Europa corre o risco de perder a própria alma, diz o Papa

Em discurso ao Parlamento Europeu, o Papa Francisco pediu recuperar a “dignidade transcendente” da pessoa humana e lutar pela “construção da paz”.

Na última terça-feira (25), em visita à cidade francesa de Estrasburgo, sede do Parlamento Europeu e do Conselho da Europa, o Papa Francisco conclamou representantes políticos de todo o continente a recuperar a “dignidade transcendente” da pessoa humana e lutar pela “construção da paz”. A viagem de Francisco aconteceu mais de 20 anos após a visita do Papa São João Paulo II à mesma assembleia parlamentar, em 1988.

Durante o seu discurso, o Santo Padre convidou os europarlamentares a olhar para o homem “não tanto como cidadão ou como sujeito econômico, mas como pessoa dotada de uma dignidade transcendente”. Em referência direta a João Paulo II, Francisco indicou o pensamento grego, a cidade de Roma e a religião cristã como fontes da própria concepção de pessoa, repetindo o que Bento XVI ensinara em várias ocasiões: que “a cultura da Europa nasceu do encontro entre Jerusalém, Atenas e Roma, do encontro entre a fé no Deus de Israel, a razão filosófica dos Gregos e o pensamento jurídico de Roma”. Francisco ressaltou ainda que a contribuição da religião cristã para a política “não constitui um perigo para a laicidade dos Estados (…), mas um enriquecimento”.

O Papa explicou que “falar da dignidade transcendente do homem significa apelar para a sua natureza, a sua capacidade inata de distinguir o bem do mal, para aquela ‘bússola’ inscrita nos nossos corações e que Deus imprimiu no universo criado”. Disse ainda que, sem “uma abertura ao transcendente”, a pessoa humana “fica à mercê das modas e dos poderes do momento”. Alertando para o risco de o ser humano ser reduzido à “mera engrenagem de um mecanismo”, Sua Santidade falou dos doentes, dos idosos abandonados e “das crianças mortas antes de nascer”.

Francisco também recordou as perseguições feitas às minorias religiosas e aos cristãos, em várias partes do mundo. Comunidades e pessoas que foram “expulsas de suas casas”, “vendidas como escravas”, “mortas, decapitadas, crucificadas e queimadas vivas”, à custa do “silêncio vergonhoso e cúmplice de muitos”. “Que dignidade existe quando falta a possibilidade de exprimir livremente o pensamento próprio ou professar sem coerção a própria fé religiosa?”, questionou o Pontífice.

Além de “reconhecer a centralidade da pessoa humana”, o Papa pediu a promoção da família, “célula fundamental e elemento precioso de toda a sociedade”. “A família unida, fecunda e indissolúvel traz consigo os elementos fundamentais para dar esperança ao futuro”, afirmou.

Para tanto, o Papa Francisco usou como referência o afresco Escola de Atenas, de Rafael, no qual estão representados Platão, com um dedo para o alto, e Aristóteles, com a mão para frente. “Parece-me uma imagem que descreve bem a Europa e a sua história, feita de encontro permanente entre céu e terra, onde o céu indica a abertura ao transcendente, a Deus, que desde sempre caracterizou o homem europeu, e a terra representa a sua capacidade prática e concreta de enfrentar as situações e os problemas”. O Santo Padre afirmou ainda que “o futuro da Europa depende da redescoberta do nexo vital e inseparável entre estes dois elementos” e que, se o continente não “se abrir à dimensão transcendente da vida”, “corre o risco de perder a sua própria alma”.

A visita foi breve – durou menos de quatro horas. Tempo suficiente para deixar políticos laicistas e contrários à Igreja em polvorosa. Seis deputados da Espanha abandonaram o Europarlamento sem ouvir o discurso do Papa. Para a socialista Maria Albiol, “o Parlamento Europeu não é lugar para nenhuma religião, e menos ainda uma que não me deixa escolher com quem me deito ou com quem me caso”. O seu gesto não foi imitado por nenhum outro deputado, de nenhum país, nem força política.

Por: Christo Nihil Praeponere
Adaptação: Portal Terra de Santa Cruz 
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