Euforia, danças e palmas na Santa Missa – Sacrifício ou banquete festivo?

A Pergunta sem nexo e a resposta a altura….entenda!!

RECEBEMOS DE UM LEITOR que se identifica apenas como “Felipe” a seguinte mensagem

Sou católico fervoroso, mas não consigo entender: se Jesus me fez livre dos pecados no dia da salvação e livre para adorá-lo, porque nao posso adorá-lo com minhas palmas? Qualquer forma de adoração é aceita por Deus, desde que parta do profundo do coração. Isso é ridículo! Davi louvava a Deus das maneiras mais liberais que já se viram! Se Deus criou minhas mãos e me deu capacidade de bate-las porque não posso usar isso como adoração. Eu não posso nem dizer que isso é um atraso, isso é antibíblico! Os salmos falam sobre o louvor com os instrumentos, entre eles de repercussão e com as danças. Portanto Deus gosta do louvor como é o melhor da pessoa.

‘Aleluia. Louvai o Senhor em seu santuário, louvai-o em seu majestoso firmamento. Louvai-o por suas obras maravilhosas, louvai-o por sua majestade infinita. Louvai-o ao som da trombeta, louvai-o com a lira e a cítara. Louvai-o com tímpanos e danças, louvai-o com a harpa e a flauta. Louvai-o com címbalos sonoros, louvai-o com címbalos retumbantes. Tudo o que respira louve o Senhor!’ (Salmos 150:1-6)

Se o melhor que a pessoa pode dar é o rap, Ele aceita o rap, se o melhor que a pessoa pode dar é o rock, Ele aceita o rock, se o melhor que a pessoa pode dar é a palma, Ele aceita as palmas,se o melhor da pessoa é a dança, Ele aceita a dança . Ele dá liberdade de adoração, não consigo me conformar com essa ideia de que barulho atrapalha, se Ele criou o barulho ele também gosta do barulho!”

A Paz de Nosso Senhor Jesus Cristo, Felipe, e Salve Maria! Seu comentário é muito oportuno, porque você conseguiu reunir nele, praticamente, todos os argumentos dos que são favoráveis às palmas, danças, batucadas e todo tipo de “inovações” e modernismos na Celebração Eucarística. E como é comum à maioria daqueles que compartilham das suas convicções, a paixão e a emoção tomam conta da razão; tanto que, logo no começo do seu comentário, você já chama todos os que não compartilham do seu pensamento de “ridículos”.

Então, antes de tudo, peço um pouco mais de calma da sua parte. Peço que respire fundo, suplique pela orientação do Espírito Santo e leia esta nossa resposta inteira. Tenho certeza de que, se fizer isso, você vai compreender a questão. Num primeiro momento você pode se decepcionar, pode optar em permanecer firme e irracionalmente apegado às suas convicções. Mas você vai entender. Bem, como você elencou uma série de argumentos, para organizar o raciocínio e facilitar a compreensão, responderemos  um por um, em partes. Vamos lá:

1) Católicos com o pensamento “protestantizado

Em primeiro lugar, perceba que o seu pensamento está totalmente “protestantizado”. Infelizmente, o crescimento das seitas pentecostais no Brasil anda levando muitos católicos a assumir determinados princípios 100% protestantes e, muitas vezes, anticatólicos. Muita gente anda, sem querer, caindo nessa sutil armadilha. Você ouve uma afirmação num programa de TV aqui, o seu amigo repete uma outra afirmação ali… E, quando dá pela situação, você também está defendendo aqueles mesmos pontos de vista. Aquele jeito de entender as coisas entrou e instalou-se no seu subconsciente, sem você perceber. – É o caso de elevar a Bíblia Sagrada à categoria de “única regra de fé e prática” para o cristão: se algo está escrito na Bíblia vale; se não está escrito na Bíblia, literalmente, não vale. Este é um princípio protestante totalmente contrário à fé da Igreja Católica. Poderíamos dizer que é este o único “dogma” das igrejas ditas “evangélicas”, e um dogma completamente contraditório, pois contraria à própria Bíblia, levando incontáveis almas à perdição. Por quê? Porque eu posso pinçar determinadas passagens da Bíblia para legitimar praticamente qualquer coisa, até mesmo os crimes mais hediondos!

