Jubileu da Misericórdia| Calendário oficial do Ano da Misericórdia é publicado .

O calendário dos principais eventos do Jubileu da Misericórdia foi publicado esta quinta-feira (30/07).

No site dedicado ao evento, disponível também em português, é possível consultar todas as datas, começando com o dia 8 de dezembro de 2015, Solenidade da Imaculada Conceição, e abertura da Porta Santa da Basílica de São Pedro.

RV6160_ArticoloA Abertura da Porta Santa da Basílica de São João em Latrão e nas Catedrais do Mundo será feita alguns dias depois, em 13 de dezembro.

Já a abertura da Porta Santa da Basílica de Santa Maria Maior, será feita no primeiro dia do ano de 2016, único evento previsto para o mês de janeiro.

Em fevereiro, destaque para o Jubileu da Vida Consagrada e encerramento do Ano da Vida Consagrada, e o Jubileu da Cúria Romana.

No mês de abril, o Papa convocou o Jubileu dos adolescentes, de 13 a 16 anos, no Domingo de Páscoa.

Em junho, será a vez de os Doentes e as Pessoas com deficiência celebrarem o seu Jubileu. Os jovens o viverão em Cracóvia, na Polônia, na Jornada Mundial da Juventude, em julho.

Setembro será o mês dos catequistas. Outubro, o Jubileu Mariano. A novidade, em novembro, é oJubileu dos Presos, na Praça S. São Pedro, no dia 6.

No dia 13, haverá o Encerramento da Porta Santa nas Basílicas de Roma e nas Dioceses. E no dia 20, Solenidade de Nosso Senhor Jesus Cristo, Rei do Universo, o Encerramento da Porta Santa em São Pedro e conclusão do Jubileu da Misericórdia.


Por Rádio Vaticana

Adaptação: Portal Terra de Santa Cruz

Pesquisadores brasileiros apresentaram ao mundo nesta semana a reprodução do rosto que seria da Santa Maria Madalena.

Maria Madalena teria sido a primeira pessoa a ver Jesus Cristo ressuscitado, de acordo com a Bíblia.

O trabalho de reconstituição da face da santa envolveu o especialista em odontologia legal Paulo Eduardo Miamoto Dias, de Santos.

Ele e o designer gráfico Cicero Moraes, de Mato Grosso, foram contatados pelo especialista em santos católicos José Luís Lira, que teve a ideia de reproduzir o rosto de Madalena a partir do suposto crânio dela, conservado na Basílica de Sainte-Marie-Madeleine, em Saint-Maximin-la-Sainte-Baume, uma cidade no Sul da França.

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No fim do ano passado, os pesquisadores conversaram com o padre da basílica francesa, que, à princípio, se mostrou reticente com a iniciativa. “Ele disse que não interessava aos fiéis saber como era o rosto de Maria Madalena”, conta Miamoto. “Nós insistimos e, quando falamos que já havíamos trabalhado em parceria com a Igreja Católica no caso do Santo Antônio e que não seria necessário remover o crânio do relicário, ele topou”.

Maria Madalena

Moraes e Miamoto fizeram a reconstituição da face de Santo Antônio, cuja réplica ficou em exposição na Basília Santo Antônio do Embaré, em Santos. Eles utilizaram estudos sobre as características físicas do santo para criar uma imagem tridimensional no computador.

No caso de Maria Madalena, o especialista em odontologia legal teve apenas sete fotos à disposição, apesar de ter pedido 40 ao pároco. “Só pude fazer uma análise indireta, em cima de fotos, que não mostram o crânio em sua totalidade. Mas, mesmo assim, do que pude extrair de informações, concluí que é compatível com o de uma mulher adulta e branca”, afirma Miamoto.
De acordo com o especialista, os crânios fornecem muitas informações sobre as características da pessoa, o que possibilita, por meio de engenharia reversa, reconstituir músculos e tecidos. “O tamanho do nariz, a posição dos olhos e a largura da boca são derivados da anatomia”, exemplifica. Todas as informações extraídas da ossada foram aplicadas em um programa gratuito de computador.

Foi assim, em um trabalho que durou cerca de cinco meses, que os pesquisadores reconstituíram o rosto de Madalena, apresentado ao mundo no último domingo. “Temos reconstruções de pessoas vivas e observamos que algumas partes ficam bem próximas. Nós temos bastante confiança [no resultado], não é 100% igual, mas com certeza é reconhecível”, defende Miamoto, salientando que aprendeu muito com o trabalho. “Estou acostumado a olhar o crânio sobre aspectos biológicos. Durante o trabalho, tive a chance de aprender muito sobre o personagem histórico”.
Maria Madalena aparece nos textos bíblicos como discípula de Jesus Cristo e, por conta de diferentes interpretações, chegou a ser vista como prostituta e adúltera. Ela foi beatificada pelas Igrejas Católica, Ortodoxa e Anglicana, sendo festejada no dia 22 de julho.

Outros trabalhos
Miamoto irá participar da reconstrução das faces de outros santos católicos em breve. Ele e Cicero Moraes viajarão até Lima, no Peru, entre 1º e 8 de agosto, para ter acesso a três crânios no relicário do Convento de Santo Domingo. Eles pertencem supostamente a Santa Rosa de Lima, São João de Macías e São Martinho de Porres.

“Teremos impressão 3D dessas faces e vamos fazer um evento para trazer para a população da Baixada Santista, porque há Paróquia de Santa Rosa de Lima em Guarujá”, adianta o pesquisador.
A Equipe Brasileira de Antropologia Forense e Odontologia Legal (Ebrafol), da qual Miamoto é coordenador, não trabalha apenas com personagens da Igreja Católica e usa a tecnologia de digitalização em 3D para planejamento cirúrgico e medicina veterinária.

Na semana passada, um jabuti foi salvo ao receber uma prótese de casco produzida em uma impressora 3D da Ebrafol.Essas técnicas podem ser aplicadas também em investigações policiais, para reconhecimento de ossadas e divulgação de retratos falados.

Por: A Tribuna com NSA cuida de Mim

Adaptação: Portal Terra de Santa Cruz.


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Acabou o recreio da missa: Papa Francisco proíbe canto da paz e outras baguncinhas…

Dominus Vobiscum

abraço da paz Eita que essa baguncinha do recreio está com os dias contados!

Papa Francisco manda um recado aos que achavam que ele iria “inovar” e “modernizar” a Igreja: Aqui não é, não foi, e jamais será uma democracia. Aqui a voz do povo não é a voz de Deus. Tudo bem que ele não disse isso com estas palavras que eu usei, mas disse com um grande gesto concreto: Através da Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos chega para todos os católicos um novo documento: O SIGNIFICADO RITUAL DO DOM DA PAZ NA MISSA.

Neste documento, a Igreja deseja ensinar o correto significado do dom da paz na missa e a forma correta de o fazê-lo. Resumidamente a Igreja através desta carta, quer alertar os católicos de que momento da paz não é a hora do recreio na missa, onde é permitida a baguncinha, onde todo mundo pode romper…

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Santo do Dia |Santo Inácio de Loyola, reconhecido tendo a alma maior que o mundo.

Testemunhava sua paixão convertida, pois sua ambição única tornou-se a aventura do salvar almas e o seu amor a Jesus

Santo InacioNeste dia celebramos a memória deste santo que, em sua bula de canonização, foi reconhecido como tendo “uma alma maior que o mundo”.

Inácio nasceu em Loyola na Espanha, no ano de 1491, e pertenceu a uma nobre e numerosa família religiosa (era o mais novo de doze irmãos), ao ponto de receber com 14 anos a tonsura, mas preferiu a carreira militar e assim como jovem valente entregou-se às ambições e às aventuras das armas e dos amores. Aconteceu que, durante a defesa do castelo de Pamplona, Inácio quebrou uma perna, precisando assim ficar paralisado por um tempo; desse mal Deus tirou o bem da sua conversão, já que depois de ler a vida de Jesus e alguns livros da vida dos santos concluiu:“São Francisco fez isso, pois eu tenho de fazer o mesmo. São Domingos isso, pois eu tenho também de o fazer”.

Realmente ele fez, como os santos o fizeram, e levou muitos a fazerem “tudo para a maior glória de Deus”, pois pendurou sua espada aos pés da imagem de Nossa Senhora de Montserrat, entregou-se à vida eremítica, na qual viveu seus “famosos” exercícios espirituais, e logo depois de estudar Filosofia e Teologia lançou os fundamentos da Companhia de Jesus.

A instituição de Inácio iniciada em 1534 era algo novo e original, além de providencial para os tempos da Contra-Reforma. Ele mesmo esclarece: “O fim desta Companhia não é somente ocupar-se com a graça divina, da salvação e perfeição da alma própria, mas, com a mesma graça, esforçar-se intensamente por ajudar a salvação e perfeição da alma do próximo”.

Com Deus, Santo Inácio de Loyola conseguiu testemunhar sua paixão convertida, pois sua ambição única tornou-se a aventura do salvar almas e o seu amor a Jesus. Foi para o céu com 65 anos e lá intercede para que nós façamos o mesmo agora “com todo o coração, com toda a alma, com toda a vontade”, repetia.

Santo Inácio de Loyola, rogai por nós!

Fonte: CN


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VÍDEO|Bispo alerta sobre o uso indevido dos termos católicos pelas seitas .

ATENÇÃO TODOS OS CATÓLICOS!
Bispo alerta sobre o uso indevido dos termos católicos pelas seitas .

Dom Alberto Taveira, Arcebispo Metropolitano de Belém, faz um pronunciamento para esclarecer as diferenças entre a Igreja Católica Apostólica Romana e a Igreja Carismática

 


 

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Diocese da Campanha| Lançamento do Hinário Litúrgico Diocesano

Depois de uma longa espera, a Equipe Diocesana de Animação Litúrgica da Diocese da Campanha-MG concluiu os trabalhos e preparação do Hinário Litúrgico Diocesano.

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 O Lançamento para os Padres da Diocese será no dia 17 de agosto na cidade de Passa Quatro, onde ocorrerá o tradicional Retiro do Clero Diocesano. Para as Foranias, foi estipulado outras datas, cada forania se reunirá para apresentar o hinário diocesano, fique atento as datas e horários, acesse www.liturgiadacampanha.com para maiores informações.


 
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ARTIGO| Só a graça de Deus nos transforma em pessoas melhores

O nosso melhor só vem para fora quando transformamos nossa miséria e nossas fraquezas em lugar da ação da graça de Deus!

“O Reino dos Céus é ainda como uma rede lançada ao mar e que apanha peixes de todo tipo” (Mateus 13, 47).

É um engano e uma ilusão achar que, no Reino de Deus, só há peixes bons, de boa qualidade e de boa espécie. Basta olhar para cada um de nós para perceber que não somos tão bons assim e para perceber que não somos peixes de qualidade boa e que há em nós defeitos, limites e excesso de escamas.

Fomos pescados pelo Senhor não porque somos bons, mas sim porque podemos nos tornar melhores. Nisso está o trabalho da graça de Deus para nos lapidar e nos transformar. À medida que nos aproximamos de Jesus, Ele vai vencendo em nós e nos ajudando a superar nossos erros, defeitos e limites. O ruim é que, quando este peixe que não era tão bom se torna melhor, jogamos fora os outros de qualidade parecida ou inferior; contudo, estes são tão amados e tão queridos por Deus que vão ser tratados, cuidados e resgatados por Ele.

Não existe natureza ruim para Deus, não existe criatura perdida para Ele. Existe criatura para ser cuidada e amada; existe filho e filha que precisam ser mais cuidados do que outros para que a graça e o amor de Deus cresçam nele. Pois para Deus não há ninguém perdido!

Há pessoas que se perdem, que querem se perder e não querem se encontrar. Há pessoas que desistem de Deus e das coisas d’Ele, mas o Senhor não desiste de ninguém. Ele não desistiu de mim nem de você! E por que nós desistimos uns dos outros!?

É verdade que precisamos respeitar o tempo, o limite e a escolha de cada um, mas só não podemos julgar nem condenar ninguém como se determinada pessoa não tivesse mais jeito. E quando lançamos a rede não é para pescar somente os bons; é para pescar todos!

No final, quando aquele peixe que não era tão bom não se tornou melhor, o próprio Senhor vai lançá-lo fora; assim como aquele peixe que era bom e depois se estragou e se corrompeu vai ser também jogado fora. O importante é que, a cada dia, permitamos que a graça de Deus nos transforme em pessoas melhores.

E o nosso melhor só vem para fora quando transformamos nossa miséria e nossas fraquezas em lugar da ação da graça de Deus! No Reino de Deus nada se perde; tudo se transforma em graça!

Deus abençoe você!

Por Padre Roger Araújo – Sacerdote e Jornalista da Comunidade Canção Nova.


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Cuidado: A Igreja Católica Apostólica Carismática não tem nada a ver com a Igreja Católica Apostólica Romana

O Lobo em pele de Cordeiro.

Alerta aos católicos: Uma nova doutrina está sendo semeada no meio do povo de Deus. É o famoso lobo vestido de pele de ovelhas. E ele tem um nome: Igreja Católica Apostólica Carismática. Esses dias eu recebi um panfleto na minha residência avisando de uma missa celebrada por um cidadão que se denomina padre e ordenado por outro cidadão que se intitula bispo. Coisa estranha. Engraçado que quando perguntei aos panfleteiros se eles eram ligados a Igreja Católica Apostólica Romana eles disseram que todos os católicos eram bem-vindos. Sairam pela tangente.

Não escreveria sobre essa doutrina aqui, senão percebesse ai uma má fé: Denominar-se Igreja Católica Apostólica sem a devida diferenciação entre as igrejas, podendo alguns católicos, por serem menos esclarecidos na fé, vir a se deixar levar pelo nome “parecido”. Esclareço: O episódio dos panfletos foi um tanto estranho. Ainda que a ICAC ensine em seus templos as diferenças, os panfleteiros foram um tanto ambíguos.

Por isso, baseado em informações dos sites dos padres da tal igreja, resolvi escrever para alertar os irmãos menos esclarecidos na fé. Depois se desejarem, veja nestes links os pronunciamentos oficiais dos bispos da Diocese de Osasco e da Diocese de Santos sobre elas.

Na pesquisa efetuada, não consta uma data de fundação da tal igreja ou seita. Portanto não temos como saber quando começaram as suas atividades. Solicitei a procuradoria da ICAC um institucional sobre a mesma para conhecer sua doutrina. Mas até então o que conheci foi através de informações encontradas nos blogs e sites dos “padres” da mesma. Existe um homem intitulado bispo, chamado Dom Euclides Nunes, todavia não sabemos quem o ordenou e quando. Todos nós católicos sabemos que bispo para se tornar “bispo”, precisa ser ordenado por outro bispo já ordenado e ligado a Igreja Católica Apostólica Romana. Ninguém pode chamar-se de bispo. Dom Euclides Nunesnão faz parte da Sucessão Apostólica de Pedro. Ele não é bispo de nenhuma Diocese da Igreja Católica Apostólica Romana. Portanto nenhum padre ordenado por ele pode consagrar o pão e o vinho.

