Especial Semana Santa: Sermão da Soledade de Maria, proferido pelo Pe. José Roberto de Souza em São Lourenço-MG

A Paróquia São Lourenço Mártir – São Lourenço(MG), recebeu o Padre José Roberto de Souza, pároco da Paróquia São Sebastião (Paróquia do Mártir) Varginha-MG, para proferir o Sermão da Soledade de Maria, meditação das Dores da Virgem Santíssima. O Sermão aconteceu na Igreja Matriz de São Lourenço após a Celebração Eucarística em seguida todos caminharam em procissão com a Imagem da Virgem Dolorosa.

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Prezados irmãos e prezadas irmãs,

Seguindo a tradição dos nossos antepassados e vivendo a tão importante piedade popular, celebramos o Setenário das Dores, meditando as dores pelas quais Maria Santíssima passou, assumindo toda a sua missão maternal, associando a sua vida à de seu filho, Nosso Senhor.

Hoje, em nossa meditação, desejo responder a uma pergunta: como foi que Maria Santíssima viveu as experiências dolorosas em sua vida? Mesmo sabendo que o seu sofrimento seria atroz, seguiu firme seu caminho. Penso que muitos de nós não seríamos capazes de continuar dando firmes passos, se nos fosse antecipadamente anunciado que dores e sofrimentos nos acompanhariam. Creio que facilmente voltaríamos atrás nos propósitos feitos e compromissos assumidos. Mas sabemos que Maria, a mãe de Jesus, não abandonou sua missão, ao contrário, entregou-se cada dia melhor a ela, cumprindo o que devia cumprir. Onde buscou força para suportar e atravessar tamanhas dores?

Irmãos na fé, antes de buscarmos as respostas a essa questão – “Onde Maria Santíssima buscou força para suportar e atravessar tamanhas dores?” –, recordemos que a mais terrível dor de Maria foi experimentar a ausência de Jesus. Quando sepultaram o corpo de Jesus, o coração da Virgem Mãe foi envolvido de uma dor profunda. Foi a espada da solidão que se cravou a sua alma. Na primeira dor, ela tinha Jesus recém-nascido em seus braços diante de Simeão e Ana; na segunda dor, ela o levava consigo, talvez a pé ou num pequeno animal, até o Egito, e de lá voltara; na terceira dor, o reencontrara no Templo; na quarta dor, pode vê-lo, falar com ele, trocar olhares; na quinta dor ouviu suas palavras de misericórdia em favor dos pecadores e as preces ao Pai. Seus olhares de mãe podiam ter o reflexo da solidariedade que amenizava a dor da paixão do Filho de Deus; na sexta dor, contemplava o corpo de seu filho e o lavava com as suas lágrimas e o acariciava com amor. E agora? Agora, na sétima dor, estava ausente de si o seu filho Jesus, não o via, nem sequer seu corpo morto. Ele não estava mais com ela. “Feliz o mármore que em breve abrigará teu corpo: e em meu lugar, no piedoso seio acolherá teus membros. Ao entrares na vida, foi em minhas entranhas que doce repousaste; ao sair dela, só uma pedra é que terás por leito.” (São José de Ancheita, Poema da Virgem)

Creio que semelhante sofrimento experimentam muitas outras mães; mães que vivem a dor de não terem mais seus filhos. Num dia triste, depositaram-nos no sepulcro e voltaram sós para suas casas. Os dias passam, os meses passam, os anos findam e nunca mais podem encontrá-los. Maria experimentou esta dor nos dias que se seguiram à morte de Jesus, antes da ressurreição. “Só! E ao redor de ti, Senhora, olhaste: gemia a solidão de extremo a extremo. E o infinito silêncio interrogaste com a clemência de teu olhar supremo.” ( Setenário das Dores, Alphonsos Guimarães).

A soledade de Maria foi uma aguda dor. É por isso que me ponho diante da pergunta: “Onde Maria Santíssima buscou força para suportar e atravessar tamanhas dores?” Era necessário buscar algo que a revestisse de fortaleza. Humanamente seria impossível suportar. Era necessário que sua vida fosse envolvida por outra experiência que lhe desse uma razão superior a seu sofrimento. E é isso que agora desejo compreender. Peço a Nosso Senhor e à Nossa Senhora que me deem as graças necessárias para que minhas reflexões sejam capazes de ajudar aquelas mães – e também os pais – que não têm mais consigo seus entes queridos. Que minhas reflexões possam ajudar-nos também nas superações de tantas dores que nos vêm quando estamos a cumprir nossa missão.

Foi na Fé, na Esperança e na Caridade que Maria buscou sua paz interior e sua força. Outras coisas não poderiam lhe dar força e a paz interior para atravessar suas dores. Maria encontrou a força necessária na fé, vivida na oração silenciosa; encontrou sua força na caridade, vivida no serviço aos irmãos; Maria encontrou sua força na Esperança, vivida na confiança ao Pai.