Veja por exemplo o caso do empresário e autoproclamado “bispo” Edir Macedo, agora (que recentemente se candidatou, também por conta própria, a ‘sucessor de Moisés’), líder e fundador da “igreja universal do reino de deus”: ele usa trechos bíblicos até para defender o aborto (quem duvida, veja aqui)! Para aqueles “evangélicos” de outras denominações que não aceitam tal absurdo, Macedo chega a dizer que há “embasamento bíblico” para tal: ele cita o dizer do Senhor Jesus quando sentou-se à mesa com seus discípulos para celebrar a última Ceia: “O Filho do Homem vai, como dEle está escrito. Mas ai daquele homem por quem o Filho do Homem é traído! Seria melhor para esse homem que jamais tivesse nascido!” (Mt 26,24).

Sim. De tão absurdo, o argumento torna-se ridículo, e chega a parecer piada, mas infelizmente não é. A interpretação do “bispo” (sic) Macedo é, simplesmente, de que seria melhor se Judas tivesse sido abortado: logo, devemos liberar a lei, para que as mulheres abortem à vontade. Claro que ele não considera o fato de que a santíssima Virgem, que por estar grávida sendo solteira e prometida a José, correu risco de vida para dar à luz o Salvador do mundo. Naquela cultura,  Maria poderia ter sido apedrejada! Agora imaginemos se ela tivesse resolvido também usar o seu “direito de mulher”, apelado para essa tal “responsabilidade social” e abortado Jesus Cristo!

Campanha pró-aborto da Record de Edir Macedo

Evidentemente, para destruir de uma vez a ideia de que o aborto possa ser defendido por um cristão, usar a Bíblia é ainda mais simples. Basta citar, por exemplo, Êxodo 20,13: “Não matarás”. Melhor ainda seria lembrar o que diz o Salmo 138,13-14: “Fostes Vós que plasmastes as entranhas de meu corpo, Vós me tecestes no seio de minha mãe. Sede bendito por me haverdes feito de modo tão maravilhoso!”. Tenho eu o direito de arrancar do ventre da mãe aquela vida humana que, como diz a Bíblia, Deus mesmo formou? E para arrematar a conversa, poderíamos citar Jeremias 1,5? “Antes que no seio de tua mãe fosses formado, Eu já te conhecia; antes de teu nascimento, Eu já te havia consagrado, e te havia designado profeta das nações”.

É um fato indiscutível que a Bíblia pode ser usada por pessoas mal intencionadas ou simplesmente ignorantes. Veja abaixo mais um exemplo do que acontece quando é posta em prática a ideia de que qualquer pessoa pode interpretar a Bíblia e se autoproclamar “pastor(a)”, “bispo(a)” ou “apóstolo(a)”:

“Gostaria que alguém me ‘provasse biblicamente’ que um homem não pode ter mais de uma mulher”, diz o “pastor”… Pois é. Para essas pessoas, tudo precisa ser “provado biblicamente”, tudo precisa ter “base bíblica”. Mas como é que se “prova biblicamente” alguma coisa, se todo texto, mesmo o texto sagrado, divinamente inspirado, está sujeito à interpretação humana? Edir Macedo acha que “provou biblicamente” que o aborto é da Vontade de Deus. O “pastor” do vídeo acima acha que deveria fazer sexo com a esposa de outro homem porque a Bíblia lhe diz que deveria fazê-lo. E se diz pronto a fazer esse grande sacrifício.

Eu poderia encher muitas e muitas páginas com exemplos como esses. Usando a Bíblia, milhares de denominações ditas “evangélicas” espalhadas pelo mundo se contradizem, e cada uma prega uma doutrina completamente diferente da outra. Umas ensinam que o divórcio é lícito, outras dizem que não, umas ensinam que sem o batismo ninguém se salva, outras dizem o contrário, umas pregam a famigerada “teologia da prosperidade”, outras a condenam com veemência; umas aceitam relações homossexuais, e tem até igreja de “pastores gays”, com cerimônia de casamento própria  e tudo (veja aqui). Por tudo isso é que a Bíblia também afirma claramente: “Antes de tudo, sabei que nenhuma profecia da Escritura é de interpretação pessoal” (2Pd 1,20). – As Sagradas Escrituras não foram produzidas pela interpretação particular de ninguém; do mesmo modo, não podem ser assim interpretadas.