A ICAC (Sigla da Igreja Católica Apostólica Carismática) tem como preceitos:

1 – Não possui os sete sacramentos da Igreja Católica Apostólica Romana. Para eles o Matrimônio pode ser recebido mais de uma vez e a confissão não é sacramento. Por isso os fiéis desta seita, segundo eles, não precisam confessar seus pecados aos padres. Segundo o site de um dos pseudos-padres da Igreja:

“A missão de um padre é pregar o Evangelho, aconselhar e rezar pelo povo e não ficar ouvindo pecados.”

Isso difere da Doutrina da Igreja Católica Apostólica Romana, que ensina o que o próprio Cristo ordenou:

Àqueles a quem perdoardes os pecados, ser-lhes-ão perdoados; àqueles a quem os retiverdes, ser-lhes-ão retidos. (São João 20,23)

2 – Não existe a lei do celibato. Para eles, o bispo, padre ou diácono pode ser casado ou solteiro, ele decide qual o estado de vida.

3 – Segundo eles não existe purgatório e, portanto os mortos não precisam de oração. Isso contraria a fé católica da Comunhão dos Santos. Se quiser saber mais sobre isso clique aqui!

4 – Para eles, o Papa não é tido como o Chefe (Visível) supremo da Igreja. Para eles o Papa é um primus inter pares – primeiro entre os iguais, é apenas o bispo de Roma e tem um “peso” igual ao bispo deles.

5 – Segundo a ICAC o aborto é repreensível, embora admitido quando a gestante possa ter sua vida posta gravemente em risco. Ou seja, para eles o pecado do aborto pode não ser pecado. A Igreja Católica Apostólica Romana é contra todo tipo de morte, incluindo o aborto.

6 – Métodos anticoncepcionais para a ICAC são permitidos. É uma decisão do casal acabar com a possibilidade de fecundação ou não. Para eles isso não é pecado. Não há qualquer pronunciamento da seita a respeito. Eles não tem um posicionamento definido. Ou seja, quem cala consente.

7- A Igreja Católica Apostólica Romana não realiza, a não ser em casos especiais, batizados, casamentos e crismas fora das igrejas e espaços normalmente destinados ao culto e às celebrações sagradas, como, por exemplo, chácaras, buffets e outros locais. Já a ICAB realiza casamento em qualquer lugar, porém o seu sacramento não é válido para a Fé Católica Apostólica Romana.

Ah, e tem mais coisa! Embora ela tenha o nome de “carismática”, ela não tem nenhum vínculo com a RCC (Renovação Carismática Católica), que um movimento que está dentro da Igreja Católica Apostólica Romana e lhe é obediente. O nome é também para confundir os fiéis. Fique esperto!

Esta não é a primeira e nem a última vez que termos parecidos com os da Igreja Católica aparecem causando confusão entre os católicos. Dentro das seitas protestantes já é normal vermos seus líderes se autodenominando “bispos”, “bispas” e “apóstolos”, e alguns deles chegando a usar o “clerygman” em suas aparições televisivas.

Estamos em um tempo onde a cada dia surgem novas seitas querendo afastar o povo de Deus do verdadeiro caminho. Fiquemos atentos! Abaixo, cito os nomes dos bispos das dioceses católicas apostólicas romanas da província eclesiástica de São Paulo. Se não constam nesta lista, fique esperto! Alguma coisa de errado tem!

  • Cardeal Dom Odilo Pedro Scherer, arcebispo metropolitano de São Paulo
  • Dom Tomé Ferreira da Silva, bispo auxiliar de São Paulo
  • Dom Tarcísio Scaramussa, bispo auxiliar de São Paulo
  • Dom Edmar Peron, bispo auxiliar de São Paulo
  • Dom Milton Kenan Júnior, bispo auxiliar de São Paulo
  • Dom Júlio Endi Akamine, bispo auxiliar de São Paulo
  • Dom Ercílio Turco, bispo de Osasco
  • Dom Fernando Antônio Figueiredo, bispo de Santo Amaro
  • Dom Nelson Westrupp, bispo de Santo André
  • Dom Jacyr Francisco Braido, bispo de Santos
  • Dom Joaquim Justino Carreira, bispo nomeado de Guarulhos
  • Dom Luiz Antônio Guedes, bispo de Campo Limpo
  • Dom Airton José dos Santos, bispo de Mogi das Cruzes
  • Dom Manuel Parrado Carral, bispo de São Miguel Paulista
  • Dom Vartan Waldir Boghossian, bispo do exarcado armênio, para os católicos apostólicos romanos de rito armênio residentes no Brasil
  • Dom Farès Maakaroun, bispo da eparquia Nossa Senhora do Paraíso, dos católicos apostólicos romanos de rito greco-melquita
  • Dom Edgard Madi, bispo da eparquia Nossa Senhora do Líbano, dos católicos apostólicos romanos de rito maronita.
Obs.: Depois de trocar alguns e-mails com a procuradoria da ICAC, resolvi atualizar o texto, moderando o linguajar. Acredito que o importante é esclarecer as diferenças para que ninguém seja induzido a uma fé diferente da que professa. Ainda falaremos mais sobre este fato. Peço desculpas se exagerei no peso das palavras. Mas a intenção de mostrar a verdade continua a mesma.

Por Dominus Vobiscum

Adaptação: Portal Terra de Santa Cruz


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LITURGIA – Artigo | A grandeza na Liturgia aponta para a Beleza de Deus

A grandeza na Liturgia aponta para a Beleza de Deus

Os sinais externos da sagrada Liturgia não são um insulto à pobreza material dos filhos da Igreja, mas um incentivo à piedade dos fiéis

O venerável Papa Pio XII, em sua encíclica sobre a sagrada Liturgia, explicava que “todo o conjunto do culto que a Igreja rende a Deus deve ser interno e externo”. Esta realidade decorre da própria constituição humana, ao mesmo tempo física e espiritual, e da vontade do Senhor, que “dispõe que pelo conhecimento das coisas visíveis sejamos atraídos ao amor das invisíveis”.

Este ensinamento explica porque os atos litúrgicos da Igreja sempre foram realizados em templos majestosos, com materiais tão nobres e paramentos trabalhados com inúmeros detalhes. Assim é, não porque a Igreja esteja apegada aos bens materiais ou preocupada em entesourar riquezas, mas porque ao Senhor deve ser oferecido sempre o melhor e o mais belo.

Assim pensava São Francisco, o poverello de Assis. Ele passou toda a sua vida como um pobre entre os pobres, mas, quando falava de Jesus eucarístico, condenava o desprezo e o pouco caso com que muitos celebravam os santos mistérios. Em uma carta aos sacerdotes, Francisco pedia a eles que considerassem dentro de si “como são vis os cálices, os corporais e panos em que é sacrificado” muitas vezes nosso Senhor. E insistia: “Onde quer que o Santíssimo Corpo e Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo for conservado de modo inconveniente ou simplesmente deixado em alguma parte, que o tirem dali para colocá-lo e encerrá-lo num lugar ricamente ordenado”01.

Na França do século XIX, os lojistas comentavam entre si: “No campo há um pároco magro e mal arranjado, com ares de não ter um centavo no bolso, mas que compra para sua igreja tudo o que há de melhor”. Era São João Maria Vianney, que vivia em pobreza extrema, mas não hesitava em ornar a casa de Deus com o mais nobre e o mais digno. Em 1820, escreveu ao prefeito de Ars: “Desejaria que a entrada da igreja fosse mais atraente. Isso é absolutamente necessário. Se os palácios dos reis são embelezados pela magnificência das entradas, com maior razão as das igrejas devem ser suntuosas”02.

Toda esta preocupação do Cura d’Ars mostrava um verdadeiro amor a Deus e às almas. Ele encheu a igreja de sua cidade com belíssimas imagens e pinturas, porque, dizia ele, “não raro as imagens nos abalam tão fortemente como as próprias coisas que representam”. O santo francês compreendia mais do que ninguém como não só era possível, mas também salutar, que o material e o terreno apontassem para as realidades celestes.

No entender do cardeal Giovanni Bona, um monge cisterciense do século XVII citado por Pio XII, “Se bem que, com efeito, as cerimônias, em si mesmas, não contenham nenhuma perfeição e santidade, são todavia atos externos de religião que, como sinais, estimulam a alma à veneração das coisas sagradas, elevam a mente à realidade sobrenatural, nutrem a piedade, fomentam a caridade, aumentam a fé, robustecem a devoção, instruem os simples, ornam o culto de Deus, conservam a religião e distinguem os verdadeiros dos falsos cristãos e dos heterodoxos.” 03

Percebe-se, deste modo, como pondera mal quem diz que a beleza das igrejas do Vaticano e o esplendor dos vasos e ornamentos sagrados deveriam ser renunciados, como se, com isto, a Igreja estivesse se exibindo indevidamente ou ofendendo os mais pobres.

Quem pensa desta forma ainda não compreendeu o que é verdadeiramente a Liturgia e qual é o seu verdadeiro tesouro. Não entendeu que até os sinais externos das ações litúrgicas, manifestados especialmente na Santa Missa, devem indicar Aquele que é a Beleza. E não pense que, persistindo nesta mentalidade, diverge em um ponto pouco importante da fé da Igreja. Nunca é tarde para recordar o anátema do Concílio de Trento: “Se alguém disser que as cerimônias, as vestimentas e os sinais externos de que a Igreja Católica usa na celebração da Missa são mais incentivos de impiedade do que sinais de piedade — seja excomungado”.

Por Equipe Christo Nihil Praeponere – Blog Padre Paulo Ricardo

Adaptação : Portal Terra de Santa Cruz


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FAMÍLIA |O marxismo e a destruição das famílias. Padre Paulo Ricardo explica…

O marxismo e a destruição das famílias

O tema abordado neste Parresía é o fundamento filosófico e histórico da guerra que está sendo travada atualmente contra a família. Ela se manifesta de diversas formas: divórcio, depravação moral, perversão na educação, uniões diversas, principalmente, a união homossexual. De onde vem essas ideias? Serão elas produtos da “evolução” da sociedade? Surgiram de maneira natural? Seria possível interferir, parar o processo?

Algumas pessoas poderão se surpreender ao serem informadas de que existe um objetivo bem claro nessa luta e que nada nela acontece ao acaso. A origem remonta a Karl Marx e seu ideal socialista. Assim, baseando-se nos escritos marxistas, Padre Paulo Ricardo faz uma reflexão sobre a tentativa persistente de destruição da família.


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EDUCAÇÃO | A prova que faltava: livro recomendado pelo MEC ensina “gênero” nas escolas

O livro Sociologia em movimento insiste na tese marxista de que a culpa para as discriminações está na família e na Igreja

 

Certa vez, quando questionado a respeito da popularidade dos jornais, o escritor inglês G. K. Chesterton explicou que aquele sucesso se devia à ficção promovida por eles. “A vida é um mundo, e a vida vista nos jornais é outro”, declarou.

A cobertura da imprensa sobre o debate acerca da inclusão do termo gênero nos Planos Municipais de Educação é o mais recente exemplo dessa ficção. Na maior parte das reportagens, procurou-se transmitir um retrato bastante distorcido da realidade, no qual os cristãos apareciam como Dom Quixote lutando contra moinhos de vento. Quem lesse esses jornais, logo teria a impressão de que a Igreja, movida por um repentino acesso de cólera, havia se levantado para uma cruzada pelo obscurantismo. Gênero, segundo a mídia e os ideólogos de plantão, seria uma expressão inofensiva, cujo significado se resumiria tão somente a uma luta pelo fim da discriminação.

Eis que agora nos surgem as provas cabais de que a Teoria de Gênero é exatamente aquilo tudo que havíamos denunciado aqui no site: um programa de destruição da família e da Igreja. Está nas mãos de alunos do ensino médio um livro chamado Sociologia em movimento. A obra, segundo consta, foi editada em 2013, pela Editora Moderna, de acordo com as determinações do Ministério da Educação para o Programa Nacional do Livro Didático — ou seja, antes mesmo que oPlano Nacional de Educação fosse votado.

No capítulo 14, intitulado Gênero e sexualidade, o leitor encontra uma apologia aberta ao fim da família e da lei natural, em nome de uma suposta liberdade e do que os autores entendem por “identidade de gênero”, isto é, “uma construção cultural estabelecida socialmente através de símbolos e comportamentos, e não uma determinação de diferenças anatômicas entre os seres humanos” [1]. A confissão vem logo nas primeiras linhas: “As permanências da sociedade patriarcal e do androcentrismo estão entre as principais explicações para esse fenômeno (a discriminação), e serão trabalhadas ao longo do capítulo, juntamente com as evidências que apontam para a reversão desse quadro social” [2]. O objetivo do estudo, conforme as próprias palavras do texto, é “reconstruir os papéis sociais estabelecidos” [3].

Quem não está familiarizado com o linguajar revolucionário deste tipo de publicação, é facilmente induzido a trocar gato por lebre. Ocorre que, no mundo pós-moderno, como explica Padre Paulo Ricardo a guerra cultural é uma guerra de palavras. A linguagem é um dos meios mais importantes utilizados pela intelligentsia para refundar o mundo à sua imagem e semelhança.

O próprio debate sobre o uso da palavra “gênero” nos planos de educação comprova isso. Embora o texto vigente do Plano Nacional defenda a “superação das desigualdades educacionais, com ênfase na promoção da cidadania e na erradicação de todas as formas de discriminação”, não faltaram críticas à supressão da tal palavra. Pergunta: se se trata apenas de uma luta pelo respeito, por que não basta dizer “erradicação de todas as formas de discriminação”? Essa é uma questão que eles não respondem. Mas para a qual há uma resposta.

Filhos de Karl Marx

“Para a Sociologia”, diz o livro, “a família (…) pode assumir diferentes configurações e padrões de normalidade”. A pergunta é se os pais estão de acordo com essa visão subjetiva e relativista de família.

A palavra “gênero”, do modo como foi pensada pelos ideólogos, representa todo um projeto de engenharia social. Como fica claro no livro, a tese tem suas raízes no pensamento de Karl Marx e Engels. Na obra A origem da família, da propriedade privada e do Estado, esses dois ídolos do pensamento esquerdista atribuem à família a máxima culpa pelas desigualdades sociais. Eles afirmam: “O primeiro antagonismo de classes que apareceu na história coincide com o desenvolvimento do antagonismo entre o homem e a mulher, na monogamia; e a primeira opressão de classes, com a opressão do sexo feminino pelo masculino”. Seria preciso, portanto, para destruir o capitalismo, destruir primeiro a família. Por isso, quando se fala de luta contra a “família patriarcal” ou “família burguesa”, saiba que se fala de luta contra a família natural, a saber, aquela formada por um homem, uma mulher e seus filhos. Padre Paulo Ricardo explica muito bem essa questão no vídeo Marxismo e a destruição da família.