Irmãos, não sejamos medíocres na compreensão deste mistério, pois quando lemos os Sagrados Livros do Evangelho de Jesus nos deparamos com muitas passagens a nos contar que Maria Santíssima vivera intensamente sua fé na oração e no silêncio. Os Sagrados Textos nos mostram a Mãe de Jesus atenta à caridade. Desde pequena, Maria foi educada na tradição religiosa de seus pais, Joaquim e Ana, fortalecendo na alma a certeza de um Deus misericordioso que nunca abandona o seu povo. Prezados irmãos, seriamos medíocres se pensássemos que automaticamente, de uma hora para a outra, faríamos uma experiência verdadeira de Deus. Para desenvolvermos em nós a Fé, a Caridade e a Esperança devemos inserir-nos profundamente na comunidade, como vivera Maria, certos e convictos de que é a Igreja o  lugar onde estas experiências se tornam reais.

Retornemos ao fato que se segue ao Sepultamento de Jesus. Penso que todos vocês se recordam de que, no alto da Cruz, Jesus entregou sua Mãe ao Discípulo e o Discípulo à sua Mãe. Disse ao seu Apóstolo: “Eis aí a sua Mãe”; e à Mãe: “Eis aí o seu filho”. Estas palavras de Jesus foram uma verdadeira instituição da Maternidade de Maria para a Igreja. Todos os seus irmãos, gerados pelo Sacramento que jorrou do seu lado aberto, são agora entregues como filhos à sua Mãe. Ainda nos diz o Evangelho que Maria, após a Morte de Nosso Senhor, foi acolhida pelo Discípulo Amado em sua casa. Pois bem irmãos, qual é a casa do seguidor de Jesus? Qual é o lugar primeiro onde devem viver aqueles que receberão a graça de Deus? Estou certo de que muito além de uma casa construída de pedra ou de tijolos, o discípulo acompanhou Maria, agora sua mãe, para a comunidade. Maria Santíssima não teria descido o Calvário para se entregar a um tedioso ambiente onde a crença não é vivida. Ela foi para a comunidade. Vejam, prezados irmãos, que agora se desperta ao nosso entendimento um olhar novo e se acende em nossa espiritualidade uma luz na compreensão deste mistério, pois se a Mãe de Jesus e nossa vai para a comunidade após o sepultamento de seu filho é para viver o que sempre vivera. Ela não se desesperou. Manteve-se firme na Esperança, confiando no Deus de Amor e Compaixão. Ela não se prostrou sob suas dores, entregando-se à sua solidão, lamentando a morte de Jesus. Ela se pôs a fazer o que sempre fizera enquanto acompanhava Nosso Senhor: a Caridade. E entregue à oração, refletindo sobre tudo o que tinha acontecido, num silêncio reverente, alimentava a sua fé.

Entristeço-me quando ouço as pessoas dizerem que foram buscar a solução para a sua dor na ilusão do Espiritismo. O Espiritismo não traz nada de bom às pessoas, pois as ideias de psicografia não são verdadeiras. Espírito humano nenhum se comunica com a gente. Não existe psicografia. Mergulhar nesta ilusão é abandonar o verdadeiro Deus. Entristeço-me também quando vejo alguém que repete sem cessar que perdeu um familiar e se entrega num pranto eterno, a um choro inconsolável. E não menos corta minha alma de sacerdote quando ouço que pessoas se tornaram descrentes porque Deus não fez aquilo que elas queriam, como se Deus tivesse a obrigação de nos atender os pedidos insensatos que lhe dirigimos.

Irmãos, não estou a negar a dor que transpassa a alma de nossos irmãos que perderam entes muito queridos. Não nego que a vida destes nossos irmãos enlutados estejam uma soledade tão aguda quanto aquela vivida por Maria. Os que choram a morte de um familiar ou de um amigo devem de fato chorar. Os que sentem a tremenda dor da saudade devem de fato senti-la. Mas desejo que transponham o luto na experiência da Fé; que transponham o luto na doação de si mesmos na vivência da Caridade; que transponham o luto na certeza da presença do Deus Misericordioso, no qual podemos verdadeiramente colocar a nossa Esperança.

Por isso, exorto-os a seguirem fielmente o exemplo da Virgem Santíssima. É preciso que façamos nossa a experiência de Maria. Ela soube compreender os designíos Divinos, mantendo firme coerência mesmo na dor, no sofrimento, sendo discípula e missionária fiel.

Eu tenho certeza, prezados fiéis, que, se buscarmos em Deus nossa força, pelos caminhos traçados pela Virgem Mãe, não nos decepcionaremos, mas nos será possível fazer a mesma experiência de paz interior que fez Maria. Isso nos é tão concreto, pois temos milhares de testemunhos dos santos e santas que seguiram pelos mesmos passos de Maria. E nossa certeza se funda também na consciência de que somos acompanhados pelo Espírito Santo que nos foi entregue pelo Pai e o Filho. E na comunhão Trinitária não nos faltarão os auxílios necessários.

Quando a dor chegar a sua vida, lembre-se da Fé, da Caridade e da Esperança. Quando a dor chegar a sua vida, lembre-se da comunidade. Quando a dor chegar a sua vida, reze, seja um dom para o irmão no serviço caridoso e demore, mas demore mesmo no silêncio orante, de modo que possa ser levado à mais firme confiança em Deus.

Que Nossa Senhora da Soledade interceda por nós!

Por Padre José Roberto de Souza – Semana Santa 2016 

Foto: Mateus Costa / Paróquia São Lourenço Mártir

Portal Terra de Santa Cruz 

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