Estas palavras tão explícitas, tão diretas e tão categóricas, deveriam ser pintadas em letras garrafais nas fachadas de todas as “igrejas evangélicas” do mundo: “ANTES DE TUDO, SABEI QUE NENHUMA PROFECIA DA ESCRITURA É DE INTERPRETAÇÃO PESSOAL!” Alguém deveria entrar no meio dos cultos com um megafone na mão, gritando a plenos pulmões: “ANTES DE TUDO, SABEI QUE NENHUMA PROFECIA DA ESCRITURA É DE INTERPRETAÇÃO PESSOAL!”

Não falo como desrespeito, nem por algum sentimento ruim, mas porque não me conformo com o grau de alienação das pessoas que colocam o Livro (Bíblia) acima do próprio Autor do Livro (a Igreja, que é o Corpo de Cristo, inspirada pelo Espírito Santo). Sim, porque não existe Bíblia cristã sem o Novo Testamento, que é a consumação do Antigo, e todo o Novo Testamento foi produzido, canonizado, preservado e traduzido pela Igreja Católica. Por que nos demoramos tanto nesta questão, demonstrando a facilidade com que se usa a Bíblia para justificar os maiores absurdos teológicos? Porque, sem saber, Felipe, está seguindo o mesmo caminho. Seguindo a mesma linha de raciocínio, argumenta que algo que Davi fazia, há milênios, antes da Nova e Eterna Aliança em Cristo, nós também podemos, e até devemos fazer, hoje, na Santa Missa. Por quê? Ora, porque está na Bíblia… Então, dizer o contrário é “antibíblico”.

Bem, Felipe, se você é realmente um “católico fervoroso”, como se declara, deveria saber que essa não é e nem nunca foi a doutrina católica. Nós não nos orientamos exclusivamente naquilo que está literalmente escrito na Bíblia, para saber o que convém e o que não convém, o que é certo e o que é errado. Isso é heresia! Quem começou com essa história foi Lutero, com a sua tese do “livre exame das Escrituras”, segundo a qual qualquer pessoa pode ler e interpretar a Bíblia por conta própria, sem a orientação do Magistério da Igreja. O resultado aí está: os falsos profetas fizeram a festa! Sim, reduzir o cristianismo a “religião do livro” gera o caos, e este é um fato que todo católico deve saber de cor.

Davi decepa a cabeça de Golias – Gustave Doré

2) Os atos do Rei Davi servem de exemplo para os cristãos?

Além de tudo, se nós fôssemos hoje fazer o que fazia o Rei Davi, como você propõe… O que seria de nós!? Você por acaso já leu o Antigo Testamento? A grande verdade é que a vida de Davi não serve de exemplo para cristão algum, muito pelo contrário.

A Bíblia mostra claramente como era a conduta do rei Davi: entre muitas outras “peripécias”, ele mandou matar Recabe e Baaná, mandou cortar suas mãos e seus pés e pendurar seus corpos sobre um tanque (2Sm 4,12). Ele também matou mais de 40000 sírios (2Sm 10,18), 22000 arameus (2Sm 8,5) e 18000 edomitas no Vale do Sal (2Sm II 8,13), fazendo dos sobreviventes escravos. Davi mutilava até os cavalos dos seus inimigos, cortando-lhes os tendões (2Sm II 8,4)! Pior do que tudo isso, Davi cobiçou a esposa de Urias, que era seu servo fiel, e adulterou com ela. Depois, armou um plano maquiavélico para matar Urias, de forma que pudesse ficar com a sua esposa. – Tudo isso fez Davi, além de louvar a Deus “das formas mais liberais”, como você diz. Será mesmo que devemos fazer tudo o que ele fez?