O marxismo nega a existência da verdade. A estrutura do mundo se resumiria a uma tensão de forças antagonistas, influenciada pelo pensamento dominante ou, nas palavras de Marx, pela ideologia. Essa ideologia, por sua vez, seria a superestrutura, aquelas instituições que sustentam ostatus quo — família e Igreja, por exemplo. Desse modo, para que a estrutura opressora caia, é mister que se corrompa a superestrutura por meio de uma nova ideologia, de um novo discurso. O Papa Pio XI notou que o socialismo propõe “a formação das inteligências e dos costumes” como também “se faz particular amigo da infância e procura aliciá-la, abraça todas as idades e condições, para formar o homem ‘socialista’ que há de constituir mais tarde a sociedade humana plasmada pelo ideal do socialismo”.

É fato. Sem a presença da família, as crianças são “educadas” pela escola, conforme os interesses do Estado. Isso já acontece em países como a Suécia, onde os filhos são completamente retirados do convívio dos pais. A razão é a seguinte: para que as crianças percam a noção de certo e errado, é preciso moldá-las desde a mais tenra idade. A lei que obriga as famílias a colocarem seus filhos nas escolas com apenas quatro anos de idade está intimamente ligada a esse projeto. Aliás, não deixa de ser interessante o fato de que, nos planos municipais de algumas cidades do Brasil, “gênero” apareceu apenas nos parágrafos referentes à educação infantil.

O livro Sociologia em movimento abraça essa tese marxista, bem como a de outras correntes filosóficas contrárias ao cristianismo, quando, por exemplo, defende a ideia de que “o discurso sobre a sexualidade não é uma descrição da natureza reprodutiva, mas sim um meio de estabelecer relações de poder construídas historicamente nas sociedades ocidentais” . Os autores ainda insistem no absurdo:

O peso cultural da família patriarcal e da Igreja em nossa sociedade (…) continua a ser uma forte influência para a marginalização dos grupos LGBT. Isso leva à violência homofóbica e transfóbica (aversão a homossexuais e a transgêneros), assim como à violência doméstica contra mulheres, fenômeno social de intolerância e machismo que por vezes acarreta a morte de mulheres, homossexuais, transgêneros e pessoas que não se enquadram nos estereótipos tradicionais dos gêneros .

No geral, a obra é um conjunto de falácias e preconceitos, que levam o leitor desavisado a acreditar que na origem de todas as desgraças estão a família e a Igreja. E não deixa de ser curiosa a afirmação de que “o discurso da sexualidade” seria apenas uma convenção social para legitimar o poder de algumas instituições. Com isso, o livro dá um tiro no próprio pé e deixa claro o propósito da agenda de gênero: chegar ao poder. Trata-se de uma ideologia criada para levar seus defensores à liderança da sociedade. Dadas as premissas, a conclusão não pode ser outra: se não existe uma lei natural para a sexualidade — mas discursos ideológicos, como dizem —, que seria a questão de gênero senão apenas outra ideologia? O gato se esconde, mas deixa o rabo de fora.

Percebam: o direito natural, como propõe a filosofia perene, desautoriza qualquer interpretação relativista a respeito da pessoa humana. Assim, é preciso destruir a sensibilidade social, para que, uma vez cega aos apelos da natureza e da razão, possa-se instaurar um novo modelo de comportamento, o qual favoreça os interesses ideológicos.

A Igreja, ao contrário, não defende um modelo sexual porque quer dominar as pessoas, mas porque esse modelo corresponde à verdade do ser humano. Se essa lei natural é posta de lado, “abre-se dramaticamente o caminho ao relativismo ético no plano individual e ao totalitarismo do Estado a nível político” . As leis ficam sob o arbítrio da maioria. Perdem o seu fundamento.

Bento XVI deixou isso evidente em uma de suas catequeses sobre Santo Tomás de Aquino:

A defesa dos direitos universais do homem e a afirmação do valor absoluto da dignidade da pessoa postulam um fundamento. Não é precisamente a lei natural, este fundamento com os valores não negociáveis que ela indica? O Venerável João Paulo II escrevia na sua Encíclica Evangelium vitae palavras que permanecem de grande atualidade: “Para o bem do futuro da sociedade e do progresso de uma democracia sadia, urge pois redescobrir a existência de valores humanos e morais essenciais e naturais, que derivam da própria verdade do ser humano, e exprimem e tutelam a dignidade da pessoa: valores que nenhum indivíduo, nenhuma maioria e nenhum estado jamais poderá criar, modificar ou destruir, mas apenas os deverá reconhecer, respeitar e promover“.

A mentira pseudocientífica

Ė uma enorme tolice acreditar que a liberdade virá com o fim da família e da Igreja. Marx descreveu com eloquência, embora de forma bastante desonesta, as dificuldades enfrentadas pelos operários. Pregou a revolução para daí, supostamente, nascer o mundo melhor. Mas nada disse sobre o ordenamento desse mundo, o qual acabou se mostrando, na prática, bem distante da utopia libertadora. O saldo é de mais de 100 milhões de mortos.

A esperança socialista é vazia e duvidosa, porque se fundamenta num erro crasso: o materialismo. Ela ignora que “o homem permanece sempre homem”, que sua “liberdade permanece sempre liberdade, inclusive para o mal” . Um arranjo econômico hipoteticamente superior não pode alterar essa realidade, já que o ser humano “não é só o produto de condições econômicas nem se pode curá-lo apenas do exterior criando condições econômicas favoráveis” . Do mesmo modo, a destruição da estrutura familiar natural, longe de trazer soluções autênticas, só causará mais violência. A experiência dos últimos anos, com tantas famílias em crise, tem provado isso de maneira inequívoca.

Existe, sim, uma realidade chamada pecado. E ignorá-la “dá lugar a graves erros no domínio da educação, da política, da ação social e dos costumes” . É no seio da família, marcada pelas virtudes humanas e teologais, que essa tendência ao mal pode ser enfrentada com verdadeira eficácia. A Agenda de Gênero prega justamente o contrário, a pretexto de uma nova ordem mundial, exercida de maneira raivosa e delinquente.

Desmascarando a farsa

Nenhuma outra instituição no mundo fez mais pela dignidade da mulher que a família e a Igreja. Sociólogos sérios, como o agnóstico Rodney Stark e tantos outros escondidos do público pela mídia e por muitas universidades, reconhecem que o cristianismo exerceu um papel fundamental na emancipação da mulher. Isso explica o grande número de conversões femininas, nos primeiros séculos. É significativa esta declaração de Stark:

Em meio às denúncias atuais de que o cristianismo é patriarcal e sexista, facilmente se esquece de que a Igreja primitiva era tão particularmente atraente para mulheres que no ano 370 o imperador Valentiniano emitiu uma ordem escrita ao papa Dâmaso I requerendo que os missionários cristãos parassem de visitar as casas de mulheres pagãs. Embora alguns autores clássicos afirmem que as mulheres eram presa fácil para qualquer ‘superstição forânea’, muitos reconhecem que o cristianismo era extraordinariamente atraente porque no interior da subcultura cristã as mulheres tinham um status mais elevado do que no mundo greco-romano em geral .

O sociólogo explica que esse status elevado da mulher no cristianismo se devia, entre outras coisas, à visão humanista da religião cristã. Com a proibição ao aborto e ao infanticídio, por exemplo, a mulher deixou de ser vista como propriedade do marido, um objeto descartável, para converter-se em uma companheira, pela qual deveria dar a vida, como Cristo deu a vida pela Igreja (cf. Ef 5, 25). É no cristianismo medieval, sobretudo, que surge a figura das grandes rainhas católicas, cheias de virtudes para pastorear a grei. No paganismo, por outro lado, as mulheres eram vistas simplesmente como objetos de prazer do homem, os quais possuíam mesmo o direito de assassiná-las.

É da pena de Santo Tomás de Aquino que provém uma das mais belas apologias da dignidade feminina já vistas. “Era conveniente que a mulher fosse formada da costela do homem”, ele escreve, “para significar que entre o homem e a mulher deve haver uma união de sociedade, pois nem a mulher deve dominar o homem, e por isso não foi formada da cabeça; nem deve ser desprezada pelo homem, como se lhe fosse servilmente submetida, e por isso não foi formada dos pés” .

Fica evidente, por conseguinte, a falsidade da acusação feita por Marx, Michel Foucault e cia. É no paganismo, na libertinagem sexual, na depravação moral que surgem as opressões contra as mulheres, os homossexuais e outros indivíduos — não no cristianismo. E isso por uma razão óbvia:a libertinagem sexual transforma o ser humano em um ser descartável, em uma massinha de modelar. O comportamento violento dos jovens é resultado direto desse modelo de educação liberal, que os considera animais adestráveis. Um animal se comportará como um animal.

Uma visão distorcida da realidade

“O conceito de gênero”, diz a obra, “não se fundamenta em um princípio evolutivo, biológico ou morfológico, e sim em uma construção social”. Disto a ensinar às crianças que elas devem “construir a própria identidade de gênero” é um passo.

O principal problema dessa questão é de cunho humanístico. A Teoria de Gênero defende uma visão de pessoa humana profundamente equivocada, segundo a qual o ser humano seria determinado apenas pelo ego e pela vontade. O corpo nada tem a dizer nessa história. Trata-se apenas de um instrumento para a satisfação das vontades. Assim, pode-se admitir todo tipo de “união sexual”, desde que exista o desejo e o consentimento para tal. O homem fica reduzido às suas paixões.

Os frutos de uma loucura como essa são colhidos dentro do próprio movimento homossexual, como no caso escandaloso dos clubes do carimbo, que têm espalhado de propósito o vírus do HIV entre os homossexuais. O prazer é a justificativa. Se a lei apóia a libertinagem como um direito inalienável, “nem a Igreja nem a sociedade em seu conjunto deveriam surpreender-se se depois também outras opiniões e práticas distorcidas ganham terreno e se aumentam os comportamentos irracionais e violentos” [14].

Acusar a Igreja e a família de fomentarem a violência é de uma insanidade inominável. A castidade que a Igreja pede aos homossexuais é a mesma pedida aos heterossexuais. Não há nada de homofóbico. Norteados pela regra da caridade fraterna, o que a Igreja e a família têm por princípio são estas palavras de São Bento: “Tolerem pacientissimamente as suas fraquezas, físicas ou morais; rivalizem em prestar mútua obediência; ninguém procure o que julga útil para si, mas sobretudo o que é para o outro” . Já está mais do que na cara o que realmente gera a violência contra as mulheres e os homossexuais.

A resposta necessária

O livro Sociologia em movimento, nas mãos de alunos do ensino médio mesmo depois da aprovação do Plano Nacional da Educação sem referência à gênero, é um insulto à Constituição, à verdade dos fatos e ao bom senso. Mais: trata-se de uma ação orquestrada contra a família e a Igreja, que merece nosso imediato repúdio. Os pais devem, com todo o direito, unir-se em associações e pedir a retirada desse material das bibliotecas de nossas escolas, além de verificar as outras apostilas de seus filhos. É bem possível que o ninho da serpente esteja escondido lá. Estejamos atentos.

Por Equipe Christo Nihil Praeponere – Padre Paulo Ricardo – A Resposta Católica

Adaptação: Portal Terra de Santa Cruz – a fé Católica

Referências

  1. SILVA, A. et al. Sociologia em movimento. São Paulo: Moderna, 2013, p. 339.
  2. SILVA, A. et al. Sociologia em movimento. São Paulo: Moderna, 2013, p. 337.
  3. Idem.
  4. A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado, p. 18.
  5. Pio XI, Carta Encíclica Quadragesimo anno (15 de maio de 1931).
  6. SILVA, A. et al. Sociologia em movimento. Moderna: 2013, p. 347.
  7. Idem, p. 351.
  8. Bento XVI, Audiência Geral (16 de junho de 2010).
  9. Bento XVI, Carta Encíclica Spe Salvi (30 de novembro de 2007), n. 21.
  10. Idem.
  11. Catecismo da Igreja Católica, n. 407.
  12. STARK, Rodney. O crescimento do cristianismo: um sociólogo reconsidera a história. São Paulo: Paulinas, 2006, p. 111.
  13. Suma Teológica, I, q. 92, a. 3.
  14. Congregação para a Doutrina da Fé, Carta aos bispos da Igreja Católica sobre o atendimento pastoral das pessoas homossexuais (1º de outubro de 1986), n. 10.
  15. Regra de São Bento, 72 (PL 66, 927-928).

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Mariologia | A linhagem de Maria de Nazaré na Sagrada Escritura

A Lumen Gentium faz várias alusões a Maria de Nazaré na linhagem das mulheres do Antigo Testamento e de toda a humanidade. Inspirada nessas ideias, falamos das grandes mães e das grandes matriarcas que a precederam, numa tentativa de encontrar evocações e ressonâncias nas palavras de Maria de Nazaré com essas mulheres que a precederam na sua missão e com as mulheres do Novo Testamento.

 Poucas pessoas que estudam a Sagrada Escritura escrevem sobre Maria de Nazaré à luz do Antigo Testamento. Começam sempre pelo Novo Testamento, como que esquecendo a origem primeira dessa santa mulher da qual o Vaticano II, na Lumen Gentium, em seu capítulo VIII, faz várias alusões como filha do Antigo Testamento, coroamento apoteótico da mulher que gera filhos e filhas para a fé.

  1. Maria na Constituição dogmática da Igreja

A Lumen Gentium, por duas vezes, afirma que Maria é sacrário do Espírito Santo, mas ao mesmo tempo está unida, na estirpe de Adão e Eva, com todas as pessoas a serem salvas (cf. LG 53). Não só, mas no número 55 fala das alusões a Maria como mãe do Messias no Antigo Testamento – no qual se descreve a história da salvação em que ocorre a preparação da vinda de Cristo – e na Tradição.

A origem da humanidade, segundo a nossa fé, relaciona-se ao mito adâmico, isto é, ao primeiro casal criado por Deus e colocado no jardim do Éden. Essa citação feita pelo documento, para falar de Maria na história da salvação, tem sua raiz no Antigo Testamento, o qual narra o pecado de orgulho que Adão e Eva cometeram contra Deus, querendo ser iguais a ele. Maria, contrariamente, veio como serva e como a mulher que trouxe o Salvador, o Filho de Deus, para toda a humanidade.

Na parte que fala da Anunciação do Senhor, em que Maria responde seu SIM à interpelação de Deus, aponta-se o exemplo que ela nos dá: Maria, como filha de Adão e Eva, dá seu consentimento à Palavra de Deus e, assim, torna-se mãe de Jesus. Nós também, ouvindo a Palavra de Deus e obedecendo a ela, nos tornamos pessoas seguidoras de Jesus, como fez Maria. Daí por diante, ela se dedicou totalmente à causa de seu filho. Nesse sentido, avançou no caminho da fé e manteve-se unida a Jesus para a salvação de toda a humanidade (cf. LG 56-58).

