De Francisco a Paulo, de Paulo a Francisco: Uma vida dedicada a Deus, ao próximo, à justiça e à paz!

A morte é uma das forças diante da qual ainda me calo, até me refazer do impacto e procurar entender o que aconteceu. Foi assim na morte dos que eu mais amava, é assim diante da morte de algum conhecido, ou até mesmo de algum estranho. Diante da morte o silêncio e a presença fraterna valem mais do que mil discursos, penso eu.

O teólogo Hans Balthasar escreveu que “o próprio paradoxo desvanece diante da morte definitiva, que nos transforma em pó e, cedo ou tarde, enterra conosco forma, memória e continuidade”.(BALTHASAR, 2016). Diante dela, nossa única certeza nesta vida, tomamos consciência de que somos “peregrinos nas estradas de um mundo desigual” (DOMINGOS, 2004).

Hoje, por volta das 13h, experimentei aquele silêncio diante da notícia morte de alguém a quem eu muito admirava. No dia em que a Igreja celebra São João da Cruz, místico, escritor, poeta e doutor, Deus chamou para Si um bispo, místico, escritor, doutor, profeta, um dos últimos Santos Padres da América Latina, Dom Paulo Evaristo Arns.

Uma vida marcada para ser farol diante das noites escuras que o Brasil e diversos países latino-americanos passaram. Um homem à frente de seu tempo, que soube beber das fontes do cristianismo primitivo, alimentou-se da espiritualidade franciscana e recostou a cabeça no coração do Amado Jesus, donde auriu a mais plena sabedoria, a coragem diante dos poderosos deste mundo e a alegria para anunciar o Evangelho de Cristo com sua vida.

Nascido a 14 de setembro de 1921, em Forquilhinha/SC, filho de Helena Arns e Gabriel Arns, “Filho de Lavradores”, título do qual mais se orgulhava dentre os tantos que recebeu, o quinto de uma família de treze filhos, chamado de Paulo, estava escolhido a ser conhecido em todo mundo como o Profeta da Justiça, da Esperança e da Paz.

Como ele mesmo escreveu “pela mão de São Francisco, para a Igreja toda: frade e bispo” (ARNS, 2001). Como frade franciscano, após alguns anos de estudos na Europa, é chamado a testemunhar o amor, a simplicidade e a alegria do Deus da vida nos morros de Petrópolis, no Rio de Janeiro de 1956 a 1966. Em 1966, o beato Paulo VI, nomeou-o bispo auxiliar de São Paulo. Filho de Francisco de Assis, Paulo tornado Evaristo, é enviado por Paulo o papa, à São Paulo, a cidade de todos os povos.
Na grande metrópole, o bispo auxiliar Paulo, torna-se arcebispo, o arcebispo torna-se cardeal e profeta, voz dos que eram perseguidos pelo regime militar, sinal de justiça diante de situações onde a própria Constituição Nacional era rasgada e os direitos humanos desrespeitados.
Padre Comblin escrevera assim sobre o papel do profeta no mundo de hoje: “o profeta anuncia a chegada da força de Deus, que vem revestir a fraqueza dos fracos deste mundo.” (COMBLIN, 2008), e nos diz ainda que a perseguição é um sinal de autenticidade da profecia. E quantas foram as perseguições sofridas dentro e fora do âmbito religioso? Só Deus sabe! Foi e ainda é sinal de contradição para muitos que não entenderam o projeto do Reino de Deus em nosso meio.
Sobrinho espiritual de outro grande religioso do século XX, que foi dom Helder Camara, dom Paulo Evaristo não deixou cair a profecia em momento algum, mesmo quando já era arcebispo emérito. Foi um dos grandes nomes do diálogo inter-religioso no Brasil, promovendo o respeito e reconhecendo a dignidade das outras confissões religiosas. Como o Apóstolo das Nações, fez-se tudo para todos para salvar a todos o que a ele recorriam (cf. I Cor 9,22), a todos que precisavam de seu bispo, salvar integralmente, físico – material – espiritual.
Pioneiro, visionário, místico, preparou os caminhos da Igreja do Brasil para os desafios do século XXI. Cabe aos pastores de agora continuarem com coragem, audácia e santa alegria o desafio de não deixar a profecia cair.

“Que os anjos te conduzam, 
pelas mãos ao paraíso: 
Para a festa do Cordeiro
Convidado tu estás!
Co’alegria te introduzam
Na cidade do sorriso:
Quem te amou assim primeiro,
Seja agora a tua Paz!” (KOLLING, 2006)

dom paulo.jpg

Vá em paz dom Paulo Evaristo, que Francisco de Assis te receba ao lado Cristo Jesus, como um filho bom e fiel na Eternidade. Nós que aqui ficamos nos inspiramos em sua história de vida, suas lutas e seu testemunho para prosseguir a nossa caminhada como peregrinos rumo ao Céu.. “Até o céu!”

Escrito Thiago Augusto da Silva – Colaborador do Portal Terra de Santa Cruz – Campinas-SP
Campinas, 14 de dezembro de 2016.

Foto: Reproduções do Google.com/ Adaptadas por Portal Terra de Santa Cruz

REFERÊNCIAS

ARNS, Dom Paulo Evaristo. D. Paulo Evaristo Arns: da esperança à utopia. Testemunho de uma vida. Rio de Janeiro: Sextante, 2001.
ARNS, Dom Paulo Evaristo. Um padre em sete morros abençoados. Aparecida: Santuário, 2005.
ARNS, Dom Paulo Evaristo. Memórias da Igreja de São Paulo. São Paulo: Paulus, 2016.
BALTHASAR, Hans Urs von. Vida a partir da morte: meditações sobre o mistério pascal. São Paulo: Paulus, 2016.
BÍBLIA SAGRADA. Brasília: CNBB, 2007.
COMBLIN, José. A profecia na Igreja. São Paulo: Paulus, 2009.
KOLLING, Míria Terezinha. Abre-te, ó céu! Cantando a páscoa de um irmão, de uma irmã. São Paulo: Paulus, 2008.
EM NOME DO PRIMEIRO AMOR. Interpretes: Bernadete Pavão, Gente de Casa, Zé Vicente. São Paulo: Paulus, 2004.

Portal Terra de de Santa Cruz – A Serviço da Evangelização!

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