Evidentemente, tudo o que expusemos acima se enquadra num contexto muito específico, numa cultura e num tempo histórico completamente diferente do nosso. Davi, mesmo errando, pecando, tropeçando e caindo, nunca abandonou a Deus, nunca deixou de pedir a Deus, de cantar o Amor divino e confiar nEle. – O Antigo Testamento não é como um romance, um livro de histórias para qualquer pessoa ler sem orientação, sem a correta compreensão dos seus sentidos, contextos e significados. Acima de tudo, todos os atos de Davi pertencem a um tempo passado, o tempo da Antiga Aliança. – Na história de sua vida, podemos ver claramente o desenrolar da aventura humana, com as fraquezas e forças que permeiam as nossas vidas, com seus momentos de alegria, de dor, de fidelidade e de queda.

O nome do rei Davi é citado em vários livros da Bíblia, mas é importante ressaltar que o ponto mais importante da sua história é a profecia de Natã, de que o Trono de Jerusalém sempre seria ocupado por um Messias (Rei Ungido) da família de Davi. Esta profecia teve seu pleno cumprimento em Jesus, o Cristo, Messias, Rei dos reis. Os Evangelhos, ao apresentarem Jesus como descendente de Davi, mostram que é Ele o Messias esperado, que veio ao mundo para resgatar os homens.

Mas nada disso muda o fato de que Davi errou, e errou muito. Insisto, então, na pergunta: Devemos fazer tudo o que ele fez? O fato de a Bíblia citar algum gesto seu serve como atestado de que todo o povo cristão deve fazer o mesmo? A resposta é um claro e objetivo não.

3) A Igreja Católica O mais importante, para todo católico, é compreender a importância fundamental da Igreja, que segundo a própria Bíblia, “é a Casa do Deus Vivo, a coluna e o sustentáculo da Verdade” (1Tm 3,15). No sentido bíblico do NT, a Igreja é a Morada e também a Família de Deus (cf. Nm12,7; Hb 3,6; 10,21; 1Pd 4,17), e a Fortaleza em que foi depositada e em que se conserva solidamente o Evangelho que salva. Entende isto?

É esta mesma Igreja que você acusa de ser “atrasada” e “antibíblica”! Você diz: “não posso nem dizer que isso é um atraso, isso é antibíblico!”. Então você cita o Salmo 150 para confrontar o Magistério e a Tradição da Igreja! Fica mais do que nítido que você se declara católico, mas age como protestante. Daí para dizer que a Bíblia não fala em Papa, não fala na intercessão dos Santos, não fala que Maria é Nossa Senhora… são só mais alguns passos. De fato, a Bíblia não fala nada disso, pelo menos não literalmente. Mas todos esses fatos estão implícitos na Escritura, para todo aquele que é realmente cristão, e não um mero seguidor da “religião do livro”.

Se o Salmo 150, segundo o seu ponto de vista, atesta que na Missa vale bater palmas, dançar e tocar todo tipo de instrumentos, eu apresento para você o capítulo 14 da Carta aos Coríntios, o qual São Paulo Apóstolo encerra dizendo que “tudo, no culto a Deus, deve ser feito com decoro e decência” (1Cor 14,40).

Não preciso dizer que a passagem que citamos acima é infinitamente mais adequada ao assunto que estamos discutindo do que o Salmo, pois os salmos foram produzidos muitos séculos antes de Cristo (alguns deles são provavelmente anteriores a 1700 aC), num determinado contexto histórico, a partir de uma cultura específica e para um povo de características muito próprias. Já a carta de São Paulo ambienta-se na realidade do cristianismo nascente e trata especificamente das reuniões da Igreja, das práticas, do culto a Deus e dos carismas de uma comunidade cristã. Como mostrei antes, se você apresenta uma passagem da Bíblia para me provar uma coisa, eu sempre posso apresentar uma outra para provar o contrário. Portanto, não é baseado exclusivamente num trecho da Bíblia que nos posicionamos contra as palmas, danças, batucadas e “invencionices” na Santa Missa. É porque a Igreja, Corpo de Cristo, Esposa do Espírito Santo, Coluna e Sustentáculo da Verdade, autora e doadora da Bíblia Sagrada Cristã e fiel depositária das Verdades do Evangelho, assim nos orienta.