O pecado de orgulho dos nossos primeiros pais não impediu Maria de dizer seu SIM a Deus sobre o que ele lhe pedia – que fosse a mãe de seu Filho, o Salvador da humanidade toda. Por ter dito SIM ao projeto do Pai, Maria refulge para todos nós como aquela que foi concebida sem pecado, foi preservada, cresceu na santidade e venceu todo o pecado, que tem suas tendências dentro de cada um de nós. Maria, entrando intimamente na história da salvação, leva as pessoas a seu filho, ao seguimento dele e ao próprio destino, que é a participação na vida, paixão, morte e ressurreição de Jesus (cf. LG 65).

Essa é a primeira e mais importante cooperação de Maria na história da salvação, cujo ícone mais claro e evidente é a comunidade de fé reunida em assembleia, a Igreja de Jesus Cristo, Filho de Deus e filho de Maria. A sua cooperação foi livre e inteiramente singular, pela obediência, pela sua fé e pelo amor que nutria pelo projeto divino da salvação, realizado por seu filho, Jesus. Nesse sentido, ela se tornou, para nós, mãe na ordem da graça, porque em toda a história da salvação Maria estava presente com sua cooperação, que continua se estendendo e se estende na milenar missão apostólica da Igreja.

  1. As mulheres que precederam a companheira Maria de Nazaré

Cabe reconhecer que todas as filhas de Israel que desempenharam um papel de cuidado amoroso, de guarda atenta e de libertação junto a seu povo tiveram ressonância na Maria histórica do Novo Testamento e apontaram para a missão de Maria de Nazaré, porque ela vem dessa linhagem. Aqui, podem-se citar, em primeiro lugar, as grandes mães:

Eva, a mãe de todos os viventes, e admira-se nesta mulher seu papel de esposa e a maternidade inicial da humanidade, segundo a Sagrada Escritura.

Sara, nome que significa a princesa, esposa de Abraão, a mulher que, em idade avançada, contra sua própria falta de fé e esperança, dá descendência ao marido, dando à luz Isaac. O autor da carta aos Hebreus interpreta o nascimento de Isaac como uma recompensa de Deus a Sara, que, mesmo tendo duvidado ao ser avisada do fato, considerou fiel o autor da promessa.

E, finalmente, Agar, a mulher que antecede a Sara na descendência, com seu filho Ismael. O deserto no qual ela se encontra a sós com seu filho vem ligado ao nome de um poço com água. Essa figura aponta para o fato de que Deus não cessava de ver seu drama e dele se compadecer, porque esse Deus lhe estava próximo.

 

  1. Ressonâncias e aproximações com as grandes mães

As ressonâncias que se podem verificar e as aproximações que se podem fazer da atuação dessas mulheres citadas acima com a vida cotidiana de mãe e esposa e a missão de Maria de Nazaré encontram-se, a nosso ver, em sementes ainda não brotadas, no expressivo quadro de Maria ao pé da cruz com o discípulo amado e Maria Madalena. Aqui Maria favorece a fé da humanidade inteira e sua maternidade se dilata, vindo a assumir nesse calvário dimensões universais (cf. Marialis Cultus, n. 37).

A leitura que fazemos dos textos apresentados nos leva a aproximar a falta de fé demonstrada por Sara à dúvida que Maria apresentou a Deus por meio do Anjo, na Anunciação: “Como pode ser isso, se não tenho relações conjugais?” (Lc 1,34). Sara acabou reconhecendo a fidelidade de Deus na sua promessa e por fim acreditou. Maria dá seu consentimento não para solucionar um problema contingente, mas para a obra dos séculos.

Pode-se buscar forte correspondência entre a vida da egipciana Agar, a sós com seu filho Ismael, no deserto, e os momentos e situações de solidão e de penumbra vividos por Maria em meio à sua parentela, ao acompanhar o filho que pregava nas casas e se recusava a responder, diretamente, aos seus e à sua mãe, quando estes queriam falar-lhe. Diante da recusa do filho, Maria aderiu à vontade de Deus mesmo quando pouco ou nada compreendia.

  1. Ressonâncias e aproximações com as grandes matriarcas

No contexto em que interpretamos a atuação das matriarcas do Antigo Testamento, verificam-se fortes ressonâncias e são feitas belas aproximações das súplicas, cânticos e clamores dessas mulheres em favor de seu povo. Tais ressonâncias as encontramos nos lábios de Maria, sobretudo no cântico do Magnificat, com o qual ela rende sua ação de graças a Deus pelas maravilhas feitas a seu povo. Não só, mas podemos encontrar essas aproximações e ressonâncias também em outros momentos, vividos pela Maria histórica de Nazaré durante sua peregrinação terrena.

Maria, a irmã de Aarão

Comecemos por Maria, a profetisa, irmã de Aarão. Tomou na mão seu tamborim, e todas as mulheres a seguiram com tamborins, formando coros de dança. E Maria lhes entoava: “Cantai ao Senhor, pois de glória se vestiu” (cf. Ex 15,20s). E desse jeito foi arrastando atrás de si todas as mulheres, para render graças pela graciosa passagem de seu povo pelo mar Vermelho, sem nada lhes acontecer. O cântico entoado por essa profetisa antecipa a irrupção das mulheres que tiveram contato e vivência com o Messias, o qual pregava o Reino incluindo a todos nessa sua pregação, não só os órfãos, as viúvas e os estrangeiros, mas também as mulheres que não pertenciam à aliança.

Maria, irmã de Aarão, evoca uma Maria histórica determinada, com personalidade própria, como encontramos em Lucas: Maria de Nazaré. Por quatro vezes Maria fala com sua autoridade de mãe. Na Anunciação, quando reage com uma pergunta de dúvida ao Anjo, que lhe dá a notícia de sua maternidade messiânica. A seguir, depois da tensão vivida, totalmente acolhedora: “Eis aqui a serva do Senhor” (Lc 1,38). Na perda de Jesus de volta para casa, depois de celebrar a Páscoa em Jerusalém, mobiliza as mulheres e seus maridos, com quem voltava, para procurar seu filho. Ao encontrá-lo, não lhe poupa a chamada de atenção de que não devia fazer aquilo sem avisar seus pais. Ainda que tenha recebido uma resposta que não entendeu, prosseguiu na sua caminhada. E finalmente, sua palavra de orientação aos serventes nas bodas de Caná: “Fazei tudo o que ele vos disser” (Jo 2,5).

A irmã de Aarão mostra determinação e criatividade ao tomar a dianteira e arrastar atrás de si todas as mulheres que aí se encontravam depois da passagem do mar Vermelho. Essas mulheres não se contentam apenas com o canto de Moisés e dos israelitas, mas querem fazer ouvir também sua voz de ação de graças. Nada sabemos se o canto de Maria, irmã de Aarão, que dançava e cantava com as outras mulheres, se reduziu a um estribilho ou se foi longo como o canto de Moisés com os israelitas.

 Rute, a mulher estrangeira

Essa também foi uma mulher ousada. Rute era uma estrangeira que se casou com Booz para preservar a descendência davídica, contrariando a própria lei de seu tempo. A sua coragem vai além da lei prescrita daquele tempo, porque toma consciência da situação de seu povo, que clama por um Libertador que venha da descendência davídica. Não duvida, mas insiste. E, na sua insistência, consegue aquilo que quer para o bem de seu povo.

Como tal episódio ressoa na vida de Maria de Nazaré? Acreditamos que todos os momentos vividos por ela no Novo Testamento evocam alguma coisa que nos remete à história de Rute. Mas um deles nos parece mais importante: o texto da genealogia, em que damos de encontro com uma interrupção que traz a descendência matriarcal à frente da patriarcal, em desacordo com as prescrições da Lei. A citação é clara: Jacó gerou José, esposo de Maria, da qual nasceu Jesus (cf. Mt 1). Cristo vem à margem de todo um povo que foi escolhido por Javé para ser sua herança.

Maria encontra-se fora da estrutura da aliança, mas é por ela que o Cristo salvador vem para toda a humanidade. A mulher, naquele tempo, era vista só como a procriadora de filhos e filhas e tinha como visibilidade o ventre crescido; a partir de então, Maria inverte o andamento das coisas e das leis criadas e ditadas pelos patriarcas. A matriarca trouxe o Salvador, e não o patriarca. Isso mostra que Maria, longe de ser uma mulher passiva diante da própria lei, não duvidou em afirmar que o amor do Senhor se estende sobre aqueles que o temem.

 Ana, mãe de Samuel

Ana, mulher de Elcana, era faminta por descendência. Na sua vida estéril, concebe e dá à luz seu filho Samuel, o profeta de Javé que salva seu povo ao chamado do Senhor. O evangelista Lucas se inspira na oração de Ana e faz sua adaptação para o Magnificat de Maria. Começamos por escrever os versos e as expressões que mais se aproximam do Magnificat. Vejamos como Ana faz sua oração diante do altar do Senhor no Templo:

O meu coração exulta em Javé, […] a minha boca se escancara contra meus inimigos, porque me alegro em tua salvação. Não há Santo como Javé e Rocha alguma existe como o nosso Deus. Não multipliqueis palavras altivas, nem brote dos vossos lábios a arrogância […] O arco dos poderosos é quebrado, os debilitados se cingem de força. Os que viviam na fartura se empregam por comida, os que tinham fome não precisam trabalhar […] É Javé quem empobrece e enriquece, quem humilha e quem exalta. Levanta do pó o fraco e do monturo o indigente, para os fazer assentar-se com os nobres e colocá-los num lugar de honra […] Ele guarda o passo dos que lhe são fiéis, mas os ímpios desaparecem nas trevas, porque não é pela força que o homem triunfa.

 Às nossas leitoras e leitores deixamos que encontrem a evocação do Magnificat de Maria nessa oração suplicante de Ana. Essa foi a inspiração do nosso evangelista Lucas ao colocar nos lábios de Maria o cântico tão conhecido de nós todos. O evangelista faz suas belas adaptações dessa oração de Ana que chorava sua esterilidade e que foi ouvida pelo Senhor. Com suas belas ressonâncias e livres aproximações, o cântico de Maria é considerado como a continuidade da presença do Senhor na missão de cada mulher do Antigo Testamento, missão que irrompeu com a vinda de Jesus no meio de seu povo pelo mistério da Encarnação, em que Maria de Nazaré teve sua participação importante e visível.

A rainha Ester

Outra vez damos de frente com a fidelidade do amor de Deus em favor dos filhos e filhas de Israel por meio de mulheres que, desde o Antigo Testamento, foram atentas às suas intuições de verdadeiras mães do povo e obedientes às situações criadas, em meio às quais o  Deus da história se revelava. Todas elas, por meio de orações, súplicas e cânticos, puseram em risco a própria vida para salvar o povo dos litígios e buscas do poder pelo poder, que contrariavam o bem comum.

Esse amor ao povo manifesta-se na atitude corajosa de Ester, com a qual aqui nos deparamos: a mulher que salva a nação graças à sua intervenção, pois era uma jovem compatriota do povo judeu que havia se tornado rainha e era orientada por seu tio Mardoqueu. Este também faz sua oração de pedido em favor do povo, seguindo-se a súplica de Ester, que obtém do rei a carta de reabilitação dos judeus, prestes a serem exterminados.

Para conseguir seu intento em favor do povo, a rainha Ester abandona suas vestes suntuosas, veste-se com roupas de aflição e luto, humilha-se e cobre o corpo com os longos cabelos com que costumava adornar-se para aparecer em público com a fronte cingida pela coroa real. Em tal atitude, nestes termos suplica ao Senhor Deus de Israel:

A nós e a meu povo, salva-nos, Senhor, com tua mão poderosa, vem em nosso auxílio, pois estamos sós e nada temos fora de ti, Senhor! […] Tu sabes o perigo por que passamos, e eu tenho horror das insígnias de minha grandeza, que me cingem a fronte quando apareço em público. […] Tua serva não comeu à mesa dos reis inimigos do meu povo, nem apreciou os festins reais, nem bebeu o vinho das libações. Tua serva não se alegrou desde que esta situação de perigo se estabeleceu no meio de meu povo, a não ser em ti, Senhor, Deus de Abraão!

 E a rainha Ester apresentou-se ao rei. Este se agradou de sua beleza e nobres sentimentos e concedeu ao povo judeu a liberdade que todos suplicavam. Ester apresenta-se ao Senhor como sua serva, e não como rainha de seu povo. Apresenta-se confiada somente na força do Senhor de Abraão e de seus filhos e filhas para sempre, como prometera a nossos pais.

O cântico de Maria evoca outra vez, a nosso ver, a coragem de Ester no que se refere à sua intercessão contra a dominação das nações vizinhas que escravizavam o povo hebreu, o qual era vendido por seus reis como mercadoria a outros povos para pagamento de suas dívidas externas. Eram realezas inteiras e reis que comandavam essa guerra de poder contra o povo, afastando-o sempre mais da descendência a partir da qual Israel punha sua esperança na vinda do verdadeiro Libertador.

Deve-se enfatizar que era essa a consciência que permanecia viva em todo Israel. Quando Maria de Nazaré abre a boca para render graças pela libertação de Israel, inclui a celebração desses fatos todos a fim de refrescar a memória de um povo sofrido e jogado à própria sorte pelos poderosos e pela força de seus tronos ambiciosos.

 A juíza Débora

A palavra Débora quer dizer abelha, inseto que visita todas as flores que pode para construir seu favo de mel. O simbolismo que traz em seu nome é muito rico: a abelha é organizada, laboriosa e infatigável. Não se submete porque tem asas e canto. Sublima o seu trabalho em mel imortal o frágil perfume das flores. É o quanto basta para conferir elevado alcance espiritual daquilo que representa o mel, fruto de seu labor incessante, paralelamente ao simbolismo temporal. Operárias da colmeia asseguram a perenidade da espécie. “Imitai a prudência das abelhas”, recomenda Teolepto de Filadélfia, citando-as como exemplo na vida espiritual das comunidades monásticas.

Cabe sublinhar que, por causa de seu mel e de seu ferrão, a abelha é considerada o emblema de Cristo: por um lado, sua doçura e sua misericórdia e, por outro, o exercício de sua justiça na qualidade de Cristo-juiz (cf.Dicionário de símbolos, Ed. José Olympio, p. 3-4).

Retornando à juíza Débora, deve-se reconhecer ainda que esta acompanhava de perto as intrigas e as brigas dos israelitas e, por isso, é conhecida como a juíza atuante que regula a conduta de seu povo. Muita gente ia consultá-la para pedir-lhe orientação sobre a questão que pesava sobre o povo de Israel oprimido pelo rei dos cananeus. Quando Débora conseguiu a libertação de Israel, junto com Barac, que trabalhou com ela para esse fim, entoaram um cântico de louvor e de ação de graças por essa conquista. É considerada também, no próprio cântico, “mãe em Israel” (cf. Jz 5). Como esse fato histórico ressoa no Magnificat de Maria de Nazaré e nas bodas de Caná?

