíquica e espiritual.

Hoje as pessoas têm muita dificuldade de perceber a sua vocação fundamental, ou seja, se vão se casar ou ser consagradas. Isso porque elas têm dificuldade de se perceber na sua própria vida, na sua própria existência. Sendo assim, fica ainda mais difícil perceber como vão se desenvolver.

Por exemplo, se a pessoa quer discernir se o chamado dela é viver a vida celibatária, ela tem de conhecer a sua realidade física, enquanto necessidades, enquanto manifestações.

É preciso também ter consciência da realidade psicológica, no sentido do seu desenvolvimento, ou seja, se existe o chamado a querer viver um relacionamento específico com alguém, ou o chamado a viver a afetividade de uma forma geral, na partilha com todos.

O sentido espiritual é outro elemento. Em Mateus 19, lemos: “aqueles que se tornaram eunucos livremente por causa do Reino”. Isso quer dizer que, por causa do Reino, no sentido mais profundo, espiritual, quer-se viver a vida exclusiva de intimidade, de amor e de serviço a Deus. Quem está nessa condição vai abraçar a vida consagrada. Já para a vida conjugal, é necessário o discernimento para ver se existe a disposição interior de dividir a sua vida com alguém, de forma exclusiva.

O discernimento sincero da vocação só acontece a partir do momento em que a pessoa se dispõe a se confrontar. O ser humano só se conhece quando se confronta. Quando não há essa confrontação, acaba-se correndo o risco de se enganar e se iludir. Para o cristão, a oração é algo fundamental nesse processo.

A confrontação implica estar atento no seu dia-a-dia, dando passos concretos em direção àquilo que, em princípio, se sente chamado. Ou seja, é preciso enfrentar as realidades que existem dentro de nós. Porque a partir do momento em que há o confronto e o enfrentamento interior, vai-se descobrindo se tem ou não a disposição interna para viver aquela realidade.

Para se criar de forma confiável o espaço do confronto pessoal no discernimento vocacional, é necessário buscar o conhecimento em pessoas sólidas, que tenham boa formação. E também realizar um trabalho pessoal.

Se a pessoa percebe que precisa de orientação, deve ir atrás disso. Se percebe que precisa de um trabalho para se organizar internamente, que o faça. Isso para aprender a lidar com algumas questões que muitas vezes são simples de ser organizadas. E a partir do momento em que há uma organização interna, criam-se as condições para enxergar mais profundamente dentro de si.

É preciso dar passos efetivos, concretos, em busca, na direção do discernimento. E não achar simplesmente: “ok, eu quero ser padre, ou, eu quero me casar, agora deixa eu ver o que vai acontecer”. Não. Tem de lutar. É um processo inclusive de luta.

O amadurecimento vai acontecendo ao longo da minha vida exatamente na proporção em que eu me coloco nessa vida, à medida que eu vou me lançando nessa vida. Privar-se, seja por não querer sofrer, ou por achar que será muito difícil, detém o amadurecimento. As pessoas brecam o seu desenvolvimento quando dizem: “não, não quero mexer nisso”, “isso vai ser muito difícil”…

Para o cristão e para aqueles que estão discernindo a vocação à vida consagrada, a oração é um pano de fundo muito importante. Ela permeia o sucesso da vocação. É preciso colocar-se diante de Deus, em uma relação diária de intimidade, com coragem de perguntar o que Ele quer para nossa vida. Só assim as coisas se clareiam. A relação diária de intimidade com Deus é o que sustenta a vida consagrada.

A vocação nunca deve ser imposta. Quem está ao lado deve acompanhar, respeitando muito. Impor a vocação tende a gerar frustrações. Já a realização da vocação é uma forma muito garantida de ser feliz.

Quem acompanha alguém que esteja discernindo a sua vocação deve atuar como um sinalizador, ajudando nesse processo, mas absolutamente sem impor nada. Nunca dizer: “olha, eu acho que a sua vocação é esta; pode ir tranquilo que eu tenho certeza que a sua vocação é ser padre!” De jeito nenhum. Você tem de ir vendo os sinais e, à medida que a pessoa vai emitindo aqueles sinais, você pode ajudá-la a perceber isso mais claramente, e o que ela pode fazer, o direcionamento que pode dar àquilo que está despontando dentro dela.

Impor a vocação gera pessoas frustradas. É tão arrasador você impor um destino a alguém, seja uma vocação a um estado de vida, seja uma profissão. Eu conheci um rapaz que o pai o obrigou a fazer uma faculdade de Administração de Empresas. Ele era músico e queria fazer uma faculdade de música. Mas aí o pai o obrigou. Ele fez. No dia da formatura ele entregou o diploma ao pai e disse: “este aqui é seu; agora eu vou fazer o que eu quero”. E realmente foi e fez. Hoje ele vive da música.

Quem vive um momento de confusão e incerteza deve buscar ajuda profissional. Se a pessoa não percebe a si mesma, como é que vai perceber a sua vocação, as suas aptidões? Fica bem difícil. Por isso, se você quer fazer um caminho sério, se você quer realmente descobrir o seu chamado, as suas aptidões, se você não está tendo clareza, mas dificuldades, que não tenha medo de buscar ajuda. Não tome isso como um problema, mas como um desafio, independente da idade.

Hoje, por exemplo, há uma grande confusão com o mundo virtual. Criam-se outros “eus”, os “eus” virtuais. Isso pode confundir ainda mais na busca, especialmente quando o “eu” virtual não tem nada a ver com o “eu” real.

Realizar a própria vocação é uma dimensão fundamental da vida. Quando uma pessoa realiza sua vocação, ela realiza o sentido da vida. É alguém que vai estar sempre ali de bem com a vida, feliz. Não se diz que o que o ser humano mais busca é a felicidade? Então, é uma forma muito garantida de ser feliz. Muito garantida.

Por Afonso Gati – Aleteia 

Adaptação/Foto: Portal Terra de Santa Cruz – A serviço da evangelização!!

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