4) A Santa Missa: Renovação do Sacrifício do Calvário

A Bíblia não diz, ipsis literis (isto é, não diz literalmente), que a Missa deve ser celebrada com respeito, embora o faça implicitamente. Mas a Igreja diz literalmente o que é óbvio, já que a Celebração Eucarística é a Renovação do Sacrifício de Nosso Senhor, e isso não é a nossa opinião, mas está nas próprias Escrituras e em todos os documentos oficiais da Igreja: “Todas as vezes que comerdes deste Pão e beberdes deste Cálice, anunciareis a Morte do Senhor, até que Ele venha” (I Cor 11, 26).

O novo Missal Romano de João Paulo II declara:

“A doutrina sacrifical da Missa, solenemente afirmada pelo Concílio de Trento, de acordo com toda a Tradição da Igreja, foi professada de novo pelo Concílio Vaticano II, que emitiu, a respeito da Missa, estas palavras significativas: ‘Nosso Salvador, na última Ceia (…) instituiu o Sacrifício Eucarístico de seu Corpo e de seu Sangue para perpetuar o Sacrifício da Cruz ao longo dos séculos, até que ele venha e, além disso, para confiar à Igreja, sua esposa bem amada, o memorial de sua Morte e Ressurreição’.”.

“A regra de oração (Lex Orandi) da Igreja corresponde à sua constante regra de Fé (Lex Credendi); esta nos adverte que há identidade entre o Sacrifício da Cruz e sua Renovação Sacramental na Missa que Cristo Senhor instituiu na última ceia, e que ele ordenou a seus Apóstolos de fazer em sua memória; e que, por consequência, a Missa é sempre conjuntamente um Sacrifício de louvor, de ação de graças, de propiciação e de satisfação.” (Apresentação Geral do Missal Romano de João Paulo II nº 2).

Na Missa, estamos diante do Sacrifício de Jesus na Cruz. Eis a questão. Você está vendo a Missa como uma “festinha”, um encontro de irmãos para louvar o Senhor, e nada mais. Esta sua compreensão está completamente equivocada, e precisa ser revista com urgência. – A Missa é a renovação incruenta da morte horrenda que Nosso Senhor enfrentou por amor a todos nós! Agora me responda: como é que eu posso me portar respeitosamente diante da Celebração deste Sacrifício batendo palmas, dançando, berrando, batucando, seguindo coreografias ao som de instrumentos como guitarras e baterias tocadas no volume máximo?

Outro ponto: você sabe o que é um diálogo? É uma troca de mensagens entre duas pessoas. Por isso é que se chama diálogo: eu falo e escuto. E quando o meu interlocutor sabe mais do que eu, quando ele é maior do que eu, intelectualmente ou espiritualmente, o ideal é que eu fale menos e escute mais, porque é ele quem tem mais a dizer. Se eu falo o tempo todo, se só eu me expresso sem pausa, se não faço silêncio para ouvir o que meu interlocutor tem a me dizer, eu apenas desabafo, “jogo para fora” meus pensamentos, fantasias e ansiedades, mas não aprendo nada, não cresço nada, não ganho nada.

Na Santa Missa, o diálogo é com Deus. Imagine estar diante de Deus e não fazer silêncio para ouvir a Mensagem divina, mas ficar o tempo todo pulando e cantando, só eu sendo o centro de mim mesmo, não dando espaço nem tempo para o Criador. Que desperdício… Que tolice!

5) Para tudo o seu tempo certo Até agora eu banquei o “chato”. Fui crítico e pareci “azedo”: você deve estar me imaginando como um velho amargo. Você deve ser um jovem cheio de sonhos, cheio de energia e vontade de gritar bem alto o seu amor a Deus, a sua vontade de encontrá-lo, de estar perto dEle, de receber a sua Graça… Você quer a vida eterna e quer ser feliz agora, já! Você acha cansativa a velha celebração da Santa Missa, à maneira tradicional. Você vê aquela seriedade toda como coisa antiga, ultrapassada… Como você disse, “um atraso”. Por quê não se expressar com alegria, com júbilo, livremente?