Em sua experiência de comunidade, Lucas inspira-se em sua fonte própria, que é o Antigo Testamento, e faz de Maria de Nazaré a mulher profética e revolucionária da história da salvação com o cântico do Magnificat. Entoa sua ação de graças pela chegada do Filho de Deus, o Salvador de toda a humanidade. É claro que o contexto sempre é outro, mas a essência da Tradição revelada por Deus a seu povo permanece em nossos dias.

Evoca também a intervenção de Maria nas bodas de Caná (cf. Jo 2,1-10). Após ter falado com seu filho, Maria de Nazaré dirige-se aos serventes, para dizer-lhes que fizessem o que Jesus lhes ordenasse. A teologia feita na perspectiva da mariologia avança no sentido de pensar que Maria não foi a única mulher que percebeu a falta de vinho. Mas quem se sensibilizou com o fato foi a mãe de Jesus, ainda que tenha sido apoiada e até mesmo alertada pelas mulheres presentes. Trata-se não de regular um litígio, mas de evitar uma vergonha para os noivos. Maria intervém como aquela que reconquista a alegria da festa dos nubentes.

Pode-se explicar esse fato quando chegamos a alargar nossa interpretação do início desta perícope: “Houve um casamento em Caná da Galileia e a mãe de Jesus estava lá”. Ela se antecipou ao filho, provavelmente com outras suas comadres e amigas que iam para ajudar na preparação da festa daquele casamento.

A nosso ver, parece bastante manifesta a liderança de Maria no desenrolar dos acontecimentos em tal evento. Teria sido também alertada por suas companheiras que a acompanhavam nessa preparação festiva e consultada sobre o que fazer diante da situação de tensão que se havia criado.

Podemos também encontrar belas ressonâncias e efetuar belas aproximações do cântico de Maria de Nazaré com a atuação das grandes mães quando Maria reconhece que o Deus todo-poderoso fez nela grandes coisas, entrando assim para a história de seu povo que vive a expectativa do Messias. Maria prossegue proclamando que Deus exalta os humildes, pois era uma humilhação a esterilidade materna de Sara; e, finalmente, a deserdada e esquecida Agar, com seu filho, merece, no cântico do Magnificat, a acolhida de Israel, porque Deus é fiel ao amor que prometeu às pessoas expulsas e esquecidas, dando-lhes descendência.

Maria de Nazaré denuncia em alta voz, no chamado núcleo duro do Magnificat: derrubou poderosos de seus tronos para salvar seu povo; Deus manifestou o poder de seu braço para dispersar não só os soberbos, mas também os poderosos de coração duro, despedindo-os da vida sem os bens que haviam acumulado com sua corrupção contra um povo indefeso e oprimido.

  1. Como Maria se aproxima das mulheres do Novo Testamento

Encontramos Maria na mesma condição de todas as mulheres da desconhecida Nazaré, que fazem o trabalho de casa e atendem a tudo aquilo que se refere à vida cotidiana. O livro publicado pelo frei Clodovis Boff que traz o título O cotidiano de Maria de Nazaré, escrito em linguagem narrativa e muito bem fundamentado, descreve alguns trabalhos realizados por Maria e algum tipo de presença dela junto às mulheres de seu tempo. Assim relata esse autor:

Maria é a primeira a despertar pela manhã. Desperta e se apronta. Aqui temos sua presença de mãe de família que sempre se antecipa ao filho e ao pai. Em seguida põe a casa em ordem. Tudo deve estar em seu lugar antes de tomar a primeira refeição do dia. Quem serve é ela. Acompanha a oração da manhã que o pai e o filho fazem, voltados para a direção do Templo de Jerusalém.

Maria vai apanhar água na fonte e lá se encontra com suas conhecidas, comadres e amigas. É o momento de se trocarem as notícias que correm pela pequena Nazaré, sobre todas as coisas e novidades que a elas interessam. Depois desse belo encontro, cada uma toma seu cântaro e volta ao trabalho. Prepara o pão de cada dia e troca experiências com as amigas e comadres mais próximas dela, sobre como o pão cresceu e ficou apetitoso para a família toda, ou se não deu lá tão certo desta vez.

Cuida do filho que até os cinco anos fica junto à mãe, sob seus cuidados diretos, e ele “cresce em sabedoria, estatura e graça”. Maria não trabalha só em casa, mas ajuda o marido no campo e na sua oficina de carpinteiro Os hebreus têm apreço pelo trabalho manual. Havia um dito entre os rabinos que dizia o seguinte: “Um trabalhador ocupado em sua tarefa não precisa se levantar diante de um doutor, por maior que seja”. Paulo, por exemplo, era fabricante de tendas (cf. At 18,3).

Maria trabalhava também em casa: fiava, tecia e lavava roupa, servia a ceia e preparava o repouso da noite. Como não pensar que, quando ia à sinagoga, encontrava-se com as outras mulheres mais próximas e também as que poucas vezes via durante o ano! Quando subia a Jerusalém para celebrar a festa da Páscoa, preparava-se com a melhor roupa e fazia um penteado muito bonito. Era um momento de encontro e de celebração que se dava só uma vez por ano. Por isso também era bastante curtido e aproveitado.

Já falamos de Maria nas bodas de Caná. Lá estava ela, com as outras mulheres, no meio da festa e toda feliz! Como teria ficado solidária à viúva de Naim, cujo filho Jesus fez reviver outra vez! Ela não estava presente só nas horas alegres, como no casamento, mas também num enterro, quando as pessoas choravam seus falecidos, como foi o caso do filho da viúva de Naim.

Maria não só vai a um casamento e a um enterro, mas também a um nascimento. Lembremos aqui sua visita a Isabel, à casa da qual se dirigiu às pressas para ajudá-la no trabalho de parto de João Batista, que se tornou o precursor de Jesus! E, finalmente, está presente no nascimento da Igreja, no cenáculo, esperando a vinda do Espírito Santo. A aproximação de Maria não é só com as mulheres, mas também com os homens, os apóstolos, escolhidos por Jesus para continuarem a pregação do Reino. Foi acolhida pelo discípulo amado, que, com certeza, não a deixou sozinha, mas na sua companhia, e com todo o carinho e amor estava pronto a atendê-la sempre que precisasse.

Por tudo isso, e por mais do que isso, Maria é inspiração para todas nós, mulheres que servimos dentro e fora de casa, na Igreja e fora dela, nas pequenas comunidades de fé. 

  1. Tentativa de explicar a linhagem da fé vivida por Maria de Nazaré

Em primeiro lugar, reconhecemos que a teologia feita na perspectiva de Maria de Nazaré e de sua missão na história da salvação consiste num esforço de não separar a mãe do Salvador das demais mulheres que a precederam nessa missão, de acordo com a interpretação dada a tais fatos após a ressurreição de Jesus, o Cristo da fé.

O tipo de linhagem genealógica de Maria de Nazaré é da árvore davídica messiânica. O povo não esperava que o Messias viesse por meio de uma humilde mulher do interior da Galileia. O esforço que fizemos para chegar a fundamentar as evocações, as ressonâncias e as aproximações das mulheres do Antigo Testamento com as do Novo Testamento, sobretudo com as atitudes e comportamentos da mulher de Nazaré, é apenas uma tentativa de explicar a diferença existente entre a Maria da história, que só encontramos no Novo Testamento, e a Maria da fé, construída pela experiência do povo de todos os continentes de tradição cristã e católica.

Queremos justificar por que quisemos iniciar este nosso artigo com a Constituição Lumen Gentium, que fala da Igreja em seu oitavo e último capítulo como coroamento da caminhada terrena do povo. Foram as alusões que esta faz a Maria de Nazaré como filha do Antigo Testamento e à mesma origem de toda a humanidade que nos inspiraram e nos ajudaram a encontrar ressonâncias, aproximações e evocações da presença de Maria, em germe, na contribuição dada pelas grandes mães e pelas grandes matriarcas que lutaram em favor de seu povo.

Maria, ao tomar consciência, ainda que de maneira apenas entrevista, de seu lugar e missão na história da salvação, traz para a realidade de seu tempo tudo o que pôde entrever de sua ânsia e de sua espera a respeito da imagem escatológica da Igreja e de toda a humanidade. Essa mesma foi a ânsia e a esperança das mulheres das quais falamos ao longo desta reflexão mariológica centrada em Cristo.

Bibliografia

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Maria na vida do povo: ensaio de mariologia na ótica latino-americana e caribenha. São Paulo: Paulus, 2001.

Mariologia: interpelações para a vida e para a fé. Petrópolis: Vozes, 2010.

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O rosto materno de Deus: ensaio interdisciplinar sobre o feminino e suas formas religiosas. Petrópolis: Vozes, 1979.

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JOÃO PAULO II. Redemptoris Mater (A mãe do Redentor). São Paulo: Paulinas, 1989.

PAULO VI. Marialis Cultus: o culto à bem-aventurada Virgem Maria. São Paulo: Paulinas, 1974.

PINKUS, Lucio. O mito de Maria: uma abordagem simbólica. São Paulo: Paulus, 1991.

VV.AA. Maria nas Igrejas: perspectivas de uma mariologia ecumênica. Concilium, n. 188, 1983. Maria y la mujer. Vida Religiosa, n. 64, maio 1988.

Por Lina Boff, smr

Ir. Lina Boff é professora emérita da Pontifícia Universidade Católica do Rio; professora de Mariologia na Faculdade dos Franciscanos em Petrópolis e professora convidada para bancas de admissão de professores ordinários pelo Antonianum de Roma. Publica em várias revistas, escreve e organiza livros.

Fonte: Revista Vida Pastoral! http://www.vidapastoral.com
Adaptação: Portal Terra de Santa Cruz.


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Presbítero, uma vocação a ser vivida à altura do evangelho.

Presbítero, uma vocação a ser vivida à altura do evangelho

A Palavra de Deus, a cruz de Cristo, a eucaristia, a comunhão com Cristo e com o Reino, a alegria, a atenção aos sinais dos tempos dão consistência à identidade, fundamentam a espiritualidade e indicam o caminho da missão do presbítero na Igreja no Brasil. Viver a vocação presbiteral à altura do evangelho de Cristo significa viver esse ministério tendo diante dos olhos o ser e o agir de Jesus, e não modas culturais efêmeras.

Dou graças ao meu Deus, cada vez que me lembro de vós nas minhas orações por cada um de vós. É com alegria que faço minha oração, por causa da vossa comunhão no anúncio do evangelho, desde o primeiro dia até agora. Eis a minha convicção: aquele que começou em vós tão boa obra há de levá-la a bom termo, até o dia do Cristo Jesus. É justo que eu pense isto a respeito de todos vós, pois vos trago no coração […] e isto eu peço a Deus: que o vosso amor cresça ainda, e cada vez mais, em conhecimento e em toda percepção, para discernirdes o que é melhor (Fl 1,3-11).

 Faço minhas essas sábias palavras de são Paulo, para dedicá-las aos meus caríssimos irmãos, presbíteros do Brasil. Chamado por Deus para apascentar o seu rebanho, todo presbítero deve dizer em primeiríssima pessoa ao povo de Deus que lhe foi confiado: “Trago-vos no meu coração”. Essa deve ser a sua consolação e a razão do seu ser e do seu viver. Cuidar do rebanho de Cristo, dando a este tudo o que tece a existência: amor, afeto, ternura, consolação, perdão, encorajamento nos momentos difíceis. A própria vida deverá ser a verdadeira alegria de um coração consagrado.

Evidenciar a grandeza da vocação presbiteral e a necessidade imperiosa da conformidade desta com o evangelho de Cristo é o intento deste artigo.

  1. Presbítero, homem da Palavra

Ao presbítero, homem da Palavra, por conta da especificidade da sua vida, vocação e missão, muito se atribui, dele muito se pede, se exige e se espera. Uma coisa, no entanto, é-lhe pedida solenemente: “Viver à altura do evangelho de Jesus Cristo” (Fl 1,27a). Quando isso acontece, ele atinge o estado de homem perfeito, à estatura da maturidade de Cristo (cf. Ef 4,13). E pode dizer como são Paulo: “Para mim, o viver é Cristo e o morrer é lucro” (Fl 1,21).

A Bíblia acompanha e marca, sacramentalmente, as várias etapas da vocação, da formação, da vida e da missão de um presbítero. Quando ainda candidato, o seminarista, ao ser-lhe conferido o ministério de leitor, recebe o livro da Sagrada Escritura com as seguintes palavras: “Recebe este livro da Sagrada Escritura e transmite com fidelidade a Palavra de Deus, para que ela possa frutificar cada vez mais no coração das pessoas” (Pontifical Romano, Paulus, 2008, n. 250). No rito da ordenação diaconal, é entregue novamente ao candidato o livro dos evangelhos, com estas palavras: “Recebe o evangelho de Cristo, do qual foste constituído mensageiro: transforma em fé viva o que leres, ensina aquilo que creres e procura realizar aquilo que ensinas” (idem, n. 174). Na ordenação presbiteral, o candidato é interrogado se quer, “com dignidade e sabedoria, desempenhar o ministério da Palavra, proclamando o evangelho e ensinando a fé católica” (idem, n. 126). E, por fim, na ordenação episcopal, sob a cabeça do bispo, é colocado o evangelho com as palavras seguintes: “Recebe o evangelho e anuncia a Palavra de Deus com toda a constância e desejo de ensinar” (idem, n. 94).

O cuidado com a Palavra é a marca do ministro ordenado. Certamente é do conhecimento de todos que, na mensagem final do Sínodo dos Bispos sobre a Palavra de Deus, os padres sinodais apresentaram os horizontes da Palavra de Deus a partir dos quatros pontos cardeais: “a Palavra tem uma voz: a revelação; um rosto: Jesus Cristo; uma casa: a Igreja; e um caminho: a missão” (cf. Mensagem final do Sínodo dos Bispos sobre a Palavra).

O presbítero é considerado, na Igreja, o homem da Palavra: da vivência, do anúncio e da missão da Palavra. A Palavra de Deus e a palavra da Igreja são tudo na sua vida e na sua missão. Ele deve estar atento e obedecer à Palavra do Mestre, como Pedro: “Duc in altum” (Lc 5,4). Da atenção à Palavra nasce a missão de “Duc in docendo”: “prega a Palavra, insiste oportuna e inoportunamente, repreende, censura e exorta com bondade e doutrina” (2Tm 4,2). Quando cuidamos bem da Palavra, ela também cuidará bem de nós, como dizia são Jerônimo. Por isso, precisamos nos perguntar diuturnamente: “O que tem a ver o que estou fazendo com o evangelho?” (MARTINI, O bispo, Paulus, 2014, p. 25). O presbítero deve também obedecer à palavra da Igreja que, ao mesmo tempo, é verdadeira, “empenhativa” e eficaz. Verdadeira porque não contém mentira; “empenhativa” porque compromete; eficaz porque aquilo que diz acontece.

