CATEQUESE: A Igreja, uma mãe verdadeiramente catequizadora/ Por Vinícius T. Amaral

Existe uma grandeza no ensinamento da fé católica que se caracteriza singular e necessária em um mundo marcado por sua falta de referências éticas, morais e religiosas. A igreja é “Mater et Magistra”, Mãe e Mestra (MM, 1961), e por se caracterizar como tal sempre permitiu a nós, seus filhos, um embasamento fidedigno para a fé e a vivencia em comunidade. Por isso, a palavra eminente neste contexto é “Catequese”, algo que vem do alto (Katà) como ato de fazer ecoar (Echeò-Ekòs). A realidade é que ainda muitos católicos, permanecem ainda sem instrução e conhecimento da fé que professam, por erros durante o processo (permanente) de catequização,  isto é percebido pelo discurso vago e lacunar dos que não se abrem para o ensinamento da Igreja, assumindo uma fé insólita, buscando religiões e igrejas adequadas às suas vontades.

Os contemporâneos de Jesus puderam experimentar de uma catequese em que o “ver” se destacava pela simples e rica convivência com o Senhor e seu testemunho. O Testemunho e a palavra de Jesus possibilitavam a conversão e a aceitação da verdade revelada. Esta, sempre foi procurada pelos mais instruídos, agora, é revelada em Jesus Cristo, protagonista do projeto de amor e de felicidade plena para aqueles que “ouvem sua palavra e a colocam em prática” (Tg 1, 22). A verdade desta catequese é o fundamento da doutrina, o ensinamento da Igreja nasce das palavras do Cristo, o seu testemunho, sua vida, paixão e morte, instituem a Igreja como fiel seguidora da palavra.

É deste modo que aos poucos, tendo concretizado o mistério salvífico, surgem as primeiras comunidades cristãs, sendo por sua vez, catequizadas. Entre o século I a V(d.C), se vive a busca de uma identidade no meio de um mundo pagão, a catequese teria como objetivo despertar para o seguimento de Jesus, como processo de conversão. Os cristãos se reuniam para perceber os dramas dos mais necessitados, para viver a fraternidade, celebrar a liturgia pela partilha do pão e da palavra. Aqui, se deve notar que ser cristão é uma identidade perfeita para aqueles que querem continuar a missão de Jesus, ganhando a vida eterna e a felicidade neste seguimento.

O catecumenato, se ascende como necessário a formação dos cristãos, preparando os candidatos para a vivência em comunidade, escuta e partilha. Contudo, dever-se-ia preparar o cristão para as dificuldades do tempo vigente, para a perseguição e não aceitação da religião cristã, introduzindo-o cada vez mais na fé e no mistério de Cristo, realizando um tempo de santificação e conversão. Ganhar a vida pela morte, testemunhá-lo com a força do seu testemunho e não a física. Afinal, a tentação do cristianismo se caracterizava pela promessa de vida eterna.

No tempo da escolástica, na Idade Média (V-XVI d.C), como a religião cristã fora imposta como oficial, todos deveriam aceita-la, o que gera a “cristandade”. Das catacumbas, para os grandes templos e grandes produções literárias. A catequese se torna extremamente necessária, grandes pastores-catequistas se destacam para a defesa da doutrina contra as heresias. A sociedade é animada pela religião cristã, estabelecendo uma aliança entre o poder religioso e civil. Num contexto social cristão de arte, como escultura, pintura, arquitetura, a criança batizada experimentava em toda sua vida os ensinamentos da religião.  A catequese como educação da fé, se realiza por meio de uma simbiose.

Com o advento da Idade Moderna e o desligamento de alguns membros, surge o protestantismo, e a catequese se vê obrigada à busca da identidade católica face às críticas do desligamento. Valorizou-se mais a identidade pessoal, não tanto comunitária como outrora. Com a forte influência da imprensa e do iluminismo aumentou-se a preocupação com a clareza e exatidão das formulações doutrinais. Assim, da família e da Igreja, a catequese se instaura no ambiente escolar como ensino obrigatório. De tal modo o catecismo se torna um referencial de segurança sobre a fé, a catequese é marcada como sumamente doutrinária.

A partir do Sagrado Concílio Vaticano II, a catequese adquire uma outra perspectiva. É deste modo que, como “Mater et Magistra”, a Igreja procura apontar os caminhos para a verdade da fé que é Jesus Cristo, mudam-se os meios, os veículos, mas permanece a identidade e o núcleo de um ensinamento íntegro: o seguimento fiel a pessoa de Cristo, o conhecimento da verdade, tendo como consequência a felicidade total daqueles que a conhecem. “A Catequese está intimamente ligada a toda a vida da Igreja. Dependem essencialmente dela não só a expansão geográfica e o crescimento numérico mas também, e muito mais ainda, o crescimento interior da Igreja e a sua conformidade com o desígnio de Deus”.(CT 13). Um novo rosto é dado aos meios de formação da Igreja adequado aos nossos tempos. Segundo o documento “Catequese Renovada” (1983) o ensinamento catequético deve se pautar em um “ (…) processo de educação comunitária, permanente, progressiva, ordenada, orgânica, sistemática da fé. Sua finalidade é a naturalidade da fé, num compromisso pessoal e comunitário de libertação integral, que deve acontecer já aqui e culminar no reino definitivo” (CR, 318).

Não se trata de esquecer o catecismo, mas pelo contrário, de afirma-lo de modo a fazer da doutrina partícipe do cotidiano pessoal e genuíno do cristão católico. A riqueza que a Mãe Igreja propõe aos seus filhos durante a história, não deve ser motivo de condenação ou revolta, mas carece de ser desfrutada de modo a nos tornar pessoas melhores, indivíduos inseridos no corpo social que se caracterizam “sal da terra e luz do mundo” (Mt 5, 13-14), católicos autênticos formados pela verdade do Evangelho ensinado através da Igreja.

A catequese destes tempos, adota por sua vez, o “ver, julgar e agir”, palavras que possuem um significado particular na vida não só do catequista e catequizando, mas do cristão. Perceber a realidade que nos cerca, julgá-la com os olhos do Senhor, e agir de forma a promover o crescimento comum. A formação catequética atual deve libertar a mente do medo de testemunhar e viver como Cristo viveu, deve transformar-nos como filhos. Só assim, poderemos participar de uma sociedade laica e não laicista, olha-la com a perspectiva clínica da fé, e realizar nosso compromisso de sermos profetas. Deste modo, não esqueça que  “No coração da Catequese, encontramos essencialmente uma pessoa : a de Jesus de Nazaré, Filho Único do Pai(…), que sofreu e morreu por nós e que agora, ressuscitado, vive conosco para sempre. (…) Catequizar (…)é revelar, na pessoa de Cristo, todo o desígnio eterno de Deus. É procurar compreender o significado dos gestos e das palavras de Cristo e dos sinais por Ele realizados”. (São João Paulo II,CT 5). 

Em uma realidade pontuada pela falta de referências ou por múltiplas pseudo – referências, onde não se forma a pessoa e sim instrui o sujeito manipulando-o, sejamos protagonistas da verdade evangélica, ousados no anúncio da palavra, crentes na doutrina que professamos. Verdadeiros e coerentes em nossos discursos, formadores de opiniões e não defensores do absolutismo de nossas crenças.  Inteligentes por sermos formados por uma mãe que é mestra naquilo que cremos: a pessoa de Jesus.

Campanha-MG, abril de 2016, Ano da Misericórdia.

Por Vinícius T. Amaral, graduado em Filosofia pela Academia Vicentina do Paraná (FAVI)

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