A última parte da sua mensagem é especialmente interessante: “Se o melhor que a pessoa pode dar é o “rap”, Ele (Deus) aceita o “rap”, se o melhor que a pessoa pode dar é o rock, Ele aceita o rock, se o melhor que a pessoa pode dar é palmas, Ele aceita as palmas, se o melhor da pessoa é a dança, Ele aceita a dança. Não consigo me conformar com essa ideia de que barulho atrapalha. Deus criou o barulho, Ele também gosta do barulho”…

Bem, Deus criou todas as coisas boas, mas para tudo há um momento certo. Deus criou o sexo, que por certo é uma coisa boa; tão boa que é por meio dele que se dá a continuação da humanidade. Mas Deus também determinou que nós não devemos fazer sexo com qualquer pessoa, isso não é verdade? Existem certas condições para usufruirmos desta grande dádiva. Mesmo o sexo sendo criação de Deus, nós não vamos fazer sexo na igreja. Ou será que você acha que Deus aceitaria isso, também?

Deus criou a música, mas é fácil perceber que nem toda música é adequada no culto a Deus. Nem todo tipo de música se enquadra naquilo que a Bíblia e a Igreja recomendam: que o culto a Deus seja prestado, como disse o Apóstolo São Paulo, com decoro e decência.

Vejamos o ritmo que a juventude do Brasil (lamentavelmente) elegeu como favorito nos dias atuais: o famigerado funk. Já para começar a discutir, precisamos reconhecer que é no mínimo controverso afirmar que aquilo seja mesmo “música”. Bach, Mozart e Beethoven devem tremer no túmulo cada vez que chama ofunk é música…

Brincadeiras à parte, o funk é mais uma batida, um ritmo, do que propriamente música. E eu não estou questionando esse ritmo enquanto expressão cultural. Mas aqueles que gostam, nem que seja por puro bom senso, precisam reconhecer que esse tipo de barulho não se presta à Celebração Eucarística.

Para falar a Deus precisamos de um tipo de música que facilite a contemplação, a elevação da alma, a oração, o amor puro e santo. E aí você poderá me responder: “mas eu consigo elevar o pensamento a Deus ouvindo funk, rap ou forró”. E aí eu lhe respondo: se você consegue fazer isso, ótimo, mas você também tem a obrigação cristã de compreender que nem todos tem essa mesma capacidade. Posso lhe garantir que a maioria dos seres humanos se relaciona melhor com Deus por meio de um tipo de música mais calma, introspectiva. A igreja do Mosteiro de São Bento de São Paulo, todos os domingos, fica lotada, – de pessoas que em sua maioria vêm de muito longe, – que se dispõem, em pleno domingo, à chateação de ir até o centro da cidade, apenas para ver a Missa sendo dignamente celebrada, na sua forma tradicional, com o canto gregoriano, que é sagrado, que tem uma longa história, que foi apreciado pela maioria dos santos que conhecemos.

A ciência diz que, biologicamente, nenhum ser humano saudável é capaz de permanecer indiferente a qualquer tipo de música, sabia disso? Por causa disso, quem gosta de “barulho”, como você diz, deve no mínimo ter consideração e respeitar os que não gostam, os que se incomodam. A Missa não é momento para ninguém impor seus gostos pessoais sobre as outras pessoas, mas sim de comunhão, de fraternidade, de compartilhar uma mesma santa devoção. E esse sentimento é de adoração, de respeito profundo. Determinados tipos de música, por si mesmos, são inadequados para a Celebração Eucarística, porque levam o espírito humano a um estado que não é compatível com o seu significado e o seu sentido.

Assim, o forró pode ser muito bom (para quem gosta) numa festa junina, num baile, numa situação específica. O mesmo vale para o sertanejo, o samba, o rock, o rap… Não estamos afirmando que na Missa só é possível o canto gregoriano, mas sim que a música na Missa precisa ser litúrgica, e na música litúrgica não vale tudo; ela tem características próprias.