Segundo o papa Francisco, “nota-se hoje nos agentes de pastorais, mesmo pessoas consagradas, uma preocupação exacerbada pelos espaços pessoais de autonomia e relaxamento, que leva a viver os próprios deveres como mero apêndice da vida, como se não fizessem parte da própria identidade” (Evangelii Gaudium, n. 78). E ele nos conclama para que “não deixemos que nos roubem o evangelho” (idem, n. 97). Quem está roubando o evangelho de nós? Quem está deixando roubá-lo? Como é que se rouba ou se deixa roubar o evangelho? Encontramos nas palavras de Francisco três respostas:

1) O mundanismo espiritual, que se esconde por detrás de aparências de religiosidade e até mesmo de amor à Igreja e significa buscar, em vez da glória do Senhor, a glória humana e o bem-estar pessoal (idem, n. 93). Ele se alimenta, sobretudo, de duas maneiras profundamente relacionadas: o fascínio do gnosticismo, da fé fechada no subjetivismo, em que apenas interessa determinada experiência ou uma série de raciocínios e conhecimentos que supostamente confortam e iluminam, mas, em última instância, a pessoa fica enclausurada na imanência da sua própria razão ou dos seus sentimentos; e o neopelagianismo autorreferencial e prometeico de quem, no fundo, só confia nas próprias forças e se sente superior aos outros, por cumprir determinadas normas ou por ser irredutivelmente fiel a certo estilo católico próprio do passado (idem, n. 94).

2) A vanglória, de quem se contenta com ter algum poder e prefere ser general de exércitos derrotados, em vez de simples soldado de um batalhão que continua a lutar. Quantas vezes sonhamos planos apostólicos expansionistas, meticulosos e bem traçados, típicos de generais derrotados! Assim negamos a nossa história de Igreja, que é gloriosa por ser história de sacrifícios, de esperança, de luta diária, de vida gasta no serviço, de constância no trabalho fadigoso. Em vez disso, entretemo-nos vaidosos a falar sobre “o que se deveria fazer” como mestres espirituais e peritos de pastoral que dão instruções ficando de fora (idem, n. 96).

3) A rejeição da profecia: quem cai no mundanismo olha de cima e de longe, rejeita a profecia dos irmãos, desqualifica quem o questiona, faz ressaltar constantemente os erros alheios e vive obcecado pela aparência. Circunscreveu os pontos de referência do coração ao horizonte fechado da sua imanência e dos seus interesses e, consequentemente, não aprende com os seus pecados nem está verdadeiramente aberto ao perdão. É tremenda corrupção, com aparências de bem. Devemos evitá-lo, pondo a Igreja em movimento de saída de si mesma, de missão centrada em Jesus Cristo, de entrega aos pobres. Deus nos livre de uma Igreja mundana, sob vestes espirituais ou pastorais! Esse mundanismo asfixiante cura-se saboreando o ar puro do Espírito Santo, que nos liberta de ficarmos centrados em nós mesmos, escondidos numa aparência religiosa vazia de Deus (idem, n. 97).

  1. Presbítero, homem atento aos sinais dos tempos complexos

Após 50 anos da abertura do Concílio Vaticano II, hoje temos um panorama dos presbíteros da Igreja no Brasil mudado e diversificado: 22.119 presbíteros, mais brasileiros, mais do clero diocesano e mais novos; 276 dioceses e em torno de 486 bispos; 10.760 paróquias e mais de 100 mil comunidades eclesiais católicas, espalhadas pelo território brasileiro. Por esses dados estatísticos, trata-se de uma Igreja viva, rica de carismas, serviços e ministérios.

No entanto, ela já se ressente da drástica diminuição das vocações ao ministério ordenado e à vida consagrada. Ainda não estamos à beira do limite do tolerável, como em outras partes do mundo, mas já se sente na pele essa crise vocacional. Não é mais possível simplesmente ignorá-la ou relativizá-la.

Ao presbítero, na Igreja católica, é reservada, destinada e confiada uma missão especial e crucial de renovação e edificação da Igreja. Por isso, faz-se necessária a apreciação e compreensão da sua identidade, espiritualidade e missão e dos meios para tornar o seu ministério mais eficazmente possível. O presbítero participa da missão de Jesus. Não se devem esquecer nunca estas palavras de Jesus: “Sem mim, nada podeis fazer” (Jo 15,5). Só com Jesus podemos realizar o nosso ministério, deixando-lhe a total e soberana iniciativa. Não temos nada nosso para oferecer às pessoas; não somos nada sem o Senhor; nada podemos fazer sem obedecer ao Senhor e comungar com ele.

A exemplo de Cristo, o presbítero deve falar ao coração das pessoas e anunciar-lhes as alegrias do Reino; apontar para as realidades do céu. Ver o que há de positivo em cada ser humano e encontrar ali um caminho para comunicar-lhe a ternura do coração de Deus. Não deve andar à procura das fraquezas das pessoas, para explorá-las pastoralmente. É melhor deter-se no que existe de grande, de nobre, de belo e de sublime na vida e despertar o gosto pela beleza das coisas de Deus. Todos queremos ser felizes, mas somente Deus, revelado no rosto de Jesus de Nazaré, pode preencher a grandeza, a altura, a profundidade e a largura do nosso coração. “Só Deus basta”, dizia santa Teresa. Santo Agostinho resume a experiência de sua vida com estas palavras: “Criaste-nos para ti, e inquieto está o nosso coração até que repouse em ti” (AGOSTINHO, Confissões I, 1).

O serviço presbiteral, mesmo com todas as cruzes que naturalmente essa missão comporta, é circundado pela luz transfigurante da ressurreição de Cristo. Tenhamos a coragem de dizer ao mundo que a vida daqueles que acreditam na força da ressurreição já está escondida com Cristo em Deus (cf. Cl 3,3). Ele é a nossa força, o nosso canto e a razão do nosso viver. O amor de Deus será sempre capaz de transformar as tempestades da vida em brisa leve e suave. Como dizia são Jerônimo: “Ninguém deve desesperar-se nesta vida. Tens Cristo e estás com medo? Será ele a nossa força, ele o nosso pão, ele o nosso guia” (SÃO JERÔNIMO, Breviarium in Psalmos, PL 26, 1224).

Não temos, portanto, nenhum motivo para anunciar somente e sempre mensagens de derrota e pessimismo, tocar marcha fúnebre e entoar cânticos de lamento. Não temos o direito de sermos profetas do mau agouro. Devemos proclamar a mensagem da ressurreição, da alegria e da esperança. Sejamos presbíteros destemidos e corajosos, capazes de contagiar o mundo com a boa-nova do evangelho de Cristo ressuscitado. Olhemos para o futuro com confiança e otimismo, mesmo em meio a todas as dificuldades, não obstante as trevas que nos rodeiam. Cristo já venceu o mundo e com ele seremos mais que vencedores (Rm 8,37; 1Jo 5,4).

Como Jesus, sejamos presbíteros dispostos a dar sempre o primeiro passo: indo ao encontro dos excluídos e marginalizados, oferecendo e pedindo perdão. A Igreja é hóspede das casas alheias. Quando uma paróquia faz muito sucesso, tenhamos o cuidado para não cometer o erro de pensar que o Reino de Deus chegou e confundir o pároco com o Messias. O presbítero deve viver em sua própria pele as contradições, as fragilidades, as expectativas e as esperanças do seu tempo, com todas as suas complexidades. O importante é não fazer um pacto com a mediocridade, mas viver na medida alta do evangelho. É necessário então que sejamos presbíteros enamorados do nosso sacerdócio, conquistados pelo ideal de serviço, a exemplo de Cristo Pastor, bom e servo por amor. O tempo e a vida não nos pertencem: são de Deus e dos irmãos. Viver a espiritualidade presbiteral desse modo implica sermos presbíteros 24 horas por dia. Grave erro em nossa vida cometemos quando separamos os momentos ministeriais litúrgicos do resto de nossa vida: presbítero no altar, homem no mundo. O povo de Deus nos quer ver como presbíteros em qualquer lugar; quer sempre encontrar em nós homens cheios da vida de Deus e entusiasmados pela opção de vida que fizemos.

  1. Presbítero, pai espiritual, por amor e no amor

O amor é o sentimento mais difundido no mundo. O amor é o mandamento mais conhecido em todo o mundo. O amor é a ação mais praticada no mundo, mais do que o ódio, a vingança, a violência e outros mais. O amor é o nome do Deus cristão (1Jo 4,8). Os românticos tem o amor em suas canções como palavra preferida. As mães e os pais vivem para amar. Os sábios têm o amor como a palavra-chave. Os mártires morrem por amor. O amor é a seiva de uma vida autêntica e verdadeira. Só o amor constrói e liberta para a vida plena. Só o amor conduz à vida feliz junto de Deus. O amor é a única virtude que permanecerá para sempre.

O presbítero vive por amor ao evangelho de Jesus Cristo. O amor é a síntese de tudo na sua vida e na sua missão. A tradição cristã convencionou chamar o presbítero de “padre”. Padre é uma tradução literal da palavra pai. O presbítero é, de fato, pai espiritual da comunidade eclesial. Chamar o presbítero de pai é uma das expressões de amor, de carinho e de reconhecimento de seus filhos. Além da paternidade biológica, existe a paternidade existencial e espiritual. “O padre é o amor do coração de Jesus” (são João Maria Vianney). É pai porque ama e ama porque é pai. E o amor que nasce do coração do presbítero é um amor generativo e regenerativo. Ainda que não se case, o padre não é estéril. O padre gera filhos para Deus. Os filhos de Deus são gerados nas entranhas do amor do padre. São Paulo expressou essa sua paternidade, chamando os irmãos de “meus filhos queridos”, pois, segundo ele, os gerou em Cristo, pelo anúncio do evangelho (cf. 1Cor 4,15). Por incrível que possa parecer, o presbítero (há quem pense o contrário!) tem seus amores: a Jesus, à Sagrada Escritura, à Igreja, à Virgem Maria e ao povo de Deus. O padre Ibiapina, o santo do sertão nordestino, tinha três amores declarados: à eucaristia, a Maria e aos pobres retirantes.

O presbítero então forma filhos para Deus, para a Igreja e para a sociedade por amor. O papa Francisco nos pede que “não deixemos que nos roubem o ideal do amor fraterno” (Evangelii Gaudium, n. 98-101). Quanta guerra entre nós! Às vezes, tem-se a impressão de que reproduzimos na Igreja o que a sociedade tem de pior: desunião, contenda, rixa, fofoca, murmuração e competição. Ele tem um livrinho, escrito ainda quando era cardeal em Buenos Aires, que aborda, com maestria, o que veementemente tem combatido na Igreja como papa: a fofoca, a murmuração e a crítica. Ele chama o murmurador de “homem sem remédio”.[3] Toda vez que perdemos de vista a grandeza do mistério da comunhão da Igreja, para ficarmos presos à mesquinhez de uma pessoa, à fragilidade de determinado grupo, ao erro de determinado período histórico, perdemos a capacidade de contemplar o mistério de Deus agindo em nós.

  1. Presbítero, Cireneu das alegrias do mundo

O segredo da vocação presbiteral está no encantamento por Jesus, sua Igreja e seu povo. Ninguém segue fielmente, por muito tempo, alguém por quem não tenha admiração e encanto. A perseverança do presbítero na missão depende da contínua adesão ao estilo de vida missionária de Jesus. O vigor da espiritualidade presbiteral se expressa na capacidade de se reencantar cada dia por seu Mestre e partir, sem olhar para trás (cf. Lc 9,62). O segredo da fidelidade presbiteral está no fascínio por Jesus, por sua pessoa, por seu evangelho e projeto de vida. Em quem vive desse modo a chama da vocação se mantém acesa, a vida não perde o sentido nem se torna fadigosa e rotineira.

E um dos sinais mais evidentes desse encantamento é a alegria. Conhecemos a cena segundo a qual, “enquanto levavam Jesus, tomaram certo Simão de Cirene, que vinha do campo, e impuseram-lhe a cruz, para levá-la atrás de Jesus” (Lc 23,26; Mc 15,21; Mt 27,32-33). Esse texto sempre inspirou místicos e ascetas a se tornar, como o Cireneu, socorredores dos sofrimentos do mundo. Por que também não inspirar o presbítero a carregar, além das dores, as alegrias do mundo? Somos chamados a carregar as cruzes do mundo, que, ao mesmo tempo, são sinais de dor e sofrimento, mas também de esperança e alegria, pois, afinal, a cruz de Cristo é sempre pascal. A “sequela Christi” exige isto: somos portadores de algo maior do que simplesmente a dor. “Somos Cireneus das alegrias do mundo.”[4] Muitos querem um cristianismo sem cruz. Querer um cristianismo sem dor, sem cruz e sem morte é uma das maiores tentações do nosso tempo. Mas não existe um cristianismo sem cruz. E, se existe, é insuficiente (cf. Gabino URIBARRI, Três cristianismos insuficientes, disponível na internet). Não queiramos um Cristo sem cruz nem uma cruz sem Cristo. Queiramos, ao contrário, a nossa cruz na cruz de Cristo e Cristo na nossa cruz.

O Documento de Aparecida fala 30 vezes de alegria. Entre elas: “Conhecer Jesus é o melhor presente que qualquer pessoa pode receber; tê-lo encontrado foi o melhor que ocorreu em nossa vida, e fazê-lo conhecido com nossa palavra e obras é nossa alegria” (DAp 29). O papa Francisco diz que “há muitos cristãos que parecem ter escolhido uma Quaresma sem Páscoa” (Evangelii Gaudium, n. 6). E ainda: “um evangelizador não deveria ter constantemente uma cara de funeral” (idem, n. 10). Diante das ações proféticas simbólicas que manifestam a chegada do Reino, a começar pelo próprio Jesus, a primeira reação é a alegria. A alegria de Jesus (Lc 10,20-24) diante da realidade do Reino é algo que ainda não foi suficientemente valorizado pelos exegetas, teólogos e pastoralistas. A alegria é verdadeira ação profética, reação lógica diante da chegada do Reino. Jesus é o primeiro a ser transformado por essa alegria, porque vive plenamente o mistério do Reino. A alegria manifesta a sua compreensão fascinante no momento em que o Reino se avizinha. Porém a causa central da alegria e da felicidade de Jesus é o convencimento do amor de Deus para com o mundo. Portanto, a alegria não é um sentimento emocional, momentâneo e descomprometido. É, ao contrário, o sinal da presença do Reino.

  1. Presbítero, homem unido a Jesus como o ramo à videira

Em seu discurso, ocorrido no cenáculo, na última ceia, Jesus conta a parábola da videira para comparar a sua relação com o Pai e com os discípulos, pela eucaristia, à que existe entre a videira, os ramos e o agricultor (cf. Jo 15,1-11). A videira, no Antigo Testamento, indica o povo de Israel: a videira que Deus plantou com muito carinho nas encostas das montanhas da Palestina (cf. Is 5,1-7; Sl 80). A videira também é considerada a árvore da vida para os gregos e para os romanos. No entanto, essa videira não correspondeu ao que Deus esperava. Em vez de uvas boas, deu uvas azedas, que não prestam para nada. Agora, com Jesus, há uma mudança: o Pai continua sendo o agricultor, Jesus é a videira verdadeira e nós, os ramos dessa videira verdadeira. Quem permanece unido a Jesus produz frutos de evangelização e de missão.

A parábola da videira é uma parábola da existência humana e, por que não dizer, da vida, da identidade e da missão presbiterais. Dessa parábola, como parábola da existência presbiteral, destacaremos três elementos:

Primeiro, a unidade. Videira sem ramos não existe. Nem ramos sem tronco. Para que um ramo possa produzir frutos, deve estar unido à videira. Só assim consegue receber a seiva. “Sem mim vocês não podem fazer nada” (Jo 15,5b). O presbítero, pelo sacramento da ordem, se une e se incorpora a Cristo como o ramo no tronco da videira. O sacramento da ordem incorpora o presbítero aos atos de autodoação de Jesus[5] e o transforma em servidor do Reino e fiel gerador de vida, de amor, de fidelidade e de serviço. Enquanto estiver ligado a Jesus, o Tronco, recebe dele a seiva que vem do Pai e produz frutos de vida, paz e justiça. Ao se desligar e se distanciar de Jesus, o Amor do Pai, sua vida perde sentido e encantamento, seca e morre. Ao contrário, unido a ele, glorifica ao Pai com suas ações pelo Reino. E é essa unidade que constitui a identidade, fundamenta a espiritualidade e indica a missão do presbítero.

Segundo, a poda. Todo ramo que em Jesus não produz fruto, o Pai o corta. Ramo que não produz fruto é cortado, seca e é recolhido para ser queimado. Não serve para mais nada, nem para lenha. Assim como o agricultor limpa e purifica a videira pela poda, Deus nos purifica pela Palavra de Jesus Cristo. O que acontece com uma videira acontece também na vida do presbítero, que também deve passar por boas podas para produzir frutos. A poda é dolorosa, mas necessária. Ela purifica o presbítero, para que cresça e produza mais frutos. Para que o presbítero permaneça na Igreja unido a Cristo e produza fruto, é preciso um trabalho manual e artesanal de poda de um agricultor zeloso e dedicado. “A vocação é como um ‘diamante bruto’ a ser lapidado, para que brilhe em meio ao povo de Deus. […] A formação é uma obra artesanal, e não policial. O objetivo é formar religiosos que tenham um coração tenro, e não azedo como o vinagre”.[6] E esse trabalho artesanal de poda e de lapidação deve ter as ferramentas e as marcas do sacrifício, da humildade, da simplicidade e da obediência. Caso contrário, não produz frutos. É preciso investir mais nesse tipo de poda para produzirmos frutos de unidade, reconciliação e curarmos as feridas das insatisfações, das rejeições, dos ressentimentos, dos sentimentos contraditórios e dos dinamismos opostos. O celibato, vivido com amor, é também uma forma de poda na vida de um presbítero.

Terceiro, os frutos. Outro aspecto muito importante da parábola da videira para a vida de um presbítero é dar frutos. O resultado natural quando um ramo permanece ligado à videira é dar frutos. Dar frutos significa que a salvação não deve ser nem ficar limitada somente a nós. Quando a videira dá frutos, eles servem para alimentar e, consequentemente, são úteis para as pessoas. Assim é o presbítero que dá frutos. Sua vida, quando ligada à videira verdadeira, que é Jesus, será fonte inesgotável do amor, pronta para ajudar a todos os que necessitem de uma palavra de ânimo.

Como então produzir bons frutos, para não nos tornarmos videiras improdutivas? Primeiro, a alegria de sentir-se “servo inútil”, isto é, servidor não de um projeto pessoal, subjetivo, mas de um projeto objetivo, de Deus. Segundo, a alegria de servir a Igreja em comunhão com o papa, o bispo, os outros presbíteros e o povo de Deus. Terceiro, a liberdade de sentir-se livre, desapegado, independentemente de qualquer reação das pessoas. Em geral ainda não somos nem alegres nem livres por causa da nossa suscetibilidade: ou somos preguiçosos, ou levamos adiante um projeto e nos ligamos a ele como se fosse nosso, e não de Deus. Enfim, produz bons frutos para o Reino aquele que é colaborador e servidor de um projeto não pessoal, mas de Jesus e da sua Igreja, em comunhão e união com ele. E, produzindo frutos, temos certeza de que o Pai cuidará ainda mais, limpará e fará de tudo para continuarmos cada vez mais produzindo bons frutos.

Por fim, faço minhas as palavras do padre Adroaldo: “Esta videira albergará milhares de nomes: chama-seesperança para aqueles que sonham outro mundo possível; chama-se amada paz para aqueles que vivem em meio à barbárie dos conflitos; chama-se liberdade para aqueles que foram privados dos seus direitos fundamentais; chama-se justiça para aqueles que vivem continuamente sendo espoliados e explorados; chama-se beleza, porque tudo o que foi criado é bom e precioso; chama-se humanidade, porque é neste ‘húmus-chão’ que a presença do Ruah transforma a existência” (Adroaldo PALAORO, Somos terras do Espírito,disponível na internet). Desse modo, nosso caos (desordem, feiura, sujeira) existencial se transformará emcosmos (harmonia e beleza) eclesial.

  1. Presbítero, homem “consumido” como eucaristia

“Se o grão de trigo que cai na terra não morre, fica só. Mas, se morre, produz muito fruto” (Jo 12,24). Escolhemos dois símbolos eucarísticos para finalizarmos esta breve dissertação sobre a identidade, a espiritualidade e a missão do presbítero da Igreja no Brasil: a “videira-vinho” e o “trigo-pão”. Além de serem símbolos eucarísticos, são símbolos da vida e da missão de um presbítero. Porque, como disse o padre Chevrier, “o padre é um homem consumido”.

Para entender a eucaristia, é preciso, antes de tudo, entender sete elementos essenciais (cinco pães e dois peixes) sem os quais a sua compreensão fica prejudicada, imprecisa e incompleta:

1) Quem é Jesus Cristo. A eucaristia é Jesus, sua pessoa, sua vida, seu corpo e seu sangue, entregues por nós. Na eucaristia estão contidas toda a vida e toda a missão de Jesus. A eucaristia é cristofania: é Cristo e fala de Cristo (“Eu sou o pão da vida”, Jo 6,35). O lugar da eucaristia é a cristologia.

2) O significado do mistério pascal: a autodoação, memorial da autoentrega, total e irrestrita, do seu corpo e do seu sangue. A eucaristia é a pró-existência de Jesus: “Isto é o meu corpo doado e meu sangue derramado por vós” (Lc 22,19).

3) O significado do pão e do vinho, frutos da terra e do trabalho humano. A eucaristia é o pão e o vinho transubstanciados no corpo e no sangue de Jesus, memorial da morte e da ressurreição de Jesus: o trigo caído por terra e a videira podada. O pão corresponde ao sentimento de fome e o vinho ao de sede. A eucaristia é pão da vida eterna para matar a fome do mundo: “O pão que eu vos dou é a minha própria carne para a salvação do mundo” (Jo 6,51).

4) O que é a Igreja. A eucaristia é o grande presente que Cristo, o esposo, deixa de herança à Igreja, sua esposa, no dia da sua despedida (SC 47). A Igreja sempre foi concebida como o corpo de Cristo. Jesus, por meio da eucaristia, funda a Igreja como comunidade da nova aliança. A Igreja vive da eucaristia. Ela sempre foi considerada o “sacramento da Igreja”: a eucaristia faz a Igreja e a Igreja faz a eucaristia. Não se edifica nenhuma comunidade se não tiver a sua raiz e o seu centro na eucaristia (PO 6). Comer o pão eucarístico é construir comunhão com a comunidade, participar, servir e viver o compromisso de fraternidade comunitariamente.

5) O que é liturgia (SC 5 e 7). A Igreja celebra o memorial litúrgico do mistério pascal de Jesus na eucaristia como um grande hino de ação de graças (eucaristia = ação de graças) ao Pai. A eucaristia é o memorial litúrgico da aliança de Deus com seu povo, por meio da vida, morte e ressurreição de Jesus (SC 10). Foi ele mesmo quem disse: “Fazei isto em minha memória”. Na força do Espírito Santo (SC 6; GS 38), a Igreja celebra a eucaristia como uma fonte que brota e jorra graças e provoca em nós ação de graças.

6) O sacerdócio. Cristo se oferece na eucaristia como sacerdote e mediante o ministério do sacerdote. O sacerdócio de Jesus não é cultual, mas existencial, ou seja, a doação de sua vida. Quem dá a sua vida como Jesus é sacerdote e vive plenamente um estilo de vida sacerdotal-eucarístico. A eucaristia está no centro da vida, do ministério e da espiritualidade do presbítero. A ele se dirige o convite: “Vive o mistério que é colocado em tuas mãos” (Pastores Dabo Vobis, n. 24 e 26). O celibato é uma forma de o sacerdote se consumir pelos irmãos.

7) Amor social. A eucaristia é o gesto mais sublime da solicitude, da estimulação e da imperiosa caridade de Jesus por nós: Tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim…” (Jo 13,1ss).

O Concílio Vaticano II fala da eucaristia como o tesouro da Igreja e como a fonte e o cume de toda a evangelização (Presbyterorum Ordinis, n. 5). É impossível compreender o ministério presbiteral sem o mistério da eucaristia. Em um só ato, Jesus instituiu a eucaristia e o sacerdócio. A unidade entre eucaristia e sacerdócio é intrínseca e indissolúvel. Sem sacerdócio não há eucaristia, e sem eucaristia o sacerdote não pode realizar plenamente a sua missão.

Na eucaristia, somos convidados, cada dia, a seguir o Senhor com doação total, a reconhecê-lo na palavra e na fração do pão, a acolhê-lo no mistério da fé. Toda eucaristia é renovado convite ao discipulado, ou seja, a estar na escola de Cristo, para viver como ele e testemunhar a sua real presença entre nós. Viver a nossa vida como discípulos significa aceitar o escândalo da cruz. Também a eucaristia, máxima celebração da glória da cruz, é “escândalo” para ser vivido. O nosso radicar-se na eucaristia nos liberta da lógica da eficiência: pondo-nos em comunhão pessoal com o corpo e o sangue de Cristo, aprendemos a viver a lógica da cruz e amadurecemos para a ressurreição. Participando cotidianamente do sacrifício eucarístico de Cristo, o presbítero se faz realmente seguidor de Cristo e se liberta do risco do intimismo e do formalismo exterior. Desse modo, sua vida se torna, como a vida de Cristo, submissão ao Pai e acolhimento do seu juízo e do seu projeto para a nossa vida. Esse seguimento se realiza na escuta atenta da Palavra de Deus, na oração, no sacrifício cotidiano, na atenção aos sinais dos tempos, nos quais Deus se manifesta ao mundo e a nós. Essa espiritualidade eucarística se torna, realmente, uma encarnação nas vicissitudes do tempo, único meio possível de realizar o caminho da santidade.

A espiritualidade presbiteral é intrinsecamente eucarística. A semente dessa espiritualidade encontra-se já nas palavras que o bispo pronuncia na liturgia da ordenação: “Recebe a oferenda do povo santo para apresentares a Deus. Toma consciência do que virás a fazer; imita o que virás a realizar, e conforma a tua vida com o mistério da cruz do Senhor”. Desse modo, vemos que o presbítero é chamado a ser continuamente um autêntico perscrutador de Deus, embora, ao mesmo tempo, permaneça solidário com as preocupações humanas. Uma vida eucarística mais intensa permitirá ao presbítero entrar mais profundamente em comunhão com o Senhor e o ajudará a deixar-se possuir pelo amor de Deus, tornando-se sua testemunha em todas as circunstâncias da vida, mesmo nas difíceis e obscuras.

Comungar do corpo e sangue de Cristo implica um compromisso sério de comunhão com Deus e com a vida dos irmãos. Caso contrário, a eucaristia permanece um sacramento incompleto. Se esta não entra, de verdade, na vida, permanece um episódio acontecido; um mistério de uma resposta rejeitada, de um convite não acolhido, como revela a parábola do banquete nupcial.

As realidades celebradas no altar da eucaristia devem também ser celebradas diariamente no altar da vida. A eucaristia que celebramos não nos traz para o interior da Igreja simplesmente para nos congregarmos por alguns instantes, mas nos remete à missão, ao mundo que deve ser transformado. A atitude e as disposições requeridas por parte dos que participam ativamente da celebração eucarística decorrem do conteúdo e significado mesmos do mistério celebrado. Trata-se da celebração do mistério pascal, ou seja, da morte e ressurreição do Senhor, fonte de nossa salvação. Trata-se da celebração da encarnação de um Deus que entra na nossa história e em nossa vida cotidiana. Trata-se de cantar a vitória desse Deus sobre a morte, que se abateu sobre ele por força de seu amor pela humanidade. Trata-se, também, e não menos, de celebrar sua entrega à morte, que será o selo da vida por ele vivida, em pró-existência amorosa, e resgatada do poder das trevas pelo Pai, que o proclama vivo para sempre na força do Espírito Santo. É o momento mais densamente sagrado da vida cristã e requer atitudes condizentes por parte dos que dele se aproximam.

Portanto, a presença real de Jesus Cristo se estende a todas as formas da autêntica vida cristã, com a qual os batizados fazem a salvação acontecer na história. Não somos cristãos para ir à missa, mas vamos à missa para ir à vida e a suas periferias. Celebrar a eucaristia é participar do sacrifício da Páscoa e da aliança nova, vivenciá-lo e dele viver, para ser, de verdade, discípulos de Jesus. No final de cada missa, começa a missão cristã: isto é, o envio para a vida, para a prática do amor e da partilha, para o testemunho da solidariedade e da esperança entre as pessoas, começando por aquelas que estão mais próximas a nós, familiares e amigos, até atingir a todos, sobretudo os mais distantes e afastados. “Façam isto em minha memória” significa fazer o que Jesus fez, para que a sua presença permaneça atual. Significa fazer de nossa vida alimento para que outros tenham vida e a tenham em abundância (cf. Jo 10,10).

O presbítero é, por excelência, o homem da eucaristia. Por meio dele, o Espírito Santo realiza o grande milagre do Infinito que se faz migalha de pão para a vida do mundo. O Espírito Santo é a fonte da espiritualidade eucarística e o grande impulsionador da construção do corpo de Cristo.