Então, não é que você não possa se expressar ou se alegrar na Missa. Mas você precisa se adaptar ao que ela é, ao que ela sempre foi. Se a Igreja é santa, e ela sempre celebrou assim, então é preciso saber respeitar isso. A Igreja não segue os modismos do mundo; ela está acima do mundo. Quando você entra na Igreja, deve deixar o mundo para trás, esquecer de si mesmo e buscar o Céu. O Santo Sacrifício não é um show, uma reunião social, uma festa de confraternização. Seja humilde, deixe seus gostos e preferências pessoais de fora e adapte-se à santidade e a reverência deste momento, e aí você compreenderá.

6) A simples solução

Finalizando esta reflexão, esclareço que existe uma solução muito simples e muito fácil para conciliar o jeito de ser deste povo brasileiro, tão alegre e expansivo, com a sacralidade da Celebração Eucarística: se você gosta de se expressar com louvores gritados, música agitada, tocada com instrumentos no volume máximo e liberdade de expressão total… Procure um grupo de oração da Renovação Carismática Católica (RCC). Ali você poderá se expressar, dar vazão à toda essa energia da juventude que lhe sobra. Mas não deixe de ir à Missa, – compreendendo que aquela é uma outra realidade, completamente diferente. – Assim é que se resolve esse aparente conflito.

Os problemas começam quando tentam-se impor os usos e costumes dos grupos de oração carismáticos na celebração da Santa Missa. Nos primeiros tempos, lideranças da RCC tentavam por força incorporar seus costumes à Celebração Eucarística; nos últimos anos, graças a Deus, pouco a pouco muitos deles vêm compreendendo o quanto é importante saber observar as diferenças.

7) Resumo

a) A Sola Scriptura, doutrina segundo a qual a Bíblia é a única regra de fé e prática para o cristão, é totalmente anticatólica e antibíblica. Nenhum católico pode justificar pontos de vista contrários à doutrina da Igreja usando passagens bíblicas isoladas, interpretadas de modo particular.

b) Logo, não é porque algum personagem bíblico fez ou disse alguma coisa, que isso sirva de regra para a Igreja.

c) A Igreja é o Corpo Místico de Cristo, do qual o Senhor mesmo é a Cabeça. A Igreja é a Esposa do Espírito Santo, é a Coluna e o Sustentáculo da Verdade, e a própria Escritura atesta todas estas verdades. A Igreja é a autora e a doadora da Bíblia Sagrada Cristã e fiel depositária das Verdades do Evangelho; assim nos conduz e orienta no Caminho, que é Cristo. É pela Igreja que recebemos a salvação e o Espírito Santo, por meio dos Sacramentos que nos ministra. Todo verdadeiro católico têm a Santa Igreja por mãe e mestra, pois a sua orientação é sempre segura, independentemente dos erros de padres, bispos ou mesmo de papas, sujeitos ao erro (o papa só é infalível quando se pronuncia nas condições Ex-Cathedra. – veja aqui).

d) A Santa Missa não é somente um encontro de irmãos para louvar a Deus. É infinitamente mais do que isso: a Celebração Eucarística é a Renovação do Sacrifício de Nosso Senhor Jesus Cristo na Cruz do Calvário. Por isso é que nesse momento não cabem palmas, danças, músicas excessivamente alegres ou dançantes, nem gestos de euforia.

e)Se eu me sinto bem pulando, berrando e dançando no louvor a Deus, em primeiro lugar preciso ter consciência de que a Missa não é lugar para isso, nem que seja por respeito aos meus irmãos que não compartilham das mesmas preferências. Para esse tipo de expressão, existem os grupos de oração da RCC.

** Se você leu até o final esta resposta, que acabou se tornando tão longa, prezado Felipe, agradeço-lhe e dou especiais graças a Deus, se me permitiu fazê-lo ao menos repensar suas convicções. Que Nosso Senhor o abençoe, hoje e sempre, e Maria Santíssima o acompanhe na caminhada.

Fonte: O Fiel Católico 

Adaptação: Portal Terra de Santa Cruz

Por : ofielcatolico.blogspot.com

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Uma consideração sobre “Euforia, danças e palmas na Santa Missa – Sacrifício ou banquete festivo?”

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