Concluindo

Palavra, cruz, alegria, videira e trigo dão consistência à identidade, fundamentam a espiritualidade e indicam o caminho da missão do presbítero na Igreja no Brasil. Viver a vocação presbiteral à altura do evangelho de Cristo significa viver esse ministério tendo diante dos olhos o ser e o agir de Jesus. É essa espiritualidade que consiste em viver em íntima comunhão com Deus e, ao mesmo tempo, leva o presbítero a comprometer a sua vida em favor dos irmãos. Esta deve estabelecer um justo equilíbrio entre o ser e fazer sacerdotal. A ação do presbítero deve ser expressão de sua vida interior ou, em outras palavras, da experiência pessoal de Deus que ele faz no dia a dia de sua vida.[8] A esse propósito, são iluminadoras as palavras de são João Maria Vianney: “Quanto é infeliz um sacerdote que não tem vida interior […] mas para isso temos a tranquilidade, o silêncio, o retiro […] Aquilo que impede a nós, padres, de sermos santos é a falta de reflexão. Não entramos em nós mesmos, não sabemos o que fazemos. É da reflexão, da oração, da união com Deus que precisamos” (Bernard NODET, Il pensiero e l’anima del Curato d’Ars, Turim: Gribauldi, 1967, p. 130-131).

Estamos realizando uma pesquisa para termos os dados atualizados sobre os presbíteros no Brasil.

“É preciso ser sacerdotes que falem de Deus ao mundo e que apresentem o mundo a Deus; homens não sujeitos a modas culturais efêmeras, mas capazes de viver autenticamente aquela liberdade que somente a certeza da pertença a Deus é capaz de dar […]. A vida profética com a qual serviremos Deus e o mundo, anunciando o evangelho e celebrando os sacramentos, favorecerá o advento do Reino de Deus já presente e o crescimento do povo de Deus na fé. […] Os fiéis leigos encontrarão em tantas outras pessoas aquilo de que humanamente precisam, mas somente no sacerdote poderão encontrar aquela Palavra de Deus que deve estar sempre em seus lábios: a misericórdia do Pai, que se prodiga de maneira abundante e gratuita no sacramento da reconciliação; o pão de vida nova, ‘verdadeiro alimento dado aos homens’” (PAPA BENTO XVI, Alocuçãodirigida aos participantes do Congresso Teológico sobre o Sacerdócio, Roma, 12 mar. 2010. Disponível em: <www.zenit.org>).

[3] “Santo Agostinho chama o murmurador de ‘homem sem remédio’: os homens sem remédio são aqueles que deixam de cuidar de seus próprios pecados para reparar os dos outros. Não buscam o que se há de corrigir, e sim o que podem criticar. E, ao não poder escusar a si mesmos, estão sempre dispostos a acusar os outros” (Jorge M. BERGOGLIO, Sobre a acusação de si mesmo, Ave Maria, 2013, n. 8).

Essa frase é retirada de um livro que descreve a peregrinação a Lourdes de alguns padres idosos e doentes, guiados espiritualmente por dom Tonino Bello, então bispo de Molfetta. Tonino Bello é, para a Itália, o que muitos bispos são para o Brasil: poeta, profeta e pastor dos pobres. Nessa peregrinação, como se anunciasse um presságio, dizia: “Eu estou doente também!” Aparentemente não estava. Mas, depois de dois anos dessa peregrinação, morreu de câncer no pulmão. Hoje seu túmulo é lugar de romaria.

Para o tratamento mais detalhado dessa questão, cf. Pedro BRITO, Os sacramentos como atos eclesiais e proféticos – um contributo ao conceito dogmático de sacramento, à luz da exegese contemporânea, Tesi Gregoriana, 46, Roma: Pontificia Università Gregoriana, 1998, 19ss).

PAPA FRANCISCO, em duas ocasiões: primeiro, aos participantes da 82ª Assembleia Geral da União dos Superiores Gerais, em Roma, 29/11/2013; segundo, na Reunião Plenária da Congregação para o Clero, também em Roma, no dia 3/11/2014.

“Então, o que devemos fazer com a nossa vida? ‘Eucaristizar’. Transformar tudo em eucaristia, para podermos ter o homem eucarístico, a Igreja eucarística, e assim toda a vida será eucaristia. O mundo eucarístico da Igreja que crê, que espera, que guia, que está destinada à Restauração, que proclama a Trindade, que sempre renova o mundo, a sociedade” (J. F. VAN THUAN, “O dom da eucaristia”, RevistaSacerdos, maio-jun. 2003).

É interessante ressaltar aqui o que afirma o Diretório para o Ministério e Vida dos Presbíteros no n. 44: “[…] quando nos presbíteros se rompe a unidade interior, não existe mais caridade pastoral, se provoca uma espécie de curto-circuito entre o ser e o agir do sacerdote. É grande o risco de cair no funcionalismo”.

Por Dom Pedro Brito Guimarães

Arcebispo metropolitano de Palmas, presidente da Comissão Pastoral para os Ministérios Ordenados e a Vida Consagrada; doutor em Teologia Dogmática pela Pontifícia Universidade Gregoriana, de Roma, compositor de várias canções religiosas.


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O demônio está no espelho, poucas coisas representam tão bem o perigo do amor próprio desordenado quanto um espelho.

 

Poucas coisas representam tão bem o perigo do amor próprio desordenado quanto um espelho.

Os cômodos de nossas casas sempre têm algum e as nossas ruas estão todas repletas deles – e não há quem passe em frente a uma vitrine sem admirar um pouco a si mesmo. Nas academias – não as de ciências, mas as de ginástica –, onde reina a exaltação do próprio ego, os espelhos são indispensáveis: praticamente nenhum canto foge ao alcance de suas vistas. Em uma sociedade em que praticamente todos se olham tanto e com tanta frequência, no entanto, nunca o conhecimento de si mesmo foi tão desprezado e negligenciado. É que as pessoas estão excessivamente preocupadas com a “imagem” que os outros têm de si, mais que com aquilo que realmente são.

Sêneca e outros filósofos antigos diziam que os espelhos – facilmente encontrados na superfície de uma pedra ou de um rio límpido – foram estabelecidos pela própria natureza como “mãe e mestra dos bons costumes”. Uma fábula de Esopo conta que dois irmãos – um menino, de bela aparência, e uma menina, extraordinariamente feia – encontraram, um dia, enquanto brincavam, um espelho. Vendo sua imagem refletida, o rapaz começou a gabar-se, pois era muito bonito; sua irmã, por outro lado, ficou aborrecida e foi reclamar da atitude do irmão para o pai. Este, abraçando os dois, disse-lhes: “Eu quero que vocês dois olhem para o espelho todos os dias: você, meu filho, para não estragar a sua beleza com uma má conduta; e você, minha filha, para compensar a sua falta de beleza com uma vida de virtudes” [1]. Na lição dos antigos, o espelho seria uma esplêndida oportunidade para colocar em prática o imperativo socrático: “Conhece-te a ti mesmo”.

O que pode servir para a própria edificação também se pode tornar, todavia, um grande instrumento de vaidade. Por isso, o padre António Vieira, em seu Sermão sobre o Demônio Mudo, compara o espelho ao próprio diabo: “Desde sua mesma origem não há duas coisas que Deus criasse mais parecidas e semelhantes que o demônio e o espelho. O demônio primeiro foi anjo, e depois demônio; o espelho primeiro foi instrumento do conhecimento próprio, e depois do amor-próprio, que é a raiz de todos os vícios” [2].

O orador sacro conta que o Papa Inocêncio X escolheu um religioso de grande virtude e prudência para visitar os conventos femininos, a fim de examinar e tirar de suas celas – não pelo uso da força, mas por meio de conselhos e exortações – coisas que fossem indignas ou inapropriadas a uma religiosa. Tendo inspecionado tudo com muito zelo, o visitador voltou, depois de alguns meses, dizendo ao Santo Padre que “vinha muito edificado do que achara, mas não de todo contente”. De fato, em sua averiguação, o religioso tinha encontrado muitas penitências, disciplinas, orações e devoções. Algumas alfaias ou peças de maior valor – cuja posse não era permitida pelo voto de pobreza que tinham feito – ele conseguira fazer que elas abandonassem ou usassem para outros fins. Uma coisa, no entanto, ele não conseguira tirar dessas religiosas: o seu espelho. Diante da surpresa do Papa com a sua resposta, o piedoso homem explicou: “Tenho alcançado por larga experiência, que enquanto uma religiosa se quer ver ao espelho, não tem acabado de entregar todo o coração ao Esposo do céu, e ainda lhe ficam nele alguns ressábios do amor e vaidade do mundo” [3].

Embora as palavras do religioso se refiram mais claramente às pessoas de vida consagrada, o seu sentido profundo pode – e deve – ser aproveitado por todos os cristãos, seja qual for o seu estado de vida. Para seguir a Cristo, não é preciso que ninguém destrua os espelhos que possui – assim como não é preciso, literalmente, que se mutile o próprio olho ou a própria mão (cf. Mt 5, 29-30). Todos, no entanto, estão incluídos na exortação de Nosso Senhor: “Se alguém quer vir após mim,renuncie a si mesmo (…) e siga-me” (Lc 9, 23).

Renuncie a si mesmo, ensina Nosso Senhor. O que prefere a vaidade humana, ao contrário? Como renuncia a si mesmo o que não suporta estar nem duas horas sem se ver no espelho? Ou outros tantos, que “gastam as horas e perdem os dias inteiros em se estar vendo, revendo e contemplando no espelho”, como se não tivessem nem esperassem outra glória? Ou quem se preocupa mais em se enfeitar e embelezar aos olhos do mundo – mas esquece de ornar a alma para Deus, a quem não importa a aparência, mas o coração (cf. 1 Sm 16, 7)?

Por isso, São Bernardo contrapõe aos espelhos humanos o que ele intitulou de Speculum Monachorum – o Espelho dos Monges [4]: que as pessoas que querem servir a Deus conheçam a si mesmas, mas que o façam examinando, sobretudo, os seus pensamentos, as suas palavras e as suas obras, para conformá-las em tudo à semelhança de Deus. Esse é o verdadeiro amor a si mesmo e o autêntico cultivo da beleza, pois cuida não da formosura frágil do corpo, mas do brilho perene da alma, que não pode ser apagado nem com as enfermidades físicas nem com as vicissitudes do tempo.

O padre António Vieira conclui o seu sermão com estas duras palavras: ” Que coisa é a formosura, senão uma caveira bem vestida, a que a menor enfermidade tira a cor, e antes de a morte a despir de todo, os anos lhe vão mortificando a graça daquela exterior e aparente superfície, de tal sorte que, se os olhos pudessem penetrar o interior dela, o não poderiam ver sem horror?” [5].

“Que coisa é a formosura, senão uma caveira bem vestida”? Que, ao olhar para o espelho, sejamos capazes de enxergar a “caveira bem vestida” que é cada um de nós, lembrando que somos pó, e ao pó, um dia, tornaremos (cf. Gn 3, 19). Assim poderemos dar valor ao que é realmente necessário: amar a Deus, até o desprezo de nós mesmos [6].

Por Equipe Christo Nihil Praeponere e Padre Paulo Ricardo


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O que devemos pensar a respeito do candomblé? Pe. Paulo Ricardo explica…

O que devemos pensar a respeito do candomblé?

Pe. Paulo Ricardo explica no Resposta Católica

A história da Salvação passou por diversas fases, culminando com a vinda de Jesus Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro homem. Desde o início, Deus teve que usar de uma pedagogia toda especial para retirar o homem da idolatria, seja de falsos deuses, seja de forças e princípios cósmicos. O candomblé e as religiões pagãs, todavia, permanecem nessa atitude de idolatria.

No candomblé, o deus maior não pode ser cultuado, mas tão-somente os orixás, as divindades menores que regem a vida de cada homem de acordo com a personalidade de cada um. Da mesma forma que nas antigas religiões greco-romanas, existe no candomblé um “deus”, uma força cósmica para cada característica humana. E, igualmente, o “Deus” criador de todas as coisas não pode ser adorado, visto não ser possível manter nenhum tipo de relacionamento com o homem, dada a Sua perfeição e imutabilidade.

Não há como negar que existe uma certa lógica nesse pensamento pagão, pois, de fato, Deus Criador está muito além do homem, mera criatura. Ele “habita em luz inacessível” (ITm 6,16), porém, o Catecismo vai mais além e diz que “Deus, infinitamente Perfeito e Bem-aventurado em si mesmo, em um desígnio de pura bondade, criou livremente o homem para fazê-lo participar de sua vida bem-aventurada.” Para tanto, na plenitude dos tempos enviou Seu Filho (Gl 4,4), “como Redentor e Salvador (…). Nele e por Ele, chama os homens a se tornarem, no Espírito Santo, seus filhos adotivos” e, deste modo, torna-os seus herdeiros e participantes de sua vida. (CIC 01)

É esta ação e desejo de Deus – de fazer os homens participarem de sua vida bem-aventurada – que diferencia o cristianismo de todas as outras ditas religiões. Por causa dele, Deus Criador, o Imutável, o Perfeito, o Sumo Bem desceu dos céus e veio habitar entre os homens: Jesus é o próprio Deus que se fez homem.

Deste modo, cultuar criaturas em vez de o Deus verdadeiro é grave infração. Deus transcende a criação, está presente nela e a sustenta. É o que ensina o Catecismo:

“Deus é infinitamente maior que todas as suas obras: “Sua majestade é mais alta do que os céus, é incalculável a sua grandeza. Mas, por ser o Criador soberano e livre, causa primeira de tudo o que existe, Ele está presente no mais íntimo de suas criaturas: “Nele vivemos, nos movemos e existimos. Segundo as palavras de Santo Agostinho, ele é ‘superior summo meo et interior intimo meo’ – maior do que o que há em mim e mais íntimo do que o que há de mais íntimo em mim.” (CIC 300)

Por isso, Deus não cabe na mente do homem, não é seu funcionário, nem lhe faz todas as vontades. O deus que se submete ao intelecto humano deixa de ser onipotente, imutável e torna-se apenas um ídolo. E a idolatria (politeísmo) é uma afronta ao primeiro mandamento da lei divina. O Catecismo ensina que:

“O primeiro mandamento condena o politeísmo. Exige que o homem não acredite em outros deuses afora Deus, que não venere outras divindades afora a única. A escritura lembra constantemente esta rejeição de ídolos, ouro e prata, obras das mãos dos homens, os quais têm boca e não falam, olhos e não veem. Esses ídolos vãos tornam as pessoas vãs: ‘Como eles serão os que o fabricaram e quem quer que ponha neles a sua fé.” Deus, pelo contrário, é o “Deus Vivo” que faz viver e intervém na história” (CIC 2112)

Se, portanto, “o desejo de Deus está inscrito no coração do homem, já que o homem é criado por Deus e para Deus; e Deus não cessa de atrair o homem a si, e somente em Deus o homem há de encontrar a verdade e a felicidade que não cessa de procurar” (CIC 27), não se pode ignorar a incompletude do candomblé e das religiões pagãs como um todo. Insistir em suas práticas é colocar a própria felicidade – e salvação eterna – nas mãos de algo incapaz de propiciar aquilo que se busca e que só o Deus Perfeito e Criador do céu, da terra, das coisas visíveis e invisíveis pode proporcionar.

A Resposta Católica – Padre Paulo